25 de julho de 2011

Clube do Livro (Julho) - 20.000 Léguas Submarinas

- Desça, desça com os seus companheiros!

- Vai atacar aquele navio, capitão?

- Vou afundá-lo!

- O senhor não fará tal coisa!

- Farei - respondeu-me friamente. - Não se arrogue o direito de me julgar, professor! A fatalidade lhe mostra o que não deveria ver. Fui atacado e minha resposta será terrível. Agora desçam!

- Que navio é aquele? - insisti.

- Se não sabe, tanto melhor. Pelo menos a sua nacionalidade continuará a ser um segredo para vocês. Desçam! - gritou irado.

Não pudemos fazer nada mais do que obedecê-lo. Mas antes de deixar a plataforma eu ainda fiz um gesto de quem ia falar. Ele me impôs silêncio e usou mais uma vez da palavra.

- Eu sou o direito, eu sou a justiça! Sou o oprimido e ali está o opressor! Foi por causa dele que vi morrer tudo que eu amava e venerava: pátria, mulher, filhos, pai e mãe! Tudo o que odeio está ali. Cale-se e desça!

Júlio Verne – 20.000 Léguas Submarinas
Júlio Verne foi um dos heróis da minha infância. Eu era profundamente fascinada por seus livros e até hoje posso incluí-lo em minha lista de favoritos – seus livros envelhecem bem conosco, podendo ser lidos e relidos com a mesma excitação, o mesmo encanto da primeira vez.

Verne escreveu 20.000 Léguas Submarinas em 1870. Já havia protótipos de ‘submarinos’, um inclusive chamado Nautilus, construído em 1800 por Robert Fulton – embora, claro, o Nautilus de Fulton estivesse muito longe da capacidade daquele projetado por Nemo. De uma forma ou de outra, a época em que o livro foi escrito, viajava-se a cavalo, de carruagem ou navio, e alguns mais privilegiados, nos primeiros trens a vapor. Chegar ao fundo dos oceanos ou viajar até a luz eram coisas impossíveis. Neste aspecto, em termos de ‘visão de futuro’ o único outro personagem histórico a que posso associar Júlio Verne é Leonardo da Vinci.

O livro começa em 1866. Um monstro marinho, que se acredita ser um narval, tem sido visto por todo o globo, tendo afundado mais de um navio no caminho. O governo dos Estados Unidos – que à época, aparentemente, já se considerava polícia do mundo – decide montar uma expedição para encontrar e destruir o monstro e convida para participar dela o professor Pierre Aronnax, um famoso biólogo marinho francês que é o narrador da história.

A expedição até chega a encontrar o monstro... mas não tem qualquer chance contra ele afinal, como Aronnax, Conselheiro (só me lembrei da Revolta de Canudos...) e o arpoador Ned Land vão descobrir, o bicho não tem tentáculos gigantescos ou chifres de unicórnio do mar, mas sim uma couraça de metal.

E eis então que temos nosso primeiro encontro com um dos mais complexos personagens de Verne: o capitão Nemo.

Não é muito difícil caracterizar os personagens logo de cara: Aronnax é um cara petulante e, com toda a sinceridade, chato de galochas; Conselheiro é quase que um banana, eu realmente não sei o que fazer dele, se penso que o cara é um sábio, responsável e dedicado criado ou se é francamente tolo e subserviente.

Ned é, dos três, o personagem de quem mais gosto: ele é prático, ainda que tenha uma cabeça meio quente e é ele que, no final das contas, dá resolução aos problemas que surgem para o trio. Ele não é um cientista, mas em nenhum momento abaixa a cabeça para o Aronnax, expondo suas opiniões com muito mais clareza e lógica que o professor.

Nemo, contudo, é uma completa incógnita, do começo ao fim. Seu nome vem do latim e significa ‘ninguém’ e dá-se a entender que este não é seu nome verdadeiro. Aronnax, que é quase que um especialista em sotaques e dá uma importância desmedida a nacionalidades, não consegue ter nem sombra de idéia do lugar em que Nemo poderia ter vivido quando na superfície.

Desvendar o caráter do capitão e engenheiro genial do Nautilus é a força motriz e o encanto do livro – ao menos para mim. Nemo parece, à primeira vista, um homem frio, que deseja vingança a qualquer custo – mas demonstra também um lado compassivo e uma preocupação com a humanidade que jurou abandonar.

Há outro livro de Verne chamado A Ilha Misteriosa, que revela o passado de Nemo e explica muita coisa... Mas vou ficar quieta sobre o assunto: se quiserem saber quem é Nemo e como ele perdeu sua família, motivo pelo qual construiu o Nautilus e deu bye, bye para o resto do mundo, dêem uma lida nele.

Dica: o capitão Nemo de Alan Moore na Liga Extraordinária está muito bem caracterizado, a despeito do imaginário geral parecer colocar o capitão como europeu...


A Coruja


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4 comentários:

  1. Eu era absolutamente viciada nesse livro quando era criança. Na verdade, numa edição infantil resumida dele, mas a ideia é a mesma :p Nemo continua sendo um dos meus personagens favoritos até hoje, justamente por causa dessa icógnita que me fascinou mesmo na versão curtinha da história que eu reli umas quinhentas vezes antes de cansar.

    Nossa, agora deu vontade de ler de novo... Vou tentar procurar uma edição completa qualquer dia desses...

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  2. Ah, já ia esquecendo! Tem uma mensagem para os escritores em comemoração ao dia de hoje, lá no meu blog, por favor, leia que a homenagem é pra você também! :p

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  3. Não é por acaso que Jules Verne continua a ser um dos meus autores favoritos. Há poucos livros como os dele, e poucos escritores que tenham a visão que ele teve no que escreveu.

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  4. Visite o meu blog dedicado a J. Verne: www.jvernept.blogspot.com

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