1 de outubro de 2019

All Hallow’s Read - História da Bruxaria


A bruxaria transforma culpa em desgraça partindo de uma força abstrata e inescrutável para uma força identificável, punível e individualizada. Se Deus, ou o destino, causou alguma doença a alguém, não há meios para revidar; mas se a responsável for uma bruxa, poder-se-á rechaçá-la ou neutralizar-lhe o poder.

Do momento em que esse livro apareceu em pré-venda, a primeira coisa que me veio à cabeça foi ‘preciso dele para o All Hallow’s Read’. No momento em que li o sumário, contudo, e vi que o livro era dividido em duas partes, uma para o passado da bruxaria outro para bruxaria moderna, comecei a me sentir como os editores da Garamond no livro O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco. A Garamond é uma editora que produz, de um lado, livros acadêmicos e, em outro selo, livros repletos de teorias conspiratórias acerca de ciências ocultas - do tipo, quanto mais insólito, tanto melhor.

Começando a ler História da Bruxaria, não demorou tanto para que me desfizesse de tal temor e fosse absolutamente fisgada: o livro de Burton Russel e Brooks Alexander é muito mais interessante do que eu imaginava.

A introdução, explicando a evolução da ideia de magia - de alquimistas e astrólogos para cientistas -, passando pelas raízes etimológicas de palavras como ‘witch’ (do inglês antigo wiccian, que significa “lançar encantamento”) a ‘wizard’ (do inglês médio wis, “sábio”) até refletir sobre as funções sociais da feitiçaria, fez-me lembrar muito do ensaio do Pratchett sobre bruxas, magos e arquétipos na literatura fantástica - Porque Gandalf Nunca Casou -, tema que ele desdobrou em seus livros sobre as bruxas de Lancre e os magos da Universidade Invisível.

Na verdade, eu me vi fazendo muitas referências cruzadas enquanto lia História da Bruxaria - minhas referências começaram a criar referências de tanto que eu saí costurando relações entre o que ia aparecendo e leituras pretéritas: Carlo Ginzburg, Neil Gaiman e Marion Zimmer Bradley são alguns dos que me vieram muito à mente.

A primeira parte, como já disse, trata do passado, especialmente da histeria herética que levou à Inquisição e sua tenebrosa caça às bruxas. Contrariamente ao que popularmente se pensa, tal fenômeno não começou na Idade Média e nem é ligado exclusivamente à Igreja Católica: ela foi um produto da Renascença e da Reforma e de um resgate do direito romano, que era totalmente intolerante com bruxas e bruxedos (por paranóia dos imperadores, que achavam que estavam particularmente vulneráveis à queda de suas posições de poder em razão de feitiços e magia).

O que as pessoas acreditam ser verdadeiro influencia suas ações mais do que aquilo que é objetivamente verdadeiro.

A feitiçaria - e aqui tratamos da ideia de maneira universal - tinha por funções aliviar tensões sociais dentro da cultura de uma comunidade, sustentando seus valores, servindo como um sistema de justiça e dando também aos membros um senso de poder diante de realidades inexplicáveis (olá, vovó Cera do Tempo). Na Europa, contudo, tais ideias se misturaram com religiões pagãs, folclore local e a questão da heresia - heresia não no sentido de satanismo, como alguns possam talvez pensar, mas na noção de que qualquer comunidade cristã vivendo em desacordo com as regras da Igreja estabelecida são heréticas.

No início, muitos dos que foram condenados como bruxos eram nada menos que cristãos que pensavam em sua religião de forma diferente do paradigma.

História da Bruxaria discorre aqui sobre os crimes e abusos cometidos pelos ditos caçadores de bruxas, sobre o efeito psicológico de tais perseguições em comunidades compactas, as diferenças entre legislações nacionais sobre o assunto (achei muito curioso o fato de que, na Inglaterra, a questão era tratada dentro do direito civil, e as bruxas eram enfocadas, não queimadas, diferente do resto do continente europeu) e, claro, a vulnerabilidade feminina em tais situações.

Conclusões desta primeira parte comparam a caça às bruxas aos crimes contra humanidade praticadas no regime nazista e stalinista, ‘mais um capítulo da história da maldade humana’. Do meu ponto de vista, é uma dedução que faz muito sentido.

De fato, a propagação dos julgamentos e a crescente promiscuidade das acusações levaram, finalmente, a uma de duas conclusões: ou o poder do Diabo estava aumentando de tal modo que o fim do mundo devia estar próximo ou então, se Cristo ainda governava, as acusações contra bruxas deviam ser manifestações de puro delírio.

Uma curiosidade: a Inglaterra continuou tendo códigos legais sobre bruxaria até 1951; em 1963, em meio a uma onda de profanações a igrejas e cemitérios, chegou a ser apresentada uma petição para o restabelecimento de leis contra bruxaria, mas a moção foi negada. Parece piada, mas vejam só: mês passado vi uma matéria sobre livros de Harry Potter banidos de escolas nos Estados Unidos por apresentar ‘feitiços reais’, tendo o leitor grandes chances de conjurar ‘espíritos malignos’ lendo as histórias de J. K. Rowling. Nesse contexto, não posso deixar de concordar com os autores do livro quando eles observam que tempos de paz, tolerância e sanidade são a exceção à regra e não o contrário...

A seção seguinte do livro cuida da bruxaria moderna, alçada ao posto de religião neopagã. Aqui se explica que a teoria - ou teologia - da wicca foi construída em cima de uma suposta herança pagã pré-cristã que teria subsistido ao longo de toda a Idade Média. No entanto, esse argumento nasceu de historiadores (às vezes nem isso) que aceitaram os registros dos inquisidores - impostos sob tortura e que seguiam uma lista de perguntas previamente selecionadas que se adequavam à visão do inquisidor - como se fossem realidade.

Em outras palavras… os inquisidores e caçadores de bruxas tinham sua visão do que era bruxaria. Educados numa cultura clássica (há de se observar que muitos eram doutores da lei), conheciam as mitologias pagãs e resgatavam desses mitos as imagens que mais se assemelhassem ao que eles acreditavam ser rituais satânicos. Capturavam suas bruxas e feiticeiros, colocavam-nos sob tortura e então começavam seu roteiro de questões. As confissões não eram algo espontâneo do tipo “eu sigo Diana na grande caçada” ou “danço nos sabás com um demônio que lembra o deus Pã”. Os inquisidores perguntavam e as pessoas diziam ‘sim, fiz isso, fiz tudo isso que vossa excelência diz que fiz, e também fizeram fulano, sicrano e beltrano’ - porque era uma regra desse tipo de interrogatório querer que o torturado incriminasse o maior número possível de outros bruxos.

Os estudiosos que construíram essa teoria da bruxaria histórica como faceta de um grande e único culto pagão parecem esquecer que a Europa é um continente de culturas muito diferentes que ainda hoje têm dificuldade de conversar entre si (Brexit é só um exemplo). A culpa, claro, são dos românticos, que adoram apimentar suas histórias com um pouco de ocultismo conspiratório, mas isso não vem ao caso.

Essas conclusões, contudo, não descontam a importância da wicca como uma religião. Sequer significam que tudo o mais seja uma mentira (o ópio do povo). Religião, afinal, é uma questão de crença, de fé, e não importa muito se os deuses em que você acredita sejam sobreviventes de cultos pagãos que atravessaram gerações e milênios. Toda religião começa como uma ideias e histórias costuradas numa colcha de retalhos, buscando fazer sentido da vida que nos cerca. Considerando a importância que a wicca dá à sustentabilidade, ao cuidado com a Mãe Terra, a auto-análise e busca instintual de si mesmo, considero-a algo positivo.

Terminei História da Bruxaria mais satisfeita do que imaginara a princípio. O livro é um excelente estudo histórico, conciso, um bom material de introdução a quem se interessar pelo tema.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: História da Bruxaria
Autor: Jeffrey Burton Russell e Brooks Alexander
Tradução: Álvaro Cabral e William Lagos
Editora: Goya
Ano: 2019


A Coruja


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