19 de setembro de 2011

J. R. R. Tolkien – Parte III: Os Seguidores (A Segunda Era)

Então, os edain partiram a navegar nas águas profundas, seguindo a Estrela. E os Valar deixaram o mar em calma por muitos dias, mandaram Sol e um vento propício, de modo que as águas cintilavam diante dos olhos dos edain como um vidro ondulante, e a espuma voava como neve diante da proa de suas embarcações. Contudo, tão intenso era o brilho de Rothinzil, que mesmo pela manhã os homens conseguiam vê-la refulgindo no oeste; e, na noite sem nuvens, ela brilhava sozinha, pois nenhuma outra estrela conseguia se equiparar a ela. E, tendo fixado o rumo em sua direção, os edain finalmente transpuseram as léguas do mar e avistaram ao longe a terra que estava preparada para eles, Andor, a Terra da Dádiva, a cintilar numa névoa dourada. Aproximaram-se, então, saindo do mar para encontrar uma terra bela e produtiva, e se alegraram. E chamaram essa terra de Elenna, que significa Na Direção da Estrela; mas também Anadûnê, que significa Ponente, Númenorë no idioma alto-eldarin.

Foi esse o princípio daquele povo que na fala dos elfos-cinzentos é chamado de dúnedain: os númenorianos, reis entre os homens. Entretanto, eles não escaparam desse modo do destino da morte que Ilúvatar havia estabelecido para toda a humanidade, e ainda eram mortais, embora atingissem idade avançada e não conhecessem nenhuma enfermidade até o momento em que a sombra caísse sobre eles. Por conseguinte tornaram-se sábios e ilustres; e sob todos os aspectos eram mais semelhantes aos Primogênitos do que qualquer outra linhagem dos homens. E eram altos, mais altos do que os mais altos dos filhos da Terra-média. E a luz de seus olhos era como a das estrelas brilhantes. Contudo, era muito devagar que seu número aumentava na Terra, pois, embora lhes nascessem filhos e filhas, mais belos do que os pais, mesmo assim era pequena sua prole.


J. R. R. Tolkien - O Silmarillion

Com a derrota de Morgoth, os Valar perdoaram os elfos que tinham partido com Fëanor para a Terra-média, permitindo que eles retornassem para o Oeste – não para Valinor, contudo, mas para uma ilha de onde podiam enxergá-la: Eressëa, a Ilha Solitária.

Aos homens que lutaram ao lado dos elfos nas guerras contra Morgoth, foi dado o privilégio de viver em outra ilha, às vistas de Eressëa: Númenor, também chamada de Andor, a Terra da Dádiva. A estes homens “foram concedidos sabedoria, poder e vida mais longa do que a de quaisquer outros de raça mortal”.

Seu primeiro rei foi Elros, filho de Eärendil, irmão de Elrond, que escolhera unir seu destino ao dos humanos. Era um povo nobre, cujas capacidades e virtudes não estavam aquém dos ‘primogênitos’.

Uma única proibição lhes pesava: jamais deveriam navegar rumo ao Oeste – sendo mortais, não lhes era permitido chegar a Valinor. Todo o resto do mundo, contudo, lhes era franqueado e, dessa forma, os numenorianos se tornaram um povo essencialmente de marinheiros, retornando diversas vezes à própria Terra-média para compartilhar com os homens que tinham ficado para trás o conhecimento que acumulavam.

Claro que nem tudo são flores. Bem verdade que Morgoth se foi, mas as sementes que ele lançou encontraram terreno bem fértil.

Antes de roubar as Silmarils, quando ainda era chamado de Melkor, Morgoth esteve preso em Valinor – até receber uma segunda chance e começar a andar livre por entre os antigos companheiros. Nesta época, ele seduziu alguns dos Maiar para sua causa – e, entre eles, Sauron, que se tornou seu mais fiel servo e general.
Entre seus servos que possuem nomes, o maior era aquele espírito que os eldar chamavam de Sauron, ou Gorthaur, o Cruel. No início, ele pertencia aos Maiar de Aulë e continuou poderoso na tradição daquele povo. Em todos os atos de Melkor, o Morgoth, em Arda, em seus imensos trabalhos e nas trapaças originadas por sua astúcia, Sauron teve participação; e era menos maligno do que seu senhor somente porque por muito tempo serviu a outro, e não a si mesmo.

No entanto, nos anos posteriores, ele se elevou como uma sombra de Morgoth e como um espectro de seu rancor, e o acompanhou no mesmo caminho desastroso de descida ao Vazio.
Logo após a derrota do senhor de Angband, os Valar estenderam a Sauron a possibilidade de redenção – e, realmente, a princípio, acredita-se que ele estivesse arrependido. A questão é que lhe foi imposta a condição de retornar a Valinor e se submeter a julgamento – o que ele considerava uma grande humilhação.
Quando as Thangorodrim foram destruídas, e Morgoth, derrubado, Sauron voltou a assumir sua bela aparência, prestou votos de obediência a Eönwë, o arauto de Manwë, e repudiou todos os seus atas maléficos. E sustentam alguns que de início não agiu assim com falsidade, mas que estava de fato arrependido, no mínimo por medo, já que ficara transtornado com a queda de Morgoth e a cólera imensa dos Senhores do Oeste. Mas não era da competência de Eönwë perdoar os que fossem seus iguais, e ele ordenou a Sauron que voltasse a Aman para lá receber o julgamento de Manwë. Sauron então se envergonhou; e não se dispôs a retomar humilhado e receber dos Valar uma sentença, talvez, de longa servidão, para provar sua boa-fé. Pois, sob o comando de Morgoth, seu poder era imenso. Portanto, quando Eönwë partiu, ele se escondeu na Terra-média; e voltou a cair no mal, pois os laços que Morgoth lançara sobre ele eram muitos fortes.
Destarte, ele fugiu do emissário dos Valar, determinado a permanecer na Terra-média... e não demorou muito para que ele voltasse a cair nos antigos caminhos – Sauron encheu-se mais uma vez de orgulho, desejando não apenas o domínio de todas as coisas, mas ser também temido e adorado como um deus.

Para tanto, ele continuou o que Morgoth começara, corrompendo os corações dos homens – muito mais fáceis de serem influenciados que os elfos. Ainda assim, “por muito tempo procurou convencer os elfos a lhe prestarem serviço, pois sabia que os Primogênitos tinham maior poder. E andava livremente em meio a eles, e sua aparência ainda era de alguém belo e sábio”.

Entre alguns deles, Sauron conseguiu se fazer ouvido, uma vez que protestava o mesmo objetivo dos elfos: preservar, embelezar a Terra-média – ou, talvez fosse melhor dizer, embalsamar a memória das maravilhas do Oeste de forma que ele pudesse ser revivido do outro lado do oceano.

Essa sempre foi descrita como a principal fraqueza dos primogênitos. Diz Tolkien em uma carta para Milton Waldman, editor da Collins:
Queriam a paz, a bem-aventurança e a lembrança perfeita do “Oeste” e ainda assim permanecer na terra comum, onde seu prestígio como o povo mais elevado, acima dos Elfos selvagens, dos anões e dos Homens, era maior do que na base da hierarquia de Valinor. Tornam-se assim obcecados com o “desvanecer”, o modo pelo qual as mudanças do tempo (a lei do mundo sob o sol) eram percebidas por eles. Tornam-se tristes e sua arte (digamos) antiquada, e seus esforços na verdade são todos uma espécie de embalsamamento — embora eles também tenham mantido o antigo motivo de sua espécie, a ornamentação da terra e a cura de suas feridas.
Foi a esse instinto que Sauron apelou e foi por esse motivo que os mestres artesãos dos elfos o acolheram em suas forjas e começaram a fazer os Anéis do Poder.

Sem que eles soubessem, contudo, nas profundezas da Montanha de Fogo, na Terra da Sombra, Sauron trabalhava no Um.

Um Anel para a todos governar, e na escuridão aprisioná-los...

Contudo, no momento em que Sauron usou o Anel pela primeira vez, os elfos perceberam o que ele tinha feito e, mais que depressa, tentaram neutralizar os efeitos funestos de sua ‘ingenuidade’. No final, Sauron conseguiu quase todos os anéis para si, os quais distribuiu entre homens e anões. Mas, sobre três - os mais poderosos, aqueles que tinham sido feitos sem sua interferência direta – sua perfídia não lançou sombra e eles foram escondidos, sem serem usados, para que ele não os pudesse controlar.

Ainda assim, era já tarde demais para impedir o que se seguiu. Sauron colocou sua própria essência no Anel, de tal forma que sua existência ficou presa a ele – mas, enquanto o usasse, sua força era potencializada e ele se declarou Rei dos Reis e Senhor do Mundo, conquistando a ferro e fogo a Terra-média.

A essa época, Númenor muito crescera – não apenas em riqueza e conhecimento, mas também em orgulho (e é sempre o orgulho que ocasiona as Grandes Quedas no mundo de Arda). Ao ouvir falar da empáfia de Sauron, Ar-Pharazôn, rei de Númenor, lançou-se ao mar com uma força poderosa o suficiente para fazer fugir os servos de Sauron antes mesmo de darem combate. Assim, Sauron foi aprisionado e levado como refém para Númenor.

Ou talvez fosse melhor dizer que ele ganhou um cruzeiro para o Oeste com tudo pago e incluído, porque não demorou muito para que ele se tornasse conselheiro do rei e detentor das mais altas honrarias.

É bem verdade que, naqueles tempos, os homens do Oeste – Dúnedain – eram poderosos, grandes como nenhum reino de homens foi depois deles. Mas Sauron tinha o Anel. Que ele tenha ido para Númenor não se deveu a covardia ou submissão, mas pura e simplesmente malícia.

Mais que simplesmente derrotar os Dúnedain, Sauron queria dominá-los, aproveitar-se de seu poderio para se fortalecer.

Claro que nem toda a culpa dessa queda recai aos pés de Sauron. Antes mesmo dele ser ‘capturado’, Númenor se dividira em facções – aqueles fiéis aos Valar e aos elfos e os que se ressentiam de ambos em virtude de sua mortalidade. Estes últimos eram maoria, incluindo os governantes e suas hostes, que de benévolos visitantes das costas da Terra-média, não demoraram a se transformar em tiranos, exigindo pesados tributos e aplicando sanções quando suas exigências não eram atendidas.

Não acho que seria necessário Sauron ter se deslocado para Númenor para que os Dúnedain se arruinassem. Eles estavam fazendo um ótimo trabalho sozinhos, muito antes que o novo Senhor do Escuro chegasse. Era realmente uma questão de tempo para que eles decidissem ignorar completamente a proibição dos Valar e rumassem para Valinor.

Quando uma história começa com uma proibição, é uma certeza absoluta que ela será desobedecida antes de chegar à metade do conto... Independente do horror que sabemos estar atrás da porta, nunca conseguiremos resistir a entrar no quarto do Barba-Azul.

Mas foi Sauron quem terminou de corromper os corações dos homens, colocando-os para adorar estátuas de Melkor/Morgoth e a elas oferecendo sacrifícios humanos, enquanto os ensinava todo tipo de magia negra de que era capaz.

Eis porque ele é chamado de ‘O Necromante’ em O Hobbit.

O caso é que Sauron teve sua missão facilitada pelos homens de Númenor e foi assim que Ar-Pharazôn navegou para o Oeste a fim de reclamar imortalidade, ainda que para isso tivesse de fazer frente aos próprios Valar. Estes, por sua vez, eram proibidos de tomar qualquer ação direta contra os homens, de forma que Manwë, seu líder, apelou ao próprio Eru.

O mundo tremeu em resposta: Ar-Pharazôn e seu exércitos foram tragados pelo mar antes mesmo de pisarem em terra, Númenor foi devastada e o próprio Sauron quase foi tragado pelas águas junto à Ilha. As terras do Oeste foram retiradas do mundo, que deixou de ser plano para tornar-se um globo – não importava quanto se navegasse, os homens sempre voltariam para o lugar onde tinham começado.

Valinor estava para sempre perdida para eles.

Então, Manwë sobre a Montanha invocou Ilúvatar; e naquela época os Valar renunciaram a sua autoridade sobre Arda. Ilúvatar, porém, acionou seu poder e mudou a aparência do mundo.

Abriu-se então no mar um imenso precipício entre Númenor e as Terras Imortais; e as águas jorraram para dentro dele. E o estrondo e a espuma das cataratas subiram aos céus; e o mundo foi abalado. E toda a esquadra dos númenorianos foi arrastada para esse abismo, afundando e sendo engolida para sempre. Já Ar-Pharazôn, o Rei, e os guerreiros mortais que haviam posto os pés na terra de Aman foram soterrados por colinas que desmoronaram. Conta-se que ali eles jazem, presos, nas Grutas dos Esquecidos, até a Última Batalha e o Juízo Final.

Mas a terra de Aman e Eressëa dos eldar foram levadas, retiradas para sempre para fora do alcance dos homens. E Andor, a Terra da Dádiva, Númenor dos Reis, Elenna da Estrela de Eärendil, foi totalmente destruída. Pois estava perto do lado oriental da enorme fenda; e seus alicerces foram revirados, fazendo-a tombar e cair na escuridão; e ela não existe mais. E agora não resta sobre a Terra lugar algum em que esteja preservada a lembrança de um tempo sem maldade. Pois Ilúvatar fez recuarem os Grandes Mares a oeste da Terra-média e também as Terras Vazias a leste; e novas terras e novos mares foram criados. E o mundo foi reduzido, já que Valinor e Eressëa foram transferidas para o reino das coisas ocultas.

Essa tragédia ocorreu numa hora inesperada pelos homens, no trigésimo nono dia da passagem da esquadra. De repente, Meneltarma explodiu em chamas; vieram um vento fortíssimo e um tumulto na Terra; os céus tremeram e as colinas deslizaram; e Númenor afundou no oceano com todas as suas crianças, esposas, donzelas e damas altivas, com todos os seus jardins, salões e torres; seus túmulos e tesouros; suas jóias, seus tecidos, seus objetos pintados e esculpidos, seu riso, sua alegria e sua música; seus conhecimentos e sua tradição: tudo desapareceu para sempre. E em último lugar, a onda que se avolumava, verde, fria e com uma crista de espuma, subindo pela terra, levou para seu seio Tar-Miriel, a Rainha, mais bela do que prata, marfim ou pérolas. Era tarde demais quando ela se esforçou por subir pelas trilhas íngremes da Meneltarma até o local sagrado; pois as águas a alcançaram, e seu grito se perdeu no bramido do vento.
Alguns poucos dúnedain, aqueles que tinham permanecido fiéis e se negado a adorar Melkor ou participar dos desígnios do rei, sobreviveram, uma vez que já estavam preparados para deixar Númenor quando o cataclismo se abateu sobre eles. Carregados para as costas da Terra-média, estabeleceram os reinos de Arnor e Gondor, sob o governo de Elendil e seus filhos, Isildur e Anárion.

Terminava assim, dramaticamente, a Segunda Era do mundo e preparava-se o terreno para os grandes acontecimentos que se seguiriam quando da Guerra do Anel.

(Continua em A Guerra do Anel - A Terceira Era...)


A Coruja


____________________________________

 

Um comentário:

  1. Engraçado que eu gosto muito desa história mas nãoli os livros, apesar de ter visto os filmes. Agora estou numa de comprar para ler aquilo que estou me devendo. Com o Tolkien eu estou começando com O Hobbit, que ele escreveu antes de Senhor dos Anéis.

    bjs

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog