16 de junho de 2016

Meu Autor, meu Herói - notas sobre leitura e escrevinhações

O escritor é o duelista que jamais luta na hora marcada, que guarda um insulto como qualquer outro objeto curioso, um item de colecionador, despeja-o mais tarde sobre sua mesa e empenha-se verbalmente num duelo com ele. Algumas pessoas chamam isso de fraqueza. Eu chamo de adiamento... Pois ele preserva, coleciona o que depois vai explodir em sua obra.

- Anaïs Nin

Agrada-me concordar com o leitor comum, pois pelo senso comum dos leitores, não corrompidos por preconceitos literários, após todos os refinamentos da sutileza e do dogmatismo do aprendizado, são finalmente decididas todas as honras poéticas.

- Samuel Johnson
As duas citações com que abrimos este artigo revelam duas visões, duas abordagens diferentes: a primeira refere-se ao que chamamos na semiótica (estudo da linguagem, dos sinais) de emitente e a outra, ao destinatário da mensagem.

É exatamente sobre esses dois pontos de vista que versa esse ensaio, duas experiências completamente diferentes, ainda que complementares.

Haverá, certamente – e aqui alerto meu leitor – algo de autobiográfico nessas linhas. Sou uma leitora praticamente desde que me entendo por gente; minhas lembranças mais antigas são de abrir os volumes da Enciclopédia do Escoteiro Mirim com verdadeira fúria em aprender o que havia por trás daqueles símbolos que preenchiam as páginas, ansiosa por descobrir o mundo através das palavras. Pretensamente, posso me dizer escritora há, pelo menos, dez anos, se é que as histórias sanguinárias que escrevi na época em que “descobri” Agatha Christie (e nas quais nem os heróis sobreviviam) se classificam como literatura...

Assim é que não posso me comprometer a ser imparcial, ainda que, na escrita de um artigo, tenha-se esperança de alguma imparcialidade por parte do autor; uma visão mais crítica, mais aprofundada. Talvez, se estivesse analisando algo que me fosse mais distante, pudesse ser imparcial... Mas estou falando de leitores e de escritores, de duas coisas tão naturais em minha vida, tão próximas, tão permanentemente ligadas ao que sou, que me é realmente impossível falar sem tomar partidos.

Gastei dois parágrafos tentando justificar o que vou escrever – ainda que eu não tenha exatamente certeza do que vai sair a seguir. Lembrem-se, porém, de que foram avisados. Assim, feitos todos os avisos que se poderiam fazer, vamos partir para nosso pequeno passeio, sim?

A princípio, proponho duas questões que são o cerne de toda a idéia desse ensaio. Adianto, contudo, que não as tenho pretensão de responder. São perguntas que cada um deve responder por si, pois, como bem diz Virginia Woolf ao final de seu O leitor comum,
O único conselho, de fato, que uma pessoa pode dar à outra sobre o ato de ler é não seguir conselho nenhum, seguir seus próprios instintos, usar suas próprias razões, chegar a suas próprias conclusões.
Por que Ler?


Em seu livro Como e por que Ler, o crítico americano Harold Bloom observa que
Não existe apenas um modo de ler bem, mas existe uma razão precípua por que ler. Nos dias de hoje, a informação é facilmente encontrada, mas onde está a sabedoria? Se tivermos sorte, encontraremos um professor que nos oriente, mas, em última análise, vemo-nos sós, seguindo nosso caminho sem mediadores. Ler bem é um dos grandes prazeres da solidão; ao menos, segundo a minha experiência, é o mais benéfico dos prazeres.

(...)

Lemos não apenas porque, na vida real, jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura, mas também porque amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar e amorosa.
Por que ler? Por que, com tantas outras formas de comunicação, tantas outras formas de ver o mundo, mais rápidas, mais práticas, porque ainda nos sentamos diante de um volume, apreciamos seu peso, devoramos gulosamente a orelha, ficando na expectativa por aquilo que as páginas a seguir poderão nos trazer?

Ler nos dá prazer. Essa é uma resposta bem simples para a questão. E assim é que seguimos para o verdadeiro âmago da questão: por que ler nos dá prazer?

Freud dizia que as maiores criações de arte são incompreensíveis, constituindo verdadeiros enigmas. E que seria o estado de “perplexidade intelectual”, onde não conseguimos racionalizar as experiências que temos, sendo essa uma condição necessária à fruição do objeto.

Como Harold Bloom bem observa, ler é um prazer próprio à solidão. Não apenas isso: é também, até certo ponto, um prazer egoísta que, por algum tempo, parece nos separar do resto do mundo.

Às voltas com uma boa história, nos transportamos do mundo. Nossas obrigações nos parecem mesquinhas ao impedir que estejamos com o objeto de desejo. As necessidades são postergadas – de bom grado podemos passar uma noite em claro na ânsia de descobrir o que acontecerá no capítulo seguinte.

Rimos sozinhos, choramos, torcemos. Ainda que tudo não passe de ficção. Ainda que tenhamos consciência de como tudo irá terminar.

Mas como é possível que palavras que, sozinhas, não nos têm qualquer significado, tornem-se capazes de tal catarse? De onde vem esse estranho poder que pode, ao mesmo tempo, nos subjugar e nos elevar acima do mundano?


Antes de surgirem os livros, as histórias eram transmitidas de forma oral. Era a maneira que a cultura tinha de ser passada para frente, de se perpetuar. Era como as crianças aprendiam que era perigoso andarem sozinhas na floresta e o que acontecia quando eram desobedientes.

Era necessário, portanto, que fossem capazes de chamar a atenção de sua platéia. Que mexessem com suas emoções, que lhes despertasse a compaixão, o temor, a curiosidade. Para Tolkien, o sinal de uma boa história de fadas é
não importa quão desvairados sejam seus eventos, quão fantásticas ou terríveis as aventuras, ela pode proporcionar à criança ou ao adulto que a escuta, quando chega a “virada”, uma suspensão de fôlego, um batimento e ânimo no coração, próximos às lágrimas (ou de fato acompanhados por elas).
Esse era o grande poder dos Coros nas tragédias gregas. Ainda hoje, ao assistirmos a Édipo Rei ou Antígona de Sófocles, um dos autores que mais souberam utilizar a força do coro em suas obras, há qualquer coisa em nós que responde às altas vozes que permeiam a história.

E o que são as Mil e uma Noites, se não uma ode ao poder das histórias? Antes de serem compiladas, as histórias da sultana Sherazade eram narradas na rua pelo Cheik el-Medah, – literalmente “chefe dos contadores de café”, título utilizado pelos contadores de histórias – reunindo os passantes curiosos até formar pequenas multidões, que seguiam apaixonadamente as aventuras de seus heróis, às vezes interrompendo-as com um “Alá o proteja”.

Sherazade consegue conquistar o Sultão e salvar, não apenas sua vida, mas a de dezenas de donzelas do reino, através das histórias que, noite após noite, narra a ele e à irmã, deixando sempre o clímax para a noite seguinte e, imediatamente, começando outra.

Como o Sultão, nós também somos mantidos no suspense até o próximo capítulo – embora hoje tenhamos a escolha de virar a página e continuar a ler para descobrir o que aconteceu com Sinbad após ser abandonado na ilha dos diamantes ou se o gênio concederá os desejos de Aladdin.

Por mais que uma história seja fantasiosa e distante do nosso cotidiano, ela sempre irá manter alguns pontos de contato com a realidade. A magia que os habitantes do Belo Reino, como chama Tolkien, magia que manejam “para o bem ou para o mal do homem, é um poder para brincar com os desejos de seu corpo e seu coração”,
de fato as histórias de fadas tratam em grande parte, ou (as melhores) principalmente, de coisas simples e fundamentais, intocadas pela Fantasia, mas essas simplicidades tornam-se mais luminosas pelo seu ambiente.
Independente de ser elfo, troll, fada, alienígena de duas cabeças com problemas de múltipla personalidade, deus, herói ou simplesmente um ser humano comum que deu o azar – ou a sorte – de estar no lugar errado na hora errada (afinal, alguma coisa tem de acontecer com ele), todos esses personagens são capazes de sentimentos que nos são bastante familiares: eles amam e odeiam; sentem piedade, compaixão; são cruéis, mesquinhos...

Em sua essência, são humanos e, como tais, podemos nos identificar com eles. Somos capazes de nos reconhecer neles.

Talvez aí resida o grande segredo de uma boa história.

Secretamente, fantasiamos em ser o herói. Somos aquele por quem todas as mocinhas (e, talvez até algumas vilãs) se apaixonam. Ou então, a própria donzela por quem o mocinho enfrenta todos os desafios. Somos, enfim, o centro das atenções: o mais bonito, o mais forte, o mais esperto, o mais amado.

Apresentamos assim, como diz o próprio Freud, Sua Majestade o Ego.

Viver aventuras através da leitura de um livro é realizar, ainda que de forma incompleta, nossos próprios sonhos. É, por um instante, escapar de tudo aquilo que nos intimida, tudo aquilo que nos mantém presos.

Quando lemos, ou, pelo menos, enquanto lemos, temos a chance de nos tornarmos plenos. Somos aquilo que desejamos ser. Vivemos aquilo que, no mundo real, nos é impossível alcançar. Aprendemos através dessa experiência, nos tornamos – com alguma sorte – mais sábios, mais capazes.

Então, fecha-se a capa. De volta ao mundo real, voltamos a ser nós mesmos. Existe, porém, uma categoria de mortais que, após encerrar o livro, não necessariamente volta ao nosso convívio.

Na verdade, eles nem precisam de um livro para ser o combustível de suas próprias fantasias...

Por que Escrever?


Disse Thomas Edison, o “Feiticeiro de Menlo Park”, inventor da lâmpada: “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”. Como inventor, ele não estava errado. Como escritor, tampouco estaria.

Muita gente acredita que o escritor simplesmente se senta diante de uma folha em branco e começa a preenchê-la, até que, em alguns dias, tenha em mãos um livro. Bem, certamente temos de nos sentar diante de uma folha em branco... De resto...

Na literatura, como em muitas outras obras, começamos com um pingo de inspiração. Às vezes, ela é o suficiente para que possamos entrever o final a que vamos chegar – ainda que não todo o processo. Às vezes, contudo ela nos dá apenas o começo, apenas uma pequena dica, o sussurro de uma musa por trás de nossos ouvidos.

Como um escultor diante de uma peça de mármore, ele imagina como ela estará ao final de seu trabalho. Mas, no caminho, várias outras idéias irão se congregar. Pequenos detalhes aqui e ali... ou então uma reviravolta tão grande que leva a coisa para um resultado completamente contrário ao que prevíramos.

Em primeiro lugar, o escritor não é o único a deter os fios do destino de seus personagens. Com absoluta franqueza – e por mais absurdo que isso possa parecer – muitas vezes somos pegos de surpresa por eles, pois são capazes de tomar as rédeas de suas próprias decisões, de passar à nossa frente com suas falas e ações.

Personagens nas mãos de um escritor não são simplesmente personagens. São criaturas dotadas de uma vontade tão poderosa quanto a de seu autor. E isso, exatamente, porque a vontade desses personagens nasce na do autor.

Soa confuso, tenho plena convicção disso. E é difícil explicar. Talvez com um exemplo isso se torne mais compreensível...

Peguemos um personagem... Delimitemos suas características: sua personalidade, sua história de vida, suas ideologias, suas crenças. Mais que criar uma voz passiva dentro de um texto, estamos criando um ser – brincando de Deus, talvez.

Se conseguirmos realmente criar esse ser; não à nossa imagem e semelhança, (ainda que seja, muitas vezes, um reflexo daquilo que somos ou que desejamos ser) mas individual, próprio de si mesmo e, de repente, queiramos que ele aja contra tudo aquilo em que o fizemos acreditar, sem qualquer explicação ou mote convincente, estaremos descaracterizando-o.

E, por descaracterizá-lo, estamos na verdade criando outra figura, que talvez responda pelo mesmo nome, mas não é o mesmo que imaginamos a princípio. Teremos assim cometido a maior das violências que se pode cometer contra um personagem.

Assim é que o primeiro desafio do escritor é compreender suas próprias criações. É saber ouvi-los, ainda que - e exatamente porque - as vozes deles são a sua própria. É conseguir separar sua própria personalidade da deles, mesmo que eles sejam baseados na sua. É encará-los como indivíduos próprios, apesar de existirem apenas em sua mente.

O escritor – e, de maneira mais específica, o escritor criativo – não cria apenas personagens. De suas mãos, de sua pena, de sua mente, brotam também mundos inteiros.

O Mundo Primário é o nosso mundo, nossa realidade. Sempre que escrevemos, criamos um Mundo Secundário que, não necessariamente, é diferente daquilo que nos cerca. Mas, mesmo que não seja diferente, ele irá se adequar às nossas necessidades.

As histórias costumam ter “estranhas coincidências”. São, elas, na verdade, “desculpas esfarrapadas” para a conveniência do escritor. Coisas que acontecem sem explicação porque são simplesmente necessárias à narrativa.

Quando um personagem diz num diálogo que “o mundo não gira ao seu redor”, ele não podia estar mais errado. O autor faz o mundo girar ao redor de cada um de seus caracteres, adequando os acontecimentos a eles.

Interessante é que o escritor consegue fazer isso sem “forçar”. Não todos, obviamente, mas os bons escritores. Eles conseguem fazer essas “coincidências” - necessárias para que a narração corra – aceitáveis, comuns. Mesmo que não acreditemos em destino, nos curvamos a ele nas histórias.

Cremos. E essa é, provavelmente, a força das boas histórias. Por um instante, nos desligamos do Mundo Primário e cremos plenamente e com todas as nossas forças no Mundo Secundário criado pelo escritor. Voltando a Tolkien,
Fazer um Mundo Secundário dentro do qual o sol verde seja verossímil, impondo a Crença Secundária, provavelmente exigirá trabalho e reflexão, e certamente demandará uma habilidade especial, uma espécie de destreza élfica. Poucos se arriscam a uma tarefa tão difícil. Mas, quando elas são tentadas e executadas em algum grau, então temos uma rara realização da Arte: na verdade, a arte narrativa, a criação de histórias em seu modo primário e mais potente.
E, mais à frente, ele ainda diz sobre o efeito das boas histórias – e, mais especificamente, das histórias de fadas – sobre o homem
Se presenciarmos um drama do Belo Reino, nós estaremos, ou pensaremos estar, pessoalmente dentro de seu Mundo Secundário. A experiência pode ser muito semelhante ao Sonho, e às vezes (pelos homens) tendo sido (ao que parece) confundida com ele. Mas no drama do Belo Reino estamos em um sonho que outra mente está tecendo, e o conhecimento desse fato alarmante pode escapar à nossa compreensão. Ao experimentar diretamente um Mundo Secundário, a poção é forte demais, e nós atribuímos à Crença Primária, não importa quão maravilhosos sejam os acontecimentos.
A bem da verdade, nesse texto, Tolkien está falando do poder que os Dramas feitos pelos elfos – enfim, pela gente do Belo Reino - possui sobre os humanos (ou possuiria, a depender do ponto de vista...).

Mas o Encantamento é o mesmo. A teia que o escritor tece em torno de seu leitor, o complexo de significados e significantes de onde o leitor irá tirar sua compreensão, os limites a que se imporá a interpretação – não deixa de haver certa Magia nessa arte.


O que leva, contudo, alguém a escrever? Por que nem todos temos esse Dom? São perguntas às quais tocamos apenas pelas tangentes. Continuemos, portanto, nosso pequeno passeio...

Na minha opinião – e essa é uma opinião estritamente pessoal, e, pelo menos até onde pesquisei, não encontrei nada que dissesse que, cientificamente, meu pensamento está correto; ou seja, é completo e total achismo – o escritor, coitado, é um neurótico.

Ele é assaltado nas horas mais impróprias e inconvenientes pela inspiração. Ele não gosta simplesmente de escrever; ele precisa escrever em prol de sua sanidade. Caso tente ignorar por muito tempo os personagens que ficam sussurrando dentro de sua cabeça, vai acabar com uma crise de nervos.

E quando ele quer escrever, descobre-se simplesmente travado. A inspiração o abandonou. E vai ele, laboriosamente, como no poema de Drummond, lutar com as palavras
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
Mais com o poeta que com o escritor da prosa, após a centelha de inspiração, é a hora da revisão (eu fui a única que me lembrei do Telecurso 2000?). São os 99% de transpiração, buscando a melhor rima, o verso perfeito, a estrofe melódica...

Ou então, os diálogos feitos e refeitos até que se tornem irretocáveis – ainda que, para o autor, muitas vezes estejam aquém daquilo que imaginou.

Escrever é – usando o clichê – uma faca de dois gumes. Tanto pode ser uma benção, como uma maldição. O escritor pode se tornar escravo de seus personagens, incapaz de atentar ou registrar outra coisa que não seja a história. Mas a história pode servir também como uma válvula de escape para o escritor.

O escritor só consegue estar em paz consigo mesmo quando consegue exteriorizar aquilo que lhe vai pela mente. É a maneira que ele tem de lidar com o mundo. De se relacionar com o mundo.

O escritor é um observador. Aquilo que ele vê acontecer ao seu redor, aquilo que fala, escuta, assiste, tudo isso pode se refletir mais tarde em sua obra. Ele transforma a realidade. E, quando faz isso bem feito, é capaz de trazer aos leitores comuns – não os críticos, que têm por trabalho espicaçar cada elemento de uma história – imensurável prazer.

Contar histórias, simplesmente. Entre um extremo e outro, o desejo de contar e ouvir histórias é que roda as engrenagens. Explicar esse prazer e esse labor não é tarefa fácil, que jamais poderá ser realmente respondida.

Pois não explicamos sentimentos. Nós apenas os sentimos.


A Coruja

(Escrevi esse artigo originalmente em 2009, já nem me lembro exatamente para o quê. Talvez seja um dos ensaios que mais tive prazer de escrever, um dos que mais tenho orgulho. Achei justo compartilhá-lo por aqui.)


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