23 de julho de 2019

Os Quatro Amores


A afeição, como já disse, é o amor mais humilde, pois não procura impressionar. [...] Vive com coisas humildes e despojadas: pantufas e roupas velhas, piadas antigas, o batuque do rabo do cachorro dormindo no chão da cozinha, o som de uma máquina de costura, uma boneca esquecida no gramado. [...] Quando seu amigo se torna um velho amigo, todas as coisas sobre ele, que originalmente nada tinham a ver com a amizade, tornam-se familiares, e uma familiaridade querida.

Comecei a me interessar por esse livro após ler biografias de Tolkien e Lewis e ver várias referências a Os Quatro Amores - especialmente ao capítulo sobre amizade. Deixei-o na lista de desejados por um tempo, até que aproveitei uma promoção no começo do ano para comprar a bela edição em capa dura da Thomas Nelson (por sinal, eles estão relançando toda a obra de apologética do Lewis nesse projeto gráfico). O livro estava a caminho lá de casa quando viajei para Minas, para participar do VII Encontro Nacional da JASBRA e, numa das palestras, lá estava ele de novo, dessa vez com referências a Austen. Foram tantas aparições do bendito num curto espaço de tempo que foi só tirá-lo da caixa para começar a ler - e ler ‘em dupla’, num combinado com uma amiga, cada capítulo dando vez ao debate.

De logo, começando observando que a leitura em conjunto foi a melhor ideia para realmente apreciar o livro e apreender o que Lewis queria falar nesses ensaios. Com um ritmo mais lento (é um volume fininho e, curiosa como estava, eu o teria devorado de uma sentada se não estivesse esperando pela Dynha), tive tempo de refletir e fazer conexões sobre o que estava lendo; na conversa, cada uma puxava a atenção para um determinado ponto de interesse, e essa troca de pontos de vista e experiências enriqueceu demais a leitura.

Os quatro amores que nos dão o título são ágape (afeição), amizade, eros e caridade. Lewis discute bastante também sobre amor-necessidade e amor dádiva (que têm um capítulo explicativo à parte). O interessante é que dentro da proposta de ensaísta cristão, só o último desses capítulos (caridade) puxa mais a questão religiosa e metafísica. Os outros têm algo de debate filosófico, mesclado a um ponto de vista muito prático e exemplificativo - exemplos que vão tanto de personagens literários (a Emma de Austen) a pessoas reais (Tolkien é uma presença óbvia, mas não o único).

Hilariantemente, o livro tem bem menos Tolkien do que eu imaginava, tendo em vista todas as referências que eu já tinha lido... Mas nem de longe isso foi uma decepção: há muito mais que se ganhar com ele do que alguns comentários biográficos curiosos.

Aqueles que não concebem a Amizade como amor substantivo, mas apenas como um disfarce ou elaboração do Eros, deixam transparecer que nunca tiveram um Amigo. [...] Amantes estão sempre dizendo um ao outro algo sobre seu amor; Amigos quase nunca falam acerda de sua Amizade.

Verdade é que, ao longo de todo o livro, Lewis desafiou minhas expectativas. Pela posição social dele, pela época em que ele viveu, pelas próprias crenças religiosas, fiquei o tempo todo esperando um conservador. E ele se revelou algo bem longe disso. Talvez aqui seja bom lembrar um pouco de sua biografia: era de família protestante irlandesa no auge do conflito religioso no país, no embate que faria a Irlanda do Norte se tornar independente. A mãe morreu muito cedo e o pai o despachou para o colégio interno, o que gerou uma rusga entre eles que nunca foi sanada. Passaram anos sem se falarem - e, nesse meio tempo, Lewis decidiu-se pelo ateísmo. Converteu-se ao cristianismo já adulto, levado pelas preleções do Tolkien e do Charles Williams; em outras palavras, nunca chegou a ter a educação dos dogmas, ou de entrar na igreja por que a família o levava até a religião se tornar questão de comodidade (e resposta para o censo do que seja o equivalente britânico do IBGE...).

A conversão de Lewis foi uma escolha pessoal, madura, baseada não numa experiência mística, mas num convencimento, em argumentos de racionalidade. Por isso tudo, o que o autor apresenta aqui é não apenas bem ‘pé no chão’ como aplicável ao nosso cotidiano. E não falo de aplicabilidade apenas por dizer respeito a relacionamentos - amorosos, em família ou em sociedade -: há uma quantidade de comentário político-social que vale à pena sublinhar (minha edição em particular está toda sublinhada e comentada…). Vez que Lewis foi oficial do exército britânico na Primeira Guerra, quando ainda se viviam as glórias do Império, e viveu também a Segunda - como voluntário das vigias de incêndio em Oxford, onde já era professor à época -, é algo surpreendente o que ele fala sobre patriotismo, a visão crítica que ele tem do passado (nem de longe tão glorioso quanto os saudosos insistem). Puxei uma miríade de questões que ele discute com o que temos vivido nos últimos tempos no Brasil, daqueles perniciosos bordões que se ouvem de esquerda ou direita para justificar as visões de amor à pátria que cada lado tem…

Assim, esse tipo de patriotismo que inicia com a grande pompa do rufo de tambores e o agito de bandeiras na verdade vai pelo caminho que conduz à traição.

Lewis consegue ser didático sem soar chato; complexo sem se tornar indecifrável, falando de religião sem incorrer em fanatismos. Afinal, ele não está falando aqui de cima do púlpito, expressando preceitos absolutos que você tem de engolir, mas mostrando-se muito humano, compartilhando suas dúvidas e sentimentos. Por tudo isso, Os Quatro Amores é um livro lúcido, claro, mas também confortável, do tipo que parece te acolher entre suas páginas. Para manter na cabeceira e reler quando necessário.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Os Quatro Amores
Autor: C. S. Lewis
Tradução: Estevan Kirschner
Editora: Thomas Nelson
Ano: 2017

Onde Comprar

Amazon


A Coruja


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4 comentários:

  1. Faz tempo que quero ler algo do C S Lewis, vou colocar esse título na minha listinha de desejados (adorei a resenha)! =)

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    1. É um livro muito gostoso de ler e, como disse antes, surpreendente. Eu gostei tanto que encomendei mais meio mundo desses livros dele. Reli recentemente o Cartas de um Diabo a seu Aprendiz e estou no meio do debate de Cristianismo Puro e Simples. Agora pelo amazon day encomendei O Peso da Glória e A Abolição do Homem. O Lewis também é um bom crítico literário, o Sobre Histórias dele é excelente.

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  2. Eu posso dizer que amei. Amei a leitura, amei o livro, amei termos debatido juntas. Tenho me encantado com Lewis de uma forma que não esperava. Um livro que recomendo por tudo que vc falou. Uma visão sem preconceitos, sem imposições.

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    1. Foi bem bacana lermos comentando, né, Dynha? Espero que tenhamos oportunidade de voltar a fazê-lo!

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