5 de setembro de 2011

J. R. R. Tolkien – Parte I: O Ourives do Anel

“Em ordem de tempo, crescimento e composição, esse material começou comigo – embora eu não creia que isso seja de muito interesse a alguém além de mim mesmo. Quero dizer, não me recordo de uma época na qual eu não o estivesse construindo. Muitas crianças inventam, ou começam a inventar, idiomas imaginários. Tenho feito isso desde que aprendi a escrever.

(...)

Porém, tive uma paixão igualmente básica
ab initio pelos mitos (não alegorias!) e pelos contos de fadas e, acima de tudo, pelas lendas heróicas no limiar dos contos de fadas e da história, de que há tão pouco no mundo (acessível a mim) para meu apetite. Eu era um estudante universitário antes que a reflexão e a experiência revelassem-me que esses não eram interesses divergentes – pólos opostos de ciência e romance -, mas integralmente relacionados.”


131 Para Milton Waldman, 1951
Dez anos atrás, eu estava completando quinze anos, e meu pai veio conversar comigo sobre que presente de aniversário eu queria. Ele andara conversando com a mãe e queria me dar um anel. A única questão é que eu estava interessada em outro tipo de anel; estava previsto para o final daquele ano o lançamento de A Sociedade do Anel, e depois de engolir todas as informações possíveis sobre o filme e sobre o livro em que ele era inspirado, tudo o que eu mais queria da vida era pôr minhas mãos na trilogia de Tolkien, “o livro mais lido depois da Bíblia” – ou, pelo menos, essa era a informação na época (mas acho que essa era uma pesquisa feita especificamente na Inglaterra e não em todo mundo).

Não foi sem certa relutância que meu pai aquiesceu em trocar o anel pelos Anéis... Ele não conseguia aceitar de todo que eu quisesse um livro de presente – na verdade, todo ano, aniversário e natal, tanto ele quanto a mãe ficavam um tanto desconcertados quando eu saía enumerando a lista de livros que gostaria de ganhar. Dona Mãe sempre achou que roupas eram o melhor tipo de presente a se dar para qualquer um (comecei a apreciar esse ponto de vista um pouco mais velha) e senhor Dom Papai nunca aprendeu a comprar presentes para ninguém, preferindo que alguém lhe diga o que deve dar, sem nunca acreditar completamente que aquela é a opção certa.

Seja como for, no dia do meu aniversário, naquele distante setembro de 2001, recebi o pacote tão esperado e quase na mesma hora comecei a ler (sorte que ele me foi entregue logo pela manhã e não de noite, quando havia outros presentes a admirar e agradecer).

Foi um divisor de águas. De lá pra cá, nunca mais consegui abandonar a Fantasia, que se tornou meu gênero favorito (depois de uma longa fase de romances policiais cada vez mais sanguinolentos) – e não apenas li e reli O Senhor dos Anéis nada menos que cinco vezes, como também tudo o mais que podia deitar mãos relacionado à Terra-Média.

Lembro-me principalmente da primeira leitura, especialmente porque ela foi pontuada de notícias sobre o atentado às Torres Gêmeas e correrias com os preparativos para o Festival de Setembro do colégio, onde eu me apresentaria com o coral. Até hoje relaciono Tom Bombadil com a Branca de Neve porque calhei de ler as partes dele ouvindo um CD que ganhara no aniversário, com várias canções de filmes da Disney.

É, pois é... sem comentários...

Depois disso eu... reli após assistir o primeiro filme... aí reli após assistir o segundo filme... aí reli após assistir o terceiro filme... e reli mais uma vez depois porque estava a fim. Todas essas releituras foram seguidas de surtos psicóticos em que eu começava a viver na Terra-Média e me desligava completamente da realidade por uns dias, só desejando ser deixada em paz e silêncio para digerir tudo o que devorara até então.

Não é difícil de apontar os motivos que tornam os escritos de Tolkien tão fascinante. Muito mais que um conto, ele foi capaz de tecer um mundo completo, com sua mitologia, sua história, sua geografia, sua língua, seus costumes. Criou, enfim, culturas inteiras capazes de ocupar antropólogos pelo resto da vida com tantos detalhes sutis.

No final do ano passado e no começo desse ano, tive oportunidade ainda de ler dois livros que, mais que o escritor, serviram para lançar luz sobre o homem, que emerge das correspondências de As Cartas de J. R. R. Tolkien e Cartas do Pai Natal como alguém realmente admirável como esposo, pai, amigo e mestre.

A pessoa que vemos nessas cartas é um verdadeiro cavalheiro, um humanista de interesses amplos, de profunda fé; bem-humorado, paciente. Por vezes, um tanto rabugento, especialmente em suas opiniões políticas.
“Embora eu deva admitir que dei um tipo de sorriso doentio e ‘quase rolei no chão e já não me interessavam as boas maneiras’ quando ouvi sobre aquele velho assassino sedento de sangue do Josef Stalin convidar todas as nações a se juntarem a uma família feliz de pessoas dedicadas à abolição da tirania e da intolerância!” – 53 Para Christopher Tolkien, 1943

“Pois estamos tentando conquistar Sauron com o Anel. E seremos bem-sucedidos (ao que parece). Contudo, a punição, como você sabe, é criar novos Saurons e lentamente transformar Homens e Elfos em Orcs. Não que na vida real as coisas sejam tão claras como em uma história, e começamos com muitos Orcs no nosso lado. .... Bem, aí está você: um hobbit entre os Urukhai. Mantenha sua hobbitez no coração e pense que todas as histórias assim se parecem quando você está nelas. Você está dentro de uma história muito grande!”
– 66 Para Christopher Tolkien, 1944
Ele era também um grande procrastinador. A determinada altura das cartas, eu estava rindo toda vez que ele começava uma carta para seus editores, desculpando-se imensamente por não ter respondido antes e que seu tempo andava curto porque ele tinha de corrigir provas, fulano e sicrano estavam doentes, ele estava se mudando, a pia entupira, o pneu da bicicleta estourara e não, ele não tinha ainda material para mandar para eles, mas tinha fé que até o final da semana, do mês, do ano, ele conseguiria terminar a continuação de O Hobbit, mas enquanto isso eles não gostariam de dar uma olhada em uma outra obra sua, o Silmarillion?

É interessante acompanhar a forma como ele ia desenvolvendo aquela que ficou conhecida como sua obra-prima, como seus manuscritos iniciais foram sendo deixados de lado à medida que a história crescia e saía de seu controle.

Seus principais leitores e críticos eram o amigo Lewis – autor das Crônicas de Nárnia e o filho, Christopher Tolkien, que continuou recebendo capítulos de O Senhor dos Anéis mesmo durante a guerra, quando estava acampado na África. Agora imagine o que é receber capítulos do último livro de SdA como se fosse um folhetim, no meio de exercícios de guerra, misturados com informações sobre o que o pai está fazendo em casa (construindo um galinheiro, arrumando o jardim, desentupindo a pia...):
“Ontem de manhã consegui escrever por uma hora ou duas, e levei Frodo quase aos portões de Mordor. À tarde, cortar a grama.”

“Bem, meu querido, aqui começa novamente uma carta apropriada... Escrevi um tanto ontem, mas fui atrapalhado por duas coisas: a necessidade de limpar o gabinete (que se tornou o caos que sempre indica uma preocupação filológica ou literária) e de comparecer no trabalho; e problemas com a lua. Com isso quero dizer que descobri que minhas luas nos dias cruciais entre a fuga de Frodo e a situação atual (chegada em Minas Morghul) estavam fazendo coisas impossíveis, nascendo em uma parte do país e pondo-se simultaneamente em outra. Reescrever pedaços de capítulos anteriores levou a tarde toda!”

“Escrevi, rasguei e reescrevi a maior parte do capítulo muitas vezes, mas fui recompensado esta manhã, uma vez que tanto C.S.L como C.W. o consideraram um espetáculo admirável e os últimos capítulos os melhores até agora. Gollum continua a se desenvolver em um personagem muito intrigante.”

“Eis aqui uma pequena remessa do “Anel”: os dois últimos capítulos que estive escrevendo e o final do Quarto Livro deste grande Romance, no qual você verá que, porquanto é muito fácil, coloquei o herói em tal apuro que nem mesmo um autor será capaz de livrá-lo sem trabalho e dificuldade. Lewis quase foi levado às lágrimas pelo último capítulo. Mesmo assim, desejo mormente saber o que você acha, já que por muito tempo tenho escrito principalmente com você em mente. Vejo pela minha Agenda que lhe enviei 3 capítulos em 14 de outubro e outros 2 em 25 de outubro. Esses devem ter sido: Ervas e coelho cozido; Faramir; O lago proibido; Jornada até a Encruzilhada; e as Escadarias de Kirith Ungol. O primeiro lote já deve ter chegado até você nesse meio tempo, espero que por volta do seu aniversário; o segundo deve chegar em breve; e espero que este lote chegue até você no início do Ano Novo. Aguardo ansiosamente seu veredicto. É muito exasperante ter seu principal público a Dez Mil Milhas de distância, a bordo ou não do The Walloping Wíndow-blind. Ainda mais exasperante para o público, sem dúvida, mas os autores, na qualidade de autores, são uma tribo incorrigivelmente egotista. O Livro Cinco e Último começa com a cavalgada de Gandalf a Minas Tirith, com a qual O Palantir, último capítulo do Livro Três, terminou. Parte dele está escrita ou esboçada. Então a seguir deverá vir o levantamento do cerco de Minas Tirith pelo ataque dos Cavaleiros de Rohan, no qual o Rei Theoden tomba; o repelimento do inimigo, por Gandalf e Aragorn, para o Portão Negro; a parlamentação na qual Sauron apresenta vários objetos (tais como o colete de mithril) para provar que capturara Frodo, mas Gandalf recusa-se a negociar (ainda assim um terrível dilema, mesmo para um mago). Voltamos então para Frodo e seu resgate por Sam. De um local elevado eles vêem todas as vastas reservas de Sauron lançadas através do Portão Negro, e então se apressam até a Montanha da Perdição através de uma Mordor abandonada. Com a destruição do Anel, cuja exata maneira não é certa — todos esses últimos pedaços foram escritos há muito tempo atrás, mas já não são adequados nos detalhes, nem na elevação (pois a coisa toda se tornou muito maior e mais imponente) — Baraddur desmorona, e as forças de Gandalf varrem Mordor. Frodo e Sam, lutando com o último Nazgul em uma ilha de rocha cercada pelo fogo da Montanha da Perdição em erupção, são resgatados pela águia de Gandalf; e assim o esclarecimento de todos os pontos soltos, incluindo até mesmo o pônei de Bill Samambaia, deve acontecer. Muito desse trabalho será feito em um capítulo final onde Sam é encontrado lendo um livro enorme para seus filhos e respondendo todas as perguntas deles sobre o que acontecera com todo mundo.”
Esses fragmentos nos dão uma visão do perfeccionismo de Tolkien (ri muito de todo o rolo que ele fez com sua tabela lunar...) e também de como a história foi pouco a pouco se alterando, à medida que ele ia escrevendo, até se tornar aquilo que temos hoje – um conjunto de mitos e lendas (não alegorias, nunca alegorias!) que formariam o próprio primórdio do nosso mundo.

A idéia de Tolkien é que as histórias que ele estava escrevendo fossem histórias de um passado muito distante do Velho Continente – a Europa – tendo por base não alguma mensagem subliminar sobre a Segunda Guerra, com Mordor fazendo as vezes de Alemanha; nem mesmo ecoando suas próprias experiências na Primeira Guerra; mas crescendo o conjunto de mitos em torno de um interesse filológico.

Ele bate nessa tecla constantemente em muitas das cartas que responde a leitores de SdA que perguntam de onde ele tirou isso e aquilo e aquilo outro. Ainda que existissem alguns pontos de congruência entre seus personagens e sua própria vida, não era sua biografia que ele estava escrevendo nas quase duas décadas em que trabalhou n’O Senhor dos Anéis. A bem da verdade, ele nem tinha consciência de muitas partes da história até que as começasse a escrever:
“De qualquer forma, a maior parte das pessoas que apreciaram O Senhor dos Anéis foi afetada por ele primeiramente como uma história emocionante; e é desse modo que ela foi escrita. Embora, é claro, não se escape da pergunta “ela é sobre o quê?” por essa porta dos fundos. Seria como responder a uma pergunta estética ao falar de uma questão de técnica. Suponho que se alguém fizer uma boa escolha sobre o que é “boa narrativa” (ou “bom teatro”) em um determinado ponto, também será visto ser o caso de que o evento descrito será o mais “significante”.

(...)

Tudo isso apenas como pano de fundo para as histórias, embora os idiomas e os nomes sejam para mim inextricáveis das histórias. Eles são e foram, por assim dizer, uma tentativa de fornecer um pano de fundo ou um mundo no qual minhas expressões de gosto lingüístico pudessem ter uma função. As histórias foram comparativamente tardias no surgimento.

(...)

Tudo que me lembro sobre o início de O Hobbit é de sentar para corrigir provas para o Certificado Escolar no cansaço interminável daquela tarefa anual imposta sobre acadêmicos sem dinheiro e com filhos. Em uma folha em branco rabisquei: “Numa toca no chão vivia um hobbit.” Não sabia e não sei por quê. Não fiz nada a respeito por um longo tempo, e por alguns anos não fui além da produção do Mapa de Thror.

(...)

A idéia apareceu em um dos primeiros capítulos ainda em existência (Livro I, 2). Ela é realmente fornecida, e apresentada em formação, desde o início, embora eu não tivesse uma noção consciente do que representava o Necromante (a não ser o mal sempre recorrente) em O Hobbit, nem a sua ligação com o Anel. No entanto, se você quisesse continuar a partir do final de O Hobbit, acredito que o anel seria sua escolha inevitável como o elo. Se então você quisesse uma história grande, o Anel adquiriria na mesma hora uma letra maiúscula, e o Senhor do Escuro apareceria imediatamente. Como ele o fez, sem ser convidado, na lareira em Bolsão tão logo cheguei naquele ponto. Assim, a Busca essencial começou imediatamente. Porém, encontrei várias coisas no caminho que me surpreenderam. Tom Bombadil eu já conhecia; mas eu nunca havia estado em Bri. Passolargo sentado no canto da estalagem foi um choque, e eu não tinha mais idéia de quem ele era do que Frodo. As Minas de Moria tinham sido um simples nome; e sobre Lothlórien notícia alguma havia chegado aos meus ouvidos mortais até que eu lá chegasse. Longe dali eu sabia que havia os Senhores dos Cavalos nos confins de um antigo Reino dos Homens, mas a Floresta de Fangorn foi uma aventura inesperada. Jamais havia ouvido falar da Casa de Eorl nem dos Mordomos de Gondor. O mais inquietante de tudo, Saruman jamais havia se revelado a mim, e fiquei tão perplexo quanto Frodo com o fracasso de Gandalf em aparecer em 22 de setembro. Eu nada sabia sobre os Palantíri, apesar de que, no momento em que a pedra de Orthanc foi arremessada da janela, eu o reconheci e soube o significado da “rima da tradição” que havia estado perambulando na minha mente: sete estrelas, sete pedras e uma árvore branca. Essas rimas e nomes surgirão, mas nem sempre explicam a si mesmos. Ainda tenho de descobrir alguma coisa sobre os gatos da Rainha Berúthiel. Mas eu sabia mais ou menos tudo sobre Gollum e seu papel, e sobre Sam, e eu sabia que o caminho era guardado por uma Aranha. E se isso tiver algo a ver comigo sendo picado por uma tarântula quando eu era uma criança pequena9, as pessoas podem pensar o que quiserem (supondo o improvável, que alguém esteja interessado). Só posso dizer que não me lembro de nada sobre o fato e não saberia sobre ele se não tivessem me contado; e não tenho aversão a aranhas a ponto de entrar em pânico, e não tenho impulsos para matá-las. Geralmente resgato aquelas que encontro na banheira!”
– 163 Para W. H. Auden, 1955.
A única referência reconhecidamente autobiográfica que Tolkien faz – e é ao meu ver, uma das maiores declarações de amor que se poderia fazer – é na identificação de seu relacionamento com a esposa com o de Beren e Lúthien; tanto que quando Edith morreu, a inscrição que ele quis colocar em seu túmulo foi o nome da personagem.
“Nunca chamei Edith de Lúthien — mas ela foi a fonte da história que no devido tempo tornou-se a parte principal do Silmarillion. Foi primeiramente concebida em uma pequena clareira em um bosque repleta de cicutas em Roos em Yorkshire (onde por um breve período estive no comando de um posto avançado da Guarnição Humber em 1917, e pôde morar comigo por um tempo). Naqueles dias seu cabelo era preto, sua pele clara, seus olhos mais brilhantes do que você os viu, e ela sabia cantar — e dançar. Mas a história deu errado e fui deixado, e eu não posso implorar diante do inexorável Mandos.” – 340 Para Christopher Tolkien, 1972.
Além de tudo, o homem era fiel e romântico... Onde encontro um Tolkien para mim?

Bem, voltemos ao assunto principal... Por muitas eras teríamos passado antes de chegar ao mundo atual... e para compreender como isso aconteceu, vamos partir agora para as aulinhas de história...

(Continua em Os Primogênitos - A Primeira Era...)


A Coruja


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2 comentários:

  1. Vida Eterna a Mestre Tolkien! Amém!

    E muito me orgulha saber que pelo menos uma coisa em comum eu tenho com ele (ainda que não seja a mais indicada): a procrastinação! XD

    Corte nossas cabeças, Majestade! XD

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  2. Adorei seu texto. pelo twiter, você disse que estava preparando algo sobre Tolkien? É relacionado a esse post? Também sou fã dele, louca por ele, na verdade. Meu tcc foi sobre os leitores dele.

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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