8 de fevereiro de 2020

As Várias Facetas de ‘E o Vento Levou’


Para indignação de Mammy, os companheiros favoritos de brincadeira da menina não eram as recatadas irmãs ou as garotas Wilkes, tão bem criadas, mas as crianças negras da fazenda e os meninos da vizinhança, e ela sabia subir em uma árvore ou atirar uma pedra tão bem quanto qualquer um deles. Era um motivo de grande preocupação para Mammy que a filha de Ellen exibisse tais traços, e frequentemente a intimava a “agir que nem uma daminha”. Mas Ellen assumia uma atitude mais tolerante e fazia vista grossa em relação ao problema. Ela sabia que os amiguinhos de infância seriam pretendentes no futuro, e o primeiro dever de uma moça era se casar. Ela se convencia de que a criança era simplesmente cheia de vida e ainda havia tempo para lhe ensinar as artes e graças de se tornar atraente para um homem.

Com essa finalidade, Ellen e Mammy reuniam seus esforços, e, à medida que Scarlett crescia, tornava-se uma pupila apta no assunto, embora aprendesse pouco do resto.

Começo a resenha confessando que essa foi a segunda vez que peguei E o Vento Levou para ler: quando comprei o livro uns anos atrás, li a primeira parte e abandonei, porque criei ojeriza a Scarlett O’Hara. Desconfio que o problema era meu humor à época, que me deixou sem paciência para o poço de egoísmo que Scarlett se revela logo no começo - tive tanta raiva da protagonista que larguei-a sem peso na consciência. Ok, ela é uma adolescente no início, mas ainda assim, tive uma reação muito visceral ao egocentrismo da mocinha. Esse ano, na minha incansável jornada para conquistar os livros não lidos da estante, decidi dar uma nova chance ao calhamaço de Margaret Mitchell: pensei que começando-o no começo do ano, estaria num humor melhor e conseguiria avançar.

Deu certo. A primeira parte ainda foi como se arrastar ladeira acima, mas depois que Scarlett chega a Atlanta, quando se inicia sua convivência com Melanie e Rhett - quando ela é confrontada com a realidade da guerra, o cerco à cidade, a fuga desesperada de volta a Tara - a leitura deslanchou. À determinada altura eu já nem conseguia largar o livro, quase um exercício de musculação considerando o tamanho. A transformação da orgulhosa e mimada Scarlett O’Hara numa mulher forte e capaz de tudo para alcançar seus objetivos - em especial a manutenção da terra de sua família e reaquisição de sua fortuna (“jamais sentirei fome outra vez”) - é brilhante.


Tendo feito tais considerações, devo observar que há muitas maneiras de analisar esse enredo. Tradicionalmente, E o Vento Levou é vendido como um daqueles ‘grandes romances de todos os tempos’ (na verdade, isso está escrito no rodapé da capa da minha edição). Isso me fez pensar na época em que li O Morro dos Ventos Uivantes, e como o relacionamento de Heathcliff e Cathy me causou calafrios. Gosto imensamente de Rhett, e Scarlett é um pouco melhor que Cathy, mas não consigo pensar neles como um casal que se sustente - mesmo que eu tenha adorado vê-los juntos (tenho uma queda por casais tipo Cão e Gato) - porque eles parecem totalmente incapazes de se comunicar de forma sincera.

Scarlett começa a história como uma coquete que enfeitiça todos os rapazes ao seu redor, mas apaixonada por Ashley Wilkes, apresentado como o modelo perfeito de cavalheiro sulista. Rhett a flagra num momento em que sua máscara de grande dama cai e esse vislumbre acende seu interesse - algo que, aos poucos, parece se transformar quase em obsessão. Não temos seu ponto de vista, mas imagino o que diríamos de Rhett se pudéssemos enxergar a forma como seus sentimentos evoluíram: de uma admiração irônica para o desejo ciumento de posse até a magoada indiferença.

Rhett admira a força e persistência de Scarlett, disso não se pode duvidar. De certa maneira, ele a vê como uma igual, uma mulher determinada a tudo para sobreviver, alguém capaz de se livrar de todos os seus escrúpulos se necessário. Uma ‘gata selvagem’ por debaixo do verniz de nobre dama sulista. Ele, que foi expulso de casa por seu pai, que perdeu a fortuna e a primogenitura, mas conseguiu se reerguer a partir de sua própria sagacidade. Exatamente por isso - ali está uma pequena hipócrita que lhe mostra que a sociedade de que foi expulso não é tão melhor que ele - sua atenção é fisgada.

O problema é a paixão de Scarlett por Ashley que, de certa maneira, imita a preferência do pai de Rhett por um tipo de figura moral que é o absoluto oposto do nosso anti-herói. Assim como o senhor Butler provavelmente teria preferido Ashley Wilkes como filho, Scarlett parece preferi-lo como marido. E essa relação envenena Rhett, que se torna tão obcecado por Ashley quanto o é pela primogênita dos O’Hara. De certa maneira, conquistar a posse do coração de Scarlett é um substituto para ganhar a aceitação que seu pai lhe negou.

- Nunca lhe ocorreu que eu a amava tanto quanto um homem pode amar uma mulher? Que a amei por anos antes de conseguir ficar com você? Durante a guerra, eu ia embora e tentava esquecê-la, mas, sem conseguir, sempre tinha que voltar. Após a guerra, me arrisquei a ser preso, só para voltar e encontrar você. Era tão apaixonado que acho que poderia ter matado Frank Kennedy se ele não tivesse morrido quando morreu. Eu a amava, mas não podia deixá-la saber. Você é tão brutal com aqueles que a amam, Scarlett... Você usa esse amor como um chicote sobre suas cabeças.

O egoísmo, a ignorância e a crueldade de Scarlett fazem par com o ciúme possessivo e a violência reprimida de um Rhett que aparenta ser um paradigma de autoconfiança - mas que me parece usar o escárnio como carapaça para seus sentimentos de inadequação -, numa mistura bastante explosiva. Rhett se nega categoricamente a confessar seus sentimentos, Scarlett ignora seu coração, cega pelo ideal que plantou para si mesma na adolescência e, de desencontro em desencontro (quão frustrante é saber que ela estava chamando por ele quando acamada, mas não foi ouvida, enquanto ele esperava por um sinal, qualquer que fosse, e se deixava afogar na culpa?), suas emoções estão sempre em descompasso.

Essa incapacidade de ‘se encontrar no meio do caminho’ é o que torna o final tão pungente. Aliás, eu bato palmas para o final de E o Vento Levou: foi muito corajoso da parte da autora deixá-lo em aberto daquela maneira, sem uma resolução para o romance entre os protagonistas. Ao leitor é dada a possibilidade de passar o resto da vida pensando em situações que poderiam ocorrer após aquele final.


Nesse relacionamento, temos de levar em conta ainda outro casal (como se o protagonistas já não fossem complicados o suficiente…): o já citado Ashley e sua esposa, Melanie Hamilton. Ashley, como já dito, é-nos apresentado como ideal de cavalheiro sulista: educado, gentil, corajoso, honrado. Contudo, se tivesse de escolher uma única palavra para descrever Ashley, seria “sonhador”. Minha impressão dele é de que tem uma alma de artista, sensível, idealista e introspectiva, o que torna sua vida bem difícil numa história de gente pragmática e pé no chão.

Pois Ashley nascera de uma linhagem de homens que usava seu tempo de lazer para pensar, não para agir, para tecer sonhos vividamente coloridos que nada possuíam de realidade. Ele se movia em um mundo interior que era mais lindo que a Geórgia, e retornava à realidade com relutância. Ele observava as pessoas sem gostar ou desgostar delas. Olhava para a vida e não se animava nem se entristecia. Aceitava o universo e o lugar que nele ocupava pelo que eram e, dando de ombros, se voltava para seu mundo melhor, sua música e seus livros.

Ashley ama o Sul e o modo de viver no qual cresceu. Tendo entrado no exército confederado, contudo, ele não é a favor da guerra. A derrota da confederação representa o fim do mundo que ele conhecia e ele é incapaz de se adaptar aos novos tempos. Aliás, é curioso o contraste que ele forma com Will Benteen, que, tendo perdido uma perna, ainda é muito mais útil em Tara que o major que voltou fisicamente inteiro da guerra. Se muitos dos jovens do condado perderam a vida no conflito ou em consequência dele (os garotos dos Tarleton, Calverton, Fontaine), Ashley perdeu algo de sua alma, sua vontade de viver.

Isso justifica sua atração por Scarlett: é a vitalidade, a capacidade de se reconstruir, a carnalidade de Scarlett O’Hara que o enfeitiça. E Ashley é fraco demais para negar e cortar a relação com ela - sua indecisão permite que Scarlett continue a alimentar suas próprias ilusões, prende-a a ele e, com isso, impede-a de compreender seus reais sentimentos. Ao final das contas, Rhett tem razão em desprezar Ashley, pois ainda que ele não ceda à paixão por Scarlett, também não a liberta de sua influência. No mínimo, a admiração dela faz bem ao seu ego.

Melanie, como seu marido, é o paradigma de feminilidade sulista, “uma grande dama” nas palavras de Rhett. Vista pelo olhar de Scarlett, Melly é constantemente julgada como fraca e enfadonha. Nada poderia estar mais longe da realidade, contudo. Ligadas pelo primeiro casamento de Scarlett, com o irmão de Melanie (casamento esse decidido pela voluntariosa O’Hara por despeito da predileção de Ashley pela outra), as duas permanecem próximas pelo romance inteiro e formam uma relação curiosa. Melly ama Scarlett como a uma irmã, enquanto ela a detesta - ao menos, até se dar conta de que Melanie foi o esteio de sua existência e tudo o que ela foi capaz de fazer foi tendo Melly como seu apoio.

Melanie era jovem, mas possuía todas as qualidades que esses combativos remanescentes apreciavam, a pobreza e o orgulho na pobreza, uma coragem conformada, alegria, hospitalidade, bondade e, acima de tudo, lealdade a todas as antigas tradições. Ela recusava-se a mudar, e nem sequer admitia que houvesse motivo para tanto em um mundo em mudança. Sob seu teto, os velhos tempos pareciam estar de volta e as pessoas criavam coragem e desprezavam ainda mais a onda de vida impetuosa em grande estilo que levava de roldão os aventureiros ianques e os republicanos emergentes.

E Melanie é uma força insuspeita em todo o romance. Pequena e frágil na aparência, sua doçura esconde nervos de aço, uma força moral e capacidade de empatia que impressionam. No quadrilátero amoroso com Ashley, Scarlett e Rhett, Melanie é a personagem mais digna: com maior potencial de sair machucada e, ao mesmo tempo, a que melhor compreende todas as partes. Você pode passar o livro inteiro pensando se Melly sabia ou não do que ia entre Ashley e Scarlett, isso não importa muito. A lealdade que ela tem para com a cunhada-irmã é inquestionável: Melly deve a vida do filho e dela própria a Scarlett várias vezes e ela não se ressente de tal conta.

Esse “quadrilátero” (ou seria a quadrilha de Drummond?) é a o foco romântico do livro. Como já observei no começo, ele é também uma história sobre o amadurecimento de Scarlett - a perda de sua inocência, sua luta pela sobrevivência, sua gradativa compreensão de si mesma. Gosto do termo em inglês para esse gênero literário: “coming of age”, a chegada da idade, da maioridade. Uma maioridade que não é apenas física.

Via as coisas com novos olhos, pois, em algum ponto ao longo da estrada para Tara, ela abandonara sua infância. Já não era como o barro moldável, no qual cada nova experiência deixava uma marca. O barro endurecera em algum momento desse dia que durara mil anos. Essa noite era a última vez que ela seria cuidada como uma criança. Agora era uma mulher feita, e a juventude ficara para trás.

Os obstáculos que são colocados no caminho de Scarlett destruiriam alguém mais fraco. Destruíram, na verdade: é possível ver o constante contraste dela com as pessoas que eram seus vizinhos, que tiveram sua mesma criação, que conviveram com a guerra da mesma maneira, que perderam tanto quanto ela. Scarlett supera a perda da mãe, do pai, do conforto em que cresceu, dos escravos, de um inteiro modo de viver, dos maridos, de uma filha, enquanto outros vagam pela vida como fantasmas; ela está constantemente se reconstruindo, sem jamais desistir.

Li a primeira parte do livro há quatro anos e levei todo esse tempo para me encorajar a continuar a história (sério mesmo, eu detestei a Scarlett no início). Aí li todo o resto do livro em pouco menos de quinze dias, aflita porque, toda vez que parecia que as coisas estavam se ajeitando, alguma nova tragédia acontecia e eu ficava com o coração na mão achando que dessa feita, Scarlett não se reergueria (mas aí percebia que ainda tinha centenas de páginas à frente e suspirava de alívio sabendo que não acabaria ali).


A persistência e recusa em se dar por vencida são as características mais marcantes e redentoras de Scarlett. Ela não é uma boa pessoa, uma heroína no sentido mais óbvio do termo, pois é capaz de passar por cima de tudo - ética, princípios, os sentimentos das outras pessoas, regras da sociedade - para conseguir aquilo que quer. E o que ela quer é dinheiro, e a segurança que o dinheiro representa, segurança que lhe foi arrancada ao final da Guerra. Dinheiro significa manter Tara, ter sua casa, poder manter sua família e, mais importante que tudo, ter o que comer.

Durante cinquenta anos, haveria por todo o sul mulheres amarguradas a olhar para trás, para o passado morto, para homens mortos, a evocar memórias que magoavam e eram inúteis, tolerando a pobreza com orgulho amargo porque tinham essas memórias. Mas Scarlett nunca olharia para trás.

Olhou de relance para os alicerces escurecidos pelo fogo e, pela última vez, viu Twelve Oaks erguida diante de seus olhos como fora antes, rica e altiva, símbolo de uma raça e de um estilo de vida. Depois começou a descer a estrada rumo a Tara com a cesta pesada a lhe cortar a carne.

A fome lhe corroía o estômago vazio novamente e ela disse em voz alta:

— Com Deus por testemunha, com Deus por testemunha, os ianques não vão me vencer. Vou superar isso e, quando acabar, jamais sentirei fome novamente. Nunca, nem nenhum dos meus. Mesmo que tenha de roubar ou matar, que Deus seja minha testemunha, jamais sentirei fome novamente.

A insistência de Scarlett em ter ‘dinheiro, muito dinheiro’, pode parecer mercenária e cínica, colocando-se acima de sua necessidade de amor - é a razão de seu segundo e terceiro casamento, afinal -, mas a construção da personagem dá sentido a isso. E isso é irônico: o egocentrismo que não consegui perdoar na primeira parte da história eu aplaudi nas outras. Porque é isso que faz com que Scarlett não apenas sobreviva, mas floresça, quando tantos outros simplesmente ficam pelo caminho. Porque Scarlett se revela simplesmente, demasiadamente humana. E isso a faz uma das mais complexas e interessantes personagens literárias que já conheci.

E o Vento Levou é, dessa maneira, uma grande história de amor num primeiro plano (porque é assim que se prefere vender o livro) e também um conto de amadurecimento, numa segunda camada. E aí vem o terceiro contexto pelo qual pensar a obra: sendo um romance histórico, ele é um perfeito recorte da época que retrata - e bastante complicado nesse quesito.

Não se trata só do fato de toda a ação ter como pano de fundo o sul confederado nos anos da guerra civil: essa ação é contada do ponto de vista dos sulistas e, como tal, é extremamente racista. Da minha posição de leitora moderna, não posso concordar com a romantização de senhores de escravos; a caracterização dos negros em fiéis aos seus antigos senhores ou vilões, preguiçosos e predadores sexuais, infantilizados em ambos os casos; ou das justificativas para a criação da Ku Klux Klan. Porque é exatamente isso que Mitchell faz: ela transforma os Estados da Confederação em seu período pré-guerra num idílio, uma utopia.

Publicado em 1936, E o Vento Levou precede em dezoito anos o início da luta por direitos civis dos negros. Ele foi escrito numa época em que imperavam as ‘leis de Jim Crow’, um conjunto de legislações estaduais promulgadas entre o final do século XIX e o início do século XX que impuseram a segregação racial. Vemos os efeitos práticos dessas leis ao final do livro, quando os Democratas retomam o poder no sul - o constante debate acerca do voto ou a preocupação de Melanie com a ideia de seu filho ir para uma escola em que ele divida a sala com crianças negras, por exemplo.

Aliás, observe-se como Melly, uma personagem que nos foi apresentada o tempo todo como digna de nossa admiração, replica tão casualmente o preconceito racial. Como a afirmação de Ashley, de que teria libertado os escravos quando fosse dono de Twelve Oaks - a fazenda da família Wilkes - é vista como devaneios de uma pessoa bem pouco prática (e incapaz de apresentar quaisquer lucros ou resultados em seu trabalho...). Como o mesmo Ashley, juntamente com os dignos cavalheiros de Atlanta, formam a KKK, tendo por justificativa a proteção de suas mulheres. Como Rhett - que se propõe moderno e tão diferente de seus conterrâneos - mata um ex-escravo que tenta se engraçar para os lados de uma senhora branca. Como um dos grandes vilões em Tara é o ex-administrador da fazenda, que afirma que brancos e negros devem ser vistos como iguais.

Compreender o contexto em que a obra foi escrita e o período que ela retrata não nos exime de pensar criticamente sobre os fatos e personagens que nos são apresentados.

De outro turno, E o Vento Levou leva à reflexão de questões de gênero interessantes. Esse é, afinal, um romance sobre mulheres fortes; é um livro sobre a guerra, mas que não acompanha os fronts de batalha, permanecendo com as famílias que se despedem de seus soldados. Enquanto os homens lutam, as mulheres administram as casas e plantações; organizam esforços de arrecadação de fundos para o exército; cuidam dos feridos; abrem as próprias portas para receber refugiados, mantendo a moral e a ordem em seus condados.

Mesmo antes da guerra, elas têm um papel importante na gestão dos negócios: Ellen, a mãe de Scarlett, é a responsável pelas contas de Tara; e a senhora Tarleton é quem cuida dos cavalos premiados de sua fazenda. Seu trabalho não é particularmente reconhecido, mas é fato que o sucesso de seus maridos depende delas.

A vida de Ellen não era fácil, nem feliz, mas ela não esperava que a vida fosse fácil e, se não era feliz, essa era a sina das mulheres. O mundo pertencia aos homens, e ela o aceitava como tal. O homem possuía a propriedade, e a mulher a administrava. O homem levava o crédito pela administração, e a mulher elogiava sua esperteza. O homem berrava como um touro se tivesse um espinho cravado no dedo, e a mulher sufocava os gemidos do parto para não perturbá-lo. Os homens costumavam ter a fala áspera e se embriagar. As mulheres ignoravam os lapsos da linguagem e botavam os bêbados na cama. Os homens eram grosseiros e francos, as mulheres, sempre gentis, graciosas e magnânimas.

Ela fora criada na tradição das grandes damas, que a ensinara como carregar seu fardo e ainda assim manter o encanto, e pretendia que suas três filhas também se tornassem grandes damas. Com as mais novas, ela tinha sucesso, pois Suellen ficava tão ansiosa para ser atraente que emprestava o ouvido atento e obediente aos ensinamentos da mãe, e Carreen era tímida e fácil de guiar. Mas Scarlett, filha de Gerald, achava o caminho para se tornar uma dama duro demais.

As matriarcas de Atlanta - as senhoras Meade e Merriwether, entre tantas outras - são a força motriz da cidade. Elas atuam incansavelmente nos hospitais como voluntárias, enfrentam o cerco para buscar o corpo de um filho morto; fazem parte do saque aos mantimentos antes que os ianques dominem os depósitos. E depois, quando tudo parece perdido, elas tomam as rédeas mais uma vez, nem que para isso seja necessário vender tortas na rua. Considerando o conservadorismo do Sul, eu me surpreendi com quanta independência todas essas mulheres desfrutam, ainda que a participação delas fosse no mínimo lógico, se a sociedade esperava conseguir se recuperar.

Em todo esse contexto, Scarlett se destaca uma vez mais. A necessidade de cuidar de Melanie durante a gravidez, mesmo com o risco do cerco a Atlanta, a fuga desesperada da cidade com Melly ainda se recuperando do parto - um parto que Scarlett foi obrigada a realizar sozinha diante das circunstâncias do momento -, a chegada em Tara para se dar conta de que é ela agora a responsável pela subsistência de todos ao seu redor, sua organização dos suprimentos, divisão do trabalho - ela chega a ir para o campo plantar algodão -: ela vai muito além de todas as expectativas para seu gênero. Ao casar-se com Frank Kennedy para salvar Tara dos impostos, ela passa também a se imiscuir nos negócios da loja do marido, surpreendendo-o com sua cabeça rápida para números. Pegando dinheiro emprestado com Rhett, compra uma serraria e, sob sua administração, o negócio se expande e dá bons lucros.

Scarlett pode até ser vista com ressalvas na sociedade de Atlanta, mas ela se torna, indubitavelmente, uma hábil mulher de negócios. Quando ela se torna a senhora Butler, ela já é financeiramente independente, independência essa que ela construiu usando sua inteligência, seus próprios encantos pessoais, manipulação e até trapaça - nada, contudo, que lhe tire o mérito de ter chegado ao ponto em que chegou. Num certo sentido, Scarlett é muito mais bem sucedida em papéis tradicionalmente masculinos (provedora, empreendedora) que nos femininos (boa mãe, boa esposa, boa irmã).

Não sei se poderia dizer que E o Vento Levou tem uma mensagem feminista. Mas, é fato que é um livro sobre mulheres que não esperam para serem resgatadas; mulheres pragmáticas, sobreviventes. Vovó Fontaine, Beatrice Tarleton, Ellen, Mammy, Dilcey, Scarlett, Melanie, Belle, entre tantas outras, inspiram admiração pela força e capacidade que demonstram diante de tantas provações.


No cômputo geral, E o Vento Levou é fascinante, um desafio que merece ser enfrentado. Intenso, complexo, é uma leitura a qual é impossível ser indiferente, que merece reflexão e debate. Um monumento ao que existe de melhor e pior na humanidade, merecendo a classificação de um épico clássico.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: E o Vento Levou
Autor: Margaret Mitchell
Tradução: Marilene Tombini
Editora: Record
Ano: 2012

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