8 de agosto de 2018

Desafio Corujesco 2018 - Uma História em Tempos de Guerra || Minha Vida Fora dos Trilhos e Em Algum Lugar nas Estrelas


Nunca tinha visto ou ouvido falar de Clare Vanderpool até ela ser traduzida aqui no Brasil - e meu interesse em ler seus livros foi, de início, puramente estético: praticamente babei na capa de Em Algum Lugar nas Estrelas, fiquei quase maluca atrás dele assim que saiu a pré-venda. A Darkside tem uma tendência a criar projetos gráficos de encher os olhos para seus títulos e eles definitivamente se esmeraram nesses dois volumes da autora. Claro que aparência só não basta… Felizmente, Vanderpool não deixa nada a desejar no quesito conteúdo.

Comecemos com Minha Vida fora dos Trilhos, que foi o primeiro livro publicado pela autora, em 2010, e o primeiro que li. Abilene Tucker, a protagonista, tem doze anos, e foi enviada pelo pai - um trabalhador da ferrovia - para a cidadezinha de Manifest, no interior do Kansas, para passar o verão com um pastor que ele conheceu no passado. Estamos em 1936, em plena Grande Depressão e Manifest claramente vive os reflexos dessa crise.

Abilene é uma menina esperta, extremamente ligada ao pai, que sua única família, e que se ressente dessa separação. Pouco a pouco, contudo, ela vai se encontrando em Manifest: primeiro, ao descobrir uma caixa repleta de cartas e itens algo prosaicos; na amizade com duas outras meninas da cidade, Lettie e Ruthanne; e, por fim, nas histórias que vão lhe sendo narradas pela vidente da cidade, a senhorita Sadie, sobre o passado de Manifest e os dois correspondentes da carta que ela encontrou: Ned Gillen e Jinx.

Os capítulos se alternam na história de Abilene, em 1936 e nos episódios narrados por Sadie, passados em 1918, intercalados com as cartas de Ned e fragmentos de colunas de jornal. Pouco a pouco, Vanderpool vai costurando um enredo que parece bastante óbvio - afinal, somos levados pela narração de Abilene e, como ela, queremos enxergar a ligação do pai com os fatos de 1918 -, mas que acaba nos surpreendendo por completo.

Enquanto Ned vive a realidade das trincheiras na Europa - estamos perto do final da Primeira Guerra Mundial -, Jinx, Shady e os membros da comunidade de Manifest vivem a realidade da pobreza e da opressão, representadas pelo dono da mina de carvão; e da intolerância e do preconceito, numa cidade composta majoritariamente de imigrantes. Como se não bastasse, ainda há o espectro da gripe espanhola no horizonte.

Abilene, ao investigar os objetos da caixa escondida naquela época, faz a cidade relembrar de sua História; não apenas das dificuldades, mas também da solidariedade, do companheirismo, da coragem e da amizade.

Minha Vida Fora dos Trilhos não é o que se poderia chamar de uma narrativa feliz. Mas é uma daquelas histórias necessárias: verdadeira, emocionante, envolvente; que nos faz pensar nas nossas perdas, e sobre a importância do passado, de fincar raízes e forjar laços; mas não deixa de ter esperança para o futuro. Não à toa, Vanderpool ganhou com esse livro a medalha Newbery, prêmio literário norte-americano concedido anualmente pela Associação de Serviços Bibliotecários para Crianças da American Library Association (ALA) para o autor da “mais distinguível contribuição à literatura americana para crianças”.

Tendo terminado Minha Vida Fora dos Trilhos, parti para o livro seguinte, aquele que me deixou apaixonada pela capa.

Publicado originalmente em 2013, Em Algum Lugar nas Estrelas é narrado em primeira pessoa por John Backer, mais conhecido pelo apelido de Jack, que acaba de ficar órfão de mãe e de reencontrar o pai, um capitão da Marinha, que passou anos longe, lutando na Segunda Guerra Mundial. Jogado numa realidade completamente diferente da que estava acostumado, sentindo-se isolado e sem saber como lidar com o luto e a raiva, Jack acaba se aproximando de um outro garoto, Early Auden.

Early é excêntrico, enigmático e genial; como Jack, ele também experimentou o luto, tendo perdido o irmão na Guerra. Ou, pelo menos, isso é o que os outros dizem. Early está convencido de que o irmão está vivo, e que, se for capaz de seguir a jornada de Pi - o número matemático e também o personagem de um conto de família, estrelas, naufrágios e ursos -, conseguirá encontrá-lo. É assim que, quando a escola se esvazia durante as festas de fim de ano e Jack e Early ficam sozinhos, os dois partem numa aventura em busca de um grande Urso Apalache.

À época da história, Early dificilmente seria diagnosticado como tal, mas é claro para o leitor que ele sofre de autismo - algo que já é dito de cara na sinopse da história.

Se, a princípio, as coisas parecem se costurar de forma perfeita demais, com inúmeras coincidências convenientes; ao final, Vanderpool nos surpreende com a explicação dos fatos, das pistas que levaram àquela jornada, o perfeito encaixe de todas as peças do quebra-cabeça. No conjunto, Em Algum Lugar das Estrelas funciona muito bem em todos os níveis da narrativa: como uma aventura e um romance de amadurecimento; como um suspense na investigação do que aconteceu ao irmão de Early (e outros mistérios que vão surgindo ao longo da viagem) e como um drama familiar.

De certa maneira, Early me fez pensar muito no Sherlock da série BBC, tanto pela forma como ele se relaciona com as pessoas e sua aproximação de Jack, como pela maneira que ele enxerga o mundo, filtrando-o através de regras, música e ruídos brancos, equações matemáticas, e sua própria narrativa da personificação de Pi. Por tabela, não pude deixar de pensar em Jack no papel de John Watson, que, embora não esteja voltando de uma guerra, foi afetado por ela - pelo afastamento do pai - e convive com a dor e o luto pela mãe; trauma, culpa e raiva que se misturam e fazem com que ele haja de forma bastante impulsiva, algumas vezes até cruel. O paralelo, contudo, acaba por aí; Em Algum Lugar das Estrelas não é, afinal, um romance policial (embora existam alguns crimes a serem desvendados), mas uma história sobre amizade; sobre encontrar direção; sobre lidar com a perda e reconstruir relacionamentos, pontes, famílias.

Sinto que esse é o tipo de livro que se pode ler várias vezes, em diferentes momentos da vida; e a cada nova leitura, ele vai ser capaz de dizer algo diferente, de encantar e emocionar. Não é sempre uma leitura fácil, há passagens bastante sombrias, mas exatamente por não ser um conto de perfeitos finais felizes, ressoa de forma tão autêntica. É, enfim, uma jornada que nós, leitores, fazemos juntos com Early e Jack, destrancando nossos tesouros, aprendendo nossas verdades, e enfrentando nossas próprias perdas.

Minha Vida Fora dos Trilhos e Em Algum Lugar das Estrelas não são histórias que se passam diretamente no front, mas apresentam as consequências desses conflitos. Na história de Abilene, mergulhamos no passado de Manifest e no que a Primeira Guerra Mundial representou para a cidade; na viagem de Early e Jack temos o reflexo dos traumas trazidos pela Segunda Guerra. São histórias mais estreitas, pessoais, íntimas; mas que são alcançadas pelos acontecimentos da época. Na grande escala de tragédias globais, essas são histórias que nos lembram dos motivos pelos quais o mundo foi à guerra na ocasião, especialmente no conflito de 39-45, quando mais que questões políticas, lutava-se realmente por ideologias.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Fichas Bibliográficas

Título: Minha Vida Fora dos Trilhos
Autor: Clare Vanderpool
Tradução: Débora Isidoro
Editora: Darkside
Ano: 2017

Título: Em Algum Lugar das Estrelas
Autor: Clare Vanderpool
Tradução: Débora Isodoro
Editora: Darkside
Ano: 2016

Onde Comprar

Minha Vida Fora dos Trilhos
Em Algum Lugar das Estrelas


A Coruja


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3 comentários:

  1. Fico sempre muito feliz quando vejo alguém falando de Minha Vida Fora dos Trilhos. É um livro tão delicado, tão verdadeiro... <3 :) Obrigada por ser sempre tão cuidadosa nos seus textos. E oh, adorei te conhecer pessoalmente!

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    1. Concordo, ambos os livros são de uma delicadeza impressionante, fiquei apaixonada por eles, e pelo trabalho que a editora teve no projeto gráfico. Dei uma olhada nas capas de outros países e não tenho dúvidas que as brasileiras são as mais bonitas. E também adorei poder te conhecer! Que venham mais oportunidades!

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  2. Bom... eu li um livro sobre uma guerra... que inclusive ainda não terminou!
    https://leiturasdelaura.blogspot.com/2018/09/robert-fisk-on-afghanistan-osama-bin.html

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