21 de maio de 2009

Para ler: Jonathan Strange & Mr. Norrell

“Estendi a minha mão, o sangue dos meus inimigos se congelou nas veias;
Estendi a minha mão; pensamento e memória saíram voando da cabeça dos inimigos como um bando de estorninhos;
Os inimigos se encolheram como sacos vazios

Fui até eles saído da névoa e da chuva;
Fui até eles em sonhos à meia-noite;
Fui até eles num bando de corvos que enchiam um céu do norte na aurora;
Quando se acharam seguros, fui até eles com um grito que quebrou o silêncio de uma floresta invernal...

(...)

Dois magos surgirão na Inglaterra...
O primeiro irá me temer; o segundo desejará me ver;
O primeiro será mandado por ladrões e assassinos; o segundo conspirará para a sua própria destruição;
O primeiro enterrará o próprio coração numa escura floresta sob a neve e, ainda assim, sentirá a própria dor;
O segundo verá o seu mais caro bem na mão do inimigo...
O primeiro passará a vida sozinho, será seu próprio carcereiro;
O segundo seguirá por estradas solitárias, a tempestade sobre sua cabeça, em busca de uma torre escura no alto de uma encosta...”

A Inglaterra parece ser, por excelência, a terra da literatura de ficção fantástica - Tolkien, Lewis, Gaiman, Pratchett, Rowling, para ficar só em alguns dos nomes mais conhecidos, são todos ingleses (ou deviam à Inglaterra suas raízes, como Tolkien, que nasceu na África do Sul, de pais ingleses).

Susanna Clarke não é uma exceção a essa regra.

Autora de contos e novelas, Susanna teve sua primeira grande publicação com o monumental Jonathan Strange & Mr. Norrell, obra que levou dez anos para ser concluída. Seu segundo livro, The Ladies of Grace Adieu (ainda não traduzido no Brasil) revisita o mundo e a mitologia criados no primeiro, aproveitando personagens como o próprio Strange e o Rei Corvo, e homenageando Neil Gaiman - um dos contos dessa antologia toma lugar no outro lado do Muro (quem leu ou assistiu Stardust certamente irá entender).

Classificar as histórias de Susanna e o mundo alternativo que ela criou não parece difícil à primeira vista - obviamente, ela estaria na estante dos livros de fantasia. Numa visita à qualquer grande livraria, é quase certo encontrar os livros ditos de fantasia na seção infanto-juvenil e aqui surge o primeiro erro de "rotulação" - Jonathan Strange & Mr. Norrell definitivamente, não é um livro para crianças.

Nas mais de 800 páginas do romance, a magia se entrelaça à intriga política; numa versão alternativa do que seria a história da Inglaterra (e do mundo) caso houvesse magos nos idos de 1800. Desfilam pelas três partes do livro diversas personalidades conhecidas de qualquer estudante: o rei George III no auge de sua loucura, o Duque de Wellington em suas campanhas pela Europa contra Napoleão (culminando com a batalha de Waterloo, onde Mr. Strange tem um papel importante); Lorde Byron em toda sua devassidão.

Vários dos personagens de Clarke facilmente transitariam nos salões e bailes das obras de Jane Austen: Drawlight, Lascelles, e os próprios Strange e Norrell, para não citar Lady Pole e Arabella Strange. E essa mistura da Inglaterra vitoriana com uma fantasia muitas vezes sombria é, sem dúvida, um dos grandes charmes da história.

Não existe uma linha clara de quem seja o herói ou vilão, se é que existem heróis ou vilões. Onde muitos de seus contemporâneos autores erraram, Clarke acerta em cheio ao tornar seus personagens cheios de falhas e capacidades inteiramente humanas, jamais preto e branco, mas em todos os degraus de cinza.

Assim, se temos em Gilbert Norrell a própria imagem do homem mesquinho e avaro - não em termos financeiros, mas em relação ao conhecimento -, o vemos ainda como um velho extremamente solitário, cuja carência é revelada quando encontra um igual, Jonathan, a quem faz seu discípulo e sobre quem coloca todas as suas esperanças. E se Strange nos passa uma idéia de coragem, de ação, inconformado com a mediocridade, procurando sempre aprender mais, expandir o horizonte da magia inglesa; ele é também egoísta, cínico, esquecendo de tudo o que o rodeia em prol de seus interesses - incluindo aí a própria esposa, Arabella.

Claro, não podemos esquecer do outro par importante da história – Stephen Black, o criado de Sir Walter Pole, ministro de sua majestade e o cavalheiro de cabelos de algodão, rei no mundo das fadas. Stephen é negro; a escravidão fora abolida na Inglaterra, mas não no resto do mundo e ele sente, muitas vezes, a questão de sua cor na pele (sem trocadilhos).

O cavalheiro de cabelos de algodão é uma criatura do Outro Reino, com todas as características que a mitologia inglesa empresta a estes personagens – amoral, muitas vezes irracional, e mesmo cruel.

E, acima de todos os personagens, a sombra de um Rei há muito desaparecido e jamais esquecido – seja por amor ou ódio...

A magia é uma questão à parte dentro da história, com clara inspiração na tradição celta - o cavalheiro de cabelos de algodão, rei de Esperança Perdida, é um sídhe, um habitante do Belo Reino. Seu castelo é um brugh - no interior de uma colina, como os Tuatha Dé Danann, as divindades das mitologias irlandesa e escocesa. O enigmático Rei Corvo, cuja presença permeia conscientemente ou não todas as obras dos dois magos ingleses, é um humano que foi raptado pelo Povo Encantado, tendo sido criado por Oberon e Titania.

Na versão alternativa da história inglesa de Clarke, O Rei Corvo teria vindo do Outro Reino, onde já era rei, para o mundo humano, conquistando a Inglaterra do Norte - enquanto a Inglaterra do Sul continuava com as dinastias que conhecemos dos livros. Por trezentos anos ele governou na Inglaterra, no Belo Reino e no Inferno (de acordo com os relatos, ele arrendara de Lúcifer um país por lá...), ao cabo dos quais decidiu viajar e desapareceu, deixando o governo nas mãos do rei da Inglaterra do Sul, que assumiu como regente - um relato que, em certos pontos, lembra muito o ciclo mitológico do Rei Arthur.

Com a partida do rei, a magia entra em declínio, até que, quatrocentos anos mais tarde, encontra-se a Inglaterra desprovida da mesma. Embora muitos cavalheiros dediquem-se ao estudo da magia, eles são magos apenas teóricos, aprofundando-se nas histórias dos Áureos (magos da época do rei Corvo) e dos Argênteos (que vieram após, quando a magia já começara a declinar), mas incapazes de praticar magia.

Entram, então, em cena, Mr. Norrell e, mais tarde, Jonathan Strange - os dois magos ingleses; melhor dizendo, os dois únicos magos ingleses. À época, Napoleão ameaça a Europa e os poderes de Norrell e Strange acabam por se tornar uma poderosa arma na guerra contra o "Inimigo da Europa".

Norrell tem a firme vontade de ressuscitar a magia inglesa, mas em suas próprias bases. Para tanto, ele acumula todos os livros de magia que consegue encontrar (impedindo que o grande público possa tomar conhecimento deles), arruína os magos que encontra (ainda que eles sejam incapazes de rivalizar com ele em qualquer campo) e desacredita publicamente tudo aquilo que ele acha serem nocivos para o que chama de "a moderna magia inglesa" - começando pela própria figura do Rei Corvo.

Quando Strange se torna seu discípulo (e é interessante notar que, embora tenha passado a vida inteira temendo o dia em que outro mago surgisse, Norrell o recebe de braços abertos e mais que excitado com as possibilidades que se abrem a sua frente), a princípio, tenta se moldar às crenças de seu mestre. Mas, diferente de Norrell, Strange acredita que nada sobrará à magia inglesa uma vez que dela se tenha extirpado o Rei Corvo.

Mais tarde, essa polêmica acabará por separar os dois - além, é claro, da relutância de Norrell em permitir que o discípulo tenha acesso a certos livros e certas magias. E, com isso, um novo mundo de intrigas e debates começa, com a opinião pública dividindo-se entre os strangitas e os norrelitas.

Ir muito além que isso estragaria a leitura de quem vai se arriscar no calhamaço que é Jonathan Strange & Mr. Norrell. O que mais posso dizer é que, embora a primeira parte – toda dedicada a Norrell – seja um tanto enfadonha (afinal, não importa quanta comiseração possamos sentir por Norrell mais tarde, ele não deixa de ser uma versão do Scrooge de Dickens, acumulando livros como aquele acumula dinheiro); a partir do segundo livro, a história começa a tomar ritmo e, em certo ponto, você descobre que é incapaz de largar o livro.

Ah, claro, antes que me esqueça, Clarke tem a mesma deliciosa mania de Pratchett de colocar notas para explicar histórias dentro da história, citando inclusive livros que só existem no universo do livro. Nem todo mundo pode gostar disso, mas, bem, eu confesso que adoro...

Neil Gaiman – considerado por muitos o maior autor de fantasia da atualidade – fez grandes elogios à obra de Clarke, tanto em relação ao primeiro livro quanto aos contos de The Ladies of Grace Adieu. Susanna foi comparada ainda a Austen e Ann Radcliffe, escritora inglesa de romances góticos no século XIX.

Há rumores de que haveria uma seqüência sendo escrita, centrada em alguns dos personagens secundários, como Vinculus e Childermass. Devo dizer, sem sombra de dúvidas, que se isso for verdade, fará meu dia quando for publicado. Até lá... há rumores de um filme ou uma série inspirado no livro. Vamos esperar pra ver.


A Coruja


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6 comentários:

  1. Hmmmmmm, parece bom, einh?
    Vou procurar!
    Valeu pela dica ^^
    Beijocas!

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    1. Eu estou sempre recomendando esse livro... queria tanto ter mais gente com quem conversar sobre ele...

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  2. Quero muito esse, mas o preço tá de matar!!!

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    1. Sim, é complicado... os preços dos livros no Brasil às vezes (muitas vezes, na verdade) são impraticáveis...

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  3. faz tempo que ouvi falar sobre este livro e quero lê-lo!! mas por enquanto a adaptação que é bom nem saiu

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    1. Acho que a adaptação ainda vai demorar, viu, Débora? Mas leia assim mesmo, que vale muito à pena!

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