13 de outubro de 2010

O Único e Eterno Rei – Parte IV: ‘Minha mão pela Justiça’

- Se eu fosse feito cavaleiro – disse Wart, olhando sonhadoramente para o fogo – insistiria em fazer minha vigília sozinho, como Hob faz com seus falcões, e pediria a Deus que me deixasse enfrentar todo o mal do mundo em minha própria pessoa, assim, se eu vencesse, nenhum mal restaria, e se perdesse, seria o único a sofrer.

T. H. White – A Espada na Pedra
Já tratei de Guinevere e Lancelot no número passado. Preferi deixar Arthur em separado porque, primeiro, ele merece uma parte só para ele (afinal, ele é o grande personagem desse especial) e segundo, falar de Arthur é avançar um pouco mais além da questão do adultério da rainha.

Existem, basicamente, três formas de interpretar a figura do rei Arthur – e não estou falando aqui de tentar determinar se ele foi um personagem histórico ou mitológico, mas sim do que representa sua jornada, do momento em que tira a espada da pedra (ou talvez, desde seu nascimento em Tintagel) até a batalha final em Camlann e sua partida para Avalon.

A primeira delas é a partir dos textos mais antigos, muitos com base em relatos orais, em que Arthur é um guerreiro respeitado, um típico herói épico, mitológico – de alguma forma, eu imagino esse Arthur imenso, quase um gigante, cheio de músculos, ruivo e com um respeitável bigode.

Em outras palavras, eu o imagino como Cuchulain, o grande herói da Irlanda.


Esse é o Arthur do Mabinogion e do Culhwch ac Olwen, que vai bater nas portas do Inferno para arranjar uma boa briga; que lidera suas tropas contra os saxões – um Arthur que é homem e deus, mais que um rei coroado, um líder corajoso e respeitado.

A segunda versão de Arthur é justamente a do rei, não mais como um guerreiro poderoso, mas um gestor, um administrador e, porque não dizer, um burocrata.

Por motivos que não sei explicar, eu imagino essa versão de Arthur um pouco mais velho, barbado e com uma régia cabeleira loira.


Iconografias à parte, esse segundo Arthur é, como Lancelot, uma contradição. Ao mesmo tempo em que simboliza as virtudes de Camelot, retratada como uma utopia de paz, cultura e justiça em meio à barbárie trazida pelas ondas invasoras de saxões, ele é também sua decadência, o vício - o homem que dormiu com a própria irmã e que se deixou suavizar por anos de tranqüilidade, pela vida na corte, acabando por se tornar indolente.

Este é o Arthur que foi educado por Merlin, que pensou na Távola Redonda como uma forma de colocar a Força a favor do Direito – determinando que seus barões e cavaleiros feudais não abusassem simplesmente de seu poder, mas usassem-no, com as regras da cavalaria, para o bem das pessoas. E que, no processo, acabou perdendo o rumo, como mostra White, n’O Cavaleiro Imperfeito:
O Rei apoiou a cabeça nas mãos e, entre os cotovelos, olhou para a Távola com ar infeliz. Era um homem gentil, consciencioso, amante da paz, que fora atormentado na juventude por um tutor de gênio. Juntos elaboraram a teoria de que matar pessoa e tiranizá-las era errado. Para acabar com esse tipo de coisa, inventaram a idéia da Távola – uma idéia vaga como a democracia, ou o espírito esportivo, ou a ética -, e agora, no esforço de impor um mundo pacífico, Arthur via-se mergulhado em sangue até os cotovelos.
E daqui deriva-se a terceira maneira de interpretar Arthur: ainda como um herói, mas desta vez, como um herói trágico, incapaz de escapar ao destino, joguete dos deuses e receptáculo de uma verdadeira maldição de família.

Uther desejou Igraine, esposa de Gorlois, o Duque da Cornualha, um de seus principais aliados. Isso levou os dois a romperem e, enquanto Gorlois lutava em um frente contra o exército do rei e morria, Uther chegava ao castelo de Tintagel, disfarçado pela magia de Merlin como o próprio Gorlois, para passar a noite com Igraine, gerando Arthur.

Assim, Arthur já nasce sob uma dívida de sangue e complica ainda mais sua situação quando se apaixona pela meia irmã, Morgause (não Morgana, como nas Brumas de Avalon) e com ela tem um filho, Mordred, que será ao mesmo tempo executor e vítima dessa maldição.

É uma tragédia grega – um padrão parecido com aquele que segue a família do rei Agamenon: Agamenon sacrifica a filha Ifigênia antes de partir para Tróia; na volta, é morto pela esposa, Clitemnestra. Orestes, filho do casal, vinga o pai assassinando a mãe. Mas, ainda que tenha agido como um instrumento divino, ele é também culpado pelo matricídio e, como tal, perseguido pelas Fúrias.

Aliás, esse é o mesmo padrão que Morpheus segue em Sandman...

Independente do que faça, do que seja ou represente, Arthur está condenado e com ele, sua utopia de Camelot. Pior, Arthur é o responsável por criar os instrumentos que servirão para sua derrocada.

Guinevere não foi acusada de traição uma única vez. Antes de Arthur organizar uma espécie de sistema judiciário em Camelot, contudo, as disputas eram resolvidas por ordálios e combates.

Se Mordred tivesse acusado Guinevere a essa época, bastaria que Lancelot o desafiasse para um duelo. Sendo Lancelot o melhor cavaleiro da Távola e comandante de armas do rei, meio óbvio que ele ganharia – Mordred não é retratado lá como grande guerreiro – e as acusações seriam retiradas e a vida continuaria.

Mas Arthur instituíra um tribunal... e foi para esse tribunal que Guinevere foi levada e julgada pelo próprio rei, forçado diante das provas – e do público - a condená-la.

A bem da verdade, Arthur corteja sua própria ruína constantemente. Em mais de uma versão da história, ele sabe do relacionamento de Lancelot e Guinevere e faz-se de cego. Em outras, ele é alertado por Merlin antes mesmo de se casar com Guinevere que ela irá traí-lo com um de seus cavaleiros.

Mais tarde, mesmo depois das provas do caráter de Mordred, quando parte para a França na guerra de Sir Gawain a Lancelot, uma vez que este matou os irmãos daquele, ele deixa o filho como Lorde Protetor, cuidando de Guinevere e do trono da Inglaterra.

Não muito esperto da parte de Arthur, deixar a raposa cuidando do galinheiro...

Confesso que não consigo me decidir nesse ponto se Arthur era masoquista, suicida ou apenas absurdamente ingênuo a ponto de confiar no Mordred, um homem que só tinha motivos para odiá-lo.

(Continua em Paganismo versus Cristianismo...)


A Coruja


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