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18 de agosto de 2022

Para viajar no tempo e voltar "Antes que o Café Esfrie"


A água escorre dos lugares altos para os mais baixos. Sempre. É a natureza da gravidade. As emoções também parecem agir de acordo com a gravidade. Na presença de alguém com quem se tem laços, a quem você já confiou seus sentimentos, fica difícil mentir sem que o outro perceba. A verdade simplesmente quer fluir, se libertar. Assim é, especialmente quando alguém tenta esconder alguma tristeza ou vulnerabilidade. É muito mais fácil disfarçar a tristeza de um desconhecido ou até mesmo de alguém em quem não se confia.

Num café retrô em Tóquio é possível, sentando-se numa determinada cadeira e pelo intervalo de tempo em que uma xícara de café esfria, viajar ao passado ou ao futuro. Há uma série de regras a seguir, contudo, que se resumem ao preceito de que, no instante dado para vislumbrar esse momento no tempo, é impossível mudar o que aconteceu (ou acontecerá). Considerando tantas restrições, é difícil entender as razões de quem decide encarar a viagem. Mas aqueles que se submetem descobrem lições valiosas para a própria vida, têm uma segunda chance de encontrar coragem para dizer o que precisa ser dito.


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21 de maio de 2020

Shakespeare in a Divided America: o que suas peças têm a nos dizer sobre nosso passado e futuro


"Nas peças históricas e tragédias que Lincoln achava tão atraentes, Shakespeare coloca seus protagonistas, a maior parte deles líderes, sob pressão insuportável. Entre os momentos mais poderosos dessas peças estão os discursos em que personagens confrontam dilemas morais e dão voz à culpa e o sofrimento que os esmagam. Que esses personagens sejam frequentemente malignos - Ricardo III, Macbeth, Claudius - pouco importava a Lincoln; o que lhe interessava era seu grau de autoconsciência, o quanto eles compreendiam das difíceis decisões com que eram confrontados."

Esse livro me apareceu numa das últimas listas de recomendação que o Goodreads envia, baseado no fato de que já li e avaliei positivamente outros livros do autor. O tema - a ideia de Shakespeare usado no debate político americano - chamou-me bastante a atenção, e como andei assistindo várias peças do bardo nas últimas semanas, decidi passá-lo à frente da lista e começá-lo logo. É um volume relativamente curto (pouco mais de 300 páginas), e o assunto é bem complexo; mas a prosa de Shapiro é estimulante, provocativa e a leitura acabou passando muito mais rápido do que eu previra.


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23 de abril de 2020

Dez Anos em Dez Ensaios - O Bardo é Pop


Assisti por esses dias montagens de Hamlet e Romeu e Julieta no Globe, em Londres - disponibilizadas por streaming no YouTube do teatro - e me surpreendi em como duas das mais clássicas tragédias do bardo me provocaram crises de riso. Não, eu não surtei (ainda) e virei uma pessoa sádica que se diverte com o sofrimento alheio. Ocorre que a dinâmica de palco dessas histórias foi apresentada de forma muito diferente do que vemos em filmes, que é a maneira mais comum de termos contato com as obras de Shakespeare.


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27 de fevereiro de 2018

A Vertigem das Listas: Dois Mentirosos Incuráveis


Lulu: O Carnaval já passou, mas como estamos no mês da festa, escolhi um tema tangencialmente carnavalesco. Vejam bem, Carnaval é tempo de folia, de fantasias, de poder brincar e esquecer a vida real; quiçá até inventar uma nova vida, uma persona para fazer par com a máscara. Assim é que o vertigem de fevereiro traz para vocês Dois Mentirosos Incuráveis - mas, prestem atenção, não estamos a falar de psicopatas e estelionatários, mas de contadores de causos que até Deus duvida e que terminam no estilo “não sei, só sei que foi assim.


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24 de junho de 2017

A Vertigem das Listas: Seis Histórias do Submundo


Ísis: Olá, caros mortais leitores do Coruja! Esse mês vamos aonde ninguém ousa ir, com poucas exceções. No mínimo, aonde ninguém quer ir, mas vai porque precisa por qualquer motivo. Não estou falando de dentista nem hospital - embora sejam boas tentativas - mas do inferno, ou o mundo além. Bem-vindos sejam a Seis Histórias do Submundo!

Lulu: Posso dizer que fiquei até com medo agora?

Ísis: Por quê? Submundo não necessariamente é amedrontador…

Lulu: Não tenho medo do submundo, tenho medo de você…


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6 de agosto de 2016

Para ler: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

DUMBLEDORE: You ask me, of all people, how to protect a boy in terrible danger? We cannot protect the young from harm. Pain must and will come.

HARRY: So I’m supposed to stand and watch?

DUMBLEDORE: No. You’re supposed to teach him how to meet life.
Iniciando do exato momento que o epílogo de Harry Potter e as Relíquias da Morte nos mostra, Harry Potter and the Cursed Child nos apresenta um futuro em que Harry é um funcionário assoberbado do Ministério da Magia, enquanto seu filho, Albus, tem de lidar com o peso da fama e das expectativas advindas de ser filho de quem é.

Para tentar encontrar seu próprio lugar e valor, independente do pai, Albus toma algumas decisões bastante impulsivas e quase destrói seu próprio futuro, além de mudar toda a história da sociedade bruxa no processo. Entre desencontros e falta de comunicação, Harry e Albus terão de pôr suas diferenças de lado para lidar com o ressurgimento de um antigo inimigo.


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17 de março de 2015

Projeto Shakespeare: Ricardo III

(Entra o fantasma do jovem Príncipe Eduardo, filho de Henrique VI.)

FANTASMA DO PRÍNCIPE EDUARDO (ao Rei Ricardo) — Sentirás o meu peso amanhã em tua alma. Lembra-te como me apunhalaste na Primavera da minha juventude em Tewkesbury. Por isso desespera e morre. (Para Richmond) Alegra-te, Richmond, que as maltratadas almas de príncipes assassinados lutam em teu favor. O filho do Rei Henrique, Richmond, te conforta.

(Sai. Entra o fantasma de Henrique VI)

FANTASMA DE HENRIQUE VI (ao Rei Ricardo) — Quando eu era mortal, meu corpo ungido por ti crivado foi de chagas mortais. Pensa na Torre e em mim. Desespera e morre. Henrique VI ordena que desesperes e morras! (Para Richmond) Virtuoso e santo, sê tu o vencedor. Henrique, que profetizou que Rei serias, em teu sono te conforta. Vive e floresce.

(Sai. Entra o fantasma de Clarence.)

FANTASMA DE CLARENCE (ao Rei Ricardo) — Que sintas amanhã meu peso em tua alma, eu, que fui morto em banho de imundo vinho, eu, pobre Clarence, por ti traído até à morte. Amanhã, na batalha, pensa em mim, e que caia sem gume tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, fruto da Casa de Lancastre, os maltratados herdeiros de York oram por ti. Guardem os anjos bons tua batalha. Vive e floresce.
Ricardo III é uma das mais conhecidas e famosas peças de Shakespeare, tendo feito estupendo sucesso em sua época de estréia e continuando sua trajetória de popularidade nos dias de hoje.

A história segue a subida ao poder de Ricardo, duque de Gloucester, ao trono inglês, atropelando quaisquer princípios e idéias de moralidade que possam se interpor em seu caminho.


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5 de fevereiro de 2015

Projeto Shakespeare: A Comédia dos Erros

DUQUE — Mísero Egeu, que destinado foste para experimentar o grau mais alto de uma vida infeliz! Mas podes crer-me: não fosse ir contra a lei, minha coroa, a própria dignidade, os juramentos — que violar nunca os príncipes se atrevem, muito embora o desejem — neste peito tua causa encontrara um advogado. Mas muito embora condenado te aches e a sentença de morte não me seja possível revocar sem grande dano para nossa honra, vou favorecer-te naquilo que puder. Por essa causa, mercador, eu te dou mais este dia para auxílio amigável angariares, que a vida te resgate. Experimenta os amigos que em Éfeso tiveres. Toma emprestado, pede esmola e vive, depois de perfazeres a quantia. Caso contrário, morrerás; é lei. Deixo-o sob tua guarda, carcereiro.

CARCEREIRO — Pois não, milorde.

EGEU — Pobre, sem esperança, Egeu só lida para o fim postergar da triste vida.
A Comédia dos Erros é uma das primeiras peças de Shakespeare, escrita provavelmente em 1594. Não é das minhas comédias favoritas – são tantas as coincidências que se sobrepõem que você chega a ficar tonto enquanto lê. Em compensação, creio que no palco o texto funcione muito bem.


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2 de dezembro de 2014

Projeto Shakespeare: Conto de Inverno

Se os maridos das esposas infiéis desesperassem, enforcar-se-ia a décima parte da humanidade
Não sei se perceberam, mas decidi colocar logo de uma vez para resenhar esse ano no meu Projeto Shakespeare todas as peças que eu já tinha lido e detestado algum personagem – já que estou no embalo para falar de quem não gosto, então falemos de todos de uma vez só. Pra 2015 deixei a maioria dos títulos que ainda não li e assim vamos caminhando até 2016, quando, pelos meus cálculos, terei encerrado o projeto – no aniversário de 400 anos da morte do autor também.

Conto de Inverno não é exatamente uma das peças com que mais tenho problema porque de uma forma geral, acho-a meio morna. Mesmo as personagens femininas – que normalmente são destaque na obra do bardo – parecem-me um tanto apagadas.


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4 de novembro de 2014

Projeto Shakespeare: Medida por Medida

LÚCIO — Por que estás preso, Cláudio? Que foi isso?

CLÁUDIO — Liberdade demais, Lúcio; excessiva. Do mesmo modo que o comer à farta longo jejum engendra, a intemperança nos prazeres nos tolhe a liberdade. Tem sede a Natureza — como os ratos que em seu próprio veneno se comprazem — de algo diabólico; e, ao beber, morremos.

LÚCIO — Se eu fosse capaz de falar com tamanha sabedoria, quando preso, mandaria chamar alguns dos meus credores. Mas ainda assim, para falar franco, prefiro a loucura da liberdade à gravidade da prisão. Qual foi o teu crime, Cláudio?
Essa é uma das poucas peças do bardo que eu tinha selecionado para resenhar esse ano que eu não lera em anos anteriores: minha leitura de agora foi meu primeiro contato com Medida por Medida - o que é curioso, porque eu jurava pra mim mesma que já o tinha visto, antes de começar a ler e perceber que tudo era novo ali.

Eu não sei como classificar Medida por Medida - aliás, essa é uma sempiterna dificuldade com Shakespeare. Não é uma tragédia, nem um drama histórico, obviamente, mas não vejo muito bem onde isso se classificaria como uma comédia.


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28 de outubro de 2014

360º: As Aventuras de Kolory na Grã-Bretanha || Parte IV ~ Vim Para Conquistar

Enfim, depois de uma semana batendo perna pela Escócia, chegamos eu e Kolory de volta a Londres. Nossa chegada foi sem maiores fanfarras, já que depois de um dia inteiro de viagem, eu só queria cair na cama e descansar meus pobres joelhos...

Sério, meu joelho esquerdo, que já me deu dor de cabeça antes, fez muitas reclamações por conta do número de escadarias e outras subidas íngremes que o forcei a tomar. Por sorte, eu tinha me lembrado de levar o tensor, que aliviou um pouco as dores e me permitiu continuar batendo perna – afinal de contas, descansar, só quando chegasse em casa...

Fiquei hospedada na região de Victoria, próxima à estação de trem, metrô e ônibus – uma posição estratégica vez que em meus planos havia uma rápida viagem a Oxford e seria também da estação que eu pegaria o trem expresso para o aeroporto de Gatwick, que é beeeeeem distante do centro de Londres.


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2 de outubro de 2014

Projeto Shakespeare: As Alegres Matronas de Windsor

FALSTAFF: Pois atenção, garotos, que agora vou tomar minhas medidas.

PISTOLA: (Medindo) Barriga, quatro metros. Papada, doze quilos.

FALSTAFF: Chega de gracinhas, Pistola. Na verdade tenho quatro metros de cintura e não me ressinto de falarem da minha cinta ou de meu cinto; mas agora não consinto. Pois sinto que no momento o mais importante é o meu sentimento sintomático: pretendo conquistar as mulher de Ford.
Minha primeira apresentação a essa peça, curiosamente, não foi com o livro mas sim com um filme... e um filme brasileiro. Isso faz um bocado de tempo, mas acho que aconteceu comigo zapeando os canais e de repente parando nele (foi assim também que descobri o filme adorável inspirado em A Moreninha).


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2 de setembro de 2014

Projeto Shakespeare: Como Gostais

Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.
Harold Bloom, que é um dos maiores críticos literários especializados em Shakespeare na atualidade (eu sinceramente desconfio que ele mantém um altar para o bardo em sua estante), está sempre falando de Como Gostais e comparando todas as personagens femininas das outras comédias com a Rosalinda dessa peça.

Confesso eu que prefiro a Beatrice à Rosalinda, mas isso é porque eu gosto mais das trocas de farpas afiadas entre Beatrice e Benedict que da astuta manipulação da Rosalinda sobre Orlando – o herói não tem assim tanto espaço para ser desenvolvido a fim de que eu me importe com ele.


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5 de agosto de 2014

Projeto Shakespeare: Antonio e Cleópatra

Vou contar-vos. A barca em que ela estava, trono fúlgido, as águas incendiava; sua popa era de ouro batido; as velas, púrpura, e a tal ponto cheirosas, que vencidos de amor os ventos todos se mostravam. Eram de prata os remos, que ao compasso se moviam de flautas, apressando com seus golpes as águas percutidas, como amorosas deles. Com respeito a ela própria, mendiga aqui se torna a melhor descrição. Deitada estava num pavilhão todo tecido de ouro, vencendo a própria Vênus, em que vemos a arte passar de muito a natureza. Ao lado dela estavam dois meninos rechonchudos e lindos — sorridentes Cupidos — que agitavam ventarolas de mil cores cambiantes, cujo sopro parecia deixar muito mais vivo o rubor de suas faces delicadas, que acalmar se propunha, desfazendo, dessa maneira, a um tempo, o que fazia.
Faz muito, muito tempo desde que li essa peça pela primeira vez – creio até que tenha sido um dos primeiros trabalhos do bardo que me chegou em mãos, presente de um cliente dos meus pais que era livreiro. Não me lembrava de absolutamente nada da história, exceto pela parte em que uma víbora aparecia em algum momento (...), de forma que o peguei para reler.


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1 de julho de 2014

Projeto Shakespeare: Bem Está O Que Bem Acaba

HELENA - Nesta carta, senhora, encontrareis meu passaporte. "Quando conseguires o anel que trago no dedo, e que jamais sairá dele, e quando puderes mostrar-me um filho nascido de teu ventre, que tenha sido gerado por mim: então poderás dar-me o nome de esposo. Mas esse "então" vale por um "nunca". Que sentença terrível.
Começo hoje confessando que estou olhando para meu volume desse livro aqui em cima da mesa e me segurando para não jogá-lo na parede e não sapatear em cima. Não gosto do Bertram. Na verdade, eu não suporto o Bertram. Minha raiva do Bertram é maior até do que minha cisma com Romeu. Eu realmente, REALMENTE não gosto do Bertram. E eu não faço a menor ideia do que bem acaba nessa história.

Tendo tirado essa questão do caminho... vamos ao que interessa.


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3 de junho de 2014

Projeto Shakespeare: Os Dois Cavalheiros de Verona

Quem é Sílvia? O que ela oculta
em si, pois tudo a exalta?
Ela é pura, bela, culta
e, como não tem falta,
qualquer moço, ao vê-la, exulta.

Será doce como é bela?
Beleza inclui doçura.
Cego, o Amor, tão logo apela
a seu olhar, se cura
e hoje habita os olhos dela.
Eu sinceramente não sei qual das duas peças do bardo me deixa mais indignada: se é essa aqui ou Bem Está O Que Bem Acaba, de que pretendo falar mês que vem para já passar a raiva toda de uma vez só...

Você começa com dois amigos, Proteus (grrrr...) e Valentino, que deixam Verona, sua cidade natal, para terminarem sua educação em Milão. Proteus deixa para trás a jovem e adorável Júlia, ao passo que Valentino encontra em sua nova morada seu próprio grande amor, a bela Sylvia.


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22 de maio de 2014

O Mundo Inteiro é um Palco – Parte V: “Amor não teme o tempo”


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe nenhuma idade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.


- Soneto 116

Os sonetos de Shakespeare são talvez o que temos mais perto de desvendar algo de sua privacidade, sua maior expressão pessoal. De forma geral, eles deixam os críticos loucos com todas as possibilidades de interpretação, em especial sobre a sexualidade do dramaturgo – vez que uma parte dos versos faz referência a um ‘belo jovem’ (fair young man) e outros tantos são endereçados a uma ‘dama negra’ (dark lady), sendo que esta última teria sido infiel ao poeta justo com o belo jovem.

Para além do tom obviamente confessional desses poemas, há o contexto com que esses sonetos eram interpretados à época. Sonetos eram escritos para um pequeno público que conhecia muito bem o autor e o recipiente dos versos e formavam um círculo de familiaridade, uma espécie de proteção para a exposição de sentimentos que eram muitas vezes bastante reais.


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20 de maio de 2014

O Mundo Inteiro é um Palco – Parte IV: “Nós, um Bando de Irmãos...”


"Nós, estes poucos; nós, um punhado de sortudos; nós, um bando de irmãos… pois quem derrama o seu sangue junto comigo passa a ser meu irmão."

- Henrique V

Além das comédias e tragédias, Shakespeare aventurou-se também no terreno dos dramas históricos. Acho curioso que tragédias como Julio César e Antonio e Cleópatra não estejam inclusos nessa classificação, mas aparentemente só valem para os críticos dramas históricos que girem em torno da História inglesa.

Ísis: Abster-me-ei de comentar... >.>

Não me lembro agora com certeza qual foi meu primeiro contato com os dramas históricos shakesperianos, mas creio que tenha sido com Ricardo III, que, para mim, é um dos personagens mais memoráveis na longa galeria de criações geniais do dramaturgo.


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15 de maio de 2014

O Mundo Inteiro é um Palco – Parte III: “A vida é uma sombra errante...”


“A vida é uma sombra errante; um pobre comediante
que se pavoneia no breve instante que lhe reserva a cena,
para depois não ser mais ouvido.
É um conto de fadas, que nada significa.
Narrado por um idiota cheio de voz e fúria.”


- Macbeth

À sua época, Shakespeare era conhecido como um poeta do amor – para além dos sonetos, a crítica foi muito bem receptiva para O Rapto de Lucrécia e Vênus e Adônis e suas comédias eram favoritas do grande público. Hoje, por outro lado, pensamos em sua obra lembrando principalmente suas tragédias.

Foram os românticos e vitorianos que o redescobriram e para eles, as tragédias de fato tinham um grande apelo. Ainda que gregos e outros poetas clássicos deem uma dimensão introspectiva bem grande aos seus personagens, os críticos desse período reconheciam em Shakespeare e seus solilóquios o drama levado aos limites do humano.

Tal se deve ao fato de que foi ele quem primeiro se tem notícia de usar na dramaturgia o recurso dos monólogos sem inserir um personagem ou um coro que sirva de ouvinte e resposta.


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13 de maio de 2014

O Mundo Inteiro é um Palco – Parte II: “Somos feitos da mesma substância dos sonhos...”


"Somos feitos da mesma substância dos sonhos
e entre um sono e outro decorre a nossa curta existência."


- A Tempestade

Se me pedissem para apontar o dedo para o criador das comédias românticas com que hoje somos continuamente assaltados no cinema e sessões da tarde, eu não teria dúvidas em apontá-lo para o busto de Shakespeare. É óbvio que vieram outros antes dele, vez que seus plots normalmente se baseavam em histórias já existentes, mas o formato de uma boa comédia romântica pode ser encontrado integralmente nas comédias shakesperianas.

São histórias de encontros e desencontros, de falta de comunicação que acaba por criar situações tragicômicas, de amores que se escondem por trás de línguas ferinas, de troças (Ísis: Conhecia essa palavra, não...) e trocas de identidade.

Embora haja críticos que acreditem que Shakespeare começou sua carreira com a tragédia Tito Andrônico ou o drama histórico Vida e Morte do Rei João, a maioria concorda que sua primeira peça tenha sido uma comédia – talvez A Comédia dos Erros, A Megera Domada ou Os Dois Cavalheiros de Verona.

Ísis: Os dois cavaleiros de Verona tem relação com Romeu e Julieta? E, aliás, você mencionou antes que Romeu e Julieta foi uma das peças que se inspirou em fatos reais. Eu não duvido nada que essa história possa ter acontecido, porque não parece tão improvável (mesmo hoje), mas até que parte é verdadeira?

Lulu: Não, Os Dois Cavalheiros de Verona não tem nada a ver com Romeu e Julieta. Nada mesmo. E Romeu e Julieta não foi uma das peças inspiradas em fatos reais, mas num conto italiano escrito por Matteo Bandello.


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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais. Para saber mais, clique aqui.

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