18 de outubro de 2010

O Único e Eterno Rei – Parte V: Paganismo versus Cristianismo

A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos, e, talvez, no fim, chegaremos ou à sagrada ilha da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã e Inferno e danação...

Marion Zimmer Bradley – As Brumas de Avalon
Pela época em que se reputa ter vivido o Arthur histórico, os bretões, devido a ascendência romana durante o período de ocupação, já tinham se convertido ao cristianismo – diferente de seus invasores, os anglo-saxões.

Essa conversão, contudo, passou pela absorção da cultura original pelos cânones cristãos – a forma que a Igreja encontrou de ser aceita – ao ponto de transformar deuses antigos em santos e mártires, de modo que os fiéis pudessem se identificar com a nova religião.

Não é, pois, surpresa alguma encontrar misturados no ciclo arturiano elementos pagãos com símbolos do cristianismo.

O Graal, cálice em que Jesus bebeu o vinho na última ceia, e que está no centro de grande parte do ciclo arturiano conhecido como Vulgata teria origem no Caldeirão do deus Dagda, dos Tuatha Dé Danann, um dos quatro grandes tesouros da terra.

Os Tuatha Dé Danann são deuses ligados principalmente aos irlandeses, mas fazem parte da tradição celta e migraram com as ondas de colonização desses povos. Seus outros tesouros ou talismãs eram uma pedra da verdade, Lia Fail, a qual revelaria o verdadeiro rei da Irlanda; uma espada mágica chamada Freagarthach, a quem ninguém poderia mentir quando ela estivesse em seu pescoço, capaz de colocar os ventos ao comando de seu portador, cortar através de qualquer escudo e Gáe Assail, uma lança invencível que sempre retorna às mãos de quem a lança.

Agora, vejam que interessante...

1. uma pedra que revela o verdadeiro rei. Arthur é coroado – e sua descendência de Uther é descoberta – após ele retirar a espada de uma pedra na qual havia a inscrição de que apenas o verdadeiro rei da Inglaterra poderia fazê-lo.

2. uma espada mágica. Um dos principais símbolos do poder de Arthur é uma espada – Excalibur na versão francesa, Caliburn latinizado, Caledfwlch no original gaélico, o qual significaria algo como “relâmpago poderoso”.

3. uma lança invencível. Diz-se que José de Arimatéia guardava outra relíquia além da Graal: a lança de Longinus, também chamada de Lança do Destino, a arma que ferira Cristo na cruz.

4. um caldeirão a partir do qual poderiam se alimentar todos os homens da terra, do qual se poderiam tirar todo gênero de conhecimentos, com poder de ressuscitar os mortos. O Graal, se dizia, era capaz de dar conhecimento, curar e regenerar.

Se eu quisesse ir mais longe, poderia fazer a conexão Graal = Caldeirão do Dagda = Caldeirão de Medéia, uma vez que o processo de ressurreição pelo qual o indivíduo passava nos dois caldeirões (ser cozido magicamente) é o mesmo.

Da mesma forma, o Arthur rei cristão termina seus dias em Avalon – o Hades (ou Elísio) gaélico. Avalon, Avilion em fontes mais antigas, deriva de Ynys Affallon, a Ilha das Maçãs, na Terra do Verão, lugar para onde os Tuatha Dé Danann se exilaram após terem sido derrotados pelos milesianos. Para lá ele é levado por quatro rainhas, entre as quais sua irmã Morgana, cujo epíteto “Le Fay” também faz referência a esses deuses antigos e que, na tradição de Monmouth, faria parte de um grupo de nove feiticeiras (entre as quais a Dama do Lago, mãe adotiva de Lancelot e amante de Merlin) – que por sua vez nos faz lembrar das nove musas gregas.

Os ecos de todos esses mitos convivem de forma até harmoniosa no ciclo arturiano. Nenhum desses contos e lendas mais antigos faz referência a qualquer perseguição cristã aos pagãos – talvez porque os romanos já tivessem extirpado a questão durante seu período de conquista.

Aqui nos deparamos com um grande problema. Vejam: quase tudo que sabemos dos celtas hoje foi compilado anos mais tarde de seu povo e sua cultura se perderem por entre as sucessivas ondas invasoras e miscigenação. Compilado, muitas vezes, por monges, que eram, à época, os detentores do conhecimento.

A cultura celta era predominantemente oral, sendo responsabilidade dos sacerdotes druidas passarem esse conhecimento adiante. Nem todo mundo podia ser druida – apenas membros da nobreza – que passavam por um treinamento intensivo que durava anos, memorizando todos os grandes épicos e baladas de sua tribo.

Considerando que os druidas eram também os principais líderes da resistência contra os romanos, eles foram, é claro, os primeiros e mais perseguidos pelas legiões. Não sobraram muitos nem para remédio. Assim, se os detentores do conhecimento desaparecem, é claro que o conhecimento desaparece também.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais ainda hoje a cultura gaélica é vista com tanto interesse – grande parte de seus monumentos e sua história permanecem envolta em mistério. Os relatos compilados pelos monges seriam apenas uma fração disso – a fração mais popular, acessível à população, e não restrita a uma casta de sacerdotes.

Por isso, apesar de As Brumas de Avalon ser uma excelente narrativa, ela não deve ser lida como uma reconstituição histórica. E é só a partir da Marion Zimmer Bradley que os romances que retratam o ciclo arturiano colocam como um dos cernes do mito o conflito entre cristãos e pagãos.

O que, em outras palavras, significa também que eu posso estar escrevendo tudo errado para vocês, porque, ao final das contas, estou me baseando no conhecimento existente da mitologia celta que pode ou não estar todo errado e corrompido.

E tem gente que diz que estudar História não é emocionante e divertido...

Não obstante todos esses fatos, o caso é que há um mundo de personagens nas histórias de Arthur que respiram magia – a começar pela figura de Merlin. O engraçado é que, originalmente, ele não era tratado como um mago. A julgar pelos relatos históricos, Merlin, ou Myrddin era um bardo. Alguns dizem que ele ficou louco por causa das guerras que presenciou e que passou então a ter visões.

O Merlin original era um profeta.

Foi como profeta que ele mostrou ao Rei Vortigern os dragões sob a fortaleza que o líder tentava construir e sempre desmoronava, dizendo que eles representavam a guerra entre os ingleses e os saxões.

Nesse meio, diziam que Merlin descendia de um demônio, que engravidara uma virgem com o que seria o anticristo – mas a mulher, tão logo deu a luz, batizou o menino, que então se tornou “do bem”, um mago branco.

Monmouth o transformou em mago para que ele pudesse agir como agente de Uther – que sucedeu Vortigern no trono –, permitindo, através de magia, que o Rei se disfarçasse de Gorlois e deitasse com Igraine, gerando Arthur.

E, como profeta que também era, Merlin já sabia que Arthur nasceria daquele encontro, e tomou a si a tarefa de proteger o menino, por vezes até participando ativamente de sua educação enquanto sob a tutela de Sir Ector, do Castelo da Floresta Sauvage.

Em seu papel de tutor e conselheiro, contudo, Merlin falhou com Arthur quando ele mais precisava. Sem ter dito que Igraine era sua mãe, permitiu que Arthur acabasse por se apaixonar por Morgause – em todas as histórias que conheço, mesmo aquelas em que ele estupra Morgause (sim, também tem dessas...), em defesa de Arthur sempre se lembra que ele não sabia que ela era sua irmã, o que significava que ele também não iria saber quem era sua mãe, já que a filiação e a identidade de Morgause eram bem conhecidas.

Alguém esqueceu de contar a ele...

E então, ele se apaixonou por Nimue, ou Viviana ou pela Dama do Lago (isso também varia). Seja qual delas for, será a responsável por sua morte. E disso, também, Merlin sabia. Pior: foi ele quem deu os meios necessários para seu desaparecimento, já que ensinou magia à moça.

De certa maneira, a ausência de Merlin – que podemos considerar quase uma deserção, pois sabendo o que sabia, ele poderia ter evitado o que aconteceu – será também um dos motivos para a queda de Arthur e de Camelot. Mas não o principal. Ele é apenas o início...

(Continua em Bebo para a Morte e para a Desonra...)


A Coruja


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Um comentário:

  1. Dá mesmo pra ter raiva do Merlin se ele vive ao contrário?
    Ele primeiro viu o Arthur morrer pra depois ver o que tinha acontecido pra q isso acontecesse.
    Bem confuso isso né?

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