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6 de dezembro de 2022
O Natal dos Fantasmas: por uma ceia com histórias de arrepiar

Como eu disse, o fantasma ortodoxo padrão faz sua aparição uma vez por ano, na véspera de Natal, e fica satisfeito.
Por que na véspera de Natal, de todas as noites do ano, é algo que nunca consegui entender. É sempre uma das noites mais sombrias para se estar ao ar livre ― fria, lamacenta e úmida. E, além disso, na época do Natal, todo mundo tem muita coisa para aguentar, com uma casa cheia de parentes vivos, e não quer os fantasmas dos parentes mortos vagando pelo lugar, tenho certeza.
Deve haver algo fantasmagórico no ar no Natal ― algo sobre a atmosfera fechada e mormacenta que atrai os fantasmas, como a umidade das chuvas de verão traz sapos e caracóis.
E não só os próprios fantasmas andam por aí na véspera de Natal, mas as pessoas sempre se sentam e falam deles nessa data. Sempre que cinco ou seis falantes de inglês se reúnem ao redor de uma fogueira na véspera de Natal, eles começam a contar histórias de fantasmas. Nada nos satisfaz mais na véspera de Natal do que ouvir uns aos outros contando anedotas autênticas sobre espectros. É uma época genial e festiva, e amamos pensar em túmulos, cadáveres, assassinatos e sangue.
Sou suspeita para falar dos livros da editora Wish, com sua proposta de resgate de clássicos por vezes completamente desconhecidos no Brasil, promoção de novos artistas e tradutores, e um cuidado com o texto que casa com um histórico de projetos gráficos que são de encher os olhos em cada mínimo detalhe.
15 de março de 2021
Sociedade das Relíquias Literárias: um ano de resgate de contos raros

Um ano atrás, a editora Wish lançou uma campanha de assinatura no Catarse para enviar, mensalmente, contos longos em formato digital, selecionados entre textos raros de todo o mundo. O projeto já estava em construção quando a pandemia - e quarentena - começou, de maneira que a equipe da editora decidiu adiantar os trabalhos e lançar a Sociedade das Relíquias Literárias. Era, afinal, uma maneira de ajudar na sobrevivência da empresa e seus colaboradores (tradutores, ilustradores, revisores…) diante de toda a incerteza que estávamos vivendo.
15 de agosto de 2020
A Rainha do Ignoto: uma romance à frente de seu tempo

— Tu que tens viajado muito — disse o moço gracejando —, diz-me o que é aquilo ali, na linha do horizonte, para o lado do nascente?
— Ali, Sr. Edmundo? — apontou Valentim. — É a serra das Antas.
— É fértil aquela serra? — tornou ele.
— Assim, assim — volveu o campônio —, fazem roçados nas quebradas e plantam alguma cana, mas coisa pouca.
— Aqui, deste outro lado, vejo outra serra muito alta — disse o Dr. Edmundo.
— Qual? Aquele serrote? Parece alto porque está mais perto — volveu o menino —, aquela é a Serra do Areré; mas é encantada, ninguém vai lá.
— Ninguém! Por quê? — disse Edmundo, com espanto.
— Porque, se for, não voltará mais; dizem que tem uma gruta onde mora uma moça encantada numa cobra, que à noite sai pelos arredores a fazer distúrbios.
— E acreditas nessas bruxarias, Valentim?
— Ora, se acredito; minha avó também não acreditava, assim como o senhor, mas agora está certa e mais que certa da verdade. Uma noite destas, viu, ela mesma, descer da serra e passar cantando pela estrada uma moça bonita, vestida de branco. E o senhor quer saber? Ia seguida pelo diabo, um moleque preto de olhos de fogo, com uma cauda comprida que arrastava no chão!
Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi falar em A Rainha do Ignoto, mas foi sempre num tom de elogio e curiosidade por seu pioneirismo no cenário de literatura especulativa cá no Brasil. Assim é que, quando a Wish anunciou que ia lançá-lo numa campanha do Catarse, não tive dúvidas em ir atrás de apoiar. Aí a Andrielle, do Biblioteca Híbrida, anunciou uma leitura coletiva da obra e me empolguei para participar, de forma que o romance de Emília Freitas pulou para a frente da lista de leituras cá no Coruja.
10 de agosto de 2020
A Filha do Rei de Elfland: um conto de fadas sobre o Tempo

Durante todo o dia, Alveric viajou com o vigor que aguarda no início das jornadas, e isso o ajudou, embora estivesse sobrecarregado com tantas provisões e um grande cobertor que usava como uma capa pesada sobre os ombros; além disso, carregava um pacote de lenha e uma vara na mão direita. Ele era uma figura disparatada com sua vara, sua sacola e sua espada; mas seguia uma ideia, uma inspiração, uma esperança; e assim compartilhava algo da estranheza que têm todos os homens que fazem isso.
A primeira vez que li The King of Elfland’s Daughter, de Lorde Dunsany, foi dez anos atrás, em inglês, e devo dizer que não foi uma leitura fácil. Por mais fluente que eu fosse, o estilo repleto de volteios e o vocabulário bastante formal foram um desafio. Isso não me impediu de achar o enredo fascinante, mas interferiu na experiência de leitura. Assim é que, quando vi que a Wish ia lançá-lo traduzido, empolguei-me. A editora costuma ter grande esmero com a tradução, introduções escritas por especialistas e projetos gráficos lindíssimos. Tinha certeza que essa seria uma oportunidade para apreciar a prosa de Dunsany como ela deve ser apreciada, deixando-se levar pelo lirismo em vez de arfar com o esforço de compreensão.
5 de junho de 2019
Os Melhores Contos de Fadas Nórdicos

O vale e a montanha se alternavam em bela sucessão sob o céu azul da Noruega de milhares de anos atrás, assim como o fazem hoje, e a Corrente do Golfo fluía então como agora, passando pelas costas escarpadas; mas era uma terra muito diferente. Nas florestas densas, nenhum machado tinha sido ouvido contra os fortes troncos que os rios noruegueses carregariam para o mar, para flutuarem até o futuro como nobres navios sobre o coração do oceano; nas baías protegidas, nenhuma casa aninhada com cercanias caprichosamente cuidadas com jardins e campinas; nenhum barco ainda singrava o mar com redes e equipamento de pesca. Os homens ainda não tinham pensado nesta bela terra ao norte como morada.
Desde que vi o primeiro anúncio da campanha no Catarse para publicação de Os Melhores Contos de Fadas Nórdicos, fiquei de olho grande. Interesso-me bastante por esse tipo de história, bem como pela mitologia e folclore nórdicos e a editora prometia alguns contos raros e nunca traduzidos cá no Brasil. Para além do conteúdo, o projeto gráfico era coisa de encher os olhos. Resultado: apoiei a campanha no primeiro dia.
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