14 de outubro de 2010

Para ler: O Único e Eterno Rei de White




- A melhor coisa a fazer quando se está triste – respondeu Merlin, começando a fumar e soltar baforadas – é aprender alguma coisa. Essa é a única coisa que nunca falha. Você pode ficar velho e trêmulo em sua anatomia, pode passar a noite acordado escutando a desordem de suas veias, pode sentir saudades de seu único amor, pode ver o mundo ao seu redor ser devastado por lunáticos malvados ou saber que sua honra foi pisoteada no esgoto das mentes baixas. Só há uma coisa para isso: aprender. Aprender porque o mundo gira e o que o faz girar. Essa é a única coisa da qual a mente não pode jamais se cansar, nem se alienar, nem se torturar, nem temer ou descrer, e nunca sonhar em se arrepender.

T. H. White – A Espada na Pedra


Pensei muito com meus botões se fazia a resenha de algum livro específico – dos muitos que li nos últimos meses para poder escrever esse especial. Descartei de cara os textos medievais (embora tenha deixado os links ao longo do artigo) porque não acho que haja muitos malucos por aí como eu que estejam interessados em ter dores de cabeça com inglês arcaico.

Pensei n’As Brumas de Avalon que já é um clássico e n’As Crônicas de Arthur que é um queridinho hoje em dia. Mas eu não queria livros sobre intrigas palacianas e combates sangrentos e conflitos religiosos.

Em vez disso escolhi um clássico meio esquecido que ainda, de bônus, entrava na minha meta dos “grandes clássicos da fantasia pré-Tolkien”.

T. H. White escreveu sua coleção “O Único e Eterno Rei” entre 1938 e 1941. São cinco livros no total – embora, inicialmente, a obra tenha sido vendida como uma tetralogia e O Livro de Merlin só foi publicado postumamente, sem a revisão do autor.

O primeiro livro é A Espada na Pedra e contra a trajetória do jovem Wart, vivendo no castelo da floresta Sauvage, sob a tutela de Sir Ector, irmão de Kay, de quem estava destinado a ser escudeiro, uma vez que não era um filho legítimo.

Wart conhece Merlin, um mago meio louco que vive na floresta e que o tomará como aprendiz – em suas lições, Merlin transforma Wart em peixe, falcão, formiga, texugo e por aí afora. Entre suas andanças como animal e seu treinamento com Kay, ele ainda arranja tempo para viver aventuras envolvendo a Fada Morgana, Robin Hood e o Rei Pellinore, com sua eterna busca pela Besta Gemente.

Merlin vive de trás para frente. Dessa forma, volta e meia ele conta a Wart coisas que aconteceram - aconteceram no futuro. Faz comparações de alguns personagens com ídolos do basebol e golfe, e reclama de um certo austríaco que arrastou o mundo inteiro para o caos.

Não é à toa que o pobre Merlin é tão confuso. Não consigo imaginar como seja viver de trás para frente. Fora isso, na minha opinião, a barba dele provavelmente criou todo um ecossistema próprio.

Ao longo desse tempo, Merlin inculca em Arthur seus pensamentos sobre a Guerra, sobre o Poder, a Força, o Direito – idéias que irão nortear toda a vida de Wart após ele ter puxado uma certa espada na pedra, ser coroado rei e assumir seu verdadeiro nome: Arthur.

Este primeiro livro foi adaptado em filme pela Disney, com o título em português de A Espada era a Lei e sua principal diferença do livro, ao menos ao meu ver, é a maneira como Wart é criado por Sir Ector e sua relação com Kay – no filme, os dois são um tanto cruéis com Wart, explorando-o constantemente, enquanto que no livro, ainda que Wart continue e ser um “bastardo”, ele é bem tratado por Sir Ector, estando em pé de igualdade com Kay (exceto pela parte em que ele está sendo treinado para ser escudeiro, e não cavaleiro), que o trata como um irmão caçula (e ele também não está só interessado em comida e é burro como uma porta – afinal, Arthur o nomeia seu senescal, ou administrador; não o faria assim se Kay fosse tão idiota quanto no filme...).



E se vocês assistirem ao filme, entenderão porque a barba de Merlin é um ecossistema em si.

O segundo livro é A Rainha do Ar e das Sombras. Particularmente, é o que menos gosto da coleção, pois pula dos Órcades – os filhos de Morgause e Lot – para Arthur, Merlin e Kay conversando sobre política e guerra (as melhores partes desse volume, na minha opinião), constantemente fazendo essas mudanças de cena de uma forma que nem sempre faz sentido.

Aqui, Arthur está guerreando contra os barões e outros reis menores que não o reconhecem como Grande Rei. Merlin está constantemente forçando Arthur a pensar por si mesmo, a entender que às vezes uma guerra é necessária para evitar um mal maior, semeando o que virá a ser o cerne do ideal da Távola Redonda: utilizar a força dos cavaleiros, que até então trabalhavam apenas para si, pilhando, matando, estuprando, destruindo, para uma causa maior – a proteção do povo, a busca pela perfeição, a retidão nas ações, o respeito aos semelhantes, a justiça, a coragem e a lealdade.

Enfim, a Força a serviço do Direito.

É também nesse volume que Arthur se apaixona por Morgause e a deixa grávida de Mordred. Merlin está cada vez mais confuso – especialmente porque Nimue entrou no quadro – e assim, avisou ao pupilo que ele se casaria com Guinevere mas ela o trairia com um de seus melhores amigos e esqueceu de dizer que a mãe dele se chamava Igraine.

Ao fim e a cabo, Merlin é preso numa caverna por Nimue – coisa que ele já previra mesmo antes de conhecer a moça (o que não o impediu de se apaixonar pela moça, o que prova mais uma vez que o amor é burro). Ou, como melhor sintetiza White, “Talvez todos nós sejamos assim: damos a melhor parte de nossos corações, sem crítica, àqueles que, em troca, mal pensam em nós.”

Chegamos então ao terceiro volume da saga, que, particularmente, é o meu favorito. O Cavaleiro Imperfeito nos apresenta Lancelot, que, diferente de outras obras, está longe de ser o modelo ideal da perfeição, a própria imagem da beleza.

Lancelot é feio. Tem uma certa propensão ao sadismo (que está sempre tentando conter) e, curiosamente, ele só se apaixona por Guinevere após perceber que a magoou – antes, ele detestava a rainha.

Veja bem... Lancelot era criança quando conheceu Arthur, nas guerras do segundo volume. O jovem rei rapidamente tornou-se ídolo de Lancelot, especialmente quando Arthur prometeu que iria ele mesmo sagrá-lo cavaleiro quando fosse mais velho.

Lancelot volta para França com seu pai, o Rei Ban e lá passa os anos seguintes estudando e se aperfeiçoando como cavaleiro: ele se dedica de corpo e alma a essa tarefa, seus pensamentos sempre voltados para Arthur. Lancelot, a essa altura, já se decidiu que se tornará o maior cavaleiro do mundo, por seu rei.

Finalmente, completando a idade e terminado seu treinamento, Lancelot parte para Camelot, vence o próprio rei em combate, é sagrado cavaleiro e detesta a rainha, pois vê Guinevere como uma ameaça diante de sua afeição pelo rei.

É, pois é, Lancelot sente ciúmes de Guinevere, porque ela é a rainha e está mais próxima do rei que ele.

Arthur, que já considera muito seu jovem cavaleiro, pede a esposa que seja gentil com ele. E assim, Guinevere dispensa gentilezas a Lancelot, todas as quais ele despreza, até um dia gritar com ela e perceber pelos olhos da moça que acabara de magoá-la.

E então, ele começa a se apaixonar.

Para evitar uma traição ao rei, Lancelot parte pelo mundo, em busca de aventuras e, todos aqueles que derrota, ele manda para Camelot, para se ajoelharem aos pés da rainha, e dizer que por ela, o cavaleiro tinha feito isso e aquilo.

Diante da devoção que Lancelot demonstra, mesmo em sua ausência, Guinevere se apaixona por ele.

Mesmo quando ele descobre que seu afeto é recíproco, contudo, Lancelot resiste fazer qualquer coisa com a rainha, primeiro porque ele ainda ama Arthur, segundo porque ele quer permanecer puro de corpo e alma, para continuar a ser o melhor cavaleiro e terceiro porque ele é extremamente religioso e acredita que se permanecer puro, poderá fazer milagres e ajudar mais as pessoas.

Lancelot vê-se como uma pessoa perversa e cruel e tenta a todo custo não deixar que outros vejam esses predicados. Ele se esforça de forma quase sobre-humana a ser um bom homem, mas nunca acha o suficiente.

Talvez ele tivesse conseguido manter-se puro e leal aos valores pelos quais tentou se reger desde o começo, não fosse por Elaine, uma donzela que ele salvou – salvamento esse que foi um milagre. Mas ela se apaixonou pelo herói, e usou de encantamentos e mentiras para seduzi-lo.

Dessa forma, Lancelot, pensando que ela era Guinevere, e tonto pelo efeito do vinho e de encantamentos, dormiu com Elaine.

Ao acordar e perceber o que fizera, o pobre cavaleiro quase enlouqueceu. Perdera sua virtude (Lancelot era virgem até então, até porque, passara a juventude toda treinando, sem tempo para quaisquer folguedos de outros rapazes de sua idade, que dirá mulheres), agora não poderia mais fazer milagres, não seria mais o maior cavaleiro do mundo.

De forma que, se tudo estava perdido mesmo, que mal faria sucumbir a tentação dos braços de Guinevere?

Entre O Cavaleiro Imperfeito e A Chama ao Vento, temos a chegada de Galahad, filho de Lancelot; a busca pelo Graal, a chegada de Mordred à corte. As sementes plantadas para a ruína de Camelot começaram todas a germinar e crescer.

Os melhores cavaleiros da távola foram quase todos perdidos na busca pelo Santo Graal; o romance de Lancelot e Guinevere é exposto e, diante das novas leis de Arthur, que começava a implantar um Código Civil e um sistema judiciário forte, o rei é forçado a condenar Guinevere à fogueira e banir Lancelot.

Entre idas e vindas, a guerra estoura – Mordred aproveitou a ausência de Arthur, que seguiu, por lealdade, o sobrinho Sir Gawain, que busca vingança de Lancelot por este ter matado seus irmãos no resgate da rainha, para dar um golpe de estado, liderando uma espécie de revolução bolchevique.

Não, sério, Mordred se chama de bolchevique.

A Inglaterra está então em guerra civil. E eis que Merlin volta, para guiar seu eterno discípulo uma última vez, ao longo do quinto volume, O Livro de Merlin.

Algumas das cenas deste livro foram usadas, na revisão, para A Espada na Pedra. Como White não chegou a revisar esse último livro e ele só foi publicado posteriormente, tais capítulos se repetiram.

Isso não tira, contudo, a beleza do último volume. White aproveitou este livro para expor suas idéias sobre a guerra, sobre o animal humano, sobre o totalitarismo e cidadania. Não é à toa, afinal, ele escreveu boa parte da história durante a Segunda Guerra Mundial.

O Único e Eterno Rei é inspirado no Le Morte d’Arthur de Malory, mas, ao contrário deste, que se concentra principalmente nas justas dos cavaleiros, White toma um viés mais filosófico e moral para sua obra.

Não que ele tente nos doutrinar. O Arthur de White é mais humano que qualquer outro de seus predecessores; cada um dos personagens ganha profundidade, desejos, características, personalidades fortes, de forma tal que somos capazes de nos identificar com cada um deles.

Os livros têm uma cadência toda própria – alguns poderiam dizer que são livros para crianças, mas eu não concordo com isso. O tom que White imprimiu aos livros não é infantil, mas de uma expressa oralidade – é uma obra que se adéqua perfeitamente à leitura em voz alta, uma história para ser cantada por bardos.

Eles falam de verdades universais, discussões morais que sempre teremos – dos conflitos, da religião, das paixões, da justiça, da esperança. É um estudo, enfim, da própria natureza humana.

É uma história que emociona, que inspira, para ser lida várias vezes e, mais que qualquer outra coisa, para ser compartilhada.




A Coruja


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Um comentário:

  1. Engraçado,
    eu achei mais interessante ler em voz alta que apenas passando a vista kkkkkk
    Concordo com você,não acho que seja uma leitura para crianças até mesmo porque exige muito para uma.
    TÔ adorando pena que o livro ''A CHAMA AO VENTO'' não seja encontrado nem na estante virtual! :( Vou comprar a maioria pela edição do W11 que é bem mais bonita :D

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