17 de outubro de 2019

Dez Anos em Dez Ensaios - Um Anjo, uma Serpente e um Plano Infalível... digo, Inefável


Inefável. adj. 1. Que não se pode exprimir por palavras por ser naturalmente complexo, intenso ou belo; indescritível. 2. Que provoca grande prazer ou contentamento; inebriante. 3. Designação de Deus. Perfeição e beleza que não pertencem ao plano terreno, mas sim celestial.

Se eu tivesse de pegar um único livro para levar para uma ilha deserta, ele seria Belas Maldições. É uma escolha um pouco mais fácil do que simplesmente dizer “esse é meu livro favorito”, porque tenho preferidos em diferentes gêneros, e não há tanto como compará-los. Mas esse título junta dois dos meus escritores favoritos e é um baú do tesouro de personagens, diferentes linhas narrativas, interpretações e possibilidades imaginativas de continuação.

Explicando: Belas Maldições me dá a possibilidade de escolher se quero ler a história de apenas um grupo de personagens, deixando a imaginação preencher as ações dos outros (o elenco completo só se junta para a apoteose final e há várias conjecturas possíveis para se fazer); poderia ainda ler e reler partindo de diferentes pontos de vista interpretativos; ou ainda terminar e depois escrever mentalmente fanfics com o que acontece após o final. A depender de quanto tempo ficasse sozinha e abandonada na ilha deserta, caso começasse a ter alucinações, elas provavelmente girariam em torno do livro que eu estaria lendo e relendo. Em outras palavras, eu poderia estabelecer longos diálogos delirantes com Aziraphale e Crowley!

Após tais devaneios, devo dizer que não estou aqui hoje para falar especificamente do livro escrito por Gaiman e Pratchett; meu foco será a adaptação lançada em maio por meio do Prime Video, da Amazon. Em específico, quero tratar de como a série trouxe novas camadas de interpretação para a história original, como tudo isso tem a ver com a ideia de livre arbítrio - um dos conceitos fundamentais do enredo de Belas Maldições -, e destrinchar afinal o que seria o Plano Inefável se este não é o Grande Plano.

A principal mudança do livro para a série - além das cenas que mostram a evolução da amizade de Crowley e Aziraphale ao longo de seis milênios - consiste no fato de que a história nos é narrada por… Deus. Não estou falando aqui do fato de que Deus é representado por uma voz feminina (o que achei genial); mas que há um narrador específico, algo que nunca ficara claro para o leitor (pelo menos não para mim).

Ironicamente, contudo, essa sutileza está presente no livro, se você pensar em termos de teoria literária. Ora, normalmente classificamos o narrador da história como narrador-personagem (em primeira pessoa, com participação nos acontecimentos); narrador-observador (em terceira pessoa, mas sem um conhecimento íntimo dos personagens e de seus pensamentos) e narrador-onisciente (terceira pessoa que tudo sabe e pode introduzir fluxos de consciência em primeira pessoa). Considerando que Belas Maldições é um típico caso de narrador-onisciente, e que é um dos grandes atributos divinos ser onisciente (além de onipotente e onipresente), não seria dar um passo maior que a perna interpretar Deus como a pessoa que está contando a história desde a primeira configuração da livro.

Assim é que, em minhas leituras passadas de Belas Maldições, a impressão geral que tive era de um Deus ausente - ainda que ele aparecesse no elenco à primeira página -, que deixara a criação nas mãos de seus anjos, os quais se digladiavam para colocar em ação o Grande Plano e terminar de uma vez por todas a guerra contra os demônios. O mais perto que chegávamos do Criador era Metraton, e Metraton mantinha a narrativa do Apocalipse como algo inescapável, então seria razoável pensar que Deus estava a favor do Apocalipse no final das contas.


Mas, se Ele está presente na história, se está acompanhando de perto - embora não esteja influenciando diretamente - os acontecimentos, as coisas mudam um pouco de figura. A diferença entre o “Grande Plano” e o “Plano Inefável” não parece apenas uma tentativa desesperada de Aziraphale e Crowley de salvar o mundo, mas uma questão muito mais premente.

— Com licença — disse o anjo.

O trio olhou para ele.

— Este Grande Plano — disse ele — seria o Plano
inefável, não seria?

Houve um instante de silêncio.

— É o Grande Plano — disse o Metatron, curto e grosso. — Sabes bem disso. Haverá um mundo durando seis mil anos e ele acabará em...

— Sim, sim, é o Grande Plano mesmo — disse Aziraphale. Falava com educação e respeito, mas com o ar de alguém que acabou de fazer uma pergunta inconveniente num fórum político e não vai sair enquanto não obtiver uma resposta. — Eu estava só perguntando se ele também é inefável. Só quero esclarecer esse ponto.

— Não importa! — disparou Metatron. — Deve ser a mesma coisa!

Deve ser?, pensou Crowley. Então eles não sabem. Começou a sorrir como um idiota.

— Então você não tem certeza absoluta disso? — perguntou Aziraphale.

— Não nos é dado compreender o Plano
inefável — disse Metatron —, mas, naturalmente, o Grande Plano...

— Mas o Grande Plano pode ser apenas uma pequena parte da inefabilidade geral — interrompeu Crowley. — Você não tem como ter certeza se o que está acontecendo agora não está correto, de um ponto de vista inefável.

— Ezztá ezzcrito! — urrou Belzebu.

— Mas poderia estar escrito diferente em algum outro lugar — disse Crowley. — Onde vocês não pudessem ler.

— Com letras maiores — disse Aziraphale.

— E sublinhadas — acrescentou Crowley.

— Duas vezes — sugeriu Aziraphale.

— Talvez este não seja apenas um teste para o mundo — disse Crowley. — Poderia ser um teste para o seu pessoal também. Hein?

— Deus não faz Seus servos leais de joguetes — disse Metatron, mas num tom agora preocupado.

— Epa, epa, epa — disse Crowley. — Por
onde você andou?

Ao longo da série, visitamos Céu e Inferno e a impressão que temos dos dois ambientes não é das mais positivas. Isso era de se esperar do Inferno, que em vez de círculos de fogo ardente com caldeirões fumegantes fervendo os condenados - em acordo com a agradabilíssima iconografia medieval -, fez-me pensar em repartições públicas soviéticas (não sei explicar porque soviéticas, caraminholas minhas?). O Céu, contudo, liderado pelo arcanjo Gabriel, é uma cidade de arranha-céus completamente estéril. Em ambos os ambientes viceja uma burocracia estúpida - caótica no Inferno e obsessivamente organizada no Céu.


Talvez mais importante que isso, nenhum dos dois lados está particularmente preocupado com os humanos. Os demônios ainda fazem sua parte na tentação, mas não há muito que se falar em anjos da guarda. O verdadeiro interesse parece ser, em ambos os lados, de usar a Terra como campo de batalha para que seus respectivos exércitos possam arrasar-se mutuamente. No que realmente interessa, hostes angélicas e demoníacas têm mais em comum do que se poderia esperar. E aí você tem Aziraphale e Crowley, que passaram os últimos seis mil anos entre humanos e meio que ‘se tornaram nativos’. Os dois não poderiam ser mais diferentes de seus companheiros de armas.

Crowley não Caiu exatamente, ele “apenas foi Rastejando Lentamente para Baixo”, o que ocorre por se manter nas companhias erradas e fazer perguntas demais. Aziraphale, por outro lado, perde sua Espada de Fogo - entregando-a aos humanos recém-expulsos do Paraíso -, algo pelo que é constantemente questionado ao longo da história, mas nunca punido. Não há bem uma justificativa para a queda de Crowley ou para a ausência de questionamento e punição para Aziraphale. Dar a espada para os humanos pode ser visto como um sinal de compaixão, mas ainda assim, é um enfrentamento à sentença dada a Adão e Eva. Se qualquer menor dissentimento pode resultar na Queda de um anjo, então porque Aziraphale não recebeu sequer uma advertência?

Bem, do ponto de vista de um Plano Inefável no qual Deus está de fato se importando com o que vai acontecer à Criação, Crowley e Aziraphale foram colocados em posições privilegiadas para fazer as Escolhas que Importam. Ao longo da história, nos é mostrado que ambos têm curiosidade para ver a evolução da humanidade, capacidade de adaptação (ainda que se questione a velocidade com que Aziraphale lide com mudanças, é inegável que ele se adapta à sociedade humana), uma certa relutância em seguir de forma cega figuras de autoridade e, claro, compaixão.

Deus não joga dados com o universo; Ele joga um jogo inefável de Sua própria autoria, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos outros jogadores, a se estar engajado numa versão obscura e complexa de pôquer, numa sala totalmente escura, com cartas em branco, apostas infinitas e um crupiê que não lhe diz quais são as regras e que sorri o tempo todo.

Antes de continuar com Belas Maldições, eu gostaria de dar um pulinho num conto do Gaiman - transformado em graphic novel - que me parece parte da chave para o que estou investigando aqui. Falo de Mistérios Divinos, uma história que se passa nos primórdios do tempo, antes mesmo da criação do Universo. Na Cidade de Prata, onde vivem os anjos, ocorre o primeiro assassinato, tendo por vítima o anjo Carasel, um dos arquitetos do Universo. É pois despertado Raguel, chamado a Vingança do Senhor, para descobrir e punir o culpado pelo crime; tudo isso num enredo que trata de amor, obsessão e justiça.


Na resolução da história, descobrimos que, entre os anjos envolvidos nos acontecimentos que levaram à morte de Carasel, está, ninguém menos que o próprio Deus. E que os fatos passados foram necessários para colocar Lúcifer no caminho da dúvida e, dessa forma, na liderança dos anjos caídos - ele que teria sido o primeiro e mais poderoso dos anjos, mais próximo do Criador.

- Porque nada acontece sem uma razão, e todas as razões são suas. Você incriminou Saraquael. Sim, ele matou Carasel. Mas ele matou Carasel para que eu pudesse destruí-lo. [...] Acho que talvez tenha sido necessário destruir Saraquael para mostrar a Lúcifer a injustiça do Senhor.

(...)

- Sim, eu fiz. Lúcifer deve meditar sobre a injustiça da destruição de Saraquael. O que… entre outras coisas… o forçará a tomar certas atitudes. Pobre e doce Lúcifer. Sua trajetória será a mais difícil de todos os meus filhos. Pois há um papel que ele deve interpretar no drama que está por vir, e é um grande papel.

Essa é uma explicação inteligente para o mistério da Rebelião dos Anjos num contexto em que o ser Divino - nas palavras do Lúcifer do conto de Gaiman - é ‘infalível, justo e sábio’. Deixando de lado dogmas e possíveis heresias religiosas (porque a despeito do tema, não estou discutindo teologia), no contexto da narrativa, faz sentido que a revolta de Lúcifer esteja nos planos de Deus, pois, do contrário, ela seria impossível: Ele simplesmente não permitiria que acontecesse.

Partindo desse pressuposto, a Tentação da Serpente e a Queda de Adão e Eva também faziam parte do plano. Mas que sentido faz a imagem de um deus benevolente frente a tantas infrações e castigos? Um deus que propositalmente coloca uma árvore do fruto proibido ao alcance de suas criações e não ergue nem uma cerca em volta dela? Porque não simplesmente afogar todo mundo, incluindo Noé, em vez de dar alguma chance a essa degenerada humanidade?

Bem… Voltemos a Belas Maldições.

Crowley, que perdeu sua natureza angelical por questionar demais, é a serpente que se introduz no Paraíso e seduz Eva a comer do fruto da árvore do conhecimento. Ele provoca a queda da humanidade pela mesma razão que ele caiu. Curiosamente, essa não era a exata intenção dele: ele recebera ordens apenas de ‘subir lá e armar alguma confusão’. O que ele faz, porém, é apresentar uma escolha e, com isso, Crowley introduz ao enredo do universo o livre-arbítrio. E essa é, precisamente, a chave da questão.






Explicar a ideia de livre-arbítrio e seu valor não é tão fácil quanto se aparenta, por mais óbvio que o conceito possa parecer. Empresto então as palavras de C. S. Lewis, que tratou brilhantemente do assunto em seu Cristianismo Puro e Simples:

Deus criou coisas dotadas de livre-arbítrio, e isso significa criaturas que têm a opção de fazer o bem ou o mal. Algumas pessoas acham que são capazes de imaginar uma criatura livre, mas impedida de fazer o mal; eu não consigo. Se alguém é livre para ser bom, também é livre para ser mau. Por que então Deus concede o livre-arbítrio? Porque o livre-arbítrio, embora possibilite o mal, também é a única coisa que torna possível todo o amor, toda a bondade ou toda a alegria. Um mundo de autômatos - de criaturas que trabalhassem feito máquinas - dificilmente valeria a pena ser criado.

A criação só faz sentido se fizermos as coisas - se fôssemos virtuosos ou caíssemos em pecado - por nossa própria escolha, e não coagidos ou sob efeito de uma obediência absoluta. Você não é responsável por suas ações se não tem pleno controle e consciência deles. Por isso, por mais que possamos apelar à ideia de uma inocência perfeita, imaculada, a verdade é que, para nossas ações ganhem valor, é preciso que haja o risco imbuído na possibilidade de escolher. Sem livre-arbítrio, o ser humano não passa de uma marionete.

Eis aí do que trata o Plano Inefável.

Para além disso, ao convencer o primeiro casal a comer do fruto da árvore do conhecimento, Crowley entrega à humanidade a oportunidade de crescer, amadurecer, mudar. A expulsão do Paraíso é algo doloroso, através do qual a Morte e o Sofrimento podem entrar no universo. Mas é também uma oportunidade: Adão e Eva - como todos nós - passam da infância graciosa à fase adulta, um tanto envergonhados, mas conscientes. Philip Pullman trata disso no ensaio The Writing of Stories, em palavras bem mais eloquentes que as minhas:

Em outras palavras, nós temos de esquecer a inocência - ela se foi; não há utilidade em se lamentar sobre nossa infância perdida, e nos intoxicarmos na doentia potência de nossa própria nostalgia; temos de crescer. Temos de deixar para trás a graciosidade inconsciente da infância e ir atrás de uma outra qualidade, a qualidade da sabedoria. E isso significa se envolver com todo tipo de experiência humana, fazer concessões, sujar as mãos, sofrer, labutar, aprender.

A Inocência não é sábia; a sabedoria não pode ser inocente. E é muito doloroso e difícil, mas é a única maneira de seguir em frente, e ao final, se continuarmos tentando, teremos adquirido uma compreensão mais profunda, completa e rica do que jamais tivemos antes de provar do fruto do conhecimento de bem e do mal.

Pullman tem uma imagem bem interessante de que a queda significa ter de trilhar um caminho mais longo, porém mais rico, repleto de experiências, para retornar ao paraíso através da sabedoria, e com isso instituir a “República do Céu”, em verdadeiro estado de graça.

Apenas Crowley, ele mesmo alguém capaz de mudança e consciência, de questionar, mas também de ser compassivo, poderia abrir caminho para essa evolução. É algo que pode ser visto como o pecado do Orgulho - a arrogância de acreditar que lhe devem explicações acerca do que está acontecendo - mas essa é só parte da razão. A verdade é que tudo faz parte do Plano.

Crowley, contudo, não pode estar sozinho, é necessário que haja alguém ao seu lado, ou suas dúvidas o levarão ao desespero e, daí à apatia - quando o vemos em Roma, ele parece já estar perdendo o espírito que fez dele a Serpente. Não à toa - segundo o script, Crowley acabara de tentar Calígula, e achara o trabalho desagradável: humanos à essa altura já não precisam de demônios para serem particularmente cruéis. Infelizmente, a cena foi cortada da série (talvez apareça nos extras do DVD?), mas fica aí a deliciosa ideia de que, enquanto Crowley lidava com Calígula, Aziraphale estava influenciando Nero a gostar de música…


Enfim… podemos concordar que o Crowley dessa cena não está particularmente feliz. Entra então Aziraphale.

Esse não é o primeiro encontro dos dois. No Éden, o anjo chama a atenção da serpente após confirmar que entregou sua espada aos humanos. É visível a surpresa de Crowley, especialmente a se considerar que foi o próprio Deus que entregou a espada a Aziraphale. Ser o guardião do Portão Oriental do Éden é uma honra e Aziraphale não pensa duas vezes em entregar sua espada aos humanos, já que de seu ponto de vista, eles precisam dela. Mesmo que eles tenham desobedecido às ordens divinas. Desde a primeira vez, Aziraphale se mostra diferente. Ele não segue ordens cegamente. Ele trata Crowley com cortesia, ainda que eles estejam em lados inimigos.






Interessante o fato de Pratchett e Gaiman terem feito de Aziraphale um Principado. Na hierarquia angelical (e sabe-se lá de onde o Homem tirou essa hierarquia, mas existe um braço da teologia integralmente dedicado a estudar anjos), Principados estão num patamar superior aos arcanjos. Em outras palavras, Aziraphale está numa categoria acima de quase todos os anjos de quem ele recebe ordens para participar do Apocalipse, incluindo Gabriel.

Principados são considerados mensageiros, mas mensageiros para figuras de importância, príncipes em suas áreas de atuação. Eles são também protetores de povos específicos - e, quando os povos recusam suas mensagens, transformam-se em vingadores. Não é muito difícil imaginar que Principados tenham estado por trás do Dilúvio, da confusão em Babel, da destruição de Sodoma e Gomorra. E, ora vejam só, Aziraphale está presente em vários desses eventos. O segundo encontro de nossos protagonistas é na Mesopotâmia, diante da Arca de Noé; o terceiro é nas colinas de Gólgota, diante da crucificação de Jesus e aí chegamos a Roma.

Importante observar que, se num primeiro momento, Aziraphale age espontaneamente contra o que se esperaria de um anjo (entregar a espada para os humanos caídos em desgraça), nas cenas seguintes - a despeito de seu visível desconforto com as decisões do Céu - ele tenta racionalizar o Plano Inefável. Tenta justificar a destruição completa dos povos pelo Dilúvio, ou a morte de Cristo, enquanto Crowley demonstra espanto e horror com tais ações. Talvez a essa altura, Crowley esteja questionando se Aziraphale é assim tão diferente do resto. Mas em Roma, é Aziraphale quem se aproxima primeiro de Crowley, é ele quem insiste na conversa, e, ao demonstrar legítimo interesse nas coisas mundanas dos humanos (as ostras que ele gostaria de ‘tentar’ Crowley a compartilhar), o anjo demonstra mais uma vez que não é o que aparenta ser.





O que percebemos nos encontros dos dois ao longo dos anos é que Crowley e Aziraphale mudam. Eles mudam de nome, de vestimenta, de estado, mas, mais importante, de opinião. É interessante fazer o contraste deles com seus aliados, nas ações de personagens como Hastur, Ligur, Beelzebub ou Gabriel e Sandalphon: Crowley e Aziraphale aparentam muito mais maturidade que seus superiores. Eles tiveram oportunidade de crescer, de se distanciar da mentalidade de grupo que parece imperar no Céu e no Inferno, da propaganda cujo único objetivo é a obliteração do Outro Lado. Eles se tornaram indivíduos.

Enfim… Colocamos então Crowley e Aziraphale um ao lado do outro, a única verdadeira fonte de companheirismo em suas respectivas existências ao longo de seis mil anos. E colocamos esses dois em meio à humanidade, enquanto ela cresce e demonstra sua infinita capacidade de ser tanto a melhor quanto a pior versão de si mesma. Eles continuam seguindo ordens, mas não agem de todo como se esperaria de um anjo e um demônio. Na verdade, eles decidem influenciar na criação do Anticristo com a esperança de que isso possa impedir o Apocalipse profetizado. Como isso é possível? Bem, é simples: porque eles estão aprendendo a ter livre-arbítrio com os humanos.

Dessa maneira, no momento marcado para o Apocalipse e a grande batalha entre Céu e Inferno, em vez de seguirem o que se espera deles, Crowley e Aziraphale têm tanta possibilidade de escolha quanto Adam e os humanos envolvidos na situação. E, através do exemplo deles, outros anjos e demônios também poderão aprender; por mais que isso não pareça provável a princípio. É disso que se trata o Apocalipse, esse é o ‘Plano Inefável’.

Lúcifer e os outros anjos caídos se rebelaram porque era necessário que houvesse um contraponto à autoridade divina. Adão e Eva caem porque é necessário que eles sejam expulsos do paraíso da inocência para amadurecer. O Apocalipse se aproxima para que Crowley e Aziraphale compreendam que eles, também, podem escolher. No âmago de tudo isso está a ideia de que Deus se regozija não numa ordem perfeita e mecânica, mas em ver suas criaturas ascenderem: criadas a sua imagem e semelhança não em seus corpos físicos, mas no fato de possuírem consciência e, com isso, a capacidade de decidirem por si o caminho que querem seguir.

Se a queda (de anjos, do homem) origina a Morte e o Sofrimento, também torna a Criação mais gloriosa, com as virtudes que derivam do enfrentamento de tais males: coragem, persistência, solidariedade, compaixão e tantas outras. A existência se enriquece. A Canção - para lembrar a mitopoese de Tolkien - se torna mais grandiosa, eloquente, bela; Inefável. Os personagens crescem, adquirem sabedoria, suas razões se tornam mais complexas, mas profundas. O universo ganha significado.

Esse foi o plano desde o início.

Sou de opinião que boas adaptações respeitam a essência da obra original (o que, aliás, não é sinônimo de segui-la de forma literal e absoluta). Excelentes adaptações, por sua vez, são as que adicionam novas camadas àquela história, agregam à interpretação, apresentam novos pontos de vista e elementos sobre os quais refletir. E foi exatamente isso que Good Omens fez, para além de entregar as fantásticas atuações de Tennant e Sheen como Crowley e Aziraphale, e ser uma bela homenagem do Gaiman ao legado deixado pelo Pratchett e à obra que eles construíram juntos.

Na minha ilha deserta, com todas essas novas ideias na cabeça, abrimos o livro: uma releitura que é como se fosse a primeira vez (a marca de um clássico, sempre).





Dez Anos em Dez Ensaios: Já falei do Pratchett nos ensaios de aniversário, então hoje vou tratar do Gaiman, que assina a adaptação que rendeu tanto pano para manga (e renderia mais, porque há tanta coisa fantástica em Good Omens...). Na verdade, falta-me palavras para falar do Gaiman, o tamanho e a importância que ele tem nas minhas leituras. Talvez o que mais me impressione nele seja sua capacidade de absorver e repensar mitologias, de construir significados, costurar universos. Ele é o autor de que mais tenho livros, um dos nomes da minha lista de “quero ler a bibliografia completa”. Toda vez que anunciam um novo livro dele, fico quicando pelos cantos, roendo as unhas de ansiedade querendo ler. E o que me impressiona é que, independente de quantos romances, contos, ensaios, poemas dele que tenha lido, Gaiman sempre consegue surpreender.

Aliás, é bem provável que ele volte a aparecer nessa série de ensaios. Vamos ver o que vem por aí…

Na Biblioteca do Sonhar || Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V - Parte VI - Parte VII

Projeto Lendo Sandman - uma análise volume por volume

Diário de Viagem de American Gods - análise dos episódios da primeira temporada da série, comparando ao livro e às mitologias originais

A Danse Macabre de Neil Gaiman - ensaio sobre O Livro do Cemitério

Bruxas, bonecas e olhos de botão no universo de Coraline - ensaio sobre Coraline


A Coruja


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