5 de outubro de 2019

Desafio Corujesco 2019 - Uma Releitura || Semente de Bruxa


Ele inspeciona a sala. Rostos familiares, veteranos de suas peças anteriores: esses acenam para ele com a cabeça, oferecem-lhe esboços de sorrisos. Rostos novos, inexpressivos ou apreensivos: não sabem o que esperar. Todos eles garotos perdidos, embora não sejam garotos: a idade deles varia de dezenove a quarenta e cinco. Têm muitos tons de pele: do branco ao negro, passando pelo amarelo, vermelho e marrom; são de muitas etnias. Os crimes pelos quais foram condenados são variados. A única coisa que têm em comum, além de sua condição de detentos, é o desejo de estar na trupe de arte dramática de Felix. Suas motivações, ele prevê, são variadas.

Como esse é o mês do Halloween, não tive nem dúvidas em escolher qual seria o título para esse tema do Desafio Corujesco (é, eu sei, tô atrasada com os temas anteriores, mas coisas andaram meio corridas por aqui…) assim que registrei o título: Semente de Bruxa me fez brilhar os olhinhos tão logo foi anunciado. Afinal, tratava-se de uma releitura de Shakespeare - um dos maiores escritores de língua inglesa na História - feita por Margaret Atwood - uma das mais admiradas autoras em tempos modernos. A Tempestade não é uma das minhas peças favoritas do bardo, mas outra releitura - o capítulo final da série Sandman do Gaiman - fez com que ela ganhasse um lugarzinho especial no meu coração.

Dito isso, a primeira coisa que tenho a falar da versão de Atwood é que ela me segurou na cadeira em ansioso suspense até a última página, a despeito do fato de que a familiaridade com o texto original me dava uma boa ideia de como seria o final. A forma como ela costura o périplo de Félix, seu protagonista, para espelhar as desventuras de Próspero, como ecoa em coincidências de circunstâncias, nomes, papéis, mesmo traduzindo o enredo elizabetano para tempos modernos - e focando a ação dentro do teatro - é simplesmente genial.

Antes de continuar me derretendo em elogios, porém, preciso explicar a história. Tudo começa com Félix, diretor de um festival de teatro reconhecido pela inventividade e quebra de paradigmas, sendo sumariamente dispensado de seu posto por Tony, a quem considerava seu braço direito. Tony deseja o cargo de diretor para usá-lo como trampolim político, e aproveita-se do desinteresse de Félix por suas obrigações administrativas e da vulnerabilidade em que ele se encontra após a morte da filha de três anos, Miranda.

Félix estava no meio da montagem justo de A Tempestade, projeto em que pretendia homenagear a memória da filha - afinal, a bela filha do mago Próspero se chama Miranda. A traição de Tony não apenas lhe tira de um trabalho que era sua paixão, como também lhe parece uma segunda morte da menina. Assim é que ele se afasta de tudo e de todos, vai morar num barracão à beira da estrada, inventa uma nova identidade para si mesmo e acaba por conseguir um emprego como professor de literatura num programa de alfabetização de presos, onde passa doze anos sonhando com vingança; uma vingança que vai envolver justamente… A Tempestade.

Dramático? Imagina…

As muitas coincidências que fazem Félix estar no lugar certo, na hora certa para conseguir sua vinganças podem até ser forçadas, mas a escrita de Atwood faz você esquecer disso, da mesma maneira que o aparente fantasma (ou alucinação) da Miranda que acompanha Félix. Não obstante ser o plot da vingança bem interessante, o que realmente rouba a cena são as ligações que Félix estabelece com seus alunos e como eles interpretam o texto original de Shakespeare, trazendo a ilha de Próspero para sua realidade. Eu teria lido feliz todas as peças anteriores montadas no presídio (Macbeth e Ricardo III são citadas), teria devorado outras centenas de páginas com ele desafiando seus alunos a pensarem, re-imaginarem, reescreverem e se encontrarem nos personagens de Shakespeare.

Chamou-me particularmente atenção a forma como boa parte do presos se identifica com Calibã, o ‘semente de bruxa’ conforme os insultos de Próspero. Calibã, o monstro, o deformado, o vilão, mas também o escravo, o vilipendiado, o colonizado, aquele que teve sua terra roubada pelos brancos. Não foi uma correlação que eu tenha feito quando li a peça, mas que fez muito sentido no contexto do romance de Atwood. Eu gostei desse comentário social - do conflito político acerca do merecimento dos presos de um programa como aquele, face às expectativas de punição do público; do teatro e da leitura como ferramentas de aprendizado que poderiam ser utilizadas após o grupo ter cumprido sua sentença, da maneira como os exercícios propostos permitem não apenas catarse, mas uma recuperação de dignidade.

Para além disso, como eu poderia resistir a um livro tão espetacularmente metarrativo? Afinal, estamos diante de uma peça (manipulada por Próspero) dentro de uma peça (escrita por Shakespeare) dentro de uma peça (dirigida por Félix), numa história cujos acontecimentos espelham de perto o enredo da traição e vingança do Próspero original. Isso apela ao meu senso de ironia e meu gosto por contos que se assemelham a matrioskas, uma história dentro da outra, dentro de outra e assim por diante.

Semente de Bruxa é um livro delicioso, inteligente na forma como usa os temas presentes em A Tempestade, com personagens teatrais que entendem muito bem que estão representando personagens, repleta de humor e, mais importante, de humanidade. Shakespeare sabe muito bem ir à essência da questão e Atwood aproveita com maestria a trilha deixada pelo bardo. Foi um daqueles livros que nos deixam com gosto de quero mais ao terminar. Vai para a lista dos favoritos desse ano, sem dúvida.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Semente de Bruxa
Autor: Margaret Atwood
Tradução: Heci Regina Candiani
Editora: Morro Branco
Ano: 2018

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A Coruja


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2 comentários:

  1. Oi. Eu já terminei o desafio. Vai ter em 2020 de novo?

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    1. Oi, Natallie!

      Ano que vem não teremos o desafio. Participei ou organizei desafios literários praticamente desde o começo do blog e, embora ele sempre tenha sido muito bom para me forçar a sair da zona de conforto, também me prendeu um pouco. O plano é fazer de 2020 algo como um "ano sabático", mais relaxado nas postagens, e voltar com as colunas fixas - como a do desafio - em 2021.

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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