1 de fevereiro de 2020

"Eu encontrei um viajante de uma terra antiga": uma história de livros e objetos descartados


"Lugares fechando, modas morrendo e objetos desaparecendo são parte da ordem natural das coisas. Não há motivo para lamentá-los."

“Nenhuma razão para lamentar? Então você acha razoável que uma livraria lendária como a Strand, ou Elliot's, feche as portas? Eu suponho que esteja tudo bem para você se os livros morrerem também."

“Eles não estão morrendo,” eu respondi, “mas se estivessem, então sim, porque isso significaria que a sociedade não precisa mais deles, da mesma maneira que deixou de precisar de bastões de bandeira e ascensoristas, da mesma forma que uma cobra descarta sua pele após trocá-la.”

Ele bufou escarnecendo. “Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi. Coisas necessárias desaparecem todos os dias. E o que dizer de todas as coisas que não percebemos serem necessárias até que tenham já desaparecido?"

Narrada em primeira pessoa, I Met a Traveller in an Antique Land acompanha Jim, um blogueiro que defende a ideia de descartar objetos e processos que tenham se tornado obsoletos… incluindo livros físicos (irônico, considerando que ele está em negociações para publicar seu próprio título). Não que ele não goste de livros - a despeito do que o repórter que o entrevista no início da história possa dizer -, mas porque ele acredita que tudo pode ser digitalizado, encontrado em livrarias virtuais e bibliotecas. Tudo estará armazenado em… algum lugar, que ele não sabe bem qual é, mas estará lá, dando assim espaço para o que realmente interessa.

Após a desastrosa entrevista, com tempo livre para ‘turistar’ em Nova York, o narrador começa a passear, mas tem de procurar abrigo após uma chuva violenta começar do nada. E assim ele vai parar na livraria Ozymandias, um lugar misterioso, repleto de livros com títulos bizarros e um espaço de armazenamento que parece infinito. Uma jovem funcionária o leva a conhecer o depósito, onde pilhas de livros se organizam sob um estranho sistema - não por autor ou gênero, mas por desastres naturais ou criminosos, volumes resgatados de enchentes, incêndios, livrarias fechadas e bibliotecas que se desfizeram de seus acervos.

Explicar exatamente o que acontece nessa livraria seria entregar todo o enredo do livro… mas há dicas de sobra tanto no título da novela quanto no nome da livraria: Ozymandias é um dos mais famosos sonetos de Percy Shelley (sim, o marido da Mary de Frankenstein) e sua primeira linha é exatamente o nome do livro de Willis. Trata-se de um poema cujos temas são arrogância, arte, a relação do artista com sua obra e transitoriedade. Segue em tradução livre:

Encontrei um viajante de uma terra antiga
Disse-me ele: — Duas vastas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Próximo, na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Revelam que seu escultor bem percebeu aquelas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó grandes, e desesperai-vos!"
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.

Tive a curiosidade de procurar o ano em que a história foi originalmente publicada - inicialmente como parte da Asimov's Science Fiction de novembro/dezembro de 2017 -, porque o argumento apresentado pela Willis é inteiramente atual. Não tanto pela ideia de que ebooks possam vir a substituir os livros de papel (creio que isso já tenha caído por terra com revelações de número de vendas dos dois formatos), mas pelo avanço da Amazon pelo mundo e o impacto que ela tem sobre livrarias físicas. Ele parece particularmente corrente cá no Brasil, com a crise da Saraiva e da Cultura, a forma como isso afetou as editoras, e o pensamento que certas pessoas em posições de poder têm sobre livros e como eles “têm muita coisa escrita”.

A despeito de render bastante material para debate, I Met a Traveller in an Antique Land não é tão empolgante como outros livros da Willis. Talvez pela demora de Jim de perceber o que está acontecendo, talvez pelo final desiludido - ou mesmo falta de um final, com mais atenção à construção do cenário que o enredo. Ou talvez ainda porque ele funcione mais como uma defesa do livro como objeto físico que uma história redonda e completa. Fiquei pensando que ele iria bem como um ensaio ao estilo do Um Teto Todo Seu, em que Woolf cria um enredo não muito diferente do fluxo de consciência que marcou o estilo de seus romances para apresentar seus argumentos. Ainda assim, valeu descobri-lo.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: I Met a Traveller in an Antique Land
Autor: Connie Willis
Editora: Subterranean Press
Ano: 2018


A Coruja


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