2 de março de 2011

Para ler: The Truth



Uma multidão estava reunida em frente a um grande edifício em Welcome Soap, e o tráfego já estava parado até Broad Way. E se isso não bastasse, pensou William, onde quer que uma grande multidão se reunisse, alguém deveria escrever o porquê.

A razão neste caso, era clara. Um homem estava em pé no parapeito da janela do quarto andar, as costas contra a parede, olhando para baixo com uma expressão congelada.

Lá embaixo, a multidão estava tentando ser útil. Não estava na robusta natureza do povo de Ankh-Morpork dissuadir qualquer pessoa naquela posição. Era uma cidade livre, afinal. Assim como seus conselhos.

'É muito melhor tentar a Guilda dos Ladrões!' um homem gritou. 'Seis andares, e então você estará num bom e sólido calçamento! Arrebenta seu crânio de primeira!'

'Há lajes adequada ao redor do palácio', aconselhou o homem próximo a William.

'Bem, certamente', disse seu vizinho imediato. 'Mas o Patrício vai matá-lo se ele tentar pular lá de cima, estou certo?'

'Bem?'

'Bem, é uma questão de estilo, não é?'

'A Torre de Arte é um bom local', disse uma mulher confiante. 'Novecentos metros, quase. E você ainda terá uma boa vista.'

'Claro, claro. Mas você também terá muito tempo para pensar sobre as coisas. No caminho para baixo, eu quero dizer. Não é um bom momento para introspecção, em minha opinião.'

'Olha, eu tenho uma carga de camarão no meu vagão e se eu continuar aparado aqui por mais tempo eles vão ir andando para casa', lamentou um carroceiro. 'Por que ele não apenas salta de uma vez?'

'Ele está pensando nisso. É um grande passo, afinal.'


Terry Pratchett - The Truth

The Truth, publicado em 2000, é o vigésimo-quinto volume da série Discworld de Terry Pratchett. O livro acompanha a chegada de uma prensa móvel a Ankh-Morpork, o que acaba por causar uma verdadeira revolução na cidade, com a invenção da Imprensa com o Ankh-Morpork Times, primeiro jornal do Disco.

Estando fora dos ‘grandes ciclos’ da série, é um livro que pode ser lido sem grandes prévios conhecimentos (apenas o básico claro: Discworld é um mundo achatado feito uma pizza que viaja pelo universo sobre as costas de quatro elefantes que, por sua vez, se equilibram na carapaça da Grande A’Tuin, uma tartaruga estelar... cósmica... hum... você escolhe o adjetivo...).

Na verdade, o estilo de The Truth é um pouco diferente dos demais livros da série que já li, com um humor mais contido. Não à toa, já que a história gira em torno de uma conspiração para tirar do poder o Patrício, Lorde Vetinari, com a imprensa – ou mais exatamente, William de Worde, o fundador – atuando fortemente para descobrir os fatos, tornar a vida de todo mundo mais difícil e formar a opinião pública.

Esse talvez seja um dos livros mais ambiciosos do Pratchett... e se tornou, rapidamente, um dos meus favoritos. Desde o começo, você torce por William, que caiu de pára-quedas, completamente sem querer, no meio da história – mas que cresce substancialmente página a página, desafiando quase que a cidade toda em busca da Verdade.

Sério, William tem de lidar com a Guarda literalmente fungando em seu pescoço (e, cara, eu adorei a atuação do Vimes nesse livro! Preciso agora ler Men at Arms para ver a chegada da Angua!!!), uma dupla de assassinos que não respeita nenhum dos termos da Guilda dos Assassinos e um advogado zumbi defendendo a Guilda dos Mestres Gravuradores, que deseja monopolizar o mercado das prensas e chega inclusive a criar um jornal sensacionalista para concorrer com o Times – o Inquirer, cujas matérias costumam girar em torno de discos voadores e pessoas seqüestradas por elfos.

Além das discussões sobre uma imprensa livre, fiscal dos poderes que controlam a cidade; The Truth também discute a questão do preconceito, que é, no final das contas, a raiz de toda a conspiração para tirar Vetinari do poder – é exatamente pelo fato de que o Patrício permite que gato e cachorro entrem em Ankh-Morpork (incluindo aí anões, trolls, lobisomens, vampiros e o Cabo Nobbs) que os Poderosos decidiram que era hora de afastar Vetinari e colocar no poder alguém que ouvisse o povo.

Claro que ‘ouvir o povo’ está aí numa interpretação bastante restritiva, mas...

Depois de ler The Truth, não consigo deixar de me perguntar porque não encontro muito sobre Pratchett pela ‘blogosfera literária’. Na verdade, fiz uma pesquisa mais específica no Google e o que encontrei foi que esse cara verdadeiramente genial ainda é MUITO POUCO conhecido no Brasil. E isso, francamente, é um absurdo.

Do meu ponto de vista, é absurdo que haja 656 resultados para ‘Discworld’ para blogs brasileiros no Google e 52.000 para ‘Crepúsculo Stephenie Meyer’.

Pratchett é um autor que deveria ser mais conhecido, mais lido, mais debatido. Não se deixe enganar, achando que ele é um saco de piadas prontas ou um colecionador de idéias absurdas. Pratchett é, antes de tudo, um questionador, alguém que está constantemente desafiando o status quo.

Mais que isso: quando você lê um de seus livros, ao mesmo tempo em que rola de rir com alguns de seus coup de grâce verbais, também começa a questionar, começa a prestar atenção nas Perguntas Realmente REALMENTE Inconvenientes.

Quais são as Perguntas Realmente Inconvenientes, você quer saber? Bem, são aquelas nas quais Eles não querem que você pense. E quem são Eles? Eu aconselharia que você começasse lendo The Truth e daí tirasse suas próprias conclusões.



A Coruja


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2 comentários:

  1. Báh concordo plenamente, acho algo surreal que poucos conheçam Prachett, ele é genial e é bem como tu disses ele é antes de tudo um questionador, eu estou cada dia mais apaixonada por ele. Esta tua resenha pra variar está matadora, é como um manifesto apaixonado para lermos mais Pratchett.
    estrelinhas coloridas...

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  2. Saudades da dona coruja!!

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