3 de junho de 2021

A Ilha Misteriosa: um triunfo do espírito empreendedor e inventivo


— Nos livramos de tudo?

— Não! Ainda temos dez mil francos em ouro!

Um saco pesado caiu imediatamente no mar.

— O balão subiu?

— Um pouco, mas não tardará a descer de novo!

— O que restou para jogar fora?

— Nada.

— Esperem…! O cesto!

— Agarremo-nos à rede! E sacrifiquemos o cesto ao mar!

Era, com efeito, o único e último meio de prolongar a vida do aeróstato. As cordas que o prendiam ao aro foram cortadas e o balão, após a queda do cesto, subiu aproximadamente seiscentos metros.

Os cinco passageiros haviam se içado para a rede, acima do aro, e, agarrando-se à trama das malhas, contemplavam o abismo.

Se algum dia eu me descobrir numa ilha deserta, esse é um dos (muitos) livros que desejaria ter comigo. Pode parecer um desejo estapafúrdio, mas do que me lembro de Crusoé e também com o grupo que Verne nos apresenta aqui, todo náufrago pode esperar a sobrevivência afortunada de alguns volumes para ajudá-lo nos dias que virão (ou até o aparecimento surpreendente de um baú repleto de itens de primeira necessidade, incluindo, claro, livros). Digo isso não apenas por A Ilha Misteriosa ser uma leitura das mais prazerosas - as setecentas páginas da minha edição passaram meio que voando - mas porque ele é, basicamente, uma manual de como ser um náufrago bem sucedido (e, no processo, começar uma nova civilização nas terras que vocês acabou de “colonizar”).

Tenho certeza que já tinha lido esse livro em tempos passados - Verne foi um dos autores da minha infância e procurei por tudo que ele tinha escrito na época em que o descobri -, mas não lembrava de nada do enredo dele. Sabia, contudo, que o capitão Nemo aparecia em algum momento e isso me animava bastante; Vinte Mil Léguas Submarinas permanece como um dos meus favoritos de todos os tempos. Enfim, provavelmente devo ser grata por não lembrar, porque dessa maneira tive a oportunidade de descobrir a Ilha Lincoln como se fosse a primeira vez, ao lado dos náufragos do ar que se tornam seus colonos.

O enredo começa em meio à Guerra Civil Americana. Prisioneiros num estado confederado, o engenheiro Cyrus Smith, seu empregado Nab e o cachorro Top; bem ainda como o jornalista Gedeon Spillet, o marinheiro Pencroff e seu protegido, o jovem Harbert, fogem num balão em meio a uma furiosa tempestade que os lança para uma ilha perdida no Pacífico. Tendo apenas suas habilidades e conhecimentos - e a natureza abundante da ilha que os recebe -, os cinco homens (e um cão) reproduzem toda a evolução civilizatória enquanto estabelecem uma sociedade bastante produtiva em seu pedaço de paraíso.

Do fogo à metalurgia; de coletores a caçadores e agricultores, nosso grupo de intrépidos aventureiros reinventa tudo aquilo que vai se mostrando necessário. Precisamos de potes e panelas? Começamos uma olaria. Facas, pregos, outras ferramentas? Pode deixar conosco. Vidros para a janela? Há areia abundante para começarmos uma vidraçaria. Explosivos, moinhos de trigo, elevador hidráulico, e, porque não, um telégrafo e até um veleiro? Os únicos limites para a capacidade criativa deles é sua própria engenhosidade.

O que impressiona é que Verne não joga com impossibilidades. Tudo o que os personagens criam na ilha é factível e Verne dá explicações dos processos por trás de muitos deles. Reações químicas, cálculos matemáticos, processos de engenharia: está tudo lá e, por isso, mantenho minha afirmação de que essa ficção é também um bom manual para situações reais. Verne é um mestre do romance científico, consegue ser didático sem ser chato ou nos fazer perder em jargões. Ele é o tipo de autor que te inspira a buscar mais sobre o assunto – tanto que me pergunto quantos leitores juvenis não se decidiram pela engenharia depois de devorar A Ilha Misteriosa.

Claro que é bastante conveniente que, entre os cinco personagens, tenhamos uma profusão de talentos e habilidades. O engenheiro Cyrus é, naturalmente, o líder dessa comunidade e responsável por muitas das invenções que facilitam a vida dos náufragos tornados colonos. Harbert, aos quinze anos, é um ávido estudante de ciências naturais e, num olhar, consegue identificar várias espécies de animais e plantas, bem como eles podem servir a humanos. O jornalista Spillet, acostumado a rodar o mundo e se virar em zonas de guerra, tem alguns rudimentos de medicina e é um exímio caçador. Nab sabe tudo de temperos e consegue fazer milagres com as provisões que vão se juntando em sua cozinha. Pencroff passa boa parte do tempo servindo de alívio cômico (mas, bem, eu entendo o ponto dele – toda vez que se deparam com algo novo na ilha, sua primeira questão é sempre “é de comer”?), mas suas habilidades como marujo são valiosas para o reconhecimento do território (especialmente sua costa), ele é o melhor costureiro do grupo e, quando se faz necessário começar um estaleiro, ele é o único com experiência no assunto.

Ao longo dos anos em que passam na ilha Lincoln, o grupo consegue se estabelecer com conforto e prosperar. Vivem várias aventuras, algumas de fazer nossa pressão subir com toda a ansiedade, mas Verne nunca nos deixa sofrer por muito tempo; capítulos curtos e resoluções rápidas tornam a leitura fluida e rápida. Mesmo a solução deus ex-machina para muitas dessas situações não me incomodou - porque não é algo realmente inesperado, foi plantado desde o princípio como um dos principais mistérios do enredo.

Não pude deixar de comparar A Ilha Misteriosa com outro clássico sobre náufragos sobreviventes de um acidente aéreo (com um avião em vez de balão neste caso), o aterrador O Senhor das Moscas. Enquanto Verne nos conduz a um triunfo do engenho humano, com uma comunidade de princípios sólidos que é um crédito à sociedade de que se origina, Golding nos faz encarar o que há de pior no gênio do homem, numa queda direto à barbárie. Em certa medida, são livros que funcionam como duas faces da mesma moeda e caminham para extremos, mas são caminhos possíveis para investigar nossos marcos civilizatórios.

Quero ser otimista e acreditar que, na maioria dos casos, o caminho de A Ilha Misteriosa seja aquele que trilhamos, de uma sociedade solidária, em que todos cooperam para seu desenvolvimento. Tomada ou não como lição, contudo, fato é que passei a considerar esse um dos melhores livros do Verne. Uma aventura de tirar o fôlego, repleta de lances inesperados, com personagens simpáticos que te inspiram à curiosidade e invento. Mereceu a releitura, sem dúvida.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Decepção; 2 – Mais ou Menos; 3 – Interessante; 4 – Recomendo; 5 – Merece Releitura)

Ficha Bibliográfica

Título: A Ilha Misteriosa
Autor: Jules Verne
Tradução: André Telles
Ilustrações: Jules Férat
Editora: Zahar
Ano: 2017

Onde Comprar

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A Coruja


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2 comentários:

  1. Morri de amores por sua resenha, já quero ler esse livro agora :)

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    Respostas
    1. Obrigada! Verne é um autor que envelheceu bem, que continua tão empolgante lendo hoje como quando li criança. Espero que goste e se divirta com o autor!

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