9 de maio de 2017

A Jornada do Herói - Parte II: O Chamado da Aventura


A jornada do herói pensada por Joseph Campbell é, reduzida a sua essência, um ciclo em três partes, sendo a primeira delas a separação ou partida. Nessa fase da narrativa somos apresentados ao herói, que vive uma existência mundana, comum, até receber o chamado da aventura - o estágio introdutório do monomito.
“Pequeno ou grande, e pouco importando o estágio ou grau da vida, o chamado sempre descerra as cortinas de um mistério de transfiguração - um ritual ou momento de passagem espiritual que, quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento. O horizonte familiar da vida foi ultrapassado; os velhos conceitos, ideais e padrões emocionais, já não são adequados; está próximo o momento de passagem para um limiar.”
Frequentemente, um arauto anuncia a aventura. Essa é a figura que empurra o herói a avançar na história: ele não é necessariamente um personagem, podendo ser apenas um acontecimento, um marco que dá o impulso inicial para o que acontecerá a seguir. A figura do arauto também pode se confundir com a do mentor e do vilão - facetas arquetípicas possíveis num mesmo personagem, sobre os quais falaremos em outra parte desse especial.

O início da saga de Harry Potter tem todas essas possibilidades de arauto, a depender da interpretação que o leitor dê de qual seja o momento do chamado da aventura de Harry (na minha opinião, são todos): quando Voldemort ataca a casa de Godric’s Hollow e marca Harry com a cicatriz; quando as cartas de Hogwarts começam a chegar ao número 4 de Privet Drive e, claro, a entrada retumbante de Hagrid em cena. A escolha de Voldemort por Harry é o pontapé inicial para toda a jornada que o garoto fará ao longo dos sete livros; e as cartas são o primeiro convite para deixar o mundo mundano em que vive - ainda que Harry nunca consiga ler sua correspondência. Hagrid, por sua vez, que explica para Harry seu passado, sobre a existência da magia e o leva para o Beco Diagonal para dar os primeiros passos em sua nova realidade, é a figura mais tradicional do arquétipo.


Tanto em O Hobbit quanto em O Senhor dos Anéis, Gandalf atua como arauto, primeiro cumprimentando Bilbo à frente de sua toca e marcando sua porta para a chegada dos anões; depois apressando Frodo para fora do Condado, carregando o Um Anel. Ao mesmo tempo, ele também possui as características de mentor, guiando os personagens em seu caminho.

Seja como for, o destino convoca o herói, quer ele se apresente como tributo, quer seja enviando um agente; começando com um erro ou a desobediência a uma proibição - algo muito comum nos contos de fadas -, ou simplesmente um desvio da rotina, algo que atrai o protagonista para fora de seu cotidiano.

Este é um estágio necessário para estabelecermos não apenas o que está em jogo na história e para conhecer o protagonista, mas também porque precisamos de contrastes. Heróis não nascem prontos, é preciso que eles se provem, que se ergam de uma origem simples ao patamar de lenda. E essa origem simples, mundana, dá espaço ao crescimento do personagem. Começar como um sobrinho de fazendeiros num planeta esquecido do Império torna a revelação do potencial de Luke Skywalker como um Jedi algo muito mais impressionante.

O herói pode imediatamente aceitar o desafio que lhe é proposto, arrumar a mochila, jogá-la nas costas e começar a caminhar. Mais vezes acontece, porém, que ele relute em deixar o que lhe é familiar para participar de algo que ele não conhece e não sabe como vai terminar (além de potencialmente perigoso, podendo terminar até em morte…). É o segundo estágio da jornada: a recusa do chamado.

Há muitas razões para que o herói se recuse a iniciar a jornada: talvez ele ache que não está suficientemente preparado ou tenha outras responsabilidades que não pode abandonar. Talvez ele esteja com medo ou por demais acostumada aos confortos de seu lar. Fato é que podemos simplificar todos esses pretextos num único simples motivo: trata-se de “uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio”.

Shadow Moon, de Deuses Americanos, reluta em aceitar o trabalho oferecido por Mr. Wednesday, que só consegue empregá-lo mediante coação - e por uma boa parte da história também se recusa a acreditar no caráter divino de seu chefe ou nas coisas extraordinárias que estão acontecendo ao seu redor.

Outro personagem que sempre me vem à mente quando penso na recusa do chamado é Aragorn. Ainda que seja, desde o princípio, uma figura heróica na saga de Tolkien - Passolargo, o Guardião - ele nega e foge por anos de seu título, sua herança e até seu próprio nome. Ele é um caso interessante sobre o qual refletir, porque atendeu de forma parcial ao chamado, tornando-se um protetor, mas não se permitindo alçar à grandeza que realmente merece. Aragorn se força a ser menos do que realmente é e sua recusa se deve ao medo de que, assumindo o manto de herdeiro de Isildur, herde também sua desgraça.

É necessário então que o herói seja confrontado com uma situação que force sua mão, na qual fugir não seja mais uma prioridade ou mesmo uma possibilidade. Para Aragorn, é o momento em que toda a esperança parece perdida, quando tem de enfrentar um exército de mortos e, apropriando-se de seu título como Rei, cobrar a velha dívida que salvará Minas Tirith.


O terceiro estágio descrito por Campbell é o auxílio sobrenatural. A aventura começa muitas vezes com um encontro com uma figura protetora que fornece ao herói ferramentas para iniciar seu caminho. Amuletos, talismãs, conselhos, sapatinhos de cristal… É o auxílio das fadas-madrinhas nos contos de fadas ou Obi-Wan Kenobi entregando a Luke o sabre de luz que pertenceu ao pai do rapaz.

Esta etapa da narrativa serve para dar ao herói confiança: ele está deixando para trás o mundo ordinário, mas o auxílio que lhe é prestado - seja os ensinamentos de um mentor, seja a companhia de uma confraria de hobbits e um Guardião ranzinza a caminho de Valfenda ou uma espada mítica - permite que ele esteja minimamente preparado para atender ao chamado.

Munido de tudo o que pode levar consigo para tornar o caminho mais fácil, é chegado o momento do herói deixar o mundo ordinário para trás: é a passagem pelo primeiro limiar, o ponto do qual não há mais retorno para nosso protagonista. É um momento que define a vida do herói, sendo muitas vezes o primeiro momento em que ele escolhe de forma ativa enfrentar a jornada.

A passagem do limiar pode ser o simples ato de passar pela porta de sua toca e sair correndo desvairado por todo o Condado atrás de uma companhia inteira de anões potencialmente suicidas, dispostos a enfrentar um dragão numa montanha. Ou pendurar um monte de balões em sua casa para fazê-la voar até a cachoeira que você queria ter visto quando sua esposa ainda era viva. Meu exemplo favorito, contudo, é do jovem Tristan de Stardust, que deixa seu cotidiano ordinário na cidade de Muralha e literalmente pula o Muro que divide o mundo comum numa cidadezinha rural inglesa de Faërie, o reino encantado. Tristan até mesmo enfrenta - ou melhor, engana - o guardião do limiar, outra figura arquetípica da jornada, o primeiro obstáculo do herói, que pode ser tanto o zelador de uma passagem pelo Muro quanto as próprias inseguranças do protagonista (ou uma cantina cheia de aliens extremamente disposta a arranjar briga).

Outro exemplo bastante clássico é do Rei Arthur. Gosto muito da versão de T. H. White para as lendas arturianas, com Merlin como ativo participante da educação de Art desde a infância - a figura do mentor por excelência e excelente para demonstração do que seja o auxílio sobrenatural -, sendo o ato de retirar a espada da pedra a própria travessia do limiar. A aquisição de Excalibur representa o fim da existência plebeia de Arthur, com o reconhecimento de sua paternidade e consequente coroação.


A travessia do limiar é um ato simbólico poderoso, que representa comprometimento, mudança: é literalmente a transição do antigo para o novo.

O último estágio da primeira parte do ciclo do herói é o ventre da baleia. Campbell observa que a passagem do limiar é uma forma de auto-aniquilação - você morre no mundo ordinário e precisa encontrar sua nova identidade. Isso não ocorrerá, contudo, até que você comece a se provar e o ventre da baleia representa justamente isso: o primeiro perigo, a primeira vez em que o herói tem de demonstrar porque ele foi escolhido para essa jornada.

Campbell utilizou para nomenclatura deste estágio a história bíblica de Jonas, mas prefiro pensar essa etapa como o momento em que o herói descobre seu primeiro covil de dragão. Harry Potter e a Pedra Filosofal tem uma cena que se presta muito bem à compreensão dessa parte: Hermione presa no banheiro com o troll, e Harry e Ron correndo para salvá-la - mais que justo, considerando que foram eles que trancaram a garota com a criatura. Esse é o primeiro grande confronto de Harry e é também o momento que dá impulso à formação do trio, algo que definirá os três personagens até o último livro da série.

Terminamos assim a primeira etapa da jornada. E agora, é hora da aventura começar de verdade.


(Continua em “O Caminho das Provas”...)


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog