28 de dezembro de 2019

A Vertigem das Listas: Mais Dez Mitos Heróicos


Ísis: Bom dia, boa tarde, boa noite, boa madrugada, ou seja lá qual for o horário de seja lá onde você estiver! Brasil, Portugal, EUA, Turquia, Cazaquistão, Austrália, Quênia, Malawi, Júpiter, Saturno… Plutão…

Se estiver conseguindo ler isso em Plutão, deve ter WiFi muito boa aí, hein?! Parabéns aos trabalhadores plutonenes…. plutônicos… plutarcos?

Enfim, enfrentando Plutão, Hades, Afrodite, Seth, Odin ou seja lá quem for, preparem-se para…


Lulu: Encrenca?

Ísis: Não, mas boa tentativa. Preparem-se para Mais Dez Mitos Heróicos!

E não, eu não bebi, só não dormi (direito) mais de 5hs nas últimas 40 e blá horas….


Lulu: Deu para perceber… E sempre bom lembrar de quando abordamos primeiro esse tema, olha o link aqui.

Ísis: Antes de mais nada, devemos duas desculpas: primeiro, pelo atraso de dois meses! Não sei como a Rainha não me decepou a cabeça!!!

Segundo, peço desculpas se ofender a fé ou a crença de qualquer um, pois a intenção não é ofender, mas tão somente ofertar uma análise mais neutra, examinando as ações de personagens históricos/lendários/mitológicos, despindo suas estórias dos valores mais religiosos.

E antes de começarmos, é sempre bom lembrar que, justamente por se tratarem de mitos, há várias fontes e várias versões, de forma que sempre poderá haver divergências entre as versões apresentadas aqui e as que nossos leitores conhecem… Sintam-se à vontade para comentar sobre elas! :)

OK, vamos trazer aqui mitos de vários backgrounds, mas vamos começar com um desse lado do mundo onde estou, o Japão.

1. Orihime, a filha do senhor do universo que trabalhava demais e fazia qualquer outra coisa de menos… até conhecer o amor de sua vida, Hikoboshi, o “boiadeiro dos céus”. Apaixonaram-se imediatamente e o pai da moça, o todo poderoso, permitiu a união. O problema é que eles se amavam a um tal ponto que ambos negligenciaram suas tarefas, o que enraiveceu o grande Senhor dos Céus, que os separou, pondo-os em dois lados distintos da galáxia que não se cruzam. Desesperada, Orihime parou de trabalhar e chorou tanto, que formou com suas lágrimas o Amanogawa (o Rio do Céu, conhecido no Ocidente como a Via Láctea). Algumas versões alegam que seu pai tanto se comoveu, quando percebeu que a filha não voltaria a trabalhar porque não parava de chorar, que acabou permitindo o encontro dos amantes uma vez ao ano. Outras alegam que as estrelas, comovidas, formaram uma ponte sobre o “rio” (a Via Láctea) para que Orihime e Hikoboshi se encontrasse, prometendo repetir a ação anualmente. Pode não haver muito de heroísmo no sentido que conhecemos, mas considerando a cultura patriarcal e de “trabalho, trabalho” até hoje persistente no Japão, é possível interpretar as ações de Orihime como contrariando essa cultura e indo diretamente contra as ordens do pai, o que faz dela, creio, uma heroína.

2. Minha segunda opção vai causar alarde, mas segue: que estória é mais conhecida no mundo ocidental que a de Jesus? O homem que passou a vida pregando o amor, a aceitação e o perdão? Que, embora filho do grande e único Deus, conforme pregava, viveu de forma humilde e harmoniosa durante 33 anos, e, ao fim, entregou sua vida para absolver os pecados dos homens perante seu Pai? Sua influência foi tanta, que vários foram seus seguidores, dentre eles, seus discípulos, que espalharam sua mensagem de fé e resistência, mesmo após a morte e ascensão de Jesus ao Céu. Enfrentar poder, autoridade repreensão e violência com amor, fé, palavras e paz. Isso é um grande mito heroico, na minha opinião, independente de sua veracidade.

3. Minha terceira indicação é diretamente associada à segunda: Saulo, conhecido por Paulo, um dos discípulos de Jesus, mas que não o conheceu em vida. Paulo era originalmente judeu, mas tinha cidadania romana. Era filho de uma família de posses, e a certo ponto era um dos líderes na perseguição aos seguidores de Cristo, atividade que desempenhava em nome do Senhor, pois cria Jesus um impostor. Entretanto, após ouvir a mensagem de Deus às portas de Damasco, onde se dirigia para prender e executar os seguidores, converteu-se, abrindo mão de todos os seus privilégios ao ouvir a mensagem de Jesus, e passou a agir contra os interesses de seus superiores para pregar a palavra de Deus. Paulo não faz parte dos 12 apóstolos, mas boa parte da expansão cristã se deve a ele. Perseguido por seus antigos companheiros, é preso e solto algumas vezes (aparentemente há divergências quanto ao número), mas é, por fim, condenado por Nero e decapitado. Ainda assim, viveu sob as leis de Deus e, após sua conversão, enfrentou perseguições, às vezes dos próprios judeus que não confiavam nele. Viver e morrer por uma causa maior, pra mim, é uma das definições de heróis.

4. Saindo do Cristianismo, vamos agora para o Hinduísmo (eu acho) para conhecermos a história de Abhimanyu, filho de Arjun, um dos maiores heróis do Mahabharata, o maior poema épico do mundo. Esse poema - que é umas 10 vezes (ou mais) maior que o Ilíada e a Odisséia, e tem importância semelhante para os hindus da Bíblia para os cristãos e o Corão para os muçulmanos - narra a história da guerra pelo trono de Kuru, na Índia. Arjun é um personagem central e invencível guerreiro, e um de seus filhos, Abhimanyu, não fica para trás. Em uma das muitas batalhas durante a guerra, Abhimanyu voluntaria-se para penetrar a formação invencível do inimigo para desfazê-la por dentro, alegando que ouvira o segredo de como fazê-lo ainda no útero de sua mãe, Subhadra. O problema é que ele só ouviu como penetrar a formação, mas não como sair dela. Ainda assim, ele segue adiante com o plano, e de fato, quebra a formação. Entretanto, está rodeado por milhares (milhões) de soldados e outros fortes personagens guerreiros. Abhimanyu não desiste e derrota (mata) milhares, inclusive alguns guerreiros proeminentes. Em seguida, ele é covardemente atacado em conjunto pelos guerreiros restantes, mas ainda assim derrota muitos antes de enfim sucumbir às flechadas e lançadas. Apesar de sua morte precoce, ele foi um corajoso herói durante todos os seus 16 anos.

5. Chegamos, enfim, à minha última indicação. Aqui eu volto para o Brasil, e, dado o meu eterno interesse ambiental, e às circunstâncias atuais quanto à Amazônia, aponto o Curupira. Embora pareça uma criança - ou um anão, dependendo da versão que se conhece - essa criatura não tem nada de inocente. Com cabelos vermelhos e pés virados para trás, ele marca pegadas para despistar/atrair caçadores e quem desrespeita a natureza, vez que é sua missão proteger o meio ambiente e os animais silvestres. Daí coitado dos malfeitores, porque eles que viram a caça. Eu sei que o Curupira é um mito meio violento, e muitos vão contestar se é heroico. Aqui eu lembro para termos cuidado com as definições de coragem e de heroísmo. Afinal, quem se atreveria a abandonar tudo e morar na mata para proteger fauna e flora contra os fazendeiros e contrabandistas igualmente armados? E sem receber nada em troca que não a satisfação pessoal? Eu sei que há quem aceitasse, e que se for feito no modo curupira, é até ilegal… Mas, sério, quando é que vamos nos levantar para defender o que é de todos? É bom saber que tem pelo menos uma criatura que está lá fazendo esse papel…


Lulu: Ok, então… minha vez de continuar a lista?

Sou uma nerd de mitologia desde que comecei a escarafunchar livros pelas estantes de casa - minha lembrança mais antiga de literatura vai da Enciclopédia do Escoteiro Mirim e das Aventuras do Sítio do Pica-Pau Amarelo e ambos tinham partes dedicadas aos mitos. Na verdade, tenho uma prateleira da minha estante que é toda dedicada a livros de mitologia e folclore. Um dos meus documentários favoritos (sim, gosto de assistir documentários) é o delicioso O Poder do Mito, do Joseph Campbell (e lembrar disso me deu agora vontade de revê-lo…).

Da última vez que abordamos esse tema, todos os meus mitos ficaram nas histórias de amor épicas: Orfeu e Eurídice, Eros e Psiquê, Angus e Caer. Desta feita, vou me focar na parte heróica do mito - vai ser uma lista meio óbvia, mas, bem, eu escolhi meus favoritos, aqueles que cresceram comigo, que meio que fazem parte do meu panteão pessoal.

6. Para começar, a mitologia greco-romana (porque foi a primeira que descobri): os doze trabalhos de Herácles (ou Hércules na versão romana) me fascinou por boa parte dos meus anos de formação - e não por causa da versão da Disney (embora eu goste dela também). A culpa é do Lobato: Emília, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa usam pó de pirlimpimpim para viajar até a Grécia (ou Hélade) heróica e acompanham Hércules ao longo dos seus doze trabalhos, tropeçando pelo meio do caminho em personagens como Medéia e Prometeu. Particularmente inesquecível é a viagem ao Inferno, para capturar o cão Cérberus. Acho que daí começou minha longa fascinação com o mito de Hades e Perséfone/Core (que podia estar nessa lista, mas estou tentando diversificar as mitologias…).

7. Dos greco-romanos, rolei direto para os egípcios - lá pelos meus treze ou catorze anos descobri a série Ramsés do Christian Jacq e desse ponto em diante, um dos meus sonhos de consumo se tornou fazer um cruzeiro pelo Nilo (a culpa é da Agatha Christie também, embora eu prefira não me distrair de Karnak com um assassinato para desvendar). A mitologia egípcia está fortemente ligada às crenças da vida após a morte, dos ciclos naturais e da justiça. Por isso, acho extremamente fascinante as cenas de julgamento dos mortos: quando o coração do indivíduo era pesado numa balança contra a Pena da Verdade de Maat, sob os auspícios de Anúbis, o deus de cabeça de chacal. Caso o coração fosse mais leve, o indivíduo era levado ao paraíso; do contrário, sua alma seria devorada pelo demônio Ammit - parte leão, parte hipopótamo e parte crocodilo. Uma das minhas cenas favoritas da primeira temporada de American Gods é justamente um julgamento com Anúbis e a balança.

8. Os nórdicos eu descobri em dicionários de mitologia na biblioteca da escola, mais ou menos à mesma época em que os livros de Christian Jacq me faziam sonhar com a ideia de me tornar arqueóloga (Indiana Jones também foi uma influência importante, devo confessar). E não há como fugir: a narrativa do Ragnarok é a história que me ficou mais forte na lembrança, um conto que parece ecoar em muitas das histórias de consumo. Catástrofes naturais, um longo inverno, e a guerra de deuses contra os gigantes, sacrifícios, morte, e, das cinzas de um mundo arrasado, renascimento. Há tanta coisa acontecendo no ciclo de narrativas que forma o Ragnarok que é impossível eleger um único grande herói da história. Então, fico na indicação mais generalizada do próprio fim do mundo.

9. Não posso dizer que sou uma especialista em mitos e folclore dos povos eslavos, mas tenho uma personagem de contos russos que volta e meia me vem à mente: Baba Yaga, a bruxa que viaja num pilão e mora numa casa nômade com pés de galinha. Ela é uma personagem arquétipa, que aparece em várias histórias, mas uma das minhas favoritas é seu papel de ‘fada madrinha’ (e ameaça não concretizada) para Vasilisa, a bela. Esse conto é meio que uma versão de Cinderela, e termina com a jovem levando luz de volta para casa, acompanhada pela boneca mágica que lhe foi dada pela mãe. Enfim, como disse, há uma miríade de histórias que trazem a Baba Yaga como personagem e acho a figura dela muito curiosa, por isso, incluo-a na minha lista da vez.

10. Neil Gaiman se tornou um dos meus autores favoritos pela forma como costura suas histórias com mitos e folclore. Por conta dele, descobri várias mitologias que talvez tivessem me passado batida de outra forma. Entre os muitos personagens que aparecem em seu Deuses Americanos em particular, um que me chamou muita atenção - e me fez ir pesquisar sobre - foi Anansi, o deus aranha africano, um trickster e guardião de histórias. Numa longa lista de deuses patronos de artes, Anansi se tornou um dos meus favoritos, por sua astúcia, seu humor e sua tradição de contador de histórias.


Ísis: Eu já ouvi falar desse último, mas preciso pesquisar mais. Confesso que não sei muito dele, não… Mas o nome aparece em vários desenhos ocidentais.

Quanto ao Hércules… Engraçado que por muito tempo quando criança, eu sabia quem era Hércules, mas não sabia das doze tarefas. Cheguei a pegar o livro do Monteiro Lobato na biblioteca dos meus avós, mas não me animei… Na época, não tava conseguindo me empolgar com leituras em português… ^^’

Bem, é isso. Desculpem nosso enorme atraso!

Até ano que vem! Feliz Natal (atrasado) e FELIZ ANO NOVO!!!!!!! Que 2020 nos traga muita paz e conquistas! Já fizeram suas listas de resoluções?





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