2 de novembro de 2011

Para ler: Eric




- O que você é? - perguntou uma voz no limite de sua consciência.

- Eu já ia chegar nesse ponto - murmurou Rincewind.

A sala entrou em foco quando ele se apoiou nos cotovelos.

- Devo lhe avisar - começou a voz, que parecia vir de uma mesa - que estou sob a proteção de muitos amuletos poderosos.

- Maravilha - disse Rincewind. - Quem me dera eu também estivesse.

Terry Pratchett – Eric

Acho que esse é o livro mais curto da série Discworld – você não chega a passar uma tarde para devorá-lo do início ao fim. Embora curto, é bastante divertido – especialmente se você tem algum prévio conhecimento da lenda de Fausto, mais amplamente conhecida na versão do Goethe.

Eric é um adolescente cheio de espinhas com talento incomum para a demonologia. Infelizmente (ou felizmente, a depender do ponto de vista), quando ele tenta invocar um demônio para exigir três desejos em troca de sua alma (sinto que a coisa teria sido mais fácil se ele tivesse começado com lâmpadas mágicas...), em lugar de algum duque infernal, lhe aparece... Rincewind.

Aqui é necessário voltar um pouco nos livros até O Oitavo Mago para entender o que raios aconteceu para Eric ter de se virar com o mago mais covarde de todo o Disco. Ao final de toda a confusão que Coin causou naquele livro, Rincewind acabou por ir parar numa outra dimensão – mas não em qualquer dimensão e sim o próprio Calabouço das Dimensões.

Não é o melhor lugar do mundo para tirar férias, vá por mim...

Em todo caso, apesar de não ser um demônio, a magia utilizada para invocá-lo faz com que Rincewind ‘funcione’ como um – inclusive, para seu horror, sendo capaz de realizar os pedidos de Eric com um simples estalar de dedos.
- Olha, se você acha que eu posso simplesmente estalar os dedos...

Rincewind estalou os dedos. Apareceu uma nuvem de fumaça.

Rincewind ficou olhando, em estado de choque, para os próprios dedos, como alguém que olha uma arma que estava pendurada na parede há décadas e dispara de repente, perfurando o gato.

- Eles quase nunca fizeram isso antes - disse.

Olhou para baixo.

- Aarghl — exclamou, e fechou os olhos.
E é assim que eles vão parar primeiro nas florestas de Klatch, diante de um império muito semelhante ao asteca, onde Eric consegue realizar seu desejo de tornar-se senhor do mundo e receber homenagens como tal – o único problema é que os tezumanos, que são os habitantes dessa floresta têm planos bastante desagradáveis para o governante do mundo...
Se você fosse de uma tribo que vivia num pântano no meio de uma floresta úmida, sem nenhum metal e tendo que se contentar com um deus como Quezovercoatl, quando encontrasse alguém que se dissesse responsável por toda a situação, você provavelmente iria, sim, querer gastar algum tempo explicando a ele o quão decepcionado você estava. Os tezumanos nunca haviam visto razão para ser sutil no trato com as divindades.
O segundo desejo foi conhecer a mulher mais bonita do mundo... o que rendeu uma passagem para dentro de um cavalo de madeira no meio da guerra entre Tsort e os ephebianos.

O terceiro desejo foi, claro, viver para sempre. O problema é que ‘viver para sempre’ é interpretado de forma algo literal e Eric e Rincewind (com a Bagagem) vão parar, literalmente, no início do mundo, de onde devem começar sua ‘vida’ até o final do mesmo.

Para conseguir escapar desse destino, Rincewind ensina a Eric aquilo que faz de melhor: fugir. O único problema da equação é que eles não calcularam exatamente para onde seria a fuga – e, considerando o detalhe de que Eric teve seus três desejos atendidos, é hora de cumprir sua parte da barganha.

E os demônios da cobrança na linha direta infernal não estão nada satisfeitos...

Como Rincewind fará para escapar de mais essa? Bem... leia o livro. E depois discutiremos de novo acerca da fascinação que Pratchett tem com explodir o mundo...



A Coruja


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Um comentário:

  1. Adoro ver seus posts sobre o Pratchett, tb sou fã e já li tudo que foi editado no Brasil. O que é pouco, hoje a solução são os pockets.
    Você já leu a trilogia dos pequenos homens livres? É muito boa, nela aparece a vovó Cera do Tempo e uma menina que está sendo treinada para ser bruxa. Atualmente é uma das minhas personagens prediletas da série.

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