11 de outubro de 2010

O Único e Eterno Rei – Parte III: Meu amor é uma prece

“Meu amor por você é uma prece. O amor é a única prece que conheço.” Ela pensou que jamais o amara tanto quanto naquele momento quando ouviu a porta do convento bater-se inflexível e sentiu as paredes fecharem-se ao seu redor...

Marion Zimmer Bradley – As Brumas de Avalon
Mesmo quem nunca teve a curiosidade de abrir um volume sobre o rei Arthur sabe o básico sobre a história dele: foi um grande rei inglês, casado com uma tal de Guinevere, que era apaixonada por Sir Lancelot, que, por sua vez, era um cavaleiro na corte de Arthur, seu melhor amigo e grande campeão. Lancelot e Guinevere se amavam, o rei governava com a ajuda de um velho mago com cara de maluco chamado Merlin, havia um bocado de batalhas e finalmente aparecia aquele carinha esquisito, o Mordred, que era sobrinho do rei, mas na verdade era filho do rei, e queria o trono e decidiu dar um golpe de Estado.

Não necessariamente nessa ordem, claro.

De uma forma ou de outra, todos temos pelo menos uma idéia de quem são esses personagens e o que eles representam – especialmente naquilo que convencionamos chamar de cânone ocidental.

Independente de teorias de conspiração acerca de quem foram ou o que fizeram, temos Arthur e seus cavaleiros como símbolos de uma série de ideais – começando pela própria gênese do chamado amor romântico.

Triângulos amorosos como os que envolviam Arthur, Lancelot e Guinevere ou, na mesma linha, Tristão, Isolda e Mark, eram não apenas bastante populares na Idade Média como o retrato de uma realidade.

Veja bem, antes que vocês possam achar que falei o que não falei, não estou dizendo que o retrato da realidade medieval é do adultério... Mas sim que os casamentos – especialmente entre os membros da aristocracia, eram arranjados; os maridos eram, na maioria das vezes, muito mais velhos que suas esposas e amor, como cantado e celebrado em tantas canções e poemas, raramente era encontrado no leito conjugal.

Arthur era provavelmente mais velho que Guinevere (e, provavelmente, mais velho que Lancelot também). Seu casamento com ela fora um acordo, uma aliança política e não o “encontro de dois corações” ou qualquer outra bobajada romântica que vocês queiram colocar aqui. Eles podiam até ter algum afeto um pelo outro, mas nunca se apaixonaram realmente.

Então, o que fazer quando você é uma jovem rainha desocupada no meio de uma corte cheia de cavaleiros galantes dispostos a fazer tudo por você enquanto seu marido cuida de negócios do reino?

Você arranja um amante, é claro.

Em defesa de Guinevere – apesar de nunca ter encontrado alguém que dissesse que realmente gosta dela – ela só teve um amante, um homem que amou a vida inteira quase. A julgar pelo fato de que seu romance com Lancelot começa quase imediatamente após eles se conhecerem e que no decorrer da história ele tem um filho com Elaine que chega adulto à corte, calculando por baixo, foram uns vinte anos juntos.

Guinevere é egoísta, manipuladora e rancorosa. Mas ela é também leal – a descontar seu caso com Lancelot – firme em suas convicções e incrivelmente corajosa (pois, mesmo quando defrontada com a possibilidade de ser queimada viva, mantém o orgulho e a postura de uma rainha).

Lancelot, por sua vez, é uma contradição ambulante. Na maior parte das histórias, ele é descrito como o mais forte e belo cavaleiro. Filho do rei Ban, de Benwick, teria sido raptado quando bebê pela Dama do Lago, ganhando assim o epíteto de “Do Lago”.

É difícil, contudo, conciliar a imagem de alguém que reuniria em si todas as virtudes possíveis com a questão da traição, não apenas ao rei, mas ao seu melhor amigo.

Essa é provavelmente a razão pela qual meu Lancelot favorito é o de T. H. White, o cavaleiro imperfeito – que não é belo e absolutamente sem falhas, mas que constantemente se digladia com sua própria moral, tentando aceitar tanto seu amor por Guinevere quanto seu dever e lealdade para com Arthur.

E o principal nesse ponto é que Lancelot ama Arthur. Para ele, o rei é o ideal supremo daquilo que um cavaleiro deve ser. É em Arthur e não nele mesmo que Lancelot enxerga a junção de todas as virtudes.

Essa é a grande tragédia do triângulo formado por Arthur, Lancelot e Guinevere: há sentimento em todos os vértices, não é como a quadrilha de Drummond em que cada indivíduo gostava de outro e não era correspondido.

Ainda que Guinevere possa às vezes ser descrita como uma garotinha petulante e mimada, eu não tenho dúvidas de que o amor dela por Lancelot era profundo e verdadeiro e que ela nutria sincero afeto e respeito por Arthur. Da mesma forma, Arthur amava Guinevere e Lancelot; e Lancelot amava Arthur e Guinevere.

Claro que para completar a tragédia tinha de aparecer uma inocente insuspeita, Elaine, a Dama de Shalott, que alguns identificam com a Elaine mãe de Galahad, filho de Lancelot (embora outras versões da história coloquem a mãe de Galahad como Elaine de Corbenik – há um sem número de Elaines nas histórias do ciclo arturiano...).

Elaine apaixonou-se por Lancelot, mas ele jamais retornou esse amor, já que só tinha olhos para a rainha. Galahad só nasceu porque ele foi drogado (ou enfeitiçado) e dormiu com Elaine pensando que era Guinevere. Uma vez que percebe que seu amor jamais será correspondido, Elaine morre, muito literalmente, de coração partido.

Heard a carol, mournful, holy,
Chanted loudly, chanted lowly,
Till her blood was frozen slowly,
And her eyes were darkened wholly,
Turn'd to towered Camelot.
For ere she reach'd upon the tide
The first house by the water-side,
Singing in her song she died,
The Lady of Shalott
(...)
Who is this? And what is here?
And in the lighted palace near
Died the sound of royal cheer;
And they crossed themselves for fear,
All the knights at Camelot;
But Lancelot mused a little space
He said, "She has a lovely face;
God in his mercy lend her grace,
The Lady of Shalott



A balada escrita por Tennyson, The Lady of Shalott foi musicada por Loreena McKennitt – e preciso dizer que enquanto escrevo essas linhas escuto essa música repetidas vezes?

(Continua em Minha Mão pela Justiça...)
 
 
A Coruja


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3 comentários:

  1. Fico esperando ansiosamente os próximos posts. Muito bom esse Especial!! E a Morgana Lulu? Não amava ninguém?

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  2. Diz-se que a Morgana era casada com um rei de quem não gostava muito, que se apaixonou por um cavaleiro e tentou fazê-lo matar o rei, mas este era muito fiel a Arthur e acabou morrendo no processo; e também que amava Lancelot, mas tudo o que ela fez em relação a ele foi tentar encantá-lo - sem sucesso.

    É difícil descobrir o que fazer de Morgana - o melhor retrato dela ainda é o de As Brumas de Avalon.

    Que bom que está gostando ^^ As postagens estão todas programas para segundas e quartas, até o final do mês!

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  3. Essa música é linda :~...a voz dessa mulher é incrível.
    Dúvida: a senhorita já leu a série Crônicas de Artur, do Cornwell? O que achou? Eu gosto da versão dele para o triângulo amoroso...com o Artur apaixonado por Guinevere, Guinevere apaixonada pelo poder e Lancelot apaixonado por si mesmo. Ele é bem cruel com o Lancelot, na verdade...um cavaleiro que mal sabe lutar, e que suborna bardos para espalhar histórias falsas sobre sua bravura. Mas a Guinevere de Cornwell é minha preferida...no final, quando você entende que ela é uma prisioneira do tempo onde vive, uma mulher mais inteligente que o bando de guerreiros estúpidos que acham que mandam na Inglaterra, que tinha condições para ser rainha e unificar a bretanha, é impossível não sentir simpatia e pena dela (mesmo tendo traído Artur e posto o reino inteiro em perigo).
    Dúvida 2: o que achou da série do T.H. White? Eu tenho o primeiro mais ainda não li...vale a pena ler todos? Aliás...nessa série vai ter um grande post com seus comentários sobre os vários livro que "recontam" a saga arturiana, né? XD

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