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1 de agosto de 2022
O Infinito em um Junco: a invenção dos livros no mundo antigo

Cresci, mas continuo mantendo uma relação muito narcisista com os livros. Quando um relato me invade, quando sou impregnada por sua chuva de palavras, quando entendo de forma quase dolorosa o que ele conta, quando tenho certeza—íntima, solitária—de que aquele autor mudou minha vida, volto a acreditar que eu, especificamente eu, sou a leitora que esse livro estava procurando. Nunca perguntei se alguém sente algo parecido. No meu caso, tudo remonta ao país da infância, e acho que há um motivo essencial: meu primeiro contato com a literatura foi em forma de leitura em voz alta; em forma de encruzilhada em que confluem todos os tempos—o presente da escrita e o passado da oralidade; de um pequeno teatro com um só espectador, de citação fiel e de prece libertadora. Se alguém lê para você, é porque deseja o seu prazer; trata-se de um ato de amor e um armistício em meio aos embates da vida. Enquanto você escuta a história, com uma atenção sonhadora, o narrador e o livro se fundem numa única presença, numa única voz.
Não tinha ouvido falar desse livro antes dele aparecer em pré-venda, mas assim que bati o olho, a poeticidade do título me chamou a atenção. E o subtítulo também, claro, afinal, se tenho uma fraqueza bem conhecida, são livros que falam de livros. Assim é que coloquei O Infinito em um Junco na minha lista de “fiquei curiosa” e esperei pela oportunidade de folheá-lo e assim determinar seu nível de prioridade de aquisição.
4 de julho de 2022
Burning Questions: as questões cruciais de Margaret Atwood

"Com tantos dispostos a morrer em seu nome, por que os cidadãos de muitos países ocidentais estão dispostos a abrir mão de suas liberdades duramente conquistadas sem dar um pio? Geralmente é medo. E o medo pode vir de várias formas: às vezes se resume ao medo de não ter um salário no fim do mês. Desde que os trens funcionem no horário e você mesmo esteja empregado, por que fazer tanto barulho se algumas pessoas aqui e ali estão sendo penduradas pelos polegares? E quando a tortura vai se tornando comum, um medo de outro tipo se instala. Você pode proteger seus polegares apenas ficando abaixo da superfície do lago dos sapos: não levante a cabeça ou coaxe muito alto, e garantem a você, contanto que você não faça nada "errado" - e errado aqui é um conceito em constante mudança -, nada de ruim lhe acontecerá. Até que acontece. E como a imprensa livre já terá sido suprimida, e como qualquer judiciário independente já terá sido desmantelado, e como quaisquer escritores, cantores e artistas independentes já terão sido esmagados, não restará ninguém para defendê-lo."
Sendo, como ela mesma reconhece num dos escritos desta coletânea, um ícone ("uma vez que você é um ícone, você está praticamente morto, e tudo o que tem a fazer é ficar parado nos parques, transformando-se em bronze enquanto pombos e outros se empoleiram em seus ombros e defecam em sua cabeça"), o novo volume de ensaios de Margaret Atwood - reunindo peças de 2004 a 2021 - era um dos lançamentos mais esperados para 2022. E, embora eu não tenha lido tanto da autora quanto gostaria, também me deixei levar pela mística e coloquei Burning Questions na minha lista de prioridades para o ano.
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20 de maio de 2022
Lendo Perigosamente: o poder subversivo da literatura em tempos difíceis

"Como lidamos com sentimentos de frustração e raiva diante do absolutismo? Como confrontamos as mentiras e as substituímos pela verdade? Como resistimos à injustiça e evitamos ficar paralisados por fantasias de vingança? Como nos tornamos justos para com aqueles que foram injustos conosco? Como lidamos com nosso inimigo sem nos tornarmos como ele ou nos rendermos a ele?
Recorro à ficção porque responder a essas perguntas e lidar com nossos adversários requer, antes de tudo, compreensão, e para isso precisamos do poder imaginativo que a ficção cultiva. Na ficção, como na vida real, o enredo avança e o personagem se desenvolve por meio de oposição e conflito. A oposição pessoal, política ou literária sempre pode encontrar uma forma. E estou interessada aqui em explorar os diferentes formatos e moldes de oposição literária e real que podem levar a uma mudança de perspectiva. Porque a mudança é difícil de efetuar, e as diferenças muitas vezes parecem intransponíveis, e a literatura nos ensina como somos compelidos a agir de certas maneiras, levando-nos a perguntar “Como podemos mudar o mundo?” seguido por "Como podemos mudar a nós mesmos?""
Na newsletter mensal que recebo do Goodreads sou informada dos lançamentos de autores que já li e registrei no sistema. Foi assim que descobri que descobri Read Dangerously, da Azar Nafisi - que eu conhecera pelo excelente Lendo Lolita em Teerã (e bem merecia uma reedição).
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12 de maio de 2022
Reflections: sobre a magia da escrita na pena de Diana Wynne Jones

Escritores de fantasia para crianças têm uma grande responsabilidade: qualquer coisa que escrevam provavelmente terá um efeito profundo nos próximos cinquenta anos. Você pode descobrir o porquê disso se perguntar a dez adultos qual livro eles se lembram melhor de sua infância. Nove deles certamente nomearão uma fantasia. Se você se aprofundar nas questões, descobrirá seus nove adultos admitindo que adquiriram muitas das regras pelas quais vivem neste livro que os impressionou tanto.
Há tempos que eu estava atrás desse livro. Não li tanto da bibliografia de Jones para ter uma opinião formada sobre a autora: bem verdade que O Castelo Animado continua hoje a ser uma das minhas leituras de conforto e, claro, conheço Crestomanci e toda a polêmica em torno de suas semelhanças com a obra da Rowling; mas considerando a quantidade de títulos que essa mulher escreveu (contei mais de cinquenta, fora contos que apareceram em diversas antologias), o que conheço é um pingo no oceano.
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22 de abril de 2022
O Mar sem Estrelas: poesia e metanarrativa num mundo subterrâneo de livros, abelhas, corujas e gatos

O papel é frágil, mesmo quando encadernado com barbante em tecido ou couro. A maioria das histórias no Porto do Mar Sem Estrelas foi capturada em papel. Em livros ou pergaminhos ou dobradas em pássaros de origami e suspensas nos tetos. Há histórias ainda mais frágeis: para cada conto entalhado na rocha, há outros inscritos em folhas de outono ou trançados em teias de aranha.
Quando li O Circo da Noite, a coisa que mais me impressionou foi a capacidade da Morgenstern de trazer à mente cenários deslumbrantes com suas palavras. Ainda hoje quando penso nesse romance, enxergo o salão de baile preto e branco e algo me faz perder o fôlego. Essa característica está em ainda mais evidência em Mar sem Estrelas e acho que nunca ansiei tanto por uma adaptação cinematográfica milionária que traduzisse em algo palpável todos os lugares que ela nos faz visitar aqui.
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15 de fevereiro de 2022
The Bookshop Book: uma viagem por livrarias ao redor do mundo
Sempre usamos narrativas como forma de passar a nossa História, como forma de explicar coisas da vida que não entendemos. Nós as usamos para nos fazer sentir conectados a tudo ao nosso redor e para nos ajudar a escapar para outro tempo ou lugar.
As livrarias de todo o mundo estão cheias dessas histórias.
De livreiros itinerantes e livrarias disfarçadas, a barracas desmontáveis e centros comunitários, entrar em uma boa livraria é como entrar em outra zona. Esses lugares são máquinas do tempo, naves espaciais, criadores de histórias, guardiões de segredos. Elas são domadores de dragões, caçadores de sonhos, descobridores de fatos e lugares seguros. Elas estão cheios de infinitas possibilidades e contos que valem a pena levar para casa.
Porque, quer estejamos no meio do deserto ou no coração de uma cidade, no topo de uma montanha ou num trem subterrâneo: ter boas histórias para nos fazer companhia pode significar o mundo inteiro.
Descobri esse livro por causa do Gaiman (típico, eu sei). Bem, na verdade, o Gaiman comentou que tinha lido para o filho The Sister Who Ate Her Brothers and Other Gruesome Tales e, para além da recomendação de um autor que adoro, o título me provocou risos nervosos. Coloquei na lista de desejos, fui à página da autora no Goodreads e acabei dando de cara com uma série de outros títulos que me fisgaram a atenção… incluindo The Bookshop Book.
2 de dezembro de 2021
Poison for Breakfast: questões que não foram feitas para serem respondidas, mas para fazer pensar

Como você já deve ter percebido, este é um tipo de livro diferente de outros que você possa ter lido. É diferente de outros livros que escrevi. Há um enredo a ser encontrado aqui - uma história verdadeira sobre como eu comi veneno no café da manhã -, mas também é um livro de filosofia, uma palavra que significa pensar sobre as coisas e tentar decifrá-las. É também um livro sobre como escrevo os livros que supostamente escrevi, e algumas outras coisas, como uma longa canção e um filme que vi muitos anos atrás, e que acho serem importantes. Já lhe disse que o livro é sobre perplexidade, e sobre a morte, algo que ocorreu duas vezes até agora, o Salteador e um sapateiro que conheço, e que terminará, como eu disse, com um final fatal .
Tenho um carinho especial por Desventuras em Série e pela maneira como Lemony Snicket, pseudônimo de Daniel Handler, conta uma história. Faz muito tempo que ele não entrava no meu radar, contudo - não até receber uma newsletter de lançamentos do Goodreads e me deparar com esse título.
14 de setembro de 2021
Square Haunting: Cinco Mulheres, Liberdade e Londres Entreguerras

A sala de estar, escreveu Harrison, foi designada território da esposa, mas permaneceu um espaço público, como 'a sala em que os “visitantes são introduzidos” - uma sala na qual você não pode se acomodar para pensar, porque qualquer pessoa pode entrar a qualquer momento'. O escritório do marido, ao contrário, era "um lugar inviolado, guardado por tabus imemoriais", onde o homem da casa "pensa, aprende e sabe"; havia, Harrison notou, "raramente duas cadeiras" na sala. A presença em quase todas as casas desses dois cômodos polarizados, ela sugeriu, servia como alegoria para a recusa da sociedade em levar as mulheres a sério. "A casa onde você não pode e não deve sentar no escritório não é para mim um lar", escreveu Harrison. ‘Mas, então, há muito sei que não sou uma "mulher verdadeira". Um dos sinais mais nefastos dos tempos é que as mulheres estão começando a exigir um estúdio para si.'
Começo hoje dizendo que não faço a menor ideia de como esse livro veio parar na minha mão. Eu jurava que o tinha visto recomendado no perfil do Literatura Inglesa Brasil, mas antes de me sentar para começar essa resenha, fui tirar a prova dos nove e não encontrei lá nada sobre o livro de Francesca Wade. Enfim, eu devo tê-lo visto talvez em alguma lista, ou nas indicações do Goodreads e coloquei na lista pela referência a escritoras, Londres e o período entre a Primeira e Segunda Guerra.
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17 de junho de 2021
O Resumo da Ópera - Leituras e Releituras

Chegamos ao meio do ano e, com ele, meu já tradicional balanço de leituras ainda não resenhadas e então brevemente comentadas cá no resumo da ópera. Escrevendo esse post, dei-me conta de como tenho feito releituras nos últimos tempos. Várias das análises que fiz até aqui foram de livros que andei relendo - e tenho outros tantos na fila nessa mesma situação.
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17 de dezembro de 2020
Mamãe, Quero Ser Perita Forense Quando Crescer: Quatro Livros sobre Crimes, Venenos e a Morte que para Todos Vem

Nos tempos de faculdade, estagiei bastante tempo na Vara do Júri. Penal nunca foi minha matéria favorita e tive mais de um momento de estômago embrulhado quando o professor de Medicina Legal insistia em colocar slides para vermos, mas eu gostava do trabalho no Júri. Havia algo de fascinante em acompanhar aqueles processos (pulando os laudos fotográficos), ou ouvir os depoimentos, um frio na barriga em saber-se na presença de um assassino.
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2 de dezembro de 2020
A Jornada da Heroína: em busca de conexão

"To get us started on the right path, so to speak:
HERE IS THE HERO’S JOURNEY IN ONE PITHY SENTENCE:
Increasingly isolated protagonist stomps around prodding evil with pointy bits, eventually fatally prods baddie, gains glory and honor.
HERE IS THE HEROINE’S JOURNEY IN ONE PITHY SENTENCE:
Increasingly networked protagonist strides around with good friends, prodding them and others on to victory, together."
Descobri a Gail Carriger através da série O Protetorado da Sombrinha, lá nos idos de 2011 e, desde então, sou fã da autora. Carriger tem um humor que muito me agrada, de protagonistas deliciosamente sarcásticas e melhores amigos fabulosamente purpurinados (lá se vão quase dez anos e Lorde Akeldama ainda é um favorito); casais que começam a trama às turras, intrigas palacianas, inventores loucos, vampiros, lobisomens, tudo isso num cenário vitoriano steampunk. Assino a newsletter dela há tempos e vinha acompanhando seus comentários sobre estar escrevendo um livro de não ficção com extrema curiosidade. Mais ainda por se tratar de um livro com o esquema paralelo ao da Jornada do Herói.
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12 de novembro de 2020
Livros de Cabeceira para se Desconectar

Fiz agora em novembro o curso de Escrita Criativa da Sílvia Oliveira, lá do Matraqueando. Num dos módulos, que tratava de criatividade, ela falou da importância de ter livros de cabeceira: livros com que você pode se desconectar um pouco das redes, leituras leves, daquelas que você pode até abrir num capítulo de forma aleatória e ler sem perder o fio da meada.
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Alberto Manguel
C. S. Lewis
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16 de julho de 2020
Os Livros e os Dias: o diário de leituras de Alberto Manguel

A leitura é uma conversa. Os lunáticos respondem a diálogos imaginários que ouvem ecoar em algum lugar de suas mentes; os leitores respondem a um diálogo similar provocado silenciosamente por palavras escritas numa página. Em geral a resposta do leitor não é registrada, mas em muitos momentos ele sentirá a necessidade de pegar um lápis e escrever as respostas nas margens de um texto. Esse comentário, essa glosa, essa sombra que às vezes acompanha nossos livros favoritos, estende e transporta o texto para o interior de um outro tempo e de uma outra experiência; empresta realidade à ilusão de que um livro fala a nós (seus leitores) e nos faz viver.
Entra ano, sai ano e penso comigo mesma em me dedicar a releituras de antigos favoritos e ver como eles envelheceram no meu gosto. Invariavelmente adio tal projeto, pois ainda tenho vários títulos não lidos à espera na estante e me sinto culpada em não dar prioridade a eles. A não ser que haja necessidade real - será um livro que vou debater no clube do livro, preciso dele para uma pesquisa, ou ainda, comprei uma edição ou tradução nova -, fico tentando me controlar toda vez que passo pela estante no corredor e meu olho cai em algum desses candidatos a releitura.
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Alberto Manguel
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21 de maio de 2020
Shakespeare in a Divided America: o que suas peças têm a nos dizer sobre nosso passado e futuro

"Nas peças históricas e tragédias que Lincoln achava tão atraentes, Shakespeare coloca seus protagonistas, a maior parte deles líderes, sob pressão insuportável. Entre os momentos mais poderosos dessas peças estão os discursos em que personagens confrontam dilemas morais e dão voz à culpa e o sofrimento que os esmagam. Que esses personagens sejam frequentemente malignos - Ricardo III, Macbeth, Claudius - pouco importava a Lincoln; o que lhe interessava era seu grau de autoconsciência, o quanto eles compreendiam das difíceis decisões com que eram confrontados."
Esse livro me apareceu numa das últimas listas de recomendação que o Goodreads envia, baseado no fato de que já li e avaliei positivamente outros livros do autor. O tema - a ideia de Shakespeare usado no debate político americano - chamou-me bastante a atenção, e como andei assistindo várias peças do bardo nas últimas semanas, decidi passá-lo à frente da lista e começá-lo logo. É um volume relativamente curto (pouco mais de 300 páginas), e o assunto é bem complexo; mas a prosa de Shapiro é estimulante, provocativa e a leitura acabou passando muito mais rápido do que eu previra.
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14 de maio de 2020
'Somos filhos de espíritos de tinta e papel': os Monstros Fabulosos de Alberto Manguel

Como meu pai era diplomata, passei minha infância viajando de um lugar para outro. Os quartos em que eu dormia, as palavras ditas do lado de fora, as paisagens ao meu redor mudavam constantemente. Apenas minha pequena biblioteca permaneceu a mesma, e lembro-me do intenso alívio que senti quando, novamente reclinado em uma cama desconhecida, abri meus livros e, na página esperada, havia a mesma história antiga e a mesma ilustração antiga. "Lar" era um lugar nas histórias, tanto no objeto físico que eu segurava nas mãos quanto nas palavras impressas.
Desde o primeiro livro que li de Alberto Manguel, encantei-me com seu estilo: a mistura de pessoal e acadêmico, da forma como suas memórias se misturam com as análises certeiras, por vezes surpreendentes. Confesso que os romances dele não me interessam tanto, mas não consigo resisti-lo como ensaísta - seus trabalhos como crítico e estudioso da literatura estão entre meus favoritos no gênero. Assim é que eu não tinha como resistir a Fabulous Monsters, especialmente com um título tão curioso como esse.
1 de fevereiro de 2020
"Eu encontrei um viajante de uma terra antiga": uma história de livros e objetos descartados

"Lugares fechando, modas morrendo e objetos desaparecendo são parte da ordem natural das coisas. Não há motivo para lamentá-los."
“Nenhuma razão para lamentar? Então você acha razoável que uma livraria lendária como a Strand, ou Elliot's, feche as portas? Eu suponho que esteja tudo bem para você se os livros morrerem também."
“Eles não estão morrendo,” eu respondi, “mas se estivessem, então sim, porque isso significaria que a sociedade não precisa mais deles, da mesma maneira que deixou de precisar de bastões de bandeira e ascensoristas, da mesma forma que uma cobra descarta sua pele após trocá-la.”
Ele bufou escarnecendo. “Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi. Coisas necessárias desaparecem todos os dias. E o que dizer de todas as coisas que não percebemos serem necessárias até que tenham já desaparecido?"
Narrada em primeira pessoa, I Met a Traveller in an Antique Land acompanha Jim, um blogueiro que defende a ideia de descartar objetos e processos que tenham se tornado obsoletos… incluindo livros físicos (irônico, considerando que ele está em negociações para publicar seu próprio título). Não que ele não goste de livros - a despeito do que o repórter que o entrevista no início da história possa dizer -, mas porque ele acredita que tudo pode ser digitalizado, encontrado em livrarias virtuais e bibliotecas. Tudo estará armazenado em… algum lugar, que ele não sabe bem qual é, mas estará lá, dando assim espaço para o que realmente interessa.
22 de outubro de 2019
Monster, She Wrote - As Mulheres que Foram Pioneiras no Horror e na Ficção Especulativa

Por que mulheres são ótimas em escrever ficção de horror? Talvez porque o horror seja um gênero transgressor. Ele força os leitores a lugares desconfortáveis, onde não estamos acostumados a pisar, e a confrontar o que naturalmente queremos evitar.
E mulheres são acusadas de serem transgressoras o tempo todo - ou, pelo menos, elas estão acostumadas a pisar fora das fronteiras cuidadosamente desenhadas que a sociedade colocou para elas. É dito às mulheres o que fazer e quem elas podem ser. Elas são ensinadas a serem dóceis, a cuidar das crianças, a ficar em seu lugar. Elas são empurradas para as margens da sociedade, onde é esperado que elas fiquem de boca fechada e cabeça abaixada. A marginalização feminina pode ter sido mais escancarada no passado, quando elas não podiam votar ou possuir bens ou trabalhar fora de casa, mas acontece ainda hoje. Mulheres ainda são instruídas a serem boas meninas.
Em qualquer era, elas se acostumaram a entrar em lugares desconhecidos, incluindo território do qual foi dito que elas não deveriam entrar. Quando escrever é um ato fora dos seus limites, contar sua própria história se torna uma forma de rebelião e de tomar de volta o poder.
Descobri esse livro na newsletter do Goodreads, entre os lançamentos do mês passado. Título, capa, sinopse; tudo conspirou para me chamar a atenção e embalada pelo espírito do All Hallow’s Read, providenciei o e-book e comecei a lê-lo quase de imediato. Não tinha terminado nem a primeira parte do livro ainda e cheguei à conclusão de que esse era um livro que eu precisava ter físico: o projeto gráfico é primoroso, lúdico, um daqueles volumes que faz gosto possuir. Para além da leitora, meu lado colecionadora foi fisgado ali.
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9 de agosto de 2019
Uma introdução à crítica: A Arte da Ficção

Quando um romance começa? A pergunta é quase tão difícil de responder quanto dizer com precisão em que momento o embrião humano se torna uma pessoa. É raro um novo romance começar com as primeiras palavras escritas ou datilografadas. A maioria dos escritores faz algum trabalho preliminar, ainda que apenas de cabeça. Muitos se preparam com todo o cuidado por semanas ou meses, fazendo esquemas da trama, compilando CVs para os personagens, enchendo cadernos de ideias, cenários, situações e piadas a serem usados durante a composição. Cada autor tem seu jeito próprio de trabalhar.
Não consigo me lembrar exatamente o motivo pelo qual esse livro me chamou a atenção - talvez tenha sido só pelo título, ou por indicação em alguma lista. Seja como for, ele estava há tempos na lista de desejados, até que aproveitei uma daquelas promoções de desconto progressivo para enfiá-lo no meio das compras. Comecei a ler praticamente no momento em que o tirei da caixa e terminei no dia seguinte, mal conseguindo largá-lo para ir dormir.
15 de maio de 2019
Dez Anos em Dez Ensaios - Biblioteca Corujesca de Crítica Literária

Um tempo atrás, comentei em algum lugar o quanto gostava de livros de crítica literária, e recebi pedidos de falar sobre o assunto. Anotei na minha caderneta de pautas, mas deixei a ideia passar no meio de outras questões. Tempos depois, conversando com a Fernanda, do blog The Bookworm Scientist, comentei sobre o tanto que estava lendo de livros que falavam sobre livros e sobre o processo de escrever outros livros (não fiquem confusos!). Ela, então, disse algo como “você bem que podia escrever um resumo dessa biblioteca para dar uma ideia do que existe por aí”.
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11 de dezembro de 2018
O Resumo da Ópera - Outros (Vários) Títulos que Passaram por Aqui no Segundo Semestre

Quando escrevi essa coluna pela primeira vez, pensei em ter uma periodicidade mensal. Pelo visto, contudo, só estou dando conta de escrever a cada seis meses. Ok, não, isso é mentira, mas vamos com o exagero por razões estéticas… ou, não tão exagero, porque tempo anda de fato apertado por aqui e existiam outros posts na lista de prioridades.
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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais. Para saber mais, clique aqui.



