26 de dezembro de 2019

O Resumo da Ópera - A Década Ainda não Acabou, mas Temos mais Livros


Mais um ano vai chegando ao fim e vamos encerrando a lista de livros lidos do ano. 2019 não foi tão prolífico quanto anos passados em termos de leituras, mas estou satisfeita com o fato de que terminei quase todos os livros que comprei/ganhei esse ano. Tem sido meu objetivo há algum tempo tentar não acumular leituras (e não sair comprando livros loucamente sem dar destino ao que já tem em casa) e talvez ano que vem eu consiga zerar meu backlog *resoluções de ano novo*.

Enfim, farei como já dizia a Dilma: para ano que vem, “não vamos colocar metas: vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta!”. E, enquanto isso, tratemos do que já foi lido e os comentários que deixei passar por falta de tempo até o fim do ano...


Floresta dos Medos, de Emily Carroll
Fiquei de olho grande nesse livro desde que a Darkside anunciou que iria publicá-lo. Li de uma tacada só; terminei e voltei ao início para digerir com mais vagar as belas ilustrações da Emily Carroll, numa obra em que as palavras apenas sugerem, mas imagens criam, a um tempo, horror e fascinação. Dentro dos elementos de uma “graphic novel”, os enredos são bem simples, mas a parte gráfica realmente salta aos olhos.

Floresta dos Medos não é exatamente o que eu chamaria de macabro. Há algo de mais sutil no terror que Carroll tece em cada conto, gótico, algo que parece se alojar abaixo da pele (como a colônia de criaturas que toma o corpo de alguns personagens) e causar um desconforto, uma sensação de deslocamento da realidade. Uma certeza de algo inescapável. Como as irmãs que desaparecem na neve uma a uma, ou a jovem noiva que escuta uma canção misteriosa sobre sua predecessora, ou o rapaz que sabe que quem se apresenta como seu irmão não pode ser de fato um homem.

Dica importante: a autora mantém um site próprio e é possível ler vários de seus quadrinhos por lá, de forma gratuita (só dei uma olhada por cima por enquanto e vi que pelo menos um dos contos do livro está disponível lá). Vale dar uma conferida para conhecer o estilo da Carroll e também para descobrir mais histórias se Floresta dos Medos tiver te conquistado.


A Lot Like Christmas, de Connie Willis
Aproveitando o espírito da época e a deixa do último clube do livro do ano - que debateu O Livro do Juízo Final - catei essa antologia de contos natalinos para me deliciar com o humor e a capacidade de surpreender tão característica das histórias de Connie Willis. Alguns contos me eram familiares de outras coletâneas da autora, que devorei quando tentei meu projeto 1 Ano, 365 Contos (aqui e aqui), mas três anos me separam daquele primeiro contato, então, foi como descobri-los de novo.

Há uma bela releitura de Um Conto de Natal, do Dickens, que serve como crítica ao consumismo desenfreado dessa época; Maria e José fazem uma curva errada no deserto a caminho de Belém e acabam viajando no tempo - e é doloroso o que essa história tem a dizer sobre acolhimento e solidariedade e como ela pode ser interpretada à luz do tratamento dado a imigrantes pelo mundo afora; somos visitados por aliens que estão bem pouco impressionados com nossa capacidade de cooperação. Tem romance, humor, crime, aquecimento global, cantatas natalinas, invasores de corpos e epifanias.

Willis é versátil e consegue subverter expectativas. Nos doze contos desse livro, ela consegue não soar repetitiva, mesmo quando todos têm o mesmo tema. Na verdade, a ideia de misturar natal e ficção especulativa é algo bem pouco óbvio, de forma que de cara, A Lot Like Christmas já é uma surpresa. Cada conto é único, de uma perspectiva inesperada e, embora alguns deles tenham sido escritos há mais de década, continuam extremamente atuais. É uma pena que ele ainda não tenha sido traduzido, porque eu gostaria de dá-lo de presente para todo mundo da minha lista de natal. Quem sabe ano que vem?


A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
Era para ter lido esse livro em junho, como parte do Desafio Corujesco, mas a Allende acabou me encontrando numa época complicada e posterguei ad infinitum para terminá-lo. Sorte minha que persisti; até porque, A Casa dos Espíritos foi tema de um dos encontros do clube do livro de que participo.

Para começo de conversa, o que posso dizer sobre A Casa dos Espíritos é que não se trata de um livro fácil. Os ciclos de violência que perpassam todo o enredo me obrigaram mais de uma vez a parar e respirar fundo antes de ir em frente. Ao mesmo tempo, os momentos de leveza e absurdo, o humor com que eles são infundidos te fazem sentir acolhido: há qualquer coisa na essência desse livro que soa familiar e confortável. A obra de Allende é uma orgulhosa e surpreendente representante do realismo fantástico que é típico da literatura latino-americana.

Embora boa parte da narrativa seja dominada pelo violento e autoritário Esteban Trueba, o protagonismo aqui vai para as mulheres, gerações de mães e filhas que se sucedem em suas lutas e crenças - e que, curiosamente, compartilham um significado em seu nome -: Nívea, a sufragista; Clara, clarividente; Blanca, artista; Alba, sobrevivente e narradora da história. Conflitos sobre terras e questões políticas dividem espaço com o drama familiar que une essas pessoas, presas numa roda de erros que se repetem e cobram seu preço.

O livro não diz às claras que a ação se passa no Chile à época do golpe de Pinochet, mas não é difícil entendê-lo. O curioso é como ela continua tão atual. Talvez a palavra que eu devesse usar aqui não fosse ‘curioso’, mas sim ‘dilacerante’, porque enquanto debatíamos no café esse livro, a TV às nossas costas noticiava a onda de violência e repressão contra manifestações sociais no Chile. Uma prova a mais de como a História é cíclica e o ser humano não aprende com seus erros...


Em Busca de Watership Down, de Richard Adams
A primeira vez que ouvi falar nesse livro foi quando estive em Edimburgo, em 2014: visitando o Museu do Escritor, descobri um passeio guiado chamado Tour dos Amantes de Livros e o guia comentou de um dos pubs por onde passamos que ‘aqui foram pendurados os coelhos de Watership Down’. Em meio a tantos outros autores de interesse - J. K. Rowling, Conan Doyle, Walter Scott, Stevenson e por aí afora - deixei passar batido e só vim me lembrar da história conferindo a lista dos escolhidos na votação dos cem melhores livros de fantasia/ficção científica da NPR.

Coisa curiosa: a história gira em torno de um grupo de coelhos que sai de sua morada original em busca de uma terra mítica - Watership Down -, em razão dos sonhos proféticos de um dos jovens animais. Pelo caminho, eles encontram obstáculos e violência um tanto inesperadas para uma fábula com criaturas que, tradicionalmente, associamos com sentimentos de meiguice e delicadeza. Coelhos, segundo o imaginário popular, são “fofos”. Mas os coelhos de Richard Adams está ali como uma alegoria para a luta contra o fascismo e há bem pouca fofura ao longo de suas aventuras.

Pelo contrário, morte, devastação de recursos naturais, medo, poder e corrupção, liderança são temas que se entrelaçam com uma curiosa mitologia própria e uma complexa construção social. É uma história que nos faz refletir sobre o significado de lar, a importância de escolher bem nossos líderes, sobre liberdade e exploração; a capacidade de se adaptar e superar obstáculos. Em Busca de Watership Down é bem mais do que parece à primeira vista e não à toa perdura como um clássico que atravessa gerações.


Luke Skywalker Can’t Read and other geeky truths, de Ryan Britt
Descobri esse título em um artigo do Tor e imediatamente me interessei (na verdade, vários volumes dessa lista ou eu já tinha lido, ou foram parar na minha lista de desejados, ou estavam na fila aqui no QG). Hilariantemente, depois que já tinha lido o ebook em inglês, encontrei o livro traduzido, de forma que fica o aviso para quem se interessar pela obra.

Enfim… Luke Skywalker Can’t Read foi uma leitura leve, interessante e divertida. Alguns ensaios - como o que dá o título do livro - têm insights brilhantes (uma sociedade que se acostumou com hologramas e perdeu sua literacidade é mais propensa a regimes autoritários: sim, isso faz muito sentido). Muitos deles são biográficos com forte sabor de nostalgia, numa diversidade de fandoms e interesses, algo que vai de dinossauros a Barbarella, filmes de monstros (gostei da análise do Drácula), Sherlock Holmes, Doctor Who, De Volta para o Futuro e comic cons.

Algumas opiniões de Britt podem parecer mais polêmicas, mas o debate faz parte da brincadeira. E um livro de ensaios é, basicamente, um volume de opiniões pessoais, então não há muito que se discutir sobre a parcialidade ou impessoalidade do assunto - não estamos falando de uma enciclopédia ou um texto acadêmico ou mesmo um livro de análise histórica. Não indico ele como material de pesquisa e reflexão, mas o faço como lubrificante social: pescar algumas ideias desse livro para embalar um animado diálogo com os amigos é uma excelente pedida.


Why You Should Read Children’s Books, Even Though You Are So Old and Wise, de Katherine Rundell
Esse livro entrou na minha lista de desejados por razões de “vi uma foto dele na mão do Neil Gaiman lá no twitter”. Bem, essa foi a razão principal; a segunda foi o que dizia o título. Passei dos trinta anos, mas não tenho vergonha de dizer que continuo a ler livros infantis. Sou partidária do pensamento de C. S. Lewis, de que nunca estamos velhos demais para contos de fadas. Meu único arrependimento nesses casos costuma ser “por que não li isso quando eu era criança?”. Não por questões de maturidade, mas porque certos temas, imagens, sentimentos precisam ser apreciados com menos cinismo. Mais ternura.

Rundell defende nesse pequeno volume que ler contos infantis estimula nossa imaginação, convida-nos a olhar o mundo de uma nova perspectiva, com mais esperança e otimismo. Eu concordo com esse argumento: boas histórias são boas histórias independente do público a que elas se destinam. E o fato de você ser capaz de ler e admirar o tom de A Divina Comédia não te impede de aproveitar a delicadeza e o humor de O Vento nos Salgueiros. Ou, como melhor põe Lewis (que também escreveu extensivamente sobre o assunto), você não deixe de gostar de limonada porque passou a apreciar vinho. Literatura infantil não é uma literatura menor - é tolice pensar dessa maneira, considerando que é através deles que formamos leitores.

O livro é bem curtinho - o tamanho de um único ensaio - e você lê de uma sentada só. Mas é aquele tipo de leitura que fica circulando na cabeça, para o qual você retorna pelos argumentos, para refletir melhor, do tipo que você quer enfiar na conversa e ouvir a opinião de mais gente sobre o assunto (pelo menos, esse foi meu sentimento).


O Mundo de Lore: Criaturas Estranhas, de Aaron Mahnke
Gosto demais de livros sobre folclore e lendas urbanas (embora seja uma medrosa para histórias de horror), então, quando vi a sinopse desse título, coloquei-o na lista de desejados. No final, ganhei o bendito de presente - convenientemente, num amigo secreto de dia das bruxas (Happy All Hallow’s Read!) - e comecei a ler quase de imediato.

Esse é o primeiro volume de uma série que traz histórias reais por trás de mitos ou de casos inexplicáveis sem uma argumentação sobrenatural. Algumas explicações me eram familiares, como a ideia de que pessoas enterradas vivas numa época em que não era tão fácil atestar que alguém tinha morrido foi a base para muitos contos de vampiros. Para quem se interessa por esse tipo de assunto, Lore serve como um material de pesquisa interessante, rico em informações e referências cruzadas, escrito com bom humor e sem impor suas próprias crenças sobre o assunto.

O grande diferencial do livro, na minha opinião, é o tom. O Mundo de Lore originou-se do Lore Podcast (que também inspirou uma série, disponível no Amazon Prime) e, pelo que vi, parece ser uma transcrição direta de alguns episódios. Isso retém a informalidade do formato original, o que torna a leitura divertida, mesmo quando o assunto é bem sombrio. Dada tal característica, para o leitor que está sendo apresentado primeiro ao livro, é um negócio ótimo, porque Mahnke realmente sabe te envolver na narrativa, mesmo se baseando nos fatos e testemunhos. Para quem está chegando como ouvinte regular, contudo, o livro pode desapontar, já que não há tanto de novo nas informações apresentadas.


Sonetos, de William Shakespeare
Há muito que eu estava atrás de um livro que reunisse todos os sonetos de Shakespeare, mas nunca me decidia por qual tradução comprar. Aí a L&PM lançou essa edição e minha angústia acabou: primeiro porque praticamente todas as minhas peças do bardo são em traduções da editora, que gosto muito; segundo porque é um livro de bolso e ocupa menos espaço na minha já abarrotada estante; terceiro, por ser uma edição bilíngue, de forma que mesmo que eu desgostasse dos sonetos traduzidos, ainda teria a versão deles no original.

Traduzir poesia é um desafio muito maior que fazê-lo em prosa. Não se trata apenas de verter literalmente o sentido palavra por palavra, mas de fazer funcionar métrica e ritmo. No meu entender, a tradução de Jorge Wanderley, aqui apresentada, consegue manter sentido e sonoridade. Talvez ainda mais interessante é que muitos dos sonetos têm notas de rodapé explicativas das escolhas de tradução - uma escolha didática que penso muito acertada, porque tanto serve aos curiosos de plantão (eu), como a estudiosos do assunto.

Shakespeare, claro, dispensa apresentações, bem como das polêmicas envolvidas na publicação de seus sonetos - e do triângulo amoroso existente entre Poeta, o Belo Jovem e a Dama Negra. A qualidade dos sonetos varia, do sublime ao prosaico, de acordo com o tema desenvolvido, mas a musicalidade e mesmo o humor (os trocadilhos de Will são sempre imbatíveis) são constantes. Esse é um daqueles livros para ter sempre a mão para consultas ou leituras improvisadas, para exercícios de oratória e murmúrios - fazendo a si mesmo o favor de não lê-lo apenas em silêncio. Poesia foi feita para ser declamada. Tente fazê-lo; leia em voz alta. Seus ouvidos agradecem.


Esse ofício do verso, de Jorge Luis Borges
Quando penso em Borges, vem-me à cabeça um jogo de associações entre lugares, pessoas e histórias. Borges faz-me pensar em Homero e Milton, os poetas cegos; em Manguel - que lia para Borges - e Eco e Pratchett, todos autores que tenho como sinônimos de humanistas modernos. Borges me faz pensar em Babel e Buenos Aires, Dante e Quixote. E, claro, em labirintos.

Adoro os contos do autor (desconfio até ser ele uma das razões para gostar tanto do formato), mas nunca tinha lido nenhum dos ensaios dele. Por isso mesmo, empolguei-me tanto em ler Esse ofício do verso: foi ele saindo da caixa e eu já me sentando com lápis, post-its e marcador de livro na poltrona mais próxima.

Do título não é difícil presumir do que se trata o volume: reunindo algumas palestras ministradas em Harvard entre os anos de 67 e 68, esse livro é como uma profissão de fé de Borges como autor e leitor. Sendo transcrições de fitas gravadas à ocasião, os ensaios conservam o tom informal, bem humorado e até espontâneo das palestras. Há algo nessas linhas que me faz pensar em uma conversa durante o café da tarde - uma impressão de debates vívidos, mas agradáveis, algo como as conversas do clube do livro de que participo.

Indo do mistério e musicalidade da poesia, ao poder das metáforas; do papel narrativo dos épicos ao trabalho de tradutor, Borges infunde os ensaios de espírito e paixão. Uma leitura para se perder nas páginas e degustar com prazer.


Daemon Voices: Essays on Storytelling, de Philip Pullman
Faz muito tempo que eu eu estava de olho grande nesse livro e, esse ano, finalmente consegui o ebook dele. Trata-se de um volume que reúne ensaios escritos ao longo dos últimos vinte anos, alguns para jornais e revistas, outros originalmente palestras que Pullman deu em várias instituições. Gosto muito de livros desse tipo, que mostram um pouco como as coisas funcionam por trás das cortinas, sobre o que pensam os escritores, o que os fazem criar o que criam, quem ou o quê os inspira, as dificuldades e os prazeres de construir um mundo, uma narrativa. E, embora eu não concorde com tudo o que Pullman diz (ao contrário dele, sou uma leitora e fã do Tolkien), Daemon Voices deu-me exatamente o que eu desejava. Gostei muito dos vislumbres que Pullman nos dá de seu processo criativo, mas, mais que isso, das motivações dele escrever o que escreve e para quem escreve.

A defesa dele da importância de histórias infantis, a interpretação que ele faz dos mitos da criação e da necessidade de conhecimento, o significado e a verdade dentro de histórias de fantasia, a necessidade do livre-arbítrio são alguns dos temas abordados que me fisgaram - e que, tendo oportunidade, ainda hei de traduzir para compartilhar por aqui. Assim como li O Paraíso Perdido de Milton após terminar Fronteiras do Universo, fui agora atrás de O Casamento do Céu e do Inferno, tentando entender o impacto que a poesia de Blake teve na criação do mundo de Lyra. Isso é um mérito do Pullman, de te fazer procurar as obras que ele cita, de tentar entender a fascinação, a paixão com que ele fala delas.

Ao final, Philip Pullman é um humanista no sentido clássico do termo e isso fica muito bem demonstrado neste volume. Seus ensaios são inteligente, bem construídos, belamente escritos, passionais, e sempre instigantes. Seja tratando de filosofia e religião, do papel da educação, da importância dos contos de fadas ; seja ao tratar do poder transformador das histórias, daquelas que ele escreveu e daquelas que o fizeram ser quem é, Daemon Voices é uma daquelas leituras que te faz refletir para muito além do óbvio. Um dos melhores do ano pra mim.


A Coruja


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