10 de maio de 2011

Os Babacas de Shakespeare (em três atos) - Primeiro Ato



'Eu te beijei antes de matar-te... Não havia outra saída, senão matar-me para morrer com um beijo!’
Otelo – Ato V, Cena II

Antes de começarmos com os trabalhos de hoje, necessário algumas rápidas explicações a fim de que não me linchem ou queimem em praça pública.

Primeiro e antes de mais nada, sou tiete do bardo. Adoro Shakespeare, acho ele genial – de um gênio que não se pode comparar ao de nenhum outro autor na história da literatura. Shakespeare foi um profundo conhecedor da alma humana e é exatamente por isso que hoje, quase quatrocentos anos após sua morte, continuamos lendo, discutindo e nos inspirando em suas obras.

Admiro-o ainda mais pelo fato de que ele criou algumas das heroínas mais fantásticas que conheço. Elas têm personalidades fortes, são inteligentes, espertas, apaixonantes. De Rosalinda a Lady Macbeth, todas são capazes, ágeis e resolvem seus problemas sozinhas – nem que para isso tenham de dar uma de transformistas. Podem até ser malignas, maléficas, malévolas, mas nunca são donzelas tolinhas à espera do resgate.

Claro que não é uma coincidência Shakespeare demonstrar essa visão, afinal, sua maior protetora era a rainha Elisabeth e se Elisabeth não fosse a favor do girl power, não sei quem o seria...

E aí, justamente, reside o X da questão. Tendo criado algumas das mulheres bidimensionais mais cheias de personalidade que poderiam existir, ele lhes deu por par caça-dotes, tolos e poltrões de toda a espécie.

Eis porque falamos hoje dos babacas de Shakespeare.

Mas o que é um babaca? De forma geral, babacas são pessoas desagradáveis, às vezes mesmo insuportáveis. São obtusos, teimosos, prepotentes, estúpidos... Podem ser narcisistas ou capachos, mas, de forma geral, são criaturas inúteis, imaturas, inconvenientes e que, pior de tudo, não se tocam do fato de serem babacas.

Vamos começar por Otelo.

Ciúme, per si, não é uma coisa ruim. É natural sentir ciúmes daqueles ou daquilo que amamos. Por exemplo, eu morro de ciúmes da minha edição autografada de Uma História da Leitura do Manguel e nem me adianta pedir emprestado que não empresto. Prefiro comprar outra edição e dar de presente que emprestar a minha.

Claro que existem limites. Há um ponto em que ciúmes deixa de ser um sentimento saudável de cuidado e passa a ser uma posse irracional e violenta – que é muitas vezes fruto de insegurança.

Foi isso que aconteceu com Otelo e também com – vamos ver mais para a frente – o rei Leontes.

Otelo, da peça homônima, foi envenenado pelas palavras de Iago. Mas para que as dúvidas que Iago plantou pudessem semear, era necessário um terreno fértil. O terreno fértil do preconceito, da dúvida, da insegurança.

A despeito de seu valor, de sua força, Otelo é um mouro, um estranho dentro de Veneza. Ele é o Outro e sempre tememos o outro. Exatamente por ter consciência dessa sua posição, Otelo se torna vulnerável aos ataques de Iago – ele não acredita de verdade que a bela Desdêmona o ame, a despeito do fato de que ela desafiou o próprio pai (e o matou de desgosto por tabela) e toda a sociedade veneziana para ficar com ele.

Trágico, bem verdade. Dá até para sentir uma certa compaixão por ele. Mas aí você se lembra que Otelo não tentou nem mesmo confrontar Desdêmona pela sua suposta traição com Cássio. Ele não esperou para descobrir mais, para ouvir de outras pessoas. Em vez disso, agindo como um Deus vingador, ele simplesmente a matou, insensível a qualquer apelo daquela que dizia amar tanto.

Pior que ele, contudo, é o rei Leontes, de Conto do Inverno. Leontes é seu próprio Iago: ele decide, após ver sua rainha apertar a mão daquele que ele mesmo considera seu melhor amigo, que os dois são amantes.

Não, eu tô falando sério. Leontes simplesmente encasqueta do nada com a idéia de que a mulher de sua vida e o amigo de infância têm um caso, baseado num aperto de mão. E depois disso ele cria uma série de outros ‘sinais’ da infidelidade de Hermione e chega à conclusão de que melhor mesmo é mandar matar todo mundo.
LEONTES – E o falar baixo, nada representa? Encostarem-se as faces? Os narizes? Beijarem-se nos lábios? Com um suspiro – prova infalível de infidelidade – encontrarem-se os pés, andarem sempre pelos cantos, quererem que os relógios fossem menos morosos, que os minutos fossem horas, o dia, noite escura? E todo o mundo – menos eles, claro; excetuando-se os dois – com catarata nos olhos, para que pecar pudessem sem ninguém notar... Tudo isso é nada? Então é nada o mundo todo e tudo o que nele contém; o céu é nada, Boêmia é nada, minha esposa é nada, nada são todos esses nadas, caso for nada quanto passa.

Bravo, Leontes! Anotaram aí, pessoal? Se sua cara-metade começar a suspirar é porque ela está tendo um caso. E fique de olho em quem ela tropeça!

Leontes tem um fim mais feliz que Otelo, porque, sabe-se lá como, Conto do Inverno é uma comédia. Ele se toca que foi um babaca quando descobre que Hermione está morta e aí se arrepende (meio tarde para isso, mas...). E tem mais de metade da peça à frente depois disso para compensar seus erros – embora eu tenha minhas dúvidas se há alguma compensação.

Em termos de erros e acertos, não podemos esquecer o valoroso Cláudio, de Muito Barulho por Nada, um babaca mimado que, como Otelo, é enganado para achar que Hero lhe foi infiel. Como é que diabos Hero o aceita depois da humilhação pela qual ele a obriga a passar, não consigo entender.

Caramba, rapaz, será que custava muito ter perguntado por aí sobre o caráter da noiva? Certificar-se de que era ela que estava no quarto? Falar com o pai da moça em privado e desmanchar o noivado? Não; é preciso uma grande humilhação pública que não serve nem para curar o orgulho ferido do moço porque, na boa, ele admite para todo mundo que é corno.

E antes mesmo de casar!

Otelo, Leontes e Cláudio ainda têm como desculpa para sua babaquice o fato de acreditarem piamente que foram enganados por suas amadas. A despeito de terem chegado a conclusões erradas, ainda dou um desconto para eles porque creio que o sentimento de ser traído por alguém que, supostamente, deveria estar ao seu lado ‘na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza’, pode, realmente, mexer com a cabeça de alguém. Eles ganham assim o atenuante (com muitas ressalvas) de violenta emoção.

Ao contrário de Bertram, de Bem está o que bem acaba, que se fosse para escolher em toda a obra do bardo, certamente ganharia o troféu de ‘Babaca do Ano’.

Bertram não sente ciúmes irracionais de Helena. Ele não a tenta matar. Ele não a repudia publicamente – ou, pelo menos, não da mesma forma que Cláudio faz.

A verdade é que não sei o que é que bem acaba nessa peça. Não consigo entender como é que Helena engole tudo o que Bertram diz e fala e ainda permanece fiel e não faço a menor idéia de onde entra comédia aqui – ao menos para mim, essa peça me deixa deprimida.

Bertram é deliberadamente cruel, por atos e palavras. Zomba de Helena, do amor que ela lhe dedica: “quando conseguires o anel que trago no dedo, e que jamais sairá dele, e quando puderes mostrar-me um filho nascido de teu ventre, que tenha sido gerado por mim: então poderás dar-me o nome de esposo. Mas esse “então” vale por um “nunca””.

Vocês já leram um livro torcendo por um determinado final e, ao chegarem lá, descobrirem que o final do autor não condizia com sua visão da história e ficou com comichão de mandar uma carta para o ‘serviço de atendimento ao leitor’ a fim de reclamar do assunto?

O nome disso é fanfic.

Bem, jamais vou escrever uma fanfic de uma peça de Shakespeare, pois, a despeito de todos os meus resmungos, não há realmente como modifica-las sem destruir sua identidade e sua força por completo. Mas, se algum dia eu decidisse reescrever o final de Bem está o que bem acaba, seria com Helena enfiando um murro nas fuças de Bertram.

Ô carinha que é um atraso de vida... Por que diabos as mulheres quase sempre se apaixonam por idiotas como esse? Eis um dos grandes mistérios da humanidade...

(Continua...)



A Coruja


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3 comentários:

  1. Haha, comecei lendo o título do texto e na hora pensei, "hunpf, mais babaca que o Claudio, esta para nascer". Muito Barulho por Nada é uma das minhas peças favoritas, e olha que como vc, tbem sou tiete do bardo. Mas que dá vontade de entrar no papel e dar uns bons tapas na cara daquele moleque, ahhhh dá!! Otelo e Leontes, entao, nem se fala - o cúmulo do machismo e daquela certeza masculina, tão rídicula que só os homens possuem. Agora confesso que realmente as "mocinhas" de Shakeaspere são incríveis - até a atrapalhada Helena do 'sonhos de uma noite de verão' consegue ser forte e mesmo se humilhando, vai atras do que quer!! Enfim, vou lá ler sobre o Muito Barulho... enquanto espero pelo Ato 2 e 3!! =)

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  2. Claudio é de fato de dar azia em bicarbonato, mas o Bertram...

    o Bertram...

    Shakespeare estava de péssimo humor no dia em que gestou esse ameba, só pode!...

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  3. Concordo com a maioria das coisas, só não acho que todas as mulheres de Shakespeare são fortes e interessantes. Acho que Ofélia (de quem eu gosto) não é uma dessas protagonistas. E eu não gosto muito da Julieta.

    Mas sou obrigada a concordar que certos protagonistas homens de Shakespeare são realmente babacas. Acho até que o Rei Lear se encaixa nesse grupo.

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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