17 de outubro de 2011

Para ler: Guardas! Guardas!




- Acredito que você considera a vida um problema porque você pensa que existem as pessoas boas e as pessoas más - começou o homem. - Você está errado, é claro. Existem, sempre e apenas, as pessoas más, mas algumas delas estão em lado opostos.

Ele apontou para a cidade com a mão magra e andou até a janela.

- Um grande mar ondulado do mal - disse, quase como um proprietário. - Mais raso em alguns lugares, é claro, e mais profundo, oh, tão mais profundo em outros. Mas as pessoas como você gostam de fazer pequenas jangadas de regras e boas intenções vagas e dizer: isto é o oposto, isto vai triunfar no fim. Impressionante! - Ele deu um tapa agradável nas costas de Vimes.- Lá embaixo - continuou - há pessoas que seguirão qualquer dragão, adorarão qualquer deus, ignorarão qualquer iniqüidade. Tudo por causa de uma espécie de tédio, deficiência cotidiana. Não a verdadeira repugnância criativa dos grandes pecadores, mas uma espécie de escuridão da alma produzida em massa. Um pecado, pode-se dizer, sem nenhum sinal de originalidade. Eles aceitam o mal. Não porque dizem sim, mas porque não dizem não. Desculpe-me se isso o ofende - acrescentou, dando um tapinha no ombro do capitão -, mas vocês realmente precisam de nós.

- Sim, senhor? - disse Vimes, calmamente.

- Ah, sim. Nós somos os únicos que sabem fazer as coisas funcionar. Sabe, a única coisa que as pessoas boas fazem bem é combater as pessoas más. E você é bom nisso, sou obrigado a admitir. Mas o problema é que isso é a única coisa que você faz bem. Um dia tocam-se os sinos e derruba-se um tirano cruel, e no dia seguinte todos estão reclamando porque, desde que o tirano foi derrubado, ninguém mais recolhe o lixo. Porque as pessoas más sabem planejar. Faz parte da definição, pode-se dizer. Todo tirano do mal possui um plano para dominar o mundo. As pessoas boas parecem não levar jeito.

Terry Pratchett – Guardas! Guardas!
Por muito, muito tempo, Guardas! Guardas! foi meu livro favorito da série... até esse ano, quando ele foi desbancado por Small Gods que é, do início ao fim, um exercício em genialidade. Mas, bem, sejamos sinceros: há algum livro do Pratchett em que ao fim e a cabo, ele não tenha se mostrado um mestre naquilo que faz?

Este, que é o oitavo livro publicado da série, segue as aventuras e especialmente desventuras da guarda de Ankh-Morprk – especialmente após a chegada do Cabo Cenoura Irounfoundersson, um ‘anão’ de quase dois metros de altura.

Algumas explicações são necessárias. Vejamos...

(1) numa cidade em que ladrões e assassinos se organizam abertamente em guildas que guardam fortes laços políticos com o Patrício, a Guarda é, sem sombra de dúvida, uma instituição supérflua, ultrapassada e, sejamos sinceros, desmoralizada.

(2) sendo uma instituição desmoralizada, ela é o lugar onde vão parar aqueles seres que, na escala social, alcançam grau de importância menos dez. Assim é que temos como bons membros da Guarda o Sargento Colon, o Cabo Nobbs (que tem de andar por aí com um certificado emitido pelo Patrício que confirma sua condição humana) e o Capitão Vimes.

(3) o capitão Vimes sofre de um problema de falta de álcool no sangue que tem por conseqüência deixa-lo muito mais (dolorosamente) sóbrio que o normal. Para resolver o problema, ele se tornou alcoólatra.

(4) Cenoura é, na verdade, humano, mas foi encontrado bebê por anões, que acabaram por adotá-lo. Dentro das leis anãs, o fato de ter sido adotado e criado como os outros faz dele um legítimo anão, uma vez que Cenoura segue todas as suas regras e tradições.

(5) até atingir a maioridade e ser chamado pelo pai para receber a notícia de que era adotado e lhe tinham arranjado um emprego respeitável em Ankh-Morpork para que pudesse conhecer o mundo e descobrir o que era ser humano, Cenoura nunca desconfiara que pudesse não ser um anão.

(6) ao se apresentar diante do Capitão Vimes para assumir seus respeitável novo emprego, Cenoura decorara todas as ‘Leis e Ordenações das Cidades de Ankh e Morpork’ e em seu primeiro dia prendeu o presidente da Guilda dos Ladrões.

(7) um livro foi roubado da Universidade Invisível, o que deixou o Bibliotecário – que é, não podemos esquecer, um orangotango – razoavelmente furioso.

(8) dito livro é uma espécie de manual prático de evocação de dragões e está nas mãos de uma seita que defende o retorno do herdeiro do trono e rei de Ankh-Morpork. Acredita-se que invocando o dragão para destruir a cidade, o tal herdeiro se revelará, portando uma espada mágica, sendo identificável por alguma esécie de marca de nascença. Ele derrotará heroicamente o dragão e trará uma nova era de paz e prosperidade.

O curioso é que de cara você sabe mais ou menos o que vai acontecer e quais são os papéis que cabem a cada um destes personagens... para chegar em determinado ponto e nada mais fazer sentido, dentro dos clichês normais que se esperariam de uma sinopse como essa, o que significa que tudo o que você pensava saber sobre os estereótipos apresentados desde a primeira página foi revirado de pernas para o ar.

Melhor que isso é ver como a Guarda – conjuntamente – cresce na história, até se tornar o oposto daquilo que era no início. Não é por acaso que em livros posteriores, Vimes vá se tornar uma das figuras mais respeitadas e temidas de Ankh-Morpork.

Cenoura é um espetáculo à parte. Ele te engana completamente com o jeito meio caipira, meio inocente – onde você enxerga primeiro os músculos e só tarde demais se dá conta de que mais tem a temer é o cérebro e o forte senso de justiça e carisma do rapaz.

Normalmente os livros do Pratchett podem – e devem – ser lidos com senso crítico: ele satiriza e desconstrói dentro de um mundo medieval fantástico e absurdo tudo auqilo que compõe nossa vida cotidiana. Guardas! Guardas!, embora siga essa vertente, é também uma homenagem aos guardas de todos os lugares do mundo. Dá uma olhada na dedicatória que abre o livro:
Eles podem ser chamados de Guarda Palaciana, Guarda Municipal ou Patrulha. Qualquer que seja o nome, seu propósito em todas as obras de fantasia épica é um só: por volta do Capítulo Três (ou depois dos primeiros dez minutos de filme) entrar correndo numa sala, atacar o herói, um de cada vez, e ser massacrados. Ninguém jamais pergunta se era isso o que eles queriam.

Este livro é dedicado a esses grandes homens.
E eis aqui uma das melhores notícias que recebi em muito tempo: está sendo desenvolvido um projeto de série de Discworld no moldes de programas como CSI (ou, pelo menos, foi o que entendi), em que a Guarda de Ankh-Morpork resolve um crime por episódio.

Morri de felicidade. Quero esta série desesperadamente!





A Coruja


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