1 de janeiro de 2011

Desafio Literário 2011: Janeiro - Literatura Infanto-Juvenil || Os Pequenos Homens Livres



- Sim, dona. A gente tem que fazer isso. Somos gente famosa por roubar as coisas. Num somos, rapazes? A gente somos famosos por quê?

- Roubar! - gitaram os homens azuis.

- E por que mais, rapazes?

- Brigar!

- E o que mais?

- Beber!

- E o que mais?

Houve certa quantidade de pensamentos sobre isso, mas todos chegaram à mesma conclusão.

- Beber
e brigar!

- E tinha mais u'a coisa - murmurou o remexedor. - Ai, é. Contem pra bruaca, rapazes!

- Roubar e beber e brigar! - gritaram os homens azuis animados.

- Contem pra pequena bruaca quem nós somos, rapazes - continuou o remexedor de capacete.

Houve o som de muitas espadas pequenas sendo empunhadas e impelidas no ar.

- Nac Mac Feegles! Os Pequenos Homens Livres! Sem rei! Sem rai'a! Sem senhor! Sem mestre!
Nun seremos enganados novamente!

Comecei o ano passado com Pratchett. Pareceu-me bastante promissor que começasse este ano também com ele. Na verdade, acho que farei disto uma tradição: começar o ano novo lendo algum dos livros de Pratchett. Para ser sincera, estava me coçando para começar a ler Os Pequenos Homens Livres desde que ele chegou, acho que em novembro; mas fiz o possível para me controlar e esperar até janeiro e o início do Desafio Literário 2011.

Mas então, finalmente, chegou dia 01, e terminado o café da manhã, a primeira coisa que fiz foi tirar este volume da estante e começar a ler. E ler. E ler mais um pouco, até que, quando vi, a mãe estava chamando para o almoço e eu tinha terminado a história e estava procurando uma imagem do quadro O Golpe de Mestre dos Camaradas do Mundo das Fadas, de Richard Dadd, que inspirou o mundo das fadas do livro.



Pratchett tem esse condão de te prender tão completamente em suas histórias que você esquece por um tempo do resto do mundo. Você ri sozinho, torce em voz alta e repentinamente é pego por pensamentos um tanto quanto filosóficos, entremeados à exposição do ridículo que é bem uma constante nos livros dele.

Você é forçado a pensar, mesmo sem perceber; o riso em Pratchett é muitas vezes o rir de nós mesmos, dos reflexos da nossa sociedade num mundo absurdo em todas as suas tintas, o reconhecer desse absurdo como uma coisa real, às vezes pior no nosso mundo do que em Discworld.

O livro segue de perto as aventuras de Tiffany Dolorida, cujo irmão caçula foi raptado pela Rainha das Fadas. Tiffany tem nove anos, é determinada, racional, está armada com uma frigideira e tem a ajuda dos Nac Mac Feegles, os Pequenos Homens Livres.

Essas criaturas, de acordo com The Folklore of Discworld, são uma espécie extremamente independente, organizada em clãs relacionados entre si, formando uma grande família. Possuem cabelos vermelhos e têm os corpos cobertos de tatuagens e tinta azul, em padrões que indicam a que clã pertencem. Falam com forte sotaque escocês e normalmente, não ultrapassam quinze centímetros de altura. Gostam, basicamente, de três coisas: beber, brigar e roubar.

Em todo caso... Tiffany não é apenas uma garotinha metida a sabe-tudo: ela é material de primeira para bruxa (ser metida e sabe-tudo é apenas um dos muitos requisitos do cargo), possuindo a inata capacidade de encontrar soluções e aceitar responsabilidades. Ela tem dentro de si 'aquela pequena partezinha que fica lá firme':
Aquela pequena partezinha que cuida do resto de você. É a Primeira Visão e um Pensamento Melhor o que cê tem, e isso é um pequeno dom e u'a grande maldição pra você. Cê vê e ouve o que os outros num conseguem, o mundo revela os seus segredos pra você, mas cê é sempre como aquela pessoa na festa segurando uma bebidinha num canto que num consegue se enturmar.
Os Pequenos Homens Livres é muito uma história sobre coragem e perseverança e sobre encontrar seu lugar, saber quem você é. Dentro da coleção de Discworld, é apontado como um livro mais infantil, como O Fabuloso Maurício e seus roedores letrados. Tendo lido os dois, posso dizer uma coisa: seria bom que mais crianças (e adultos) tomassem tento às lições apresentadas nessas histórias.

Fiquei, claro, com muita vontade de ler os volumes seguintes a este, que cuidam do crescimento de Tiffany, tanto fisicamente, como magicamente. Considerando que aos nove, ela conseguiu impressionar Vovó Cera do Tempo, a maior bruxa do Disco, quem sabe o que pode vir a seguir?

Verei se encomendo os livros... quando terminar de ler os que já estão em pilhas aqui em casa, claro.



Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Os Pequenos Homens Livres
Autor: Terry Pratchett
Tradutor: Ludimila Hashimoto
Editora: Conrad
Ano: 2010
Número de páginas: 262



A Coruja


____________________________________

 

19 comentários:

  1. Também li este livro recentemente, amei, simplesmente perfeito!!!

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pelo desafio do mês cumprido. É perceptível o quanto se envolveu com a leitura, pois a sua resenha está ótima
    Parabéns!
    Abraços, Jane

    ResponderExcluir
  3. Olá Lulu.

    Ficou ótima sua resenha e me deixou com muita vontade de ler o liro. Já entrou para a lista do que adquirir futuramente...

    Abraços

    ResponderExcluir
  4. esperei para vir ler sua resenha depois de publicar a minha. :oD

    pratchett escreve para as pessoas respeitando a inteligência delas, sem condescendência, independente da idade.

    desconfio muito que esse livro entrará no meu top 5 de final de ano.

    ResponderExcluir
  5. Oi,
    Acabo de conhecer seu blog e já preciso te agradecer. Como é que eu não conhecia esse livro?

    Eu li O fabuloso Maurício, do mesmo autor, e é um dos meus livros preferidos.

    Esse tá na minha lista desse ano.

    Muito bom seu blog.
    :*

    ResponderExcluir
  6. Bom, como sempre uma das participantes mais ativas e pontuais. É um privilégio tê-la em nosso meio, afinal, suas resenhas tão bem feitas são de encher os olhos possuindo um componente instigador muito forte. Concordo com as demais, é nítido a intimidade com o texto lido. =D

    Beijocas
    Vivi

    ResponderExcluir
  7. Carambolas atômicas! Cada dia mais fico fascinada com a forma que tu escreves as tuas resenhas, nesta tu escreveu tudo que eu gostaria de ter escrito sobre este livro, eu adorei demais, ganhei de natal e dia 26 já tinha terminado ele, é muito bom, estou completamente apaixonada por Pratchett! Ah eu também fui procurar a imagem do quadro hehehehehehehe...
    estrelinhas coloridas...

    ResponderExcluir
  8. Ótima resenha! Já tinha interesse em ler esse livro, porque gosto muito do autor e agora estou mais interessada ainda. :)

    ResponderExcluir
  9. Olá!
    Vim ler uma resenha do Desafio Literário e saio com mais um livro na minha interminável listinha... =)
    Gostei muito da sua resenha. Ainda não terminei meu livro de janeiro, mas estou doida para terminar e postar tb!
    Abraços!

    ResponderExcluir
  10. Adorei sua resenha. Gosto muito dos livros do Pratchett e agora fiquei com vontade de ler esse.

    ResponderExcluir
  11. Adoro esse tipo de história aventureira vou anotar este livro lá no meu skoob para ler um dia.

    bjs

    ResponderExcluir
  12. NOssa essa resenha me deixou louca para ler. COnfesso que não conhecia o autor e a historia me deixou super curiosa! Oo

    ResponderExcluir
  13. É tão mais gostoso ler uma resenha em que quem escreveu realmente expressa seus sentimentos. Muito boa sua resenha, fiquei com vontade de ler o livro. Gosto desse gênero porque quando lido com atenção sempre se vê uma moral por trás da histórias.

    Um beijo!!!

    Iza do cadernoderesenhas.blogspot.com

    ResponderExcluir
  14. Adorei a maneira que tu escreve, tenho muita vontade de ler esse autor.

    Boa semana!

    ResponderExcluir
  15. Livro bom é livro que agarra e não larga até ser devorado.
    Muito boa resenha! Obrigada, não conhecia o autor... o que me fez sentir meio por fora!!! Rsrsrsrs... bjs

    ResponderExcluir
  16. Ainda não li, mas depois de ler o que você escreveu, fiquei com vontade...
    XOXO

    Rafaela Marinho
    (meusvariosmundos.blogspot.com)

    ResponderExcluir
  17. Oie,
    preciso dizer uma coisa:
    vc escreve muito bem.
    Transmite realmente o que vc sentiu com o livro. E isso é lindo! ^^
    Não conhecia o autor, mas já estou pesquisando.
    Obrigada pela dica
    ;D beijokas

    ResponderExcluir
  18. Olá!

    Cheguei ao seu blog tirando na sorte as resenhas de janeiro do desafio literário. E que sorte! Excelente resenha! Ah, e lindo blog :) Parabéns

    ResponderExcluir
  19. Eu não conheço este livro, mas ao ler a resenha muito me interessei! Coloquei na lista de leitura futura. =)
    Adoro seu blog, mas é a primeira vez que comento (acho).
    Beijocas

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog