15 de maio de 2019

Dez Anos em Dez Ensaios - Biblioteca Corujesca de Crítica Literária


Um tempo atrás, comentei em algum lugar o quanto gostava de livros de crítica literária, e recebi pedidos de falar sobre o assunto. Anotei na minha caderneta de pautas, mas deixei a ideia passar no meio de outras questões. Tempos depois, conversando com a Fernanda, do blog The Bookworm Scientist, comentei sobre o tanto que estava lendo de livros que falavam sobre livros e sobre o processo de escrever outros livros (não fiquem confusos!). Ela, então, disse algo como “você bem que podia escrever um resumo dessa biblioteca para dar uma ideia do que existe por aí”.

De princípio, pensei em escrever sobre leituras que ajudam o escritor a compor sua história, uma espécie de biblioteca básica, mas já fiz um pouco disso na minha série sobre hábitos neuróticos de virginianos, especificamente ao tratar das minhas paranóias quando estou escrevendo. Decidi então fazer diferente: apresentar alguns dos meus livros favoritos de não-ficção que falam de livros, excluindo os de ficção porque, se os incluísse, passaríamos o mês aqui… Mais que simplesmente citar as obras, porém, pretendo expor o que eles me ensinaram sobre literatura, escrita e tudo aquilo que faz o Coruja ser o que é.

Foi quando me dei conta do quanto esses volumes inspiraram o blog, e a forma como eu mesma escrevo, discuto e até penso sobre literatura. Dez anos de leituras, dez anos de aprendizado, dez anos compartilhando opiniões, gostos e anedotas. E, nesses dez anos, esses foram alguns dos livros que me inspiraram: alguns que semearam a ideia de começar o Coruja e outros que serviram de adubo para a forma como o blog foi crescendo

Creio que minha primeira inspiração para começar o Coruja foi Eco. Após um início desastroso tentando ler O Nome da Rosa sem maturidade suficiente para entender o que estava lendo, redescobri o autor na faculdade, não demorando para que eu me apaixonasse pela forma como Eco falava de livros. Suas obras de crítica literária e ensaios sobre o papel e espaço da literatura na sociedade foram essenciais para que eu começasse a desenvolver meu próprio roteiro de análise.

Interpretação e Superinterpretação é o primeiro título que me vem à mente, até porque foi o primeiro dele nessa linha que li. Reúne palestras realizadas no início da década de 90, na Conferência Tanner, em Cambridge, sendo Eco o principal convidado, junto com o filósofo Richard Rorty, o teórico literário Jonathan Culler e a crítica Christine Brooke-Rose. Pessoalmente, minha parte favorita é a primeira, de responsabilidade do próprio Eco, bem como sua réplica final aos argumentos dos outros conferencistas - mas isso é meio óbvio… Enfim, o tema central do debate foram exatamente os limites de interpretação de um texto, uma coisa que pode parecer bastante óbvia, mas não é tão simples assim.

Considero esse livrinho muito importante porque foi com ele que comecei a refletir sobre as intenções de um texto, sobre como um determinado discurso pode ser utilizado, interpretado. Eco parte de um contexto histórico para falar de questões de verdade, simbologia e hermenêutica. Contudo, despindo-se do vocabulário técnico, o que ficou pra mim desde aquele encontro inicial foi a ideia de que o leitor traz suas experiências pessoais para dialogar com o texto, experiências que o autor não previu dentro de sua construção da narrativa. Existem limites para essas possibilidades de interpretação, mas fato é que, uma vez que você solta o que escreveu no mundo, outras pessoas vão encontrar significados e ligações que você jamais foi capaz de imaginar.

O limite, no caso, é justamente a intenção do texto, ao qual o leitor precisa se ater.

Lembro-me de uma piada que o professor que indicou esse livro fez para explicar a questão: diante de uma placa de ‘não pise na grama’, a intenção do legislador é óbvia, mas o intérprete da frase pode interpretar que, embora ele não possa pisar, é perfeitamente permitido rolar, dar cambalhotas, ou qualquer outro tipo de movimento que não envolva os pés. Nesse caso em específico, o texto não impõe limites, é aberto à interpretação: seu sentido supostamente unívoco é, na verdade, ambíguo. Contudo, essa é uma interpretação ruim, que desconta o contexto maior que é o de preservar o gramado, mas, ei, está nos limites possíveis do texto.

Eco também dá um exemplo extremo para explicar a questão e ficarei com a citação direta dele do assunto:

“Algumas teorias da crítica contemporânea afirmam que a única leitura confiável de um texto é uma leitura equivocada, que a existência de um texto só é dada pela cadeia de respostas que evoca e que, como Todorov sugeriu maliciosamente (citando Lichtenberg a propósito de Boehme), um texto é apenas um piquenique onde o autor entra com as palavras e os leitores com o sentido.

Mesmo que isso fosse verdade, as palavras trazidas pelo autor são um conjunto um tanto embaraçoso de evidências materiais que o leitor não pode deixar passar em silêncio, nem em barulho. Se bem me lembro, foi aqui na Inglaterra que alguém sugeriu, anos atrás, que é possível fazer coisas com palavras. Interpretar um texto significa explicar por que essas palavras podem fazer várias coisas (e não outras) através do modo pelo qual são interpretadas. Mas se Jack, o Estripador, nos dissesse que fez o que fez baseado em sua interpretação do Evangelho segundo São Lucas, suspeito que muitos críticos voltados para o leitor se inclinariam a pensar que ele havia lido São Lucas de uma forma despropositada. Os críticos não voltados para o leitor diriam que Jack, o Estripador, estava completamente louco - e confesso que, mesmo sentindo muita simpatia pelo paradigma voltado para o leitor, e mesmo tendo lido Cooper, Laing e Guattari, muito a contragosto eu concordaria com que Jack, o Estripador, precisava de cuidados médicos.

Entendo que meu exemplo é um tanto forçado e que mesmo o desconstrucionista mais radical concordaria comigo (assim espero, mas quem é que pode saber?). Mesmo assim, penso que até um argumento paradoxal como esse deve ser levado a sério. Ele prova que existe pelo menos um caso em que é possível dizer que uma determinada interpretação é ruim. Segundo os termos da teoria de pesquisa científica de Popper, isso é o suficiente para refutar a hipótese de que a interpretação não tem critérios públicos (ao menos em termos estatísticos).

Poderíamos objetar que a única alternativa a uma teoria radical da interpretação voltada para o leitor é aquela celebrada pelos que dizem que a única interpretação válida tem por objetivo descobrir a intenção original do autor. Em alguns dos meus escritos recentes, sugeri que entre a intenção do autor (muito difícil de descobrir e freqüentemente irrelevante para a interpretação de um texto) e a intenção do intérprete que (para citar Richard Rorty) simplesmente "desbasta o texto até chegar a uma forma que sirva a seu propósito" existe uma terceira possibilidade. Existe a intenção do texto."

Trazendo essa discussão teórica para um campo mais compreensível de interpretação literária: a essa altura dos acontecimentos, só descobriríamos as intenções de Machado de Assis com Dom Casmurro empregando a ajuda de um médium. Se Capitu traiu ou não Bentinho, isso é coisa que cada leitor terá de interpretar por sua conta e risco. A ambiguidade é permitida pelos limites do texto, é coerente conjecturar das duas maneiras.

Tal discussão pode parecer muito abstrata, mas é uma das razões pelas quais, quando vou escrever algum artigo mais aprofundado cá no Coruja, pesquiso um bocado do contexto em que a história foi escrita. Já mudei de opinião sobre uma história após compará-la com outros textos do mesmo autor, ou descobrir um pouco de sua biografia: encontrei pontos que contradiziam aquilo em que eu acreditava ou que me davam elementos completamente novos para enxergar as possibilidades presentes. Há quem critique a interpretação de um texto utilizando a vida do autor como um elemento do texto; mas se trago minha história pessoal para a maneira como descodifico uma narrativa, porque não usaria também outras ferramentas para trazer mais coerência a essa compreensão?

Li outros livros do Eco sobre semiótica - o estudo de construção de significado - e aprendi bastante com eles, mas Interpretação e Superinterpretação é o que considero mais importante dos que tenho na prateleira, seja pelo impacto que ele teve para mim; seja pelo fato de ser construído em cima de um debate, com argumentos e contra-argumentos. É um estilo mais livre que os volumes teóricos sobre o assunto, o que faz dele uma leitura de compreensão relativamente fácil para o leigo.


Para além dos títulos de semiótica, não poderia deixar de lembrar os ensaios e análises críticas de Umberto Eco em Sobre a Literatura e Confissões de um Jovem Romancista.

O primeiro, descobri ainda nos primeiros tempos do blog e influenciou muito na forma como escrevo minhas resenhas. A perspicácia das análises - que iam do conteúdo ao ritmo fonético -, o humor e o entusiasmo com que ele ia apresentando as obras, tudo eram coisas que eu queria emular. Dizia aos meus botões ‘quando crescer, quero escrever como Eco’. Hoje, começo minhas resenhas contando um pouco sobre como o livro chegou a mim, minha história pessoal com ele e isso é um reflexo justamente das minhas leituras do italiano.

O segundo título me apareceu tempos depois, mas foi com ele que aprendi a ideia de metanarrativa e ironia intertextual, duas coisas que eu sempre procurava no que lia, mas que não sabia explicar direito e nem conhecia de nome. Chamava, em vez disso, de ‘quebra da quarta parede’ (expressão nascida do teatro, quando o ator conversa diretamente com a plateia) e ‘palavras cruzadas literárias’ (aquelas referências que parecem piscadelas do autor diretamente para o leitor, coisa que Pratchett faz muito e que adoro).

Resumindo: em cima dos três títulos citados, Eco serviu como uma das minhas bases para desenvolver minha própria maneira de resenhar. Mas não foi o único.

Harold Bloom talvez seja o mais conhecido crítico literário moderno. Polêmico e intransigente, é um defensor ferrenho dos clássicos e de uma concepção mais formalista da literatura, de arte pela arte. Para ele, lemos livros porque sentimos prazer em ler livros, não por questões de ideologia, manipulação, controle midiático ou coisa parecida - pontos que a crítica moderna passou a tomar como centrais na interpretação literária. Essa ‘escola do ressentimento’ - termo que o próprio Bloom cunhou - desprezaria a erudição dos clássicos, dando valor apenas a obras de impacto político e social.

Compreendo a necessidade de perceber a literatura também como uma ferramenta de dominação e exclusão, e concordo integralmente que precisamos expandir nosso horizonte. Para tanto devemos ler mais autores fora dos eixos estadunidense e europeu, de outros espectros sociais, sexuais, de gênero, o que seja... Não concordo, porém, que esse seja o critério único de avaliação da qualidade e importância da obra. Já escrevi um pouco sobre minha opinião do assunto no ensaio Censura e Empatia, mas, em síntese, acredito que não podemos deixar de falar da necessidade de inclusão, de representação nas histórias que consumimos. Tampouco, porém, podemos reescrever ou obliterar o passado, condenando livros e autores porque eles escreveram de acordo com as convenções e o contexto de suas épocas, ou porque não foram suficientemente progressistas para nosso gosto.

Não li A Cabana do Pai Tomás, considerado um dos maiores clássicos da literatura americana, mas já vi debates sobre esse livro condenando-o por sua atitude condescendente e estereotipada dos personagens negros do enredo. A ironia aqui fica por conta do impacto que o romance - escrito por uma mulher branca, Harriet Beecher Stowe -, teve no movimento abolicionista: dizem que o próprio Abraham Lincoln, ao encontrar com a senhora, comentou que sua história fora uma das causas da Guerra Civil.

Para nossa sensibilidade moderna, não duvido, o livro deve soar racista. Entretanto, no contexto de quando foi escrito, era uma obra à frente do seu tempo, que apresentou um problema social sério e serviu de gatilho para um debate e um movimento de reforma. Não tenho dúvida de que tem seus méritos literários, do contrário, não teria mexido tanto com seus leitores. Contudo, a depender da forma como se faça sua análise, será um livro desprezado por não atender à bandeira que tal e qual escola crítica defende, menosprezando a qualidade artística que eventualmente tenha.

Mais próximo de nós, há Monteiro Lobato. Alguns anos atrás, falou-se em censurar nas escolas a obra do autor, tendo em vista passagens racistas em alguns dos livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Agora em 2019, a obra dele caiu em domínio público e várias editoras prontamente lançaram suas versões. Algumas decidiram reescrever ou extirpar os trechos polêmicos. Outras adicionaram notas explicativas. Do meu lado, prefiro a segunda opção, afinal, não há como negar que existe racismo e preconceito ainda hoje e as notas serviriam como gancho para um debate sobre o assunto, em vez de simplesmente fingir que nunca aconteceu.

Isso é um debate bem longo e complicado, porque há argumentos válidos de todos os lados. Num mundo perfeito, a escolha seria do leitor - que teria maturidade suficiente para ler mesmo obras polêmicas e refletir sobre as mudanças sociais que tornaram posicionamentos do autor obsoletos. Ao mesmo tempo, editores dariam mais chances a escritores pertencentes a minorias de contarem suas próprias histórias, até haver uma diversidade grande de bons livros, que atendessem à identidade de qualquer leitor. Infelizmente, isso é hoje uma utopia, não levando em consideração riscos de mercado e outras variantes, mas, bem... por isso mesmo uso a expressão utopia.

Enfim, voltemos a Bloom. Não concordo com tudo o que ele diz, mas gosto das análises dele, da defesa que ele faz das obras que elege para seu O Cânone Ocidental. Vejo um tanto de graça na paixão que o faz deificar Shakespeare (por sinal, também é excelente o seu Shakespeare: a Invenção do Humano ), a ponto de usá-lo como critério de comparação para avaliar tudo o mais que o ocidente produziu. Essa obsessão gera algumas distorções, algumas ausências gritantes na lista de Bloom… porém, querendo ou não, quando você elabora uma lista como essa, são seus gostos pessoais que orientarão a escolha - as ausências que eu enxergo, por exemplo, vão do meu gosto, dos meus favoritos. Os livros que Bloom elege para seu cânone, em outras palavras, nunca serão unanimidade.

O que realmente ficou para mim da leitura de O Cânone Ocidental não é ‘a lista’ (muito criticada), nem mesmo o acerto das conclusões (eu mesma não concordo com muita coisa), mas a paixão pela literatura, a ideia de influências, de como diferentes obras conversam entre si. Costumo usar esse tijolinho (minha edição é de bolso, que comprei por uma bagatela quando visitei a Bienal do Livro no Rio de Janeiro em 2011) como material de referência, para quando quero conferir minhas notas da leitura com os insights de um crítico especializado. Bloom é polêmico, elitista, mas é também envolvente e traz bons argumentos para puxar um debate, quer você os aprove, quer você discorde completamente.

Mais democrático que Bloom há Italo Calvino, segundo italiano dessa minha biblioteca básica. Calvino começa seu Por que ler os clássicos? com um ensaio que possui a mais acertada descrição que já vi do que seja um clássico. Melhor ainda, pode-se fazer a lista das definições que ele propõe (e todo mundo sabe o quanto gosto de listas…):

1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo … ” e nunca “Estou lendo … “.

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-las pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-las.

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

11. O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.

Calvino deixa muito claro que os títulos elencados no livro são ‘clássicos pessoais’, sublinhando ser o impacto que eles têm no leitor o que os torna indeléveis. Bloom defende a técnica, mas Calvino nos lembra que histórias são importantes por aquilo que elas representam na vida de seus leitores. São livros frente aos quais somos incapazes de nos manter indiferentes. Em resumo, são as histórias que lemos não por obrigação, mas por amor.

Lembro de pegar esse título num estande de livraria, folhear e depois me aboletar no chão mesmo para começar a ler. E ficar tão apaixonada que, quando deu a hora de voltar para casa, corri para o caixa porque precisava levá-lo comigo e terminá-lo.

Calvino também se tornou um volume de referência para pesquisas preliminares quando termino de ler um livro e vou escrever a resenha ou mesmo preparar um debate do clube de leitura de que participo. As análises que ele faz dos títulos que estão em sua lista de clássicos pessoais - apresentados de forma cronológica - são breves, mas muito pertinentes, concentrando-se normalmente num aspecto estrutural da obra/autor. Por essa razão, Por que ler os clássicos? tem um porém: se o leitor não está familiarizado com os títulos ou o estilo do autor comentado em cada ensaio, vai se sentir bastante perdido no caminho. Ainda assim, gostaria de poder compartilhar ad infinitum o primeiro capítulo dele, que é justamente o ensaio que dá nome ao livro e de onde veio a lista já aqui apresentada.

O próximo nome da lista é Virginia Woolf. Como romancista, Woolf conseguia ser incrivelmente intrincada, complexa, uma leitura nem sempre fácil (dos que li, a exceção é Flush - memórias de um cão, que é simplesmente adorável). Como ensaísta, ela é… maravilhosa, clara e incisiva.

Faz muito tempo que li as duas coleções de ensaios mais famosas da autora - O Leitor Comum e Um Teto Todo Seu - e usei o fato de estar escrevendo esse artigo como uma excelente desculpa para relê-los.

As ideias apresentadas em O Leitor Comum casam muito bem como as questões de interpretação e superinterpretação sobre as quais Umberto Eco tanto fala; especificamente, no que diz respeito à construção da interpretação do leitor como um exercício criativo. Para Woolf, o que ela chama de leitor comum é aquele que:

Lê para seu próprio prazer muito mais do que para repartir conhecimento ou corrigir opiniões alheias. Acima de tudo, ele é guiado pelo instinto de criar para si mesmo, à margem de quaisquer outras miudezas que possa amealhar, alguma espécie de plenitude - o retrato de um homem, a descrição de uma época, uma teoria da arte de escrever.

É um ponto de vista interessante e que tem muito a ver com o que é e como é feita a crítica literária hoje em dia. Tomo-me como exemplo: consumo poucas resenhas e análises literárias feitas por críticos profissionais e veículos oficiais; minhas indicações vêm de blogs e redes sociais como o Skoob e o Goodreads, lugares que são, basicamente, o apogeu do ‘leitor comum’ de Woolf. Eu mesma sou, por definição, uma dessas leitoras comuns. Leio por puro prazer - e compartilho minhas opiniões cá no Coruja pelo desejo de encontrar outras pessoas com quem eu possa compartilhar tal prazer. Porque, como também disse Woolf, “o prazer não tem nenhuma graça a menos que o partilhemos”.

Li esses livros adolescente, numa época em que estava descobrindo Jane Austen, que viria a ser outra das minhas referências de vida. Embora meu primeiro contato com Austen tenha sido por influência da bibliotecária do meu colégio, a qual me emprestou Orgulho e Preconceito, passei a tornar e retornar à autora em função das palavras de Woolf. Foi também em Woolf que primeiro encontrei os nomes das irmãs Brontë e de Elizabeth Gaskell, autoras que eu só viria a descobrir, de fato, quase uma década depois.


Na verdade, os ensaios de Virginia Woolf foram os textos que me fizeram despertar para a diferença na quantidade de autores homens e mulheres nas prateleiras e nos clássicos. Talvez tenha sido meu primeiro efetivo contato com noções de feminismo. Essas reflexões nunca tinham me passado pela cabeça antes de começar Um Teto Todo Seu. Ao terminar esse livro, sei que me plantei diante da estante e comecei a contar quantas autoras eu tinha nas prateleiras e não preciso dizer qual o resultado da contagem. Em resumo, comecei a me importar com a diversidade do que eu lia por causa desses livros; bem como a imaginar o que um escritor precisava para ser considerado um escritor.

Impacto parecido para mim foi a leitura de Orientalismo, de Edward Said. O subtítulo explica bem do que se trata: ‘o oriente como invenção do ocidente’. A ideia aqui é que o que consideramos - na nossa cultura eurocêntrica - como oriental não é algo que depende de marcos geográficos. Em vez disso, é uma construção cultural e política, que reuniu centenas de sociedades muito diferentes num mesmo balaio, como se todas elas fossem iguais… mas iguais em sua estranheza e exotismo, na forma como se contrapõem ao ocidente dito civilizado.

Foi com esse livro que compreendi o que era apropriação cultural, e o impacto que essa apropriação tinha na construção de preconceitos.

Dessa minha lista, Orientalismo talvez seja o título menos acessível ao leitor leigo, visto ser um texto acadêmico, com análises bem densas. A despeito disso, não o acho excessivamente técnico. Said é palestino, ele entende do que está falando para além da teoria. Ele também trata bastante das consequências práticas que essa construção cultural tem (sim, ainda hoje) em decisões técnicas, políticas.

Trago Said para a crítica literária, mas ele faz parte de um contexto social maior, com paralelos à questão imigratória que temos vivido. Considero-o uma leitura não apenas interessante, mas extremamente importante para compreensão de vários preconceitos.

Nesse contexto, Woolf e Said, tratando da literatura como ferramenta social, são um contraponto ao Harold Bloom e sua interpretação que vai puramente pela arte e técnica. Essa diversidade de pontos de vista, de maneiras de análise literária, está por trás de boa parte do que tento fazer aqui no blog. São influências que foram mudando minha maneira de pensar e refletir de literatura à medida que eu amadurecia.

Os livros listados acima foram lidos há muito tempo e formaram minha base. Entretanto, isso não significa que parei de ler sobre o assunto, porque aprendizagem não é uma atividade finita. Dos títulos que li em tempos mais recentes, destaco dois que achei excelentes no que discorrem sobre os mecanismos da ficção, apresentando abundantes exemplos. São eles: Para Ler como um Escritor, de Francine Prose, e Como Funciona a Ficção, do James Wood. Todos os outros que citei cuidam bastante do conteúdo, e embora esses dois tratem também do assunto, eles se concentram em questões técnicas, sem se perderem num excesso de teoria. Ambos são excelentes para leigos estudarem crítica literária.

Até aqui, dei bastante ênfase a livros que são, essencialmente, coletâneas de resenhas. Eles me ensinaram sobre forma, sobre pontos de análise e também sobre paixão - porque, se existe algo que todos eles têm em comum é a forma passional como os autores tratam seu assunto. Para completar minha biblioteca básica de crítica corujesca, contudo, tenho de tocar na parte de história, pesquisa, arquétipos e mitologia.

Gosto de compreender o contexto histórico do que estou lendo. Embora eu ache que não é necessário conhecer a biografia completa do autor para ser capaz de interpretar uma história, eu discordo de quem afirma que uma coisa não deve influenciar a outra. Entender o contexto adiciona mais uma camada de possibilidades à interpretação e essa foi uma das minhas principais razões para começar a ler biografias. Tenho três biografias do Tolkien, mais um volume de cartas - e, ironicamente, ele era um escritor que achava que você não devia interpretar histórias à luz da biografia do autor…

Curiosamente, dessa biblioteca básica, o livro que me causou mais impacto na forma como penso a literatura - inclusive seu processo de criação - foi Sobre Histórias de Fadas. Não lembro quando foi que li esse ensaio pela primeira vez, mas deve ter sido na mesma época em que estava devorando tudo o que havia para ler sobre a Terra-média como se não houvesse amanhã. Foi com ele que comecei a pensar em Fantasia como um gênero literário importante; que passei a me interessar por contos de fadas e a enxergá-los não como histórias para crianças, mas narrativas bem sofisticadas e fascinantes, cujo prazer independe da idade.

Mais recentemente, adicionei ao meu roteiro de ensaios para pensar literatura o livro Sobre Histórias, do C. S. Lewis. Eu já tinha lido alguns dos ensaios dele em inglês pela mesma época em que descobri Nárnia (um pouco depois de O Senhor dos Anéis), mas só ano passado encontrei-os traduzidos numa edição bem recheada. Considerando que a questão das narrativas de fantasia eram debate constante entre Lewis e Tolkien, não é uma coincidência que esse livro tenha ecoado tão fortemente pra mim quanto o Sobre Histórias de Fadas. Ambos tinham uma forte preocupação com a força do mito e da religião e a função das histórias como um instrumento para a ‘Verdade’. Em outras palavras, através das histórias, você é capaz de encontrar a si mesmo.

Nesse sentido, gosto particularmente da defesa que Lewis faz das histórias infantis e concordo integralmente com as palavras dele:

É costume usar um tom apologético e galhofeiro ao falar sobre o deleite de um adulto com os chamados “livros infantis”. Acho que é uma convenção tola. Nenhum livro é realmente digno de ser lido aos dez anos se não for igualmente (e, por vezes, muito mais) digno de ser lido aos cinquenta - exceto, claro livros de informação. As únicas obras imaginativas que devemos deixar de lado são aquelas que teria sido melhor nem termos lido lá atrás.

Provavelmente cuidarei mais do assunto em outro dos ensaios desse aniversário… Mas isso é o suficiente para entender porque Lewis entra na minha prateleira de livros essenciais para pensar literatura - ou pelo menos, na minha forma de pensar literatura.

Sou uma leitora contumaz de fantasia e gosto de ver como autores do gênero refletem sobre seus temas, seu trabalho, sua vocação. Aliás, esse é um bom ponto para começar sua própria biblioteca crítica: procurar na bibliografia do seu escritor favorito se ele já não publicou algo sobre o assunto. Não raramente, você vai encontrar algo pelo meio que vai te ajudar no caminho. No meu caso, destaco os livros de ensaios de Neil Gaiman, Terry Pratchett e Ursula Le Guin, dos quais já inclusive traduzi algumas partes cá para o blog.

Já que estamos tratando de fantasia e mitos, não posso deixar de mencionar mais dois autores importantes. Tocamos indiretamente no assunto dos arquétipos, pois, ainda que não tenham sido nominados, é assunto que aparece nos dois títulos que citei acima. Dessa feita, Joseph Campbell, com seu O Poder do Mito e O Herói de Mil Faces, e A Jornada do Escritor, do Christopher Vogler são leituras muito relevantes ao tema, e falei bastante deles e sua importância para a compreensão dos mecanismos de uma história quando escrevi o especial sobre a Jornada do Herói.

Também não posso me esquecer de falar do Alberto Manguel.

Todos os livros do Manguel que li até hoje caberiam nessa minha biblioteca. Os Livros e os Dias; À Mesa com o Chapeleiro Maluco; A Cidade das Palavras. O meu favorito é Uma História da Leitura, que, com o capítulo sobre a leitura como uma atividade coletiva em vez de absolutamente solitária, foi semente para a criação do Clube do Livro. Foi, por assim dizer, um passo adiante do blog: no Coruja, às vezes tenho a impressão de estar gritando no vácuo, mas, no clube, tenho o compartilhamento e o senso de comunidade que não é completo no mundo virtual.

Poderia citar outros ainda, em termos mais gerais - livros que tratam de um gênero específico, ou que analisam o conjunto da obra de um autor. Um bom volume de referência, inclusive para questões de contexto, é O Livro da Literatura, da coleção Grandes Ideias de Todos os Tempos. Não é um livro completo, porque é impossível ser completo ao destrinchar toda a História da Literatura no Mundo, mas ele serve como uma base de pesquisa. Segredos do Romance Policial, da P. D. James também funciona na mesma verve, voltado, claro, às histórias policiais (e tem a vantagem de ser de autoria de uma das grandes autoras do gênero). Para quem se interessa por folhetins e o impacto social deles, há o excelente Folhetim: Uma História, da Marlyse Meyer, que li em meu primeiro ano de faculdade e se transformou para sempre no meu parâmetro de como deve ser feita uma pesquisa literária. De autores, eu ficaria o dia inteiro aqui enumerando só os volumes sobre Austen e Shakespeare que me ocupam as prateleiras. Fiquemos, pois, apenas na parte geral por hoje.


Enfim, essa é minha biblioteca básica de crítica literária. São os livros com que aprendi a analisar minhas leituras e escrever resenhas. Olhando ao final, é um rol bastante eclético. Mas há uma coisa em comum a todos esses títulos: paixão. Na minha lista estão acadêmicos, professores e escritores, gente que enxerga a literatura por muitos ângulos, mas todos eles são claramente apaixonados pelo mundo das palavras e pelos livros que nos apresentam. Lendo seus artigos e ensaios, minha impressão sempre é de alguém que, ao terminar uma história que de alguma forma o tocou, sentiu necessidade de compartilhar, de conversar com outra pessoa sobre como aquilo tudo era incrível, fascinante, maravilhoso - ou, no contrário, de como era terrível, por que perdi horas da minha vida lendo isso? (afinal, miséria adora companhia).

Alguns descobri nesses dez anos de Coruja, mas vários foram leituras que fui acumulando em anos de formação, ainda adolescente, e serviram como impulso para a ideia de ter um blog. Elas tiveram tamanho impacto que, mais de uma década depois, ainda os utilizo como referência, como ponto de partida de pesquisa, como inspiração. Nesse aniversário, parte da minha comemoração pessoal é reler as partes grifadas e comentários escritos a lápis nas margens. Um presente de mim, para mim… e, com esse artigo, para vocês também.

Dez Anos em Dez Ensaios: Alguns dos meus ensaios favoritos escritos aqui no Coruja nesses dez anos são sobre crítica literária e processos de criação. É possível encontrar uma compilação deles na área de artigos e ensaios do Coruja, a Encyclopaedia. De toda forma, segue abaixo uma lista de alguns dos textos e especiais mais metanarrativos publicados no blog nesses últimos dez anos!

A Jornada do Herói || Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V

Meu Autor, Meu Herói: notas sobre leituras e escrevinhações - esse talvez seja meu artigo favorito em todos esses anos de escrita… vários dos livros que aparecem nessa minha biblioteca básica são citados no texto.

Censura e Empatia: Sobre Alertas de Gatilho e Leitores de Sensibilidade - uma reflexão sobre responsabilidade literária.

Livros são Prejudiciais? Réplica de uma Leitora - resposta a um comentário que acabou virando um artigo sobre o peso das palavras, o uso da literatura e censura.

Folhetins e uma dose de açúcar direto na veia - uma defesa dos romances e da chamada ‘literatura de mulherzinha’.

Romance Gótico: Uma História - uma contextualização do horror como gênero literário.

Hábitos de Escrita de uma Virginiana Neurótica - um pequeno roteiro (inclusive bibliográfico) dos bastidores de “escrevinhação” corujesca.

Biblioteca de Crítica Corujesca

A fim de facilitar a vida do leitor que talvez se interesse em ir atrás deles, segue a lista dos livros citados nominalmente neste artigo, divididos por autor, e na ordem em que são citados ao longo do texto. Não é um rol exaustivo de tudo o que tenho/li sobre o assunto - e embora muitos deles eu tenha em inglês, preferi deixar aqui o link para a tradução -, e eu poderia ter adicionado mais títulos sob o nome de cada autor, mas como me restringi aqui aos volumes que me causaram maior impacto, decidi ficar só neles ou a lista ficaria imensa...

Umberto Eco
Interpretação e Superinterpretação
Sobre a Literatura
Confissões de um Jovem Romancista

Harold Bloom
O Cânone Ocidental
Shakespeare: a invenção do humano

Italo Calvino
Por que ler os clássicos?

Virginia Woolf
O Leitor Comum
Um Teto Todo Seu

Edward Said
Orientalismo: o Oriente como Invenção do Ocidente

Francine Prose
Para ler como um escritor

James Wood
Como Funciona a Ficção

J. R. R. Tolkien
Sobre Histórias de Fadas

C. S. Lewis
Sobre Histórias

Joseph Campbell
O Poder do Mito
O Herói de Mil Faces

Vários Autores
O Livro da Literatura

Christopher Vogler
A Jornada do Escritor

P. D. James
Segredos do Romance Policial: História das histórias de detetive

Marlyse Meyer
Folhetim: uma História

Alberto Manguel
Os Livros e os Dias
À Mesa com o Chapeleiro Maluco
A Cidade das Palavras
Uma História da Leitura

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Antes que eu me esqueça... durante o mês de maio estará rolando o sorteio de aniversário do blog, com um kit bem legal inspirado nos dez anos de Coruja. Para participar, é só seguir as instruções que aparecem nesse post.


A Coruja


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6 comentários:

  1. Muito bom mesmo. Tenho que voltar mais vezes, pois de uma tacada só não dá. Continuo achando que tem muita abobrinha na réplica de uma leitora.
    :-)

    :-)

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    1. A lista é grande mesmo; terminei esse fim de semana outro que, se tivesse lido antes, tinha entrado para esse artigo.

      Abobrinhas são questão de opinião, concordamos em discordar ;)

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  2. A Rainha é fantástica mesmo. Sempre dá pra aprender muito com ela. ^^
    Volte quantas vezes quiser. É sempre bem vindo um convidado a mais na mesa- digo, na biblioteca!

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    1. kaili,
      Por enquanto que encho a minha barriga com comida, para ter sustento e continuar na minha caminhada, prefiro ficar olhando e escutando pelo lado de fora da janela. Gosto mais do ar livre, minha senhora. Que Deus pague a sua rainha!

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  3. Salvando esse textão no meu Kindle! Muita coisa boa aí, algumas já li trechos, outros tenho na estante e ainda não peguei pra ler... É livro demais, sem-or.

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    1. Dilema de leitor: ter sempre mais livros que tempo de ler... Que bom que gostou! É sempre bom compartilhar essas leituras, né?

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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