25 de maio de 2019

Dez Anos em Dez Ensaios - Who Run the Discworld? Girls!


Comecei a ler Pratchett pelo humor; continuei pelas protagonistas femininas. Já contei essa história aqui antes: eu tinha uns dezesseis para dezessete anos e me deparei com os primeiros volumes da série Discworld numa livraria perto do colégio. As capas e sinopses me chamaram a atenção e me abolotei por lá para ler no meu intervalo entre aulas - primeiro A Cor da Magia, depois, A Luz Fantástica. Embora tenham me feito rir, fosse só pelas desventuras de Rincewind e Duasflor, talvez eu tivesse ficado por aí e perdido o interesse... não fosse por Direitos Iguais, Rituais Iguais: Eskarina e a vovó Cera do Tempo são as responsáveis por me transformar numa devota seguidora de sir Terry Pratchett.

Nessa história, Eskarina - a jovem protagonista - é a oitava filha de um oitavo filho, um número cabalístico auspicioso para fazer dela uma maga de grande poder. Exceto por um pequeno detalhe: Esk é uma garota e magos, no Discworld, são todos homens. A despeito disso, por questões de tempo e mortalidade, ela herda o cajado de um mago e é escolhida pela magia.

Entra em cena a vovó Cera do Tempo, parteira que ajudou Esk a nascer e, mais importante que isso, uma bruxa notável. Ela reconhece o poder de Esk e tenta, a princípio, fazer a menina enveredar pelo caminho da magia natural às bruxas, algo que é uma mistura de psicologia (ou cabeçologia, no linguajar da vovó), manipulação social, conhecimento de ervas e poder emprestado da natureza ao redor delas. A magia bruta que vive em Esk, contudo, não se conforma às sutilezas dessa via, necessitando das rédeas colocadas na magia de um mago típico: bastões, pentagramas, runas e matemática.

Reconhecendo tal fato, a vovó leva Esk para o único lugar onde ela poderia aprender a usar seu poder: a Universidade Invisível em Ankh-Morpork. Infelizmente, os magos da Universidade torcem o nariz para a possibilidade de deixar uma ‘menininha’ adentrar sua veneranda instituição pela porta da frente, o que leva a vovó a usar de subterfúgios e da porta de trás: ninguém presta atenção numa criada com uma vassoura em salas de aula vazias, olhando para anotações no quadro-negro.

Eskarina Smith. Por Paul Kidby.

Há uma ameaça de potencial apocalíptico pelo meio, mas o grande tema do livro é o contraste entre a maneira como magos e bruxas encaram magia/conhecimento; como certas portas estão fechadas para Esk não por conta de sua capacidade de compreensão, mas simplesmente por ser mulher.

Direitos Iguais, Rituais Iguais foi publicado em 1987, dois anos depois do Pratchett apresentar seu discurso Por que Gandalf Nunca Casou? na Novacon 15. Nessa palestra, ele chama a atenção para estereótipos de gênero na ficção fantástica, concluindo com a mesma expressão que dá título ao livro - Equal Rites, sem a parte dos direitos que apareceu no título traduzido -, o que me parece ser a semente de todo o enredo que se seguiu.

Enquanto eu saqueava o mundo da fantasia pelo próximo clichê do qual extrair algumas gargalhadas, descobri um que era tão profundamente arraigado que você dificilmente percebe que ele está lá. De fato, ele me surpreendeu de forma tão vívida que eu comecei a olhá-lo de forma séria.

Estou falando da geralmente muito clara divisão entre a magia feita por mulheres e magia feita por homens.

Vamos falar de bruxos e bruxas. Há uma tendência a falar deles em um só fôlego, como se fossem simples diferenciações de gênero para um mesmo trabalho. Não é a verdade. Na Fantasia, não há nada como uma bruxa do sexo masculino. Warlocks, eu ouço você exclamar, mas é a verdade. Ah, eu aceito que você pode postular por uma história em particular, mas estou falando aqui de uma tendência geral. Certamente não há algo como um mago do sexo feminino.

Feiticeira? Apenas uma classe melhor de bruxa. Encantadora? Apenas uma bruxa com belas pernas. O mundo da fantasia, na verdade, está atrasado para uma visita do pessoal das Oportunidades Iguais porque, no mundo da fantasia, a magia feita pelas mulheres é normalmente de má qualidade, de terceira categoria, voltada para o lado negativo, ao passo que os magos são normalmente cerebrais, astutos, poderosos e sábios.

Estranhamente, este também é o caso neste mundo. Você não precisa acreditar em magia para perceber isso.

(...)

Agora, você pode partir do princípio que é óbvio que esse é o caso, porque se há um lado ruim para se estar, então as mulheres estarão lá. Qualquer coisa feita por mulheres é automaticamente rebaixada. Essa é a visão amplamente mantida - bem, amplamente mantida pela minha esposa desde que ela começou a ir a encontros de grupos de conscientização - que me diz ser ridículo especular sobre o tópico porque a resposta é tão óbvia. Magia, de acordo com essa teoria, é algo em que apenas homens podem ser realmente bons, e assim qualquer tentativa das mulheres de invadir a relva sagrada deve ser rigorosamente interdita. Mulheres são consideradas pelos homens como o segundo sexo, e sua magia é, portanto, automaticamente inferior. Há ainda um bocado de coisas sobre o medo natural do homem da mulher com poder; bruxas foram pobres mulheres buscando uma das poucas alternativas de poder abertas a elas, e os homens revidaram com tortura, fogo e zombaria.

Eu gostaria que isso fosse tudo. Mas o fato é que o consenso do que seja um universo fantástico absorveu essa idéia e a manteve. Eu me inclino a um ponto de vista diferente, ainda que seja apenas para manter o argumento caminhando, que a coisa toda é muito mais metafórica que isso. O sexo do praticante de magia não entra realmente na questão. O mago clássico, eu sugeriria, representa um ideal de magia - tudo o que esperamos que poderíamos ser, se tivéssemos poder. A bruxa clássica, por outro lado, com seu interesse muitas vezes malévolo nas pequenezas dos relacionamentos humanos, é tudo o que tememos que poderíamos nos tornar.

Bem, nada disso vai me render um PhD. Eu suspeito que através dos insidiosos livros de ilustrações para crianças os magos continuarão a praticar sua alta magia e as bruxas irão realizar seus malignos, temperamentais feitiços. Ainda haverá um longo tempo antes que haja espaço para ritos iguais.

Chamo a atenção para o ano dessa palestra: 1985. Ainda pouco se falava em questões de representatividade e da importância de personagens diversos na literatura. Em específico para ficção fantástica, os modelos para o gênero passavam pela capa e espada de Conan, o Bárbaro e a alta fantasia da Terra-média; nenhum dos quais é particularmente conhecido pelo protagonismo feminino.

A essa altura dos acontecimentos, Rihanna Pratchett, a filha de sir Terry, estava entrando na adolescência. Não posso deixar de conjecturar que isso tenha influenciado na forma como PTerry acordou para o assunto. Julgando pela minha experiência pessoal - e sou dez anos mais nova que a Rihanna - não creio que ela tivesse muitas jovens heroínas para servir de modelo entre os livros que tenha lido com o pai. Porque, bem, foi exatamente por essa razão que descobrir as bruxas do Pratchett me impactou tanto.

Sempre gostei de ler - segundo minha mãe, eu já gostava de livros antes mesmo de aprender a ler - e minha infância foi pontuada por modelos heróicos , personagens que eu dizia com meus botões “quero ser igual a ele quando crescer”. Eu adorava os mosqueteiros de Dumas, o capitão Nemo e outros aventureiros de Verne. Queria achar um mapa para o tesouro e embarcar num navio pirata; e viver aventuras insanas como o Barão de Münchausen. Viajar com os argonautas, descer ao Hades - e, caramba, quantos volumes de mitologia grega li nessa época? Perdi a conta. Em resumo, tenho um monte de heróis literários da minha infância, mas, quando penso nessas minhas leituras de criança, a única personagem feminina que se destaca na lembrança é a Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de quem eu adorava até a ‘torneirinha de asneiras’.

Tinha as princesas dos contos de fadas também, mas nunca simpatizei enormemente com elas, mesmo nas versões disneyficadas. Minha impressão delas era de personagens sem agência, sem escolha, um tanto inúteis, cujo final feliz e realização era sempre o casamento. Nada contra quem se identifica, mas, exceto pelos vestidos fabulosos (tenho um fraco por vestidos de época), eu não me interessava muito por uma vida de princesa. Vide minha antipatia (e horror) pela Bela Adormecida.

Quando adolescente, apareceu a série Harry Potter e, com ele, Hermione Granger. E, se ela se tornou uma heroína particular, com a qual eu me identificava particularmente, Hermione ainda não era uma protagonista. Houve Lyra Belacqua também, de Fronteiras do Universo. Aqui e ali, uma personagem feminina se destacava, mas, em geral, elas estavam ali para completar números e ser interesse amoroso do mocinho. Mais velha, descobri que até existiam muitos bons livros juvenis com protagonistas femininas interessantes na fantasia - escrito por gente do calibre de Diana Wynne Jones, Tamora Pierce e Ursula Le Guin -, mas eles não estavam sendo traduzidos e publicados aqui no Brasil à época em que eu precisava deles.

Eskarina surgiu nesse vácuo não apenas por ser uma personagem feminina, mas porque todo o enredo de Direitos Iguais, Rituais Iguais tratava de uma garota invadindo um campo de atuação tradicionalmente masculino. E, sob um ponto de vista metanarrativo, a coisa toda era ainda mais significativa, porque ela era uma garota a quem tentavam negar a posse da magia - que bem poderia estar aí significando todo o gênero da Fantasia.

Provavelmente estou lendo demais nessa interpretação (talvez não… afinal, é fato sabido que Esk foi inspirada em Rihanna Pratchett), mas foi sob esse ângulo que sir Terry me pescou, e foi sob essa razão inicial que comecei minha jornada de leitura por todos os quarenta volumes de Discworld (e o que mais o cara de chapéu tivesse escrito).

É interessante também perceber como PTerry evoluiu na forma como escrevia suas personagens femininas. Seus primeiros livros, que se preocupam mais com parodiar lugares-comuns do gênero fantástico, não têm mulheres tão memoráveis. Ainda que ele questionasse os papéis tradicionais das mulheres nesses livros, elas meio que são um mesmo molde sem grande personalidade, presentes apenas para dar o gancho necessário à ridicularização do sexismo na fantasia. De forma geral, elas são intercambiáveis e não têm um papel de destaque para além de chamar a atenção para o ridículo de certas convenções (como armaduras de bíquini): belas e sarcásticas, seu principal trunfo costuma ser o de preferir personagens secundários como interesse amoroso aos supostos heróis da história.

Nessa fase temos Bethan, a vítima sacrificial resgatada por Rincewind, Duasflor e Cohen e Herrena, uma heroína bárbara, ambas de A Luz Fantástica (1986), sendo Herrena uma referência óbvia à Red Sonja das aventuras de Conan. A seguir, Ysabel, filha adotiva de Morte e a princesa Keli, de Aprendiz de Morte (1987). Em O Oitavo Mago (1988), a guerreira Conina, filha de Cohen, que sonha em deixar as armas para se tornar cabeleireira. Ptraci, em Pirâmides (1989) e também a provocativa Ginger de A Magia de Holy Wood (1990). A Elenor de Eric (1990) não é uma beldade quando aparece na história, mas considerando ser ela uma versão da Helena de Tróia, a piada aqui seria que, depois de casada, a mulher mais linda da História se deixou 'estragar'.

Pratchett usa e abusa aqui dos estereótipos, no interesse de satirizar tais clichês. Faz rir, e pode ser lido como uma crítica, mas não avança muito na construção de personagens femininas realmente interessantes. E isso contrasta com os protagonistas masculinos desses mesmos livros, que desde o início fogem do convencional.


Aí no meio de tudo isso temos o já citado Direitos Iguais, Rituais Iguais, e o absolutamente brilhante Estranhas Irmãs (1988), no qual Pratchett muda o foco de sua sátira: dos clichês de fantasia para as peças de Shakespeare, numa mistura peculiar de Hamlet com Macbeth, com um trio de bruxas como protagonistas. A ele se segue Quando as Bruxas Viajam (1991) e Lordes e Damas (1992), uma verdadeira trilogia das bruxas de Lancre. Uma segunda série, com Agnes Nitt substituindo Magrat no papel de Donzela, começa com Maskerade (1995) e termina com Carpe Jugulum (1998).

Acho justo que esse melhor desenvolvimento das personagens femininas de Pratchett seja à partir de matéria-prima shakespeariana. Já cuidei do assunto por aqui: as heroínas do bardo costumam estar bem acima do mérito dos mocinhos; elas impressionam por sua inteligência, capacidade de resolver problemas e fugir das convenções sociais (ainda que para tanto precisem vestir calças e pintar bigodinhos). Elas terminam em tragédia ou casamentos que considero bem desiguais, mas, para o contexto da época, não se pode negar o quão poderosas e fascinantes são mocinhas shakespearianas. Pratchett aproveitou muito bem a lição das mulheres fortes e determinadas de Shakespeare.

Vovó Cera do Tempo é apresentada na história de Esk, mas é em Estranhas Irmãs que ela realmente ganha espaço para se desenvolver, ao lado de Tia Ogg - com quem forma uma claque hilariante - e a jovem Magrat. Como tríade, elas representam faces clássicas do arquétipo feminino - Anciã, Mãe e Donzela -, mas estão bem longe de se conformar ao molde. Contra elas temos uma vilã poderosa: a Duquesa, uma versão ainda mais sanguinária de Lady Macbeth. Em jogo está mais que a coroa e o trono de Lancre, mas o poder real sobre o reino (e leve-se em consideração que o reino é quase uma entidade em si mesma).

Esme Cera do Tempo é talvez a personagem mais querida e famosa do Pratchett, com uma reputação aterrorizante no Disco, inclusive entre outras espécies além dos humanos. Líder não oficial das bruxas (que, se perguntadas, certamente afirmarão que não precisam de líderes), vovó é uma criatura ardilosa, senhora de uma autoconfiança impressionante, certa de estar sempre certa e extremamente pragmática. A principal coisa que você precisa entender para compreender o caráter dela é que ser Justo, fazer o Certo, ser Bom (todos com maiúsculas) não faz alguém ser Simpático. Na maioria das vezes, aliás, é impossível ser as duas coisas ao mesmo tempo. Mas isso não importa, porque há coisas que precisam ser feitas e é melhor ser temido e respeitado que bajulado.

Em contraste, Gytha Ogg tem um talento natural para relacionamentos humanos. Ela não passa a impressão de eterno julgamento da vovó e é universalmente querida - exceto por suas noras, a quem explora sem piedade. Tia Ogg tem a mente aberta, é gentil, e gosta de trocadilhos com duplo sentido e motivos fálicos de maneira geral… mas seu bom humor não a faz menos poderosa e temível que a vovó Cera do Tempo, se a ocasião assim o pedir.

Completando a tríade de bruxas de Lancre há Magrat Garlick, jovem, romântica, sonhadora, do tipo que acredita na necessidade de cristais e outros penduricalhos para que a magia possa acontecer. Sua natureza gentil, contudo, não significa que ela não seja capaz de fazer o que é necessário, incluindo vestir armadura e pegar em armas se a ocasião assim pedir. O fato de ser a Donzela não é sinônimo de princesa em risco precisando ser resgatada; muito pelo contrário, Magrat não está aqui para ser prêmio de ninguém; ela tem sua própria personalidade (por vezes até um gênio difícil), por mais que vovó Cera do Tempo ache o contrário e a faça meio que de capacho em alguns momentos.

As bruxas. Por Paul Kidby.

Considerando o papel das bruxas no Disco, como parteiras, curandeiras, guardiãs da realidade (contra mais de uma tentativa de incursão dos elfos, vindos de outra dimensão), cuidadoras na vida e na morte, cada uma das bruxas têm seus espaços de atuação. A vovó é a juíza, presente nos leitos de morte; tia Ogg é conhecida como a maior parteira do Disco e Magrat é, das três, reconhecidamente, a melhor curandeira.

Estranhas Irmãs é genial, tanto em termos de enredo como na construção das personagens. E aí Quando as Bruxas Viajam dá um passo além em termos de representatividade: com exceção das versões humanas de um sapo (forçado a virar príncipe através de magia) e um gato (Greebo, o aterrorizante animal de estimação de tia Ogg), todo o elenco da história é feminino. Na história, bruxas e fada-madrinha se confrontam em torno do futuro da jovem Brasirella: Lilith acredita que sabe melhor do que ninguém o que sua afilhada/protegida deseja (romance, tornar-se uma princesa, dançar no baile), ao passo que as bruxas, comandadas pela vovó, são de opinião que Brasirella deve ser livre para escolher seu caminho.

Acho que não preciso dizer que Brasirella tem suas próprias opiniões sobre o assunto, nenhuma delas afável à ideia de se casar com um príncipe.

Lordes e Damas, o último volume dessa trilogia das bruxas, volta à paródia shakespeariana, com referências a Sonho de uma Noite de Verão e A Megera Domada. Como nos títulos já citados, questões de gênero e papéis femininos são debatidos ao longo de toda a história. Há romance e casamentos, mas não paramos no ‘e viveram felizes para sempre’. Há escolhas e consequências, aprendizado. As personagens crescem, evoluem, e talvez nenhuma faça tanto disso quanto Magrat.

Há quem diga que o fato de Magrat ter se casado e deixado de ser bruxa, ou que vovó Cera do Tempo só alcance seu potencial de maior poder por se privar de uma vida amorosa são sinais de uma visão patriarcal. Pessoalmente, acho que quem tem essa opinião está lendo Lordes e Damas de uma maneira superficial, e se deixando levar pelos próprios preconceitos, porque estarem ou não envolvidas em relacionamentos não fazem essas personagens menos transformadoras.

Magrat não abre mão de seu poder; ela deixa de ser bruxa para se tornar uma rainha. Ela não é uma personagem mais fraca que a vovó por ter escolhido o casamento e a maternidade (o que acontece em Carpe Jugulum); cada uma delas tem seus pontos fortes e, por mais rabugenta que Esme Cera do Tempo aja, ela respeita a capacidade de Magrat. Da mesma forma, vovó não é forçada a escolher entre poder e sexualidade - afinal, aí está tia Ogg com seus vários maridos para provar que não é assim que as coisas funcionam. Mesmo quando a vovó é confrontada com os ecos de um universo alternativo em que, muitos anos antes, ela se deixou capturar num abraço, não há arrependimentos. Foi melhor do jeito que aconteceu em cada universo, simples assim.

O interessante das bruxas de Pratchett - e aqui temos de adicionar Agnes Nitt e também Tiffany Aching, essa última protagonista de sua própria minissérie de títulos - é como ele consegue criar personagens tão complexas, ricas e inspiradoras. Esk foi uma revelação, mas quando li pela primeira vez Os Pequenos Homens Livres (2003), no qual Tiffany debuta, não conseguia tirar da minha cabeça que eu queria ter tido oportunidade de ler aquele livro quando criança. Eu queria ter crescido tendo Tiffany como minha heroína.

Tiffany e os Nac Mac Feegles. Por Laura Ellen Anderson.

Tiffany é corajosa, decidida e criativa. Ela assume suas responsabilidades como bruxa com seriedade. Ela é também ousada e ambiciosa - algo de que nos damos conta quando Tiffany enfrenta a própria vovó Cera do Tempo. Nós a vemos amadurecer ao longo dos volumes da série - Um Chapéu Cheio de Céu (2004), Wintersmith (2006), I Sall Wear Midnight (2010) e o último volume publicado pelo autor antes de falecer, The Shepherd’s Crown (2015) -, passar da infância à adolescência até se tornar uma jovem adulta, viver alguns amores e decepções e, através dos desafios que lhe vão sendo lançados, tornar-se uma digna sucessora da mais poderosa bruxa do Disco. De certa maneira, Tiffany consegue superar a vovó, inclusive equilibrando melhor sua vida pessoal e profissional.

As bruxas de Pratchett contrastam constantemente com os magos da Universidade Invisível: na forma como utilizam a magia, como ensinam seus aprendizes, como se inserem na comunidade ao seu redor. De maneira geral, as bruxas acabam sempre saindo por cima nesses embates, não necessariamente por serem mais poderosas, mas porque têm mais bom senso, uma percepção mais pragmática da natureza e do mundo.

Após a criação das bruxas, regra geral, as heroínas pratchettianas se tornaram bem pé no chão, pouco afeitas a se deixarem levar por arroubos românticos - o que, de novo, não significa que não haja romance em suas vidas - e perfeitamente capazes de se salvarem sozinhas.

Isso fica bem visível nos títulos urbanos da série: as mulheres em Ankh-Morpork estão por todo lugar, incluindo posições de autoridade. Pratchett, nessa fase, está sempre mais à vontade escrevendo mulheres de personalidade forte, práticas e competentes. Há Lady Sybil - a mulher mais rica da região, cuidadora de um Santuário de Dragões e paixão madura de Sam Vimes - e a Sargento Angua, uma lobisomem que entrou para a Guarda da cidade em meio a ações afirmativas e de inclusão impostas por Lorde Vetinari (bom observar que Angua entrou na cota por ser uma lobisomem, embora haja quem acredite de início que é por ela ser mulher). Temos Sacharissa Cripslock, jornalista intrépida do Ankh Morpork Times e a cínica Adora Belle Dearheart e sua política igualitária com os golens e goblins, bem como Susan Sto. Helit, governanta que cuida de bichos-papão debaixo da cama e herdeira de Morte.

A essa altura dos acontecimentos, já deu para se acostumar com a subversão de clichês com que sir Terry brinca o tempo todo. Temos uma galeria de meninas, adolescentes, mulheres jovens e já maduras, beldades e bruxas, vampiras, nobres e plebeias, senhoras casadas, prostitutas e quem esteja perfeitamente satisfeita em permanecer solteira. Há heroínas para todos os gostos, protagonistas que questionam o status quo, que vão às armas ou resolvem as coisas de forma diplomática. São histórias que nós conhecemos, contadas de maneiras novas e provocativas.

Um bom exemplo disso é a forma como ele aborda a ideia dos anões. Boa parte dos livros da série que os citam brinca com o fato de que, independente do sexo, todo anão tem barba. Todos eles vestem armaduras, carregam armas pesadas e é virtualmente impossível reconhecer o gênero de cada um a não ser que o mesmo(a) o declare. De um certo ponto de vista, a sociedade anã é completamente igualitária - e é preciso muito tato para começar um flerte quando se está entre anões.

Mas aí entra em cena Cheery Littlebottom, em Feet of Clay (1996), chegando à Guarda de Ankh-Morpork para assumir o posto de perito forense. Começando uma amizade com a Sargento Angua, Cheery descobre pela primeira vez a liberdade de falar sobre assuntos femininos, sobre assumir seu gênero. Porque, embora existam anãs, elas nunca falam abertamente do assunto ou demonstram sua feminilidade; elas nunca usam maquiagem, vestidos, cores. De um certo ponto de vista, parece estranho - porque ela brigaria por coisas como essa? E aí vem a resposta: numa sociedade em que gênero não parece fazer parte da equação, a verdade é que as mulheres podem fazer tudo, contanto que elas façam apenas as mesmas coisas que os homens fazem. É uma atuação, uma performance: não o que elas realmente querem, mas o que se espera delas.

“Veja, há várias mulheres nessa cidade que adorariam fazer as coisas do jeito anão… Quero dizer, que escolhas elas têm? Criada de bar, costureira ou esposa de alguém. Enquanto você pode fazer qualquer coisas que os homens fazem...”

“Desde que façamos apenas as coisas que os homens fazem,” disse Cheery.

Angua fez uma pausa. “Oh,” ela respondeu. “Percebo. Hah. Sim. Eu conheço essa melodia.”

“Eu não consigo segurar um machado!” retrucou Cheery. “Tenho medo de brigas! Eu acho canções sobre ouro estúpidas! Eu detesto cerveja! Eu não posso nem beber com um anão! Quando tento engolir um trago, eu afogo o anão atrás de mim!”

“Posso ver como isso seria complicado,” disse Angua.

É o avesso da medalha, o oposto do que você espera - mas isso nos rende um comentário bem perspicaz sobre expectativas culturais acerca de gênero. Cheery, pouco a pouco, assume sua identidade feminina e, com isso, inicia uma verdadeira revolução social entre os anões. The Fifth Elephant (1999) traz inclusive alguns fanáticos religiosos contra os quais Cheery tem de se digladiar - e o que há sob as barbas desses conservadores pode surpreender ou não quem é capaz de entender o comentário cotidiano por debaixo do mundo fantástico do Disco. Cheery sai da norma, faz aquilo que quer, se veste do jeito que quer - por ela, não por qualquer outra pessoa - e, ao longo de todas as suas aparições, é sempre mostrada como uma perita competente, uma profissional insubstituível para a Guarda.

Damas e Cavalheiros da Guarda. Por s-u-w-i.

Ainda sobre essa questão de expectativas de gênero, talvez seja interessante voltar um pouco atrás na bibliografia e ler um trecho de Os Pequenos Homens Livres, o livro que introduziu Tiffany Aching à série:

Vovó Dolorida provavelmente nunca tinha ouvido falar de pastoras. As pessoas que cuidavam de ovelhas, no Giz, eram sempre chamadas de pastores e só. Não havia nada mais diferente de Vovó Dolorida do que aquela bela criatura.

A pastora de porcelana tinha um vestido longo e antiquado, com aquelas coisas volumosas dos lados, como se ela tivesse um alforje na calcinha. Havia fitas azuis por todo o vestido, por todo o chapéu de palha amarrado debaixo do queixo, que era bastante chamativo, e no cajado de pastor, muito mais cheio de curvas que qualquer cajado que Tiffany já vira.

Havia laços azuis até no pezinho delicado, que aparecia saindo de baixo da barra cheia de babados do vestido.

Era uma pastora que nunca usara botas velhas e grandes, cheias de algodão, para andar com passos pesados no vento forte, com o granizo despencando e sendo lançados de um lado a outro feito pregos. Nunca tinha tentado, com aquele vestido, puxar um carneiro que ficara com os chifres presos nos galhos de espinheiros. Não fora uma pastora que acompanhara o ritmo do tosquiador campeão por sete horas, ovelha por ovelha, até o ar ficar nebuloso de tanta banha e lã, sombrio de tanto xingamento, até o campeão desistir porque não sabia xingar as ovelhas tão bem quanto Vovó Dolorida. Nenhum cão pastor com alguma dignidade jamais iria “por aqui” nem “lá” para uma menina com um sorriso bobo e alforje nas calças. Era uma coisa linda, mas, como pastora, era uma piada feita por alguém que provavelmente nunca vira uma ovelha de perto.

De outro turno, em Jingo (1997) há todo um subplot em que o cabo Nobbs tem de se travestir de mulher para espiar para o Patrício - e a forma como ele é tratado a partir do momento em que troca de roupa faz com que ele passe a demonstrar tendências feministas, um detalhe que volta a cena em livros posteriores (incluindo a parte de se vestir de mulher).

Eles olharam para cima. Alguém com uma face e um avental que diziam ‘barman’ em setecentos idiomas estava de pé diante deles, um jarro de vinha em cada mão.

"Nada de mulheres aqui," continuou ele.

"Por que não?" questionou Nobby.

"Nada de mulheres fazendo perguntas também."

"Por que não?"

“Porque está escrito, é isso.”

"Para onde eu deveria ir então?"

O barman deu de ombros. “Quem sabe para onde as mulheres vão?”

"Vá andando, Beti," interrompeu o Patrício. "E… fique de ouvidos abertos!"

Nobby tomou a taça de vinho de Colon e bebeu de um trago.

"Não sei," ele gemeu. "Eu sou uma mulher há apenas dez minutos e já odeio vocês, homens bastardos.”

Nem tudo é perfeito. Cheery não muda o mundo e há aqueles que a consideram uma não-anão, algo que é ainda mais amargo de engolir quando você tem a comparação com o Capitão Cenoura, um humano adotado e criado por anões que, a despeito da altura, é culturalmente aceito como parte daquela sociedade, independente de sua real espécie. Mas esse é o mundo em que temos de viver - sempre haverá os intolerantes e preconceituosos.

Para terminar, não poderia deixar de falar de Monstrous Regiment (2003), onde, num país desolado pela guerra, Polly descobre que ela não é a única mulher disfarçada no exército. Monstrous Regiment está no mesmo nível de Direitos Iguais, Rituais Iguais, vez que ambos são livros em que o questionamento dos papéis femininos tradicionais está no centro do enredo. Com Esk, temos uma mulher que quer acesso à Universidade, ao conhecimento da magia; com Polly, fala-se do papel das mulheres em períodos de guerra, numa sociedade que não apenas não lhe reconhece direitos como não lhes dá meios de subsistência independente dos homens em suas vidas. Polly acaba partindo para o campo de batalha porque não pode herdar a taverna da família; os bens só podem ir para seu irmão, que desapareceu em serviço. Sem ele, ela não terá sustento. Em seu caminho, ela vai ser jogada numa trama sobre nacionalismo e fanatismo religioso, mas seu primeiro embate é, de novo, uma questão de gênero.

O Regimento Monstruoso. Por Marc Simonetti.

Monstrous Regiment pode parecer contraditório a alguns. O clichê é que mulheres são pacifistas, não gostam da guerra; num livro em que se critica guerra e intolerância, o óbvio seria pensar que, ao incorporar uma mulher ao exército, ela traria contraste à forma de pensar mais sanguinária de seus colegas. Contudo, a guerra em Borogravia já dura tantos anos e já consumiu tantos homens que, à altura em que começamos a história, o exército está praticamente todo na mesma situação de Polly. E essas mulheres travestidas de homens chegaram aos postos de comando, sendo até mais competentes que suas versões masculinas na arte de fazer a guerra. Mas é aí que reside a ironia: são as constrições causadas por uma sociedade bélica e essencialmente machista - na qual qualquer passo em falso dado por uma mulher pode ser considerada uma ‘Abominação’ - a real reflexão do livro. A crítica à guerra está lá, mas é um tema secundário.

Não apenas isso, mas certos diálogos do livro permitem interpretar alguns dos personagens não apenas como mulheres disfarçadas de homens, mas como transgênero. À época em que li Monstrous Regiment pela primeira vez, nunca tinha visto uma personagem do tipo - nem em fantasia nem em outros tipos de literatura. Tenho certeza que Pratchett não foi o primeiro a fazê-lo, mas foi o primeiro que encontrei.

O inimigo não eram homens, ou mulheres, ou os velhos, ou mesmo os mortos. Era apenas pessoas absurdamente estúpidas, o que vinha em todas as variedades. E ninguém tinha o direito de ser estúpido.

Considerando a miríade de personagens femininos desse livro, é extraordinário como sir Terry consegue a dar a cada uma delas sua própria voz, personalidades vívidas e diversas. Ele talvez seja um dos autores de fantasia que melhor sabe escrever mulheres. Pelo menos, é um dos primeiros que me vêm à mente quando me perguntam sobre o assunto.

Tudo isso é importante porque encontrar personagens diversas com as quais você consegue se identificar validam você. Te dão a sensação de não estar sozinho no mundo. Personagens como Tiffany, Angua, Cheery, Polly, ensinam que não existem limites para o que se pode ser, nem como ser quem você é.

No final das contas, há muitas razões para ler sir Terry Pratchett: sua argúcia e sabedoria, pela magia, pela completa insanidade que é um mundo em formato de pizza viajando pelo espaço no lombo de quatro elefantes que, por sua vez, se equilibram na carapaça de uma tartaruga de proporções cósmica. Pela forma como ele te faz pensar, refletir, questionar, como respostas e saídas fáceis não estão disponíveis. E, claro, por seus personagens. Essas são minhas razões (além do fato de ele sempre me fazer gargalhar pra caramba).

Qual é a sua?

Dez Anos em Dez Ensaios: Eu escrevo sobre Pratchett por aqui desde o primeiro ano do blog - há resenhas para todos os títulos da série Discworld, ensaios sobre o autor, sobre causalidade narrativa, sobre tradução, sobre o gênero da Fantasia como um todo. É claro que ele não poderia deixar de aparecer nesse especial. Pratchett é um autor que eu gostaria que todo mundo que conheço lesse, para que eu pudesse tagarelar à vontade sobre o gênio que esse cara foi. E, sim, eu acho que há muito que aprender com ele sobre o nosso mundo real - minhas sobrinhas ganharam os livros da Tiffany Aching porque eu desejo que elas cresçam tendo por modelo uma bruxa inteligente e engenhosa, em vez de uma princesa dorminhoca à espera do príncipe encantado. Foi desse ponto de vista que esse artigo começou e eu provavelmente teria escrito ainda mais sobre o assunto se tivesse tido tempo para reler tudo em vez de confiar só em memória e pesquisa… mas, hei, possível projeto futuro: uma releitura completa da série Discworld - dessa vez por grupo de histórias em vez de na ordem de publicação.

O Homem por Trás do Chapéu || Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V

Traduções || Por que Gandalf Nunca Casou? - Deixe que Haja Dragões

Caldeirão, Vassoura e Chapéu Pontudo - um ensaio sobre bruxas e referências sobre o tema.

Elfos, Bruxas, Reis e Rainhas em mais uma história de Discworld - uma análise detalhada de Lordes e Damas.

Sobre Pratchett, traduções e como ler a série Discworld - um longo artigo sobre títulos, trocadilhos e ordens de leitura da série.

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Antes que eu me esqueça... durante o mês de maio estará rolando o sorteio de aniversário do blog, com um kit bem legal inspirado nos dez anos de Coruja (o bloquinho que aparece na imagem de abertura do artigo é parte do kit). Para participar, é só seguir as instruções que aparecem nesse post.


A Coruja


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2 comentários:

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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