10 de setembro de 2009

Terry Pratchett (Parte IV) – Quantos Anjos Podem Dançar Numa Cabeça de Alfinete?





As teorias atuais sobre a criação do Universo afirmam que, se ele foi realmente criado e não começou simplesmente, como se diz, de forma não-oficial, surgiu entre dez e vinte bilhões de anos atrás. Pela mesma referência, costuma-se calcular a idade da própria Terra em cerca de quatro bilhões e meio de anos.

Essas datas estão incorretas.

Os estudiosos judeus medievais determinaram a data da Criação em 3760 a.C. Os teólogos da ortodoxia grega colocaram a Criação em 5508 a.C.

Essas sugestões também estão incorretas.

O Arcebispo James Usher (1580-1565) publicou
Annales Veteris et Novi Testamenti em 1654, que sugeria que o Céu e a Terra foram criados em 4004 a.C. Um de seus assistentes levou os cálculos mais além, e foi capaz de anunciar triunfante que a Terra foi criada no domingo, 21 de outubro, exatamente às 9 da manhã, porque Deus gostava de trabalhar de manhã cedo, enquanto ainda estava se sentindo descansado.

Isso também estava incorreto. Por uma diferença de quase quinze minutos.

Todo aquele negócio dos fósseis de esqueletos de dinossauro foi uma brincadeira de que os paleontólogos ainda não se deram conta.

Isso prova duas coisas:

Primeiro, que Deus age de formas extremamente misteriosas, para não dizer tortuosas. Deus não joga dados com o universo; Ele joga um jogo inefável de sua própria criação, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos outros jogadores
[todos os dois], a estar envolvido numa obscura e complexa versão de pôquer numa sala completamente escura, com cartas em branco, por apostas infinitas, com um crupiê que não lhe diz quais são as regras, e que sorri o tempo todo.

Segundo, a Terra é Libra.

A previsão astrológica de Libra na coluna “Suas Estrelas Hoje” do
Advertiser de Tadfield, no dia em que esta história se inicia, é a seguinte:
LIBRA. 24 de Setembro a 23 de Outubro.
Você pode estar se sentindo mal e sempre na mesma velha rotina diária. Questões envolvendo casa e família estão em evidência e precisando ser resolvidas. Evite riscos desnecessários. Um amigo é importante para você. Adie grandes decisões até que o caminho à frente pareça claro. Você poderá estar vulnerável a um problema estomacal hoje, portanto, evite saladas. Poderá receber ajuda de uma fonte inesperada.

Previsão perfeitamente correta em tudo, a não ser pela parte das saladas.
(Belas Maldições – Terry Pratchett e Neil Gaiman)


Se algum dia eu conseguisse resumir minhas leituras favoritas de todos os tempos numa lista de dez nomes (não hierarquicamente, porque venhamos e convenhamos que não há critérios racionais para comprar autores de gêneros diferentes... e até do mesmo gênero literário, às vezes... e a minha lista tem coisas completamente díspares), Belas Maldições seria, muito certamente, um dos títulos lá presentes.

Terry Pratchett, sozinho, é simplesmente delicioso. Neil Gaiman, por sua vez, é o tipo de autor cujos livros você dorme com eles na cabeceira (eu dormiria, se não fosse alérgica). O que pode haver de melhor, portanto, que um livro escrito por esses dois verdadeiros gênios da ficção?

Talvez ler Belas Maldições num dia chuvoso, comendo três barras de chocolate ao mesmo tempo. É, a vida não pode ficar muito melhor que isso...

Antes que eu continue com minhas declarações totalmente bizarras e sem sentido, vamos ao que importa, o livro. Ou melhor dizendo, O Livro.

Para aqueles que faltaram a aula de religião, são ateus de carteirinha ou, simplesmente, nunca tiveram a curiosidade de procurar nada sobre o assunto, vamos começar com uma aulinha bíblica. Existem dois lados fundamentais da balança, certo? Deus, sobre os céus e Lúcifer sob os Infernos. Eu poderia escrever aqui um tratado sobre a primeira rebelião, citando Milton e Gaiman, mas, para resumir a história... Lúcifer rebelou-se contra Deus (embora haja teorias em que essa rebelião tenha sido um plano do próprio Deus para que pudesse haver equilíbrio e dualidade e Lúcifer, portanto, não seria um rebelde, mas sim um instrumento da Divina Vontade), entrou em guerra contra as hostes angelicais, levou a pior, foi lançado para o Inferno e, desde que conheceu Adão e Eva, decidiu que levar a humanidade à perdição seria sua missão de "vida".

Assim é que toda a história humana seria o desenrolar desta batalha, que caminha para a última de todas as batalhas, o Apocalipse, também conhecido como Fim do Mundo, Ragnarök, Gehenna... tudo depende de qual religião/jogo de RPG você está.

E o Apocalipse começa, é claro, com a vinda da Besta, o Anticristo, o Inimigo. E, se você é fã de filmes de terror, a essa altura já se lembrou de A Profecia. Pois bem, Belas Maldições é, nada mais, nada menos, que a versão de Gaiman e Pratchett do Apocalipse. E que versão...

Tudo começa, é claro, com o Gênesis, onde somos apresentados ao anjo Aziraphale e ao demônio Crowley. Por milênios, estes dois estiveram na Terra, assistindo a evolução humana. Por passarem tanto tempo longe de seus lares originais e também por suas naturezas próximas (afinal, Crowley foi anjo também, um dia. O problema dele foram, realmente, as más companhias...), os dois acabaram atingindo uma certa espécie de trégua... ou mesmo, uma insólita amizade.

Eu tenho uma teoria particular - nunca vi escreverem exatamente sobre isso, mas também nunca vi refutarem, mas deve haver algum lugar por aí onde respondam essa questão - de que Aziraphale é uma versão literária do próprio Pratchett, enquanto Crowley é o Gaiman. Bem, eu sei que ao menos o nome de Aziraphale foi invenção do Pratchett, que fez uma amálgama de nomes angélicos muçulmanos.

Fora que em Discworld temos contato com Azrael em O Senhor da Foice. Na verdade, na verdade, há muito do Mundo do Disco transladado para o 'fim do mundo' - quem não há de se lembrar de Morte, agora como um dos quatro Motoqueiros do Apocalipse?

Nem Crowley nem Aziraphale ficam exatamente felizes ao perceberem que... bem, que o fim do mundo está próximo. O Inferno não é exatamente um poço de prazeres e o Céu... bem, o céu é meio tedioso... todos os bons músicos, afinal, estão Lá Embaixo.

E esse será um importante argumento de Crowley para Aziraphale quando eles se propõe a impedir a Grande Batalha.

Não vou entrar em muito mais detalhes sobre a história do livro, porque, afinal, não haveria graça alguma se eu entregasse o plot antes de vocês lerem. E Belas Maldições É UM LIVRO QUE VOCÊS TÊM DE LER.

E eu não digo isso apenas pelo fato de ter os dois autores na minha lista de favoritos. Belas Maldições é o tipo de livro que você lê de uma sentada só, porque uma vez que tenha começado, não quer mais parar de ler. É um livro de narrativa ágil (afinal, falta uma semana para o apocalipse; o mundo está previsto para acaba este sábado, antes do jantar), com um punhado de personagens cativantes (do anjo meio antiquado, grande colecionador de livros, o demônio cool dirigindo um Bentley preto ao Anticristo preocupado com as florestas e com os níveis de poluição... sem contar os caçadores de bruxas, a bruxa, o Cão e, é claro, the hell's angels, os quatro motoqueiros do Apocalipse), cheio das notas de rodapé (eu acho que vou entrar na Ordem de Santa Beryl), do humor mundano e ao mesmo tempo, peculiar típico do Pratchett e da cadência meio poética, onírica de Gaiman.

Eu perdi a conta de quantas vezes li esse livro em específico... E cada vez que eu li, ele só me deixou mais apaixonada. Mesmo para aqueles que não entendem lhufas de religião, e podem perder com isso uma ou outra citação, Belas Maldições é um livro realmente interessante, que reúne o melhor desses dois grandes autores.



E se vocês estão querendo saber a responda para a pergunta do título... bem, desde que a dança seja uma gavota e ele tenha um par que saiba dançar também, apenas um anjo pode dançar na cabeça de um alfinete.

Leiam para entender...

Antes que eu me esqueça, há um “extra” no site da editora Harper Collins com as listas de resoluções de ano novo de Crowley e Aziraphale. É um bom começo para quem não leu o livro... e um presente para quem leu...

Crowley and Aziraphale's New Year's resolutions

(Continua em Quão Fotogênica Pode ser a Morte - a última parte enfim...)


A Coruja


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Um comentário:

  1. li as resoluções de ano novo e achei genial, adicionei o livro a minha lista e aniversário!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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