8 de março de 2010

Neil Gaiman – Parte I: À época do dilúvio...





Antes de começar a digitar essas primeiras linhas, passei bem uma meia hora tentando me organizar mentalmente diante da página em branco, perguntando-me de onde exatamente partir ao escrever sobre Neil Gaiman.


Embora o escritor britânico tenha alcançado sua fama como uma dos maiores contadores de histórias de nosso tempo através da série em quadrinhos Sandman, eu só vim realmente me sentar e ler essa parte de sua obra esse ano – eu já conhecia o be-a-bá dos Perpétuos; sabia, em linhas gerais, o que acontecia e não acontecia na saga, mas nunca tinha tido oportunidade de passar página por página dessas histórias.

Para começo de conversa, eu ganhei um DVD com todos os volumes digitalizados, só que meu computador não tinha o programa necessário para lê-los e sempre aparecia alguma coisa para ver na frente, de modo que fui deixando, deixando, deixando... até que, no final do ano passado, numa promoção da Submarino, comprei os quatro últimos volumes encadernados, descobri que o resto estava esgotado em todo o Brasil, saí procurando as edições em sebos até chegar à conclusão de que era mais negócio importar (sério, duzentos e cassetada num livro que, novo, era sessenta e cinco?), para então ter de me sentar esperando por sete semanas até que a desejada caixa de tesouros chegasse.

Assim, li Sandman sem nenhuma ordem, de trás para frente e do meio para trás. Comecei a leitura pelo décimo arco, Despertar, depois fui para o quinto volume, o sétimo, o oitavo, o sexto, o terceiro... até completar a coleção e então reler tudo, dessa vez na devida cronologia.

Antes, porém, muito antes de começar Sandman, eu devorei os contos, as antologias e os romances de Gaiman, um atrás do outro, graças à propaganda da Ana.

Eis então que começamos essa história por um pouco antes do dilúvio... ou não em tempos tão longínquos assim, mas, ainda assim, razoavelmente distantes.

Tudo começou com a Ana, minha querida Ana, administradora do Expresso, irmã siamesa que perdi no espaço e no tempo – nascemos no mesmo dia, mas em anos e Estados diferentes – e companheira de crime.

A Ana é fã absoluta do Gaiman. Como temos gostos muitos parecidos, ela colocou na cabeça que tinha de me apresentar a ele, que eu ia amá-lo e não sei mais que motivos mil ela elencou para que eu o lesse.

O caso é que ela começou me passando algumas coisas por email: o primeiro texto de Gaiman que li foi um conto da antologia de Smoke and Mirrors, uma versão absolutamente sinistra da Branca de Neve.

Eu fiquei estupefata com a forma como ele reconstruiu o conto e como o dotou de contornos tão sombrios e surpreendentes. Pedi mais. A Ana me mandou um especial de Sandman, em que aparecia Shakespeare escrevendo A Tempestade. Pedi mais... e a Ana me mandou...

Bem, vocês entenderam o espírito da coisa, não é? Ela foi me mandando pedaços de história, pequenas antologias - Criaturas da Noite e Dias de Meia Noite foram, sucessivamente, presentes de aniversário.

Enquanto ela me doutrinava em Gaiman, eu a doutrina em Pratchett. Fazíamos um belo par – um certo dia, ela chegou a sugerir que nos sentássemos juntas para elaborar uma análise de Belas Maldições, tentando adivinhar quem escrevera exatamente o quê da história (de acordo com a Ana, ela iria analisar o estilo do tio Gaiman e eu, do tio Pratchett e assim chegaríamos a algum denominador comum).

Este projeto, em particular, nunca saiu do papel. Mas tudo bem...

Em todo caso... Havia, como ainda há, pouquíssimo material do Gaiman disponível em português. Acho que foi uns dois ou três anos atrás, quando saiu Stardust nos cinemas, que os romances começaram a ser traduzidos – incluindo alguns que estavam esgotados há tempos.

Enfim, depois que a Ana já me alimentara o suficiente com pequenas amostras da genialidade do cara, eu comecei a ir atrás de Gaiman por mim mesma... e, como não tinha paciência para que alguma editora lançasse tudo em português, fui colecionando os pocket books mesmo.

Li Stardust depois de assistir o filme... em compensação li Coraline bem antes do filme ser anunciado. Enrolei meses para chegar ao final de Os Filhos de Anansi, para depois devorar Deuses Americanos em menos de uma semana. Em algum aniversário ganhei de Flávio Coisas Frágeis e de Felippe, Lugar Nenhum. Ao dar de cara com Smoke and Mirrors na prateleira de importados da Saraiva, não hesitei a marchar com ele para o caixa. The Book of the Graveyard eu comprei em pré-venda. Ano passado, numa visita à Livraria Cultura para procurar um livro para o trabalho - alguma coisa sobre Teoria dos Recursos, acabei esquecendo completamente de Nelson Nery Jr. em prol de uma antologia, com vários autores, inspirada em Sandman: O Livro dos Sonhos, incluindo um conto de Susanna Clarke antes do lançamento de Jonathan Strange & Mr. Norrell.

Foi só então que decidi que estava passando da hora de dar conta de Sandman. Coincidiu com uma promoção da Submarino: as cópias encadernadas variam de sessenta a noventa reais (as que não estão esgotadas) e, nos sebos, elas são vendidas como artigos raros pelo triplo do preço de capa – eu as encontrei por menos de trinta e, como uma amiga tinha perguntado o que eu queria de presente de Natal, mandei o link para ela.

Eu tenho grandes amigos...

Achava que ia ganhar só um dos volumes da coleção... Mas, de repente, não mais que derepente, vi-me assim com os volumes 5, 7, 8 e 10. Como já contei, comecei lendo pelo volume 10... e saí progredindo a partir daí.

Após toda essa digressão quase autobiográfica, resta-nos falar um pouco sobre o próprio Gaiman. Se bem que se você realmente quiser saber sobre ele, eu simplesmente recomendo que visite o blog do rapaz e comece a persegui... digo, adicione-o no twitter.

Ele é simplesmente viciado no twitter. Sério, Gaiman atualiza aquilo de cinco em cinco minutos, praticamente... De modo que finalmente encontrei uma utilidade para aquela coisa: dar uma de stalker para cima do Gaiman... e do Pratchett, da Quinn, do Maurício de Souza, do Veríssimo...

Voltemos ao que interessa (esqueçam os instintos psicopatas/sociopatas da Lulu por um instante).

Neil Gaiman começou sua carreira como jornalista pela década de 80, passando essa época entre reportagens, entrevistas e escrever duzentos contos por dia para várias revistas (ele era tão prolífico que mandava os contos com nomes diferentes para que as revistas aceitassem e não desconfiassem que a avalanche de trabalhos diferentes era de uma única pessoa...). Mais ou menos nessa época, ele publicou uma biografia de Duran Duran e o Don’t Panic: The Official Hitchhiker’s Guide to the Galaxy Companion, baseado na obra de Douglas Adams (42, jovem Padawan... o segredo de tudo é 42).

Em 1987, ele decidiu deixar de atuar como jornalista, sob o argumento de que os jornais britânicos simplesmente inventavam qualquer coisa que quisessem e publicavam como se fosse verdade (ele fez um comentário sobre isso no twitter dia desses...).

Aproveitando os conhecimentos que fizera como repórter, Gaiman começou uma série de parcerias e colaborações (e também sua nova profissão de roteirista de quadrinhos): Terry Pratchett, Alan Moore, Mark Buckingham e Dave McKean - para ficar em apenas alguns nomes.

Este último, aliás, viria a se tornar um dos grandes e freqüentes colaboradores do Senhor dos Sonhos.

Em algum ponto dessa mesma época – porque Gaiman é feito Bombril: mil e uma utilidades – ele acabou indo parar na DC Comics, com a responsabilidade sobre a minissérie Orquídea Negra. Então, em 89, depois de mostrar muito serviço, foi convidado a ressuscitar algum dos heróis da era de ouro da DC...

E escolheu Sandman. Se bem que, do Sandman original, a única coisa que ele manteve foi o nome...

Mas ainda temos muito chão antes de tratar da obra-prima do senhor Gaiman. E eu acabo de chegar na terceira página do Word só nessa primeira parte da série... Depois continuamos nosso passeio, da mesma forma caótica com que avancei pela enorme mitologia criada pelo Homem, começando de um mundo de conto de fadas não exatamente cor-de-rosa...

(Continua em “Olhos de botões, o exército de um homem só, a farra dos mortos e outros contos de fadas não tão cor-de-rosa...”)



A Coruja


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4 comentários:

  1. T.T
    Lulu, tô sem net, guarda um espaço pra mim aqui no blog?
    Preciso desesperadamente ler as postagens novas!!!!

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  2. Ótimo... agora não vou sossegar até ler alguma coisa do Gailman...
    Se for metade de tudo que já ouvi (ou vi, nos casos de Stardust e Coraline), é melhor Stephen King se cuidar ou perde um fã. xD

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  3. Não se preocupe, iego, estaei guardando seu lugar.

    E, André, cuide-se, porque eu nem comecei a falar ainda... hihihi...

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  4. Eu também amo Gaiman com todas as minhas forças... adorei, adorei, adorei teu texto, estou com toda série aberta aqui no FF e não vou parar até ler tudo. Quando crescer quero escrever sobre Gaiman como tu :D
    estrelinhas coloridas...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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