9 de setembro de 2018

Tradução - Deixe que Haja Dragões


Li no começo do ano uma coletânea de artigos, discursos e ensaios produzidos por Pratchett ao longo de décadas e A Slip of the Keyboard me fez rir, chorar, refletir - não muito diferente do que a prosa do autor sempre foi capaz de me provocar. Entre os muitos (excelentes) textos desse livro, Let There be Dragons foi um dos que ficou comigo, fez com que eu me perdesse em conjecturas e referências, sendo uma defesa não apenas da fantasia, mas do poder que a fantasia tem sobre as crianças. E claro que isso me deixou com um enorme desejo de compartilhá-lo com vocês. Então cá está mais uma tradução!

Como de hábito, sugiro a leitura do texto original, que pode ser encontrada neste link. Agora, sem mais delongas... vamos ao que interessa.

Deixe que Haja Dragões
Discurso em defesa da fantasia feito como convidado de honra no jantar anual da Booksellers Association Conference, em Torquay, 1993

Eu ainda tenho o primeiro livro que li. Era O Vento nos Salgueiros. Bem, provavelmente não foi o primeiro livro que realmente li - que não há dúvida se chamava algo como 'Diversão no Berçário' ou 'O Livro de Janet e John'. Mas foi o primeiro livro que abri sem mastigar a capa ou desejando estar em outro lugar. Foi o primeiro livro que, com dez anos, li porque estava genuinamente interessado.

Sei agora, claro, que era o tipo de livro totalmente errado para crianças. Havia apenas uma única personagem mulher e ela era uma lavadeira. Nenhuma tentativa é feita de explicar o condicionamento social e falta de moradia própria que faz os furões e doninhas agirem da forma que agem. A casa do senhor Texugo é um insulto para todas aquelas crianças menos afortunadas que não podem viver em uma Floresta Selvagem. O arranjo doméstico da Toupeira e do Rato é provavelmente aceitável, mas apenas se eles saírem do armário logo e falarem francamente do assunto. Mas ele foi colocado em minha mão, e porque não eram pais ou professores que faziam a recomendação do livro, eu o li de capa a capa, todo de uma única vez. E então, recomecei do começo, porque eu não tinha me dado conta de que havia mais histórias como esta.

Há uma sensação que penso ser possível perceber apenas quando você é uma criança e acaba de descobrir os livros: é uma espécie de efervescência - você quer ler tudo o que já foi publicado antes que se evapore diante dos seus olhos. Tive de desenhar meu próprio mapa através desse território inexplorado. A mensagem da direção era que, sim, livros eram uma boa ideia, mas não me lembro de ninguém me aconselhando de qualquer maneira. Fui deixado para me virar com meus próprios recursos.

Sou agora conhecido como um escritor para pessoas jovens. Professores e bibliotecários dizem “você sabe, seus livros são muito populares entre crianças que não leem”. Acredito que isso seja um cumprimento; apenas gostaria que colocassem isso de outra forma. De fato, autores de gênero conseguem conhecer o perfil de seus leitores bem intimamente, e sei que tenho um grande número de leitores que são velhos o suficiente para dirigir um carro e, possivelmente, receber aposentadoria. Mas o mito persiste de que todos os meus leitores têm quatorze anos e se chamam Kevin, e assim passei a me interessar pelo submundo sombrio chamado literatura infantil.

Não muitas pessoas o fazem, ao que me parece, exceto por aquelas almas corajosas que trabalham com crianças e estão interessadas no que elas estão lendo. Eles são os heróis não cantados da resistência numa guerra que pode estar sendo ganha por ouriços sônicos e encanadores biônicos. Eles não têm muitos aliados, mesmo onde você esperaria que eles existissem. A despeito do grande número de títulos que surgem para moldar a mente dos adultos, meu jornal de domingo resenha apenas um punhado de livros infantis a intervalos infrequentes, e para mostrar a seus leitores que esse é um tipo de literatura de brincadeira, geralmente coloca uma imagem de um ursinho de pelúcia na página.

Talvez a decisão do editor de literatura esteja correta. Na minha experiência, crianças não leem resenhas de livros infantis. Elas vivem numa espécie de mundo diferente.

Os já citados bibliotecários escolares me dizem que o que as crianças leem por diversão, no que elas realmente gastam seu dinheiro, é fantasia, ficção científica e horror, e, embora eles ofereçam uma prece de agradecimento que as crianças estejam lendo qualquer coisa nessa época dos eletrônicos, isto os preocupa. Mas não deveria.

Sei que quase toda a ficção é, em algum nível, fantasia. O que Agatha Christie escreveu foi fantasia. O que Tom Clancy escreve é fantasia. O que Jilly Cooper escreve é fantasia - ou pelo menos, eu espero para o bem dela que seja. Mas o que as pessoas normalmente têm em mente quando escutam a palavra fantasia são espadas, animais falantes, vampiros, foguetes (ficção científica é fantasia com parafusos), e no seu entorno, isso realmente pode soar tolo. Fantasia, porém, também especula sobre o futuro, reescreve o passado e reconsidera o presente. Ela joga com o universo.

Fantasia deixa muitos adultos desconfortáveis. Crianças que gostam dela tendem a nomeá-la “brilhante” e “mega-demais”. Isso sempre perturba as pessoas (preocupa-as tanto que quando alguém como P. D. James usa a maquinaria da ficção científica, sujeitos úteis redefinem o campo, evitando assim impor a ela a marca de Caim; o livro não é ficção científica “porque não trata de robôs e outros planetas”. P. D. James escrevendo ficção científica? Impossível. Mas The Children of Men é um livro de ficção científica, assim como o é A Seta do Tempo e Pátria Amada, como o era Methuselah’s Children de Brian Aldiss¹, Matadouro 5 de Kurt Vonnegut, e O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick. Ficção científica, aquilo que é raramente resenhado, costuma ser bom; não é necessário haver robôs, e a terra tem espaço suficiente).

Claro que algumas vezes ficção científica e fantasia são mal escritas. Muitas coisas o são. Mas o mérito literário é algo artificial, e existe nos olhos do observador. Num mundo em que O Império do Sol, de Ballard, não pode vencer o Booker², não me admiro muito com julgamentos baseados no mérito literário.

Há não muito tempo, conversei com uma professora que, tendo me convidado a palestrar em sua escola, estava tendo um pouco de dificuldades com seu diretor, que pensava que fantasia era moralmente suspeita e irrelevante para o mundo dos anos 90.

Moralmente suspeita? Despida de suas firulas, boa parte da fantasia encontraria aprovação numa casa vitoriana. O moralidade da fantasia e horror é, em geral, a estrita moralidade dos contos de fadas. O vampiro é morto, o alienígena é extinto, o Lorde das Trevas é vencido, e, talvez com algumas perdas, o bem triunfa - não apenas porque estão melhor armados, mas porque a Providência está ao seu lado.

Por que o caçula de três irmãos, que divide sua comida com uma velha senhora na floresta, acaba por se tornar rei? Por que James Bond consegue desarmar uma bomba nuclear alguns segundos antes de ela explodir em vez de alguns segundos após? Porque o universo em que esses fatos não acontecessem seria um lugar sombrio e hostil. Deixe que haja hordas de goblins, que haja terríveis ameaças ambientais, deixe que existam lesmas gigantes mutantes se você realmente precisar, mas deixe também que exista esperança. Pode ser uma pequena, magra esperança, uma espada Arturiana no crepúsculo, mas nos deixe saber que não vivemos em vão.

Para se manter são, se posso gentilmente parafrasear o que Edward Pearce recentemente escreveu no Guardian, é frequentemente necessário que a pessoa restrinja seu campo de visão, que procure por conforto, de forma a manter uma parte do mundo ainda cordialmente organizada, ainda que apenas pelo tempo de duração de uma peça ou o espaço de um livro. Isso é suficientemente inofensivo. Fantasia escrita, clássica, pode introduzir as crianças ao oculto, mas de uma maneira mais saudável do que poderia ser de outra forma, em nossa estranha sociedade. Se lhe contam sobre vampiros, é uma boa coisa ser informado sobre estacas ao mesmo tempo.

E os leitores de fantasia podem ainda aprender, nas palavras de Stephen Sondheim, que bruxas podem estar certas e gigantes podem ser bons. Eles aprendem que o lugar onde as pessoas estão talvez não seja tão importante quanto qual a direção que elas encaram. Isto é parte do perigoso processo de amadurecer.

Sobre escapismo, fico bastante contente com a palavra. Não há nada de errado com escapismo. Os pontos-chave para consideração, contudo, são do que você está escapando e para onde você escapa.

Como um súbito sedento leitor, eu escapei primeiro para aquilo que era então chamado Espaço Sideral. Eu lia um bocado de ficção científica, o que, como já disse antes, é apenas um subconjunto da fantasia. E muito disso era, em termos estritamente literários, entulho. Mas era um bom entulho. Era como um exercício de bicicleta para a mente - não te leva a lugar algum, mas certamente tonifica os músculos.

Irrelevante? Eu primeiro cruzei com uma menção sobre a antiga civilização grega num livro de fantasia - de Mary Renault. Mas nos anos 50, a maioria das escolas ensinava História desta maneira: havia os Romanos, que tinham montes de banhos, construíram algumas estradas e foram embora. Depois, houve vários empurrões e atropelos indignos até que os Normandos chegaram, e a história começou oficialmente³.

Também passamos por ciência, de certa forma. Yuri Gagarin estava girando acima de nossas cabeças, mas não lembro de ninguém na escola mencionando tal fato. Não me lembro sequer de alguém nos dizendo que ciência não era apenas mexer com substâncias químicas e imãs, mas sim uma maneira de olhar o universo.

Ficção científica encara o universo o tempo todo. Não me desculpo de qualquer forma por ter gostado. Vivemos num mundo de ficção científica: duas milhas para baixo você é fritado e duas milhas para cima você arquejaria sem ar, e há uma pequena mas significante possibilidade de que nos próximos mil anos um grande cometa ou asteroide se choque com o planeta. Descobrir isso tudo quando você tem cerca de treze anos é algo para abrir os olhos. Coloca a acne em seu lugar, para começar.

Aqueles outros mundos, lá fora no espaço, fizeram com que eu me interessasse por este aqui. É um pequeno passo mental de viagem no tempo para paleontologia, da fantasia de capa e espada para mitologia e História Antiga. A verdade é mais estranha que a ficção; nada na fantasia me capturou mais do que ler sobre a evolução da humanidade: de proto-partícula para anfíbio, roedor em árvores, graduado em artes de Oxbridge e, eventualmente, mamífero capaz de utilizar ferramentas.

Eu primeiro cruzei com palavras como ‘ecologista’ e ‘superpopulação’ em livros de ficção científica do final da década de 50 e início da década de 60, muito antes de elas se tornarem moda. Sim, provavelmente Malthus disse primeiro - mas você não lê Malthus quando tem 11 anos, mas provavelmente lerá alguém como John Brunner ou Harry Harrison, porque seus livros têm uma empolgante nave espacial na capa.

Também encontrei a palavra ‘neotenia’, que significa ‘ permanecer jovem’. É algo que nós, como seres humanos, desenvolvemos como mecanismo de sobrevivência. Outros animais, quando são jovens, têm uma curiosidade sobre o mundo, uma flexibilidade de resposta, uma habilidade para brincar que eles perdem ao crescer. Como uma espécie, nós mantivemos isso. Como uma espécie, estamos sempre enfiando nossos dedos nas tomadas elétricas do universo, para ver o que acontece a seguir. É uma característica que ou irá nos salvar a todos ou nos exterminará, mas é o que nos faz seres humanos. Prefiro muito mais estar na companhia das pessoas que olham para Marte do que aquelas que contemplam o umbigo da humanidade - outros mundos são melhores que penugem.

Também me deparei com muito lixo. Mas a mente humana tem uma saudável tendência natural de minerar coisas boas dos detritos. É como mineração de ouro: você tem que balançar uma tonelada de sujeira para encontrar o ouro, se você não separar a sujeira, não encontrará a pepita. No que me diz respeito, a literatura escapista me permite escapar para o mundo real.

Assim, não nos assustemos quando as crianças lerem fantasia. É o adubo para uma mente sadia. Estimula os nodos inquisitivos. Pode não parecer tão ‘relevante’ quanto livros mais firmemente estabelecidos na realidade da criança, mas há alguma evidência de que uma vida interior rica em fantasia é tão bom e necessário para a criança quanto um solo saudável é para uma planta, e pelas mesmas razões.

Claro que alguns podem não ler qualquer outro tipo de ficção pelo resto da vida (embora, na minha experiência, os fãs de ficção científica tendem a ter ampla leitura fora de seus campos). Fãs adultos de SF podem parecer um tanto assustadores quando aparecem em livrarias, alguns deles são conhecidos por usarem orelhas pontudas de plástico, mas pessoas assim são uma minoria não representativa, e, certamente, não menos estranhas que pessoas que, digamos, jogam golfe*. No mínimo, eles estão ajudando a indústria a se manter viva, e fornecendo uma das melhores rotas para a leitura que podem existir.

Eis, portanto, a fantasia vista como uma dieta adequada para a alma em crescimento. Toda a vida humana está lá: um código moral, um senso de ordem e, às vezes, enormes coisas verdes com dentes. Há outros livros para ler, e eu espero que as crianças que comecem com fantasia continuem até encontrá-las. Eu continuei. Mas todo mundo tem de começar por algum lugar.

Aliás, por favor, chamem de fantasia. Não chame isso de ‘realismo mágico’, pois é apenas fantasia usando colarinho e gravata, palavras da marca-de-Caim, palavras usadas para significar ‘fantasia escrita por alguém que esteve na universidade comigo’. Assim como os contos de fadas de nossos antepassados, fantasia não precisa de qualquer desculpa.

Um dos grandes romancistas populares do início deste século foi G. K. Chesterton. Escrevendo numa época em que os contos de fadas estavam sob ataque, praticamente pela mesma razão pela qual livros agora podem ser secretamente banidos em algumas escolas, simplesmente por terem a palavra ‘bruxa’ na capa, ele disse: “A objeção aos contos de fadas é que eles dizem às crianças que existem dragões. Mas crianças sempre souberam que existiam dragões. Contos de fadas ensinam às crianças que os dragões podem ser derrotados”.

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Algumas notas da tradutora…

¹ Desconfio que o Pratchett tenha trocado um pouco as coisas aqui, porque não encontrei nenhum livro chamado ‘Methuselah’s Children’ na bibliografia do Brian Aldiss… Mas achei esse título entre os livros do Robert A. Heinlen.

² O livro citado por Pratchett foi indicado ao The Man Booker Prize em 1984, mas teria perdido para outros livros de menos expressividade pelo fato de Ballard ser mais conhecido como um autor de ficção científica.

³ Bom lembrar que Pratchett nasceu e se criou na Inglaterra, de forma que faz sentido que a história fosse ensinada dessa forma, especialmente a se considerar o quanto as Ilhas Britânicas sempre foram isolacionistas. Não sei hoje em dia, mas pelo menos quando eu estava na escola, vários capítulos de História Geral foram dedicados aos gregos, sendo um capítulo inteiro só para falar dos deuses, com citações a Homero e Sófocles no meio.

* Gostaria de apontar o fato, que nada tem a ver com o artigo (já que ele foi escrito originalmente em 93) de que Trump joga golfe e até é dono de campos de golfe, para sustentar a validade da afirmação do Pratchett.


A Coruja


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