4 de junho de 2020

Dez Anos em Dez Ensaios - Quanto Maior a Altura, Maior a Queda


Com a criação das primeiras estrelas por Varda, despertaram na Terra-média os Primogênitos de Ilúvatar. Quando Oromë, o Vala caçador, encontrou-os pela primeira vez, eles já tinham se separado em três grandes clãs, que mais tarde seriam chamados Vanyar, "belos elfos"; Noldor, "elfos-profundos" e Teleri, "elfos-do-mar". Oromë os chamou, em sua própria língua, de eldar, ‘o povo das estrelas’.

Os Valar decidiram então que, por amor aos eldar, era necessário lidar de uma vez por todas com a ameaça de Melkor. Eles foram à guerra, destruindo Utumno, uma das grandes fortalezas de Melkor, finalmente derrotando-o. Levado como prisioneiro para Valinor, Melkor foi julgado e condenado a permanecer preso nos Salões de Mandos por três eras, quando então poderia se apresentar de novo perante seus juízes.

Enquanto isso, Oromë era incumbido de levar os elfos para Valinor. Para convencê-los a realizar a travessia, ele convocou três embaixadores que poderiam ir conhecer as terras além-mar e voltar para dizer aos seus familiares o que os esperava lá. Assim, Ingwë, dos Vanyar, Finwë dos Noldor e Elwë, dos Teleri, partiram para a Terra de Aman, e foram os primeiros de sua raça a verem a luz das duas Árvores de Valinor. Mais tarde, eles se tornariam reis de seus respectivos clãs, respeitados por seu poder e sabedoria.

Ao retornarem para a Terra-média, eles imediatamente conclamaram os outros eldar a seguirem para Valinor, tendo início a grande marcha dos elfos, mas também a primeira cisão: os que decidiram partir continuaram a ser chamados de eldar, mas aqueles que preferiram ficar tornaram-se conhecidos como "avari", os relutantes. Pelo caminho, muitos foram desistindo da viagem, ou se perdendo dos outros, e novos grupos iam se formando. O próprio líder dos teleri, Elwë, ficou para trás, encantado por uma canção que ouviu de passagem.

Os vanyar e os noldor foram os primeiros a fazer a travessia, após ouvirem a música de Ulmo, o Vala das Águas, e se sentirem irresistivelmente atraídos pelo mar. Os teleri, que procuravam por Elwë, atrasaram-se, e só puderam embarcar depois - muitos, aliás, decidiram continuar procurando por seu rei. Ainda assim, aqueles dos teleri que partiram não se decidiram de imediato a seguir para Valinor; em vez disso, pediram que a ilha em que viajavam fosse fixada na baía à vista das terras de Aman: ela foi chamada Tol Eressëa, a Ilha Solitária. Eles construíram barcos - da mesma forma que aqueles que permaneceram nas costas da Terra-média - e se tornaram os primeiros marinheiros da Terra-média.

Os eldar de Valinor, por sua vez, construíram sua cidade - Tirion - sobre uma colina, dominada pela Torre de Ingwë, que se tornou o Grande Rei para todos os três clãs. Em Tirion foi plantada uma versão menor da árvore branca de Valinor - visto que Telperion era a mais amada dos elfos -, mas que não emitia luz, e ela foi chamada Galathilion. Dela descendem Celeborn, plantada em Tol Eressëa, e também Nimloth, mais tarde dada aos homens de Númenor, de cuja semente nasceu, eras depois, a árvore branca de Gondor.

Os vanyar terminaram abandonando Tirion para morar junto aos Valar, de forma que a cidade foi deixada para os noldor. Os teleri de Tol Eressëa finalmente atravessaram a baía e construíram sua cidade nas costas de Aman: Alqualondë, o Porto dos Cisnes. Nesse meio tempo, os elfos da casa de Finwë descobriram as pedras preciosas e com elas passaram a trabalhar. Habilidosos e inventivos, os noldor logo se tornaram os favoritos de Aulë, que lhes ensinou seus segredos de artífice.

Nasceu então o primeiro filho de Finwë, rei dos noldor: Curunfinwë, que foi chamado por sua mãe Fëanor, "espírito de fogo", e aqui tem início o próximo grande arco histórico do Silmarillion. Tolkien costuma organizar seus contos em torno de personagens-chave cujas decisões são capazes de alterar o destino de toda a Terra-média. Thorin Escudo de Carvalho, Bilbo e Frodo Bolseiro, bem como Aragorn são exemplos disso. Fëanor talvez seja o primeiro desses personagens-chave, e um dos mais complexos também.

Fëanor, arte de Jenny Dolfen.

A sina de Fëanor começa de seu nascimento. Exausta pelo nascimento dele, Míriel definhou, seu espírito partindo para os palácios de Mandos. Ora, os elfos, como os Valar, estão ligados a Arda até o fim dos tempos; tecnicamente, são imortais, imunes a todos os tipos de doença e capazes de suportar feridas que homens comuns seriam incapazes de sobreviver. É possível matar seus corpos físicos, mas isso não não significa sua morte completa: em vez disso, seus espíritos seguem para a Casa de Mandos, onde descansam por um tempo para então, se quiserem, retornar em corpos idênticos aos que perderam, moldados pelos Valar.

Tendo isso em mente, o nascimento do herdeiro dos noldor não é dos mais auspiciosos, vez que Míriel basicamente escolhe morrer e permanecer em espírito na Casa de Mandos, deixando para trás o marido e o filho - algo que quase se assemelha a um suicídio. Ainda, ao nomear a criança com um título que o assemelha ao fogo, ela parece dizer que Feanör consumiu - como o fogo consume ao queimar - sua vontade de viver.

Pensando que o que conta o Quenta Silmarillion são os fatos como visto pelos elfos da época - são suas Histórias, Mitos e Lendas - Fëanor cresceu ouvindo que ele matou a própria mãe. Que ele "consumiu" as energias dela quando veio ao mundo e que ela escolheu a morte - numa época em que a morte não era conhecida pelos elfos - por estar muito cansada para estar ao lado do pai e dele.

Pois bem... Fëanor é considerado o maior entre os Noldor em termos de talento. Dele é dito que:

“em todas as partes do corpo e da mente, em valentia, em resistência, em beleza, em compreensão, em talento, em força e em sutileza, no mesmo grau, Fëanor havia sido o mais poderoso de todos os Filhos de Ilúvatar, e nele ardia uma chama brilhante”.

Mas quanto ele teve de abrir mão para isso? E quanto isso vem da culpa que ele talvez carregue? O pai ficou viúvo por causa dele, então não é surpresa que o pai seja tudo para Fëanor. E aí Finwë vai lá e casa de novo e tem outros filhos, e não me surpreenderia que isso fosse como mais um tapa na cara de Fëanor: ele não era suficiente para o pai. Não sabemos exatamente quando Finwë se casou com Indis, mas é provável que Fëanor ainda não tivesse chegado à maturidade na idade dos elfos, então ele seria algo como... um adolescente. Um adolescente revoltado, extremamente apegado ao pai, com uma nova madrasta e uma mãe "mais ou menos" falecida.

Aliás, não se pode realmente dizer que Finwë seja viúvo, considerando que Míriel poderia decidir voltar a ter um corpo físico. Contudo, se ela se recusa a retornar, é justo que se condene Finwë a uma imortalidade solitária? Ou deveria ele também abrir mão de seu corpo e partir para a Casa de Mandos? É uma situação única - a primeira vez em que algo do tipo acontece -, tanto que Finwë precisa de uma licença especial dos Valar para poder realizar seu segundo casamento.

Então, vejamos… Fëanor (talvez numa fase equivalente a adolescência humana) é o primeiro a ter de lidar com isso em toda a sua raça. Fëanor faz parte da primeira geração que nasceu na Terra-média (especificamente Valinor) e não simplesmente acordou sob as estrelas. Ele é o primeiro a fazer parte de uma família em que um de seus membros basicamente escolhe perder a própria vida. Ele é o primeiro elfo na História a ganhar uma madrasta, talvez um dos únicos, já que os elfos normalmente são monogâmicos pela eternidade (pelo menos, é o que Tolkien diz... incluindo aí um adendo de que adultério é algo impensável para eles. Tolkien diz que luxúria não é algo compatível com a natureza própria dos elfos. Tenho minhas dúvidas sobre isso, mas chegaremos ao assunto em outros arcos...). Ele é também o primeiro a ter meio-irmãos.

Levando tudo isso em consideração - incluindo aí a idade de Fëanor quando as coisas começaram a acontecer - não me surpreende que ele seja paranóico, ciumento e possessivo.

Fëanor saca a espada contra o irmão. Arte de Jenny Dolfen.

A despeito de toda arrogância com que se porta ao longo de seu arco narrativo, Fëanor parece-me sofrer de um profundo sentimento de culpa e inadequação e, por essa razão, passa o tempo todo buscando ser o melhor, o maior, o primeiro, o único; de maneiras assertivas e positivas, em vez de apenas aceitar passivamente aquilo que lhe acontece. Essa seria uma forma de justificar ter basicamente matado a mãe, e ainda assim manter o afeto de Finwë.

Isso pode ser, inclusive, uma das razões que o levaram a empreender seu trabalho mais famoso. Quando decide criar as Silmarils, Fëanor o faz porque deseja tornar a luz das árvores algo "imperecível". Chamo a atenção para esse termo, porque acho que aqui está o centro desse debate. Os elfos, como já vimos, são imortais, mas Fëanor sabe intimamente que essa imortalidade é relativa. Aí está, afinal, o exemplo de Míriel. Então que Fëanor busque fazer algo que não pereça, que permaneça eternamente belo, que conserve a luz das Árvores - a luz que é a coisa mais fantástica criada pelos Valar, e se as Silmarils são ainda mais magníficas que as próprias árvores isso significa que como artífice Fëanor superou a arte dos Valar também - não é uma surpresa. E, se pensarmos em luz como uma qualidade do fogo - o fogo que arde e consome na alma de Fëanor e que talvez seja uma qualidade da própria Chama Imperecível (olha o termo aqui de novo) que criou o mundo - talvez Fëanor deseje aqui aprisionar em suas gemas o fogo que matou sua mãe.

Falando em Chama Imperecível, bom lembrar que a 'queda' de Melkor inicialmente está ligada ao seu desejo de possuí-la. Se as Silmarils têm algo que em sua essência nos faz lembrar da Chama Imperecível, não é uma surpresa que Melhor as cobice - inclusive porque elas são também uma glória da capacidade criativa, algo que Melkor não é capaz de alcançar. Ele só consegue distorcer e corromper, mas não criar. Fëanor, com todos os seus problemas e neuroses, possui essa extraordinária criatividade. Ele é um artista. E sua criação está próxima da própria Criação porque, vejam, a descrição das luz dentro das Silmarils é de algo vivo:

"Semelhante ao cristal de diamantes parecia e, contudo, era mais forte que adamante, de modo que nenhuma violência podia maculá-la ou quebrá-la dentro do Reino de Arda. Contudo, aquele cristal era para as Silmarils não mais do que o corpo é para os Filhos de Ilúvatar: a casa de seu fogo interno, que está dentro dela e, contudo, em todas as partes dela e é a sua vida."

Também é interessante perceber que muitas das descrições colocadas para Fëanor são similares à representação de Melkor quando ele ainda era um Ainur - eles queimam e consomem tudo que entra em contato com eles.

A essa altura dos acontecimentos, as eras de prisão a que foi sentenciado já se passaram e Melkor caminha em Valinor, decidido a continuar com seus planos de dominação mundial - embora de maneira mais melíflua e à traição. Para tanto, ele se insinua para os elfos e conquista particularmente o respeito dos noldor ao compartilhar com eles seus conhecimentos. Exceto, claro, pelo próprio Fëanor, que o detesta à primeira vista. E, mesmo assim, ele ainda é enredado nas mentiras e artimanhas de Melkor.

São óbvios os paralelos entre o arco narrativo que conta da queda e declínio de Melkor e Fëanor - e através de Fëanor, de todos os noldor - com a história bíblica da rebelião de Lúcifer e a expulsão de Adão e Eva do Éden. Talvez menos evidente seja a possível ligação de sua história com o mito grego do Titã Prometeu.

O Juramento de Fëanor, arte de Jenny Dolfen.

Prometeu desafiou os deuses do Olimpo em prol da humanidade, numa época em que Zeus e seus irmãos ainda lutavam para se estabelecer, após terem derrotado o próprio pai, o titã Cronos. Ele teria moldado os homens do barro, para então ensiná-los como domesticar animais e plantar seu alimento; como misturar ervas para fazer remédios e construir os objetos de que precisavam. Mais que isso, ele roubou dos deuses o fogo, uma centelha da própria divindade, para entregar aos humanos.

Como Prometeu, Fëanor, chama viva, deu a sua sociedade suas primeiras letras, obras de arte e engenho - as maiores de todas sendo as três Silmarils - … e também, suas primeiras armas. O presente do fogo a humanidade representa o próprio processo civilizatório, para o bem ou para o mal. Abre as portas para uma infinidade de artes e ofícios, mas também traz a guerra e a destruição para seu seio.

E assim temos o fim da primeira grande Era da Terra-média. Melkor, que cobiça as Silmarils como cobiçou a Chama Imperecível, traça seus planos. Fëanor, que embora não confie no Valar, deixa-se envenenar pelas mentiras de Melkor - talvez por que elas se alinhem com seus próprios medos e inseguranças - levanta uma arma contra o irmão Fingolfin e é assim exilado. Finwë, que, a despeito de tudo, ama desesperadamente o filho mais velho, segue junto para o exílio e é morto por Melkor - o primeiro derramamento de sangue em Valinor. As Silmarils são roubadas, as Árvores são mortas, e a luz desaparece do mundo. E o próprio Fëanor cai diante de seu grande inimigo, não sem antes fazer um juramento cujas consequências seriam sentidas por eras depois de sua morte.

Seja ele amigo ou adversário, sujo ou puro,
cria de Morgoth ou brilhante Vala,
Eldar ou Maia ou Sucessor
Homem ainda não nascido sobre a Terra-média,
nem lei, nem amor, nem liga de espadas,
terror, nem perigo, nem o próprio Destino
há de defendê-lo de Fëanor, e da raça de Fëanor,
todo aquele que tomar ou ocultar,
guardar consigo ou longe lançar
uma Silmaril. Isto juramos todos:
morte havemos de trazer a ele antes do fim do Dia,
maldição até o fim do mundo! Nossa palavra ouve tu,
Eru Pai-de-Todos! À eterna
Treva condenai-nos se assim não o cumprirmos.
Na montanha sacra ouvi em testemunho
E nosso voto lembrai, Manwë e Varda!

O sombrio juramento de Fëanor e seus filhos tem repercussões graves e torna o destino dos noldor na Terra-média realmente sinistro. Até então, os elfos viviam em idílio utópico; a cisma que as decisões de Melkor - agora batizado Morgoth, “o Sinistro Inimigo do Mundo” - e Fëanor provoca leva ao êxodo e retorno de parte dos noldor a Terra-média. Grandes crimes e traições são cometidos. Profecias são ditas. E assim se cumpre a Canção.

Quando falamos da criação de Arda, vimos como Melkor tentou adicionar suas próprias obras à Canção criadora e como Eru decidiu incorporar a fanfarra bélica aos seus temas iniciais - não para fazer o gosto de Melkor, mas porque o sofrimento que se previa nas entrelinhas daria grandeza ao resto da obra. Por que era necessário que houvesse opções para que suas criaturas fossem levadas a escolher e, através desse ato, dotadas de livre-arbítrio. Não é possível imaginar que algo seja livre se ela é impedida de escolher, ainda que suas escolhas tendam para aquilo que consideramos maligno.

Os noldor são assim de uma grandiosidade trágica, por que são instrumentos dessa decisão de Eru. Pode parecer contraditório, mas C. S. Lewis disse em um de seus ensaios algo muito interessante, que me parece sob medida para compreender tal situação: o livre-arbítrio é o modus operandi do destino. Fëanor parece ser destinado a tragédia desde seu nascimento, mas suas escolhas são uma parte intrínseca de sua queda. Ninguém é responsável por elas além dele mesmo.

Se a revolta de Fëanor, seu nefasto juramento de vingança e busca pelas Silmarils, levam a sua queda e ao exílio dos noldor que decidem segui-lo - afinal, com a morte de Finwë, ele se torna o novo rei e não se pode duvidar que a despeito de todos os seus defeitos, ele é muito carismático -, também será o catalisador de outras tantas histórias. Ele, que alçou a alturas imaginadas, ousou cair. E, de sua queda, derivam contos de maravilhas, grandeza, sacrifício e valor.


Dez Anos em Dez Ensaios: Tecnicamente, esse é o segundo post do Projeto Arda, mas enrolei tanto para escrevê-lo que quando vi, seria mais conveniente postá-lo no meio dos ensaios dos dez anos (me pouparia ter que escarafunchar os miolos atrás de outro tema também… além do fato de que a pesquisa já estava pronta...). Enfim, Tolkien já foi tema de vários ensaios aqui no blog e não poderia deixar de ser uma figurinha carimbada nessa série de artigos. Conveniente que tenha caído a vez justo em Fëanor, que é um personagem tão terrível quanto fascinante.

J. R. R. Tolkien || Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V

Projeto Arda || Introdução - Parte I

Lá e de Volta Outra Vez: 80 anos de O Hobbit - um artigo especial que escrevi no aniversário de publicação de O Hobbit



A Coruja


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