6 de outubro de 2010

O Único e Eterno Rei – Parte II: Escritos e Escritores

“Isso é terrível,” disse Jack. “Eu sinto muito que seu trabalho tenha sido interrompido.”

“Oh, não me atrasou tanto assim,” Geoffrey respondeu. “Eu sou muito bom em, uh, extrapolar detalhes de informação limitada.”

“Criar coisas do nada, você quer dizer,” retrucou Jack.


James Owens – The Indigo King
Geoffrey de Monmouth viveu por volta de 1100 a 1155 e é considerado o principal responsável pelas bases da lenda do Rei Arthur. Ele escreveu três livros acerca do assunto: Prophetiae Merlini (Profecias de Merlin), Vita Merlini (Vida de Merlin) e o mais amplamente conhecido Historia Regum Britanniae, a História dos Reis da Bretanha, descrevendo 99 reis (incluindo sobreviventes do Incêndio de Tróia).

Curiosamente, Monmouth começa o seu Historia afirmando que ela seria uma tradução de um antiqüíssimo livro dado a ele pelo Arquidiácono de Oxford – livro esse que muitos estudiosos acreditam existir apenas na cabeça de Monmouth, ainda que concordem que boa parte do trabalho de Historia derive de outras obras, entre as quais a do já citado Nennius.

De uma forma ou de outra, é Monmouth que acrescenta à história do comandante Arthur, o nonagésimo primeiro rei do Historia a coroa, Camelot e Excalibur, seu nascimento em Tintagel, filho de Uther, e sua partida para Avalon após o embate com o sobrinho, Mordred, bem como a construção da figura de Merlin que, por sua vez, seria uma mistura das figuras históricas de Myrddin Wyllt, um bardo dito louco e dado a profecias que viveu por volta de 540 d.C, e Ambrosius Aurelianus, líder romano-bretão que combateu os saxões no século V.

Ficou tonto? Eu também!

Considerando que Arthur também tem características atribuídas a Aurelianus, é de se ficar confuso com tantos personagens que caíram no Caldeirão para cozinhar a história que conhecemos hoje – Arthur não deixa de ser, como vários outros personagens que transcenderam suas origens históricas, um frankenstein mítico.

A bem da verdade, alguns contos e baladas folclóricas trazendo elementos da história que Monmouth iria eternizar são bem anteriores ao Historia, que se convenciona ter sido escrito por volta de 1130 d.C. – nosso amigo monge extirpou as referências pagãs, como o sítio do Outro Mundo (transformado em Roma) e de uma maneira geral, misturou tudo de modo a dar um ar mais ou menos crível ao seu texto, de tal forma que por muitos anos se acreditou que o Arthur tal como ali descrito, bem como demais antecedentes e descendentes, eram todos reais.

Então, em 1154 ou 1155 (os registros variam), o poeta normando Wace de Jersey traduziu os livros de Geoffrey de Monmouth para o francês e acrescentou, assim como quem não quer nada, a Távola Redonda. Uns vinte anos depois, a partir de 1170, foi a vez do francês Chrétien de Troyes que, escrevendo romances sobre a corte de Arthur, decidiu inventar um novo cavaleiro, colocando-o como amante da rainha Guinevere: eis a gênese de Sir Lancelot, o cavaleiro da charrete.

Chrétien escreveu cinco romances dentro do ciclo arturiano, iniciando ainda uma tradição nesse ciclo na Europa Continental, em que a figura poderosa do rei cedia espaço aos seus cavaleiros. O último de seus romances, que deixou inacabado, iniciou, por fim, a tradição da busca pelo Graal.

Robert de Boron é um dos muitos responsáveis pela continuidade do romance de Chrétien e, além de desenvolver a história do Cálice de Cristo, também descreve, em seu Merlin como Arthur, para obter o trono, teve de provar sua descendência tirando uma espada da pedra.

É nessa época ainda que ganham grande projeção, além do próprio Sir Lancelot, a figura dos cavaleiros Sir Tristan – e sua trágica história com Isolda – Sir Gawain (que, em algumas dessas histórias, é o portador da excalibur), Sir Galahad e sir Percival, os campeões do Graal.

Tal desenvolvimento culminou com a publicação, em 1485, do Le Morte d’Arthur de Thomas Malory, romance imenso, a que todo momento nos defrontamos com uma justa, e que acaba por assimilar todos os grandes temas em voga tanto na chamada alta literatura quanto na Vulgata, os romances mais populares que também faziam parte do ciclo arturiano.

Malory estava preso quando escreveu Le Morte d’Arthur - caíra prisioneiro durante a Guerra das Duas Rosas. Dividia a cela com outro aristocrata que possuíra uma biblioteca sobre o Rei Arthur e, talvez para passar o tempo e aproveitando a fonte viva em sua companhia, acabou por escrever sua própria versão da história.

O que não faz o tédio...

É no romance de Malory que Mordred deixa de ser apenas sobrinho de Arthur. Geoffrey de Monmouth dera a Arthur uma irmã, Anna, filha de Uther e Igraine – Chrétien de Troyes adicionou à família a fada Morgana e Malory substituiu Anna por Morgause, transformando-a numa meia-irmã do rei e fazendo com que ela e Arthur se conhecessem antes de saber que eram irmãos, se apaixonassem e tivessem um filho que viria a ser a ruína de tudo que Arthur tentara construir.

Com o fim da Idade Média e o Renascimento, as histórias de Arthur e seus cavaleiros foram deixadas um tanto de lado – lembravam demais o período do feudalismo para serem benquistas, especialmente entre os burgueses. Na rara ocasião em que a história era resgatada das sombras da ‘Idade das Trevas’, era para servir como alegoria dos governantes da época – alegorias e paródias.

Foi apenas no século XIX que Arthur foi resgatado – inclusive resgatado das histórias que o tinham transformando num rei fraco e marido leniente que só está por ali para ser traído – transformando-se num ideal de romantismo, cavalheirismo e justiça.

Tal resgate deveu-se muito a Tennyson, que com poemas como A Dama de Shalott e Os Idílios do Rei deram a conjunção final com que hoje conhecemos a história.

Depois desse nosso ‘brevíssimo’ passeio pela história, mitologia e literatura do ciclo arturiano, é hora de começarmos a falar sobre os personagens, não é verdade?

(Continua em Meu Amor é uma Prece...)


A Coruja


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Um comentário:

  1. Excelente compêndio sobre a gênese e evolução do Ciclo Arturiano. Muito obrigado!

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