26 de outubro de 2011

Para ler: O Vento nos Salgueiros

Breathless and transfixed the Mole stopped rowing as the liquid run of that glad piping broke on him like a wave, caught him up, and possessed him utterly. He saw the tears on his comrade's cheeks, and bowed his head and understood. For a space they hung there, brushed by the purple loose-strife that fringed the bank; then the clear imperious summons that marched hand-in-hand with the intoxicating melody imposed its will on Mole, and mechanically he bent to his oars again. And the light grew steadily stronger, but no birds sang as they were wont to do at the approach of dawn; and but for the heavenly music all was marvellously still.
On either side of them, as they glided onwards, the rich meadow-grass seemed that morning of a freshness and a greenness unsurpassable. Never had they noticed the roses so vivid, the willow-herb so riotous, the meadow-sweet so odorous and pervading. Then the murmur of the approaching weir began to hold the air, and they felt a consciousness that they were nearing the end, whatever it might be, that surely awaited their expedition.

A wide half-circle of foam and glinting lights and shining shoulders of green water, the great weir closed the backwater from bank to bank, troubled all the quiet surface with twirling eddies and floating foam-streaks, and deadened all other sounds with its solemn and soothing rumble. In midmost of the stream, embraced in the weir's shimmering arm-spread, a small island lay anchored, fringed close with willow and silver birch and alder. Reserved, shy, but full of significance, it hid whatever it might hold behind a veil, keeping it till the hour should come, and, with the hour, those who were called and chosen.

Slowly, but with no doubt or hesitation whatever, and in something of a solemn expectancy, the two animals passed through the broken tumultuous water and moored their boat at the flowery margin of the island. In silence they landed, and pushed through the blossom and scented herbage and undergrowth that led up to the level ground, till they stood on a little lawn of a marvellous green, set round with Nature's own orchard-trees—crab-apple, wild cherry, and sloe.

'This is the place of my song-dream, the place the music played to me,' whispered the Rat, as if in a trance. 'Here, in this holy place, here if anywhere, surely we shall find Him!'

Then suddenly the Mole felt a great Awe fall upon him, an awe that turned his muscles to water, bowed his head, and rooted his feet to the ground. It was no panic terror—indeed he felt wonderfully at peace and happy—but it was an awe that smote and held him and, without seeing, he knew it could only mean that some august Presence was very, very near. With difficulty he turned to look for his friend and saw him at his side cowed, stricken, and trembling violently. And still there was utter silence in the populous bird-haunted branches around them; and still the light grew and grew.


Kenneth Grahame – The Wind in the Willows
Tendo terminado de ler a obra-prima de Kenneth Grahame, a primeira coisa que pensei foi que O Vento dos Salgueiros não fazia jus a figurar numa lista das grandes obras da literatura fantástica.

Não tenho minhas dúvidas de que se trata de um clássico. É uma belíssima fábula, doce e melancólica – um livro que eu gostaria de ter lido na infância, para então reler na idade adulta e assim recordar os sentimentos que teria experimentado quando era menos cínica e mais ingênua.

De certa forma, acredito que, para ler um livro como este da forma ‘certa’ – se há uma forma certa de ler algum livro – é necessário ter um pouco daquela inocência delicada pela qual as crianças são (ou eram) conhecidas.

Acho que me enrolei um bocado nesses primeiros parágrafos, mas é difícil descrever o tipo de afeição, de nostalgia que esse livro te desperta. Nostalgia, saudades de quê, exatamente, ainda não estou bem certa. De um tempo em que o mundo era menos complicado, imagino. Um pouco mais lento. Quando tínhamos tempo para as coisas que são realmente importantes: visitar um amigo, apreciar sua companhia, encantar-se com a mudança das estações, ter a primeira visão do mar... descobrir o mundo pela primeira vez.

Fazia tempo que ele estava na minha lista de livros para ler – comprei minha edição no final do ano passado, quando fiz meu primeiro pedido pelo Bookdepository – mas só o tirei da estante após devorar Os Livros e os Dias do Alberto Manguel e me deparar com as notas do autor sobre ele.

Podia ter lido direto no computador, porque, tendo sido publicado em 1908, O Vento nos Salgueiros já entrou em domínio público. Vocês podem inclusive encontrá-lo no Project Gutenberg. E há traduções também (embora elas sejam o quádruplo do preço do livro em inglês, que comprei por três reais. Não, sério. Estava em promoção XD).

O que acho mais curioso sobre este livro é que seu autor era secretário do Banco da Inglaterra. Confesso que acho difícil conciliar essa imagem com a do escritor de um livro tão delicado. Mas estive pesquisando um pouco sobre o ele e descobri que Grahame começou O Vento nos Salgueiros como uma série de cartas para seu filho, que, no entanto, não viveu o suficiente para ver o final da história.

Talvez isso explique o sentimento quase agridoce com que o terminei...


A história começa na primavera (aliás, há uma passagem bem demarcada de cada estação; é uma característica forte da narrativa). O tempo está bom, há uma certa ansiedade, uma energia no ar... o que faz Toupeira perder a paciência com a limpeza anual de primavera de sua toca, de modo que ele larga tudo, deixa o subterrâneo e inicia um passeio que o levará a encontrar-se, pela primeira vez, com o Rio.

Agora, tente se lembrar da primeira vez que viu o Mar (ou um rio, como Toupeira – a depender de sua localidade) – aquela imensidão de céu e água e, bom deus, pode existir tanta beleza e tanta perfeição na terra?

É justamente desse ponto de vista de que falava ao começo dessa resenha: O Vento nos Salgueiros é um livro que precisa ser lido com o pensamento naquela capacidade infinita de admiração inata a uma criança.

Toupeira é um pouco ingênuo, mas tem uma boa natureza e logo faz amizade com Rato, que vive junto ao Rio – eu diria ainda que ele vive o Rio -, e que abrigará Toupeira em sua casa.

Algum tempo depois, Rato apresenta o amigo ao Senhor Sapo, do Salão do Sapo, o camarada mais rico dos arredores. Sapo é um bom camarada, mas impulsivo e cheio de si, sempre com novos projetos que nunca tem persistência suficiente para ver chegados até o fim – até descobrir o automóvel e tornar-se obcecado pelo som de motores e a velocidade do mundo moderno.

Para completar a trupe temos o Senhor Texugo, mais velho, a voz da sabedoria – especialmente no que concerne a Sapo. Texugo é meio ranzinza e prefere sua solidão, mas é um amigo extremamente leal, alguém que você sempre quer ter por perto em tempos de necessidade.

Há muitas histórias contadas dentro da história de O Vento nos Salgueiros: a descoberta do Rio por Toupeira; as presepadas de Sapo culminando com sua fuga da prisão disfarçado de lavadeira; o desejo de Rato por caminhar pelo mundo; o encontro com o deus Pã (uma das mais belas passagens do livro); o retorno de Toupeira à sua casa, os cuidados de Texugo para com os amigos; o assalto ao Salão do Sapo, tomado por arminhos e furões...

Amor, amizade, lealdade, perdão – todos são temas tratados com uma sensibilidade tocante em O Vento nos Salgueiros; bem mais que em tantos outros títulos ditos sérios e mais atuais. É um livro, assim, que extrapola gêneros e classificações – para ser lido, refletido e relido muitas vezes, durante toda a vida.


A Coruja


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Um comentário:

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