23 de maio de 2017

A Jornada do Herói - Parte IV: Retorno


Terminada a jornada e alcançado o objetivo, é o momento de o herói voltar para casa e descansar sobre seus louros, levando consigo aquilo que ganhou/aprendeu para compartilhar com a comunidade que deixou para trás no início do caminho. Ou… quem disse que seria tão fácil assim?

Na fase do retorno, espelhamos os acontecimentos da primeira parte do ciclo, iniciando com a recusa do retorno. Afinal, o herói, no mundo extraordinário em que penetrou ao atravessar aquele primeiro limiar, foi elevado de sua posição original para um status quase divino. Considerando que há grandes possibilidades de seu retorno, em vez de ser celebrado, render-lhe o apelido de “Mad Baggins”, porque voltar? Depois de tantas aventuras, tanta adrenalina e excitação, como conseguir se reacostumar à calmaria?

Talvez seja possível ficar. Talvez o verdadeiro lar do herói seja esse novo mundo - como Tristan, de Stardust, descobre, ao ser reunido com sua mãe. Talvez haja companheiros de que o herói não queira se despedir. Nada impede que o herói permaneça, quebrando assim o ciclo. Ou talvez ele verdadeiramente anseie pela volta, cansado dos sacrifícios que a jornada lhe cobrou. O retorno ao mundo mundano seria sua verdadeira recompensa, porque significaria paz e conforto, um bálsamo para a dor de um coração partido, pelo luto dos amigos que não sobreviveram (incidentalmente, gosto de pensar que esse foi o real motivo para Bilbo voltar para o Condado em vez de ficar na Montanha Solitária).

Certo é que, muitas vezes, o herói tem responsabilidades no mundo cotidiano e deve voltar a elas. Ainda que ele ache essas responsabilidades monótonas. Ainda que isso signifique abrir mão da glória e adulação que encontrou no mundo extraordinário. É necessário se pôr a caminho, abrir mão do egoísmo e partilhar as maravilhas que encontrou com o resto do mundo.

E aí pode acontecer de o herói conseguir refazer seus passos de volta ao lar tranquilamente. Ou pode ocorrer mais um estágio - a fuga mágica - seja porque o herói está fugindo com o objeto que veio buscar no mundo extraordinário, atraindo a fúria ou a cobiça de algum outro personagem ou porque há uma constrição de tempo e ele deve voltar ao mundo mundano com seu elixir para que ele possa fazer efeito. Costuma haver um certo elemento cômico aqui, como João descendo o pé-de-feijão às pressas, com o gigante já às suas costas. Ou pode ser algo totalmente trágico: Medéia convencendo Jasão a matar e esquartejar o irmão dela para que os pedaços do rapaz, jogados ao mar, atrasem a perseguição do Rei Eetes, desejoso de recuperar para si o Velocino de Ouro, mas tendo de recolher os restos mortais do filho.

Com sorte, haverá alguma interferência divina ou algum aliado resgatará o herói - é o resgate com auxílio externo Do ponto de vista de um bom roteiro, é importante que não se trate de uma solução ‘ex-machina’: a essa altura dos acontecimentos não é bom simplesmente tirar um coelho da cartola, de forma que essa é uma fase que funciona melhor quando o aliado que resgata o herói está devolvendo um favor, uma cortesia que o protagonista lhe fez no passado.


Hulk saltando para socorrer o Homem de Ferro em queda livre ao final do primeiro filme de Os Vingadores é uma imagem que encaixa bem nesse momento da história. Ou Han Solo, surgindo do nada, limpando o caminho para Luke dar o disparo final que acaba com a Estrela da Morte.

Assim como no início da história ele atravessou uma fronteira para chegar ao mundo extraordinário, o herói agora precisa fazer a passagem pelo limiar de retorno. Como diz Campbell, “o herói que retorna, para completar sua aventura, deve sobreviver ao impacto”, ou seja, ao choque. Da mesma forma que, quando partiu, tudo lhe era novo; agora, no regresso, sua realidade é algo com que está desacostumado e, talvez, ainda haja algum último confronto para que se possa, finalmente, voltar à rotina.

É bom lembrar que, simbolicamente, a passagem pelo primeiro limiar representava uma ‘morte’ do herói para sua vida comum; o limiar de retorno, por sua vez, é um renascimento.

Quando Frodo, Sam, Merry e Pippin retornam ao Condado ao fim de O Senhor dos Anéis, encontram Saruman e Gríma escravizando os hobbits, e é só com a expulsão dos dois e seus comparsas que eles podem de fato considerar que estão de volta. Sherlock Holmes, que precisa ‘morrer’ para acabar com os planos de Moriarty, ‘renasce’, passando pelo último obstáculo representado por Sebastian Moran, que pode ser considerado um guardião do limiar de retorno.

Tendo estado ‘lá e de volta outra vez’, derrotado todos os seus opositores, conquistado ‘a liberdade de ir e vir pela linha que divide os mundos’, o herói se torna senhor dos dois mundos. De uma forma literal, a essa altura da jornada, penso sempre nos irmãos Pevensie, os quais se tornam reis e rainhas de Nárnia, não perdendo o título mesmo ao retornar ao seu mundo original e reassumindo o manto quando Aslam os chama de volta. No sentido religioso e simbólico sempre muito lembrado por Campbell, o herói domina corpo e espírito. E esse domínio representa o significado da jornada e seu último estágio: liberdade para viver.


É bom lembrar que muitas vezes o protagonista decide partir de forma totalmente independente. Ele é levado pelas circunstância, pelo destino, às vezes até forçado a tomar uma atitude, para sua própria sobrevivência. Não consigo pensar em nenhum herói que simplesmente acorda um dia e diz consigo mesmo ‘vou me jogar em uma grande aventura da qual possivelmente não retornarei vivo e nem tenho muita ideia se vou ganhar alguma coisa com ela ou se ela vai beneficiar alguém’. Pelo contrário, todos têm algum impulso ou empurrão inicial, mesmo que eles não recusem o chamado. Tendo passado por toda a jornada, feito todos os sacrifícios e amadurecido, o protagonista tornou-se de fato livre.

É interessante pensar que Campbell iguala liberdade com conhecimento. A jornada, em sua essência, é uma busca por si mesmo, pela verdade, e pela compreensão do próprio ciclo da vida (qualquer semelhança com O Rei Leão não é mera coincidência):
“O alvo do mito consiste em dissipar a necessidade dessa ignorância diante da vida por intermédio de uma reconciliação entre consciência individual e vontade universal. E essa reconciliação é realizada através da percepção da verdadeira relação existente entre os passageiros fenômenos do tempo e a vida imperecível que vive e morre em todas as coisas.”
Não significa necessariamente que o herói alcançou a felicidade. Na verdade, as mudanças que ele sofreu o destacam do resto da comunidade - ele não consegue se readaptar a realidade anterior. Mas ele amadureceu o suficiente para saber que o julgamento de seus vizinhos não o diminui. De novo, os hobbits de Tolkien são perfeitos para explicar essa situação: Bilbo, que não se importa de ser chamado de maluco e está sempre disposto a contar uma boa história para quem quiser ouvi-lo; Frodo, que entende que conquistou a tranquilidade para o Condado, mas que sua própria paz não está mais ligada àquela realidade.

O felizes para sempre pode ser casamento, coroação, a conquista do tesouro, ou mesmo de um reino. Mas o fim da jornada vai para além dos ganhos materiais. O leitor, como o herói, termina a história compreendendo melhor o mundo. Ele nos inspira a atravessar nossas próprias provações, a superar preconceitos e ignorância. Nos ensina a ter coragem porque, como bem dizia Chesterton, “contos de fada são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos”. Precisamos de histórias, precisamos de mitos exatamente por isso.
- SAM: É como nas grandes histórias, Sr. Frodo. As que tinham mesmo importância. Eram repletas de escuridão e perigo. E às vezes, você não queria saber o fim, porque como poderiam ter um final feliz? Como podia o mundo voltar a ser como era depois de tanto mal? Mas, no fim, essa sombra é só uma coisa passageira. Afinal, até a escuridão tem que passar. Um novo dia virá. E quando o sol brilhar, brilhará ainda mais forte. Eram essas as histórias que ficavam na sua lembrança, que significavam algo. Mesmo que você fosse pequeno demais para entender por quê. Mas acho, Sr. Frodo, que entendo sim. Agora eu sei. As pessoas dessas histórias tinham várias oportunidades de voltar atrás, mas não voltavam. Elas seguiam em frente, porque tinham no que se agarrar.

- FRODO: E em que nós nos agarramos, Sam?

- SAM: No bem que existe neste mundo, Sr. Frodo. Pelo qual vale a pena lutar.

A jornada do herói é nossa própria jornada. Então, o que me diz, está pronto para atender ao chamado?

(Continua em “Dando um Trato no Roteiro”...)


A Coruja


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