25 de julho de 2019

Desafio Corujesco 2019 - Um Livro Ambientado nos Anos 20 || A Balada do Black Tom


– Carrego um inferno dentro de mim – rosnou Black Tom. – E quando descobri que ninguém tinha compaixão por mim, quis arrancar árvores, espalhar o caos e a destruição ao meu redor e depois me sentar e desfrutar da ruína.

– Então, você é um monstro – comentou Malone.

- Fizeram de mim um monstro.

Fiquei de olho grande nesse livro desde que ele começou a aparecer em listas de prêmios literários: foi indicado ao Bram Stoker e ao Nebula em 2016, Hugo, Locus e World Fantasy em 2017, tendo vencido o Shirley Jackson na categoria novela. A Balada do Black Tom conseguiu ser um sucesso de crítica mesmo construindo sua narrativa em cima de uma das mais controversas histórias de H. P. Lovecraft, Horror em Red Hook - o que me deixou muito curiosa para conhecer a história. Assim, quando a Morro Branco anunciou a tradução dele cá no Brasil, imediatamente coloquei-o na lista de desejados.

Lovecraft tem um estilo único. Suas histórias de horror cósmico, com criaturas tão terríveis que o conhecimento delas induz aqueles que as vislumbram à loucura são narradas com uma linguagem há um tempo seca - quase científica - e grandiloquente. É um estilo que funciona muito bem em contos como Nas Montanhas da Loucura - onde as imensidões gélidas da Antártica fazem parte do horror apenas adivinhado nas pistas que vão surgindo pelo caminho. Suas histórias mais urbanas, contudo, trazem forte verniz xenofóbico e racista - e talvez nenhuma outra tenha essas características mais presentes que Horror em Red Hook, cujo enredo se passa predominantemente na Harlem da década de 20 vista pelos olhos de um detetive irlandês investigando uma série de sumiços e sua relação com cultos sinistros realizados pelos imigrantes que vivem no local.

Lovecraft não está sozinho nesse balaio; Agatha Christie e Rudyard Kipling me vêm imediatamente à mente quando penso em autores casualmente xenofóbicos, com personagens estereotipados de todo tipo de estrangeiro. Todos eles são retratos de suas épocas e da cultura em que cresceram, e não é uma surpresa que preconceitos tão comuns em suas sociedades estejam arraigados o suficiente para aparecer em suas obras. Entender o contexto em que os livros foram escritos, contudo, não significa ler de forma acrítica. E foi exatamente isso que LaValle fez aqui: uma crítica inteligente a um autor que fez parte das leituras dele desde a infância. Um autor que, só mais tarde ele percebeu, atacava justamente o que o próprio LaValle era: negro e filho de imigrantes.

De fato, em tempos de movimentos como o Black Lives Matter e de debates constantes sobre imigração, A Balada do Black Tom é um livro sob medida para refletir acerca das mudanças sociais (ou ausência delas) nos cem anos que nos separam da época em que se passa a história. Aqui, LaValle dá voz às figuras esquecidas nas entrelinhas do conto original: seu protagonista é Charles Thomas Tester, um músico medíocre que sobrevive de pequenos serviços nem sempre lícitos, vivendo sozinho com o pai doente num dos subúrbios pobres de Nova York. Após ser contratado pelo excêntrico estudioso Robert Suydam para tocar numa festa, Charles acaba se envolvendo com a investigação policial de Malone. É um enredo que envolve brutalidade policial, racismo, vingança e vislumbres de deuses adormecidos; e que é muito mais atual do que se poderia pensar de uma história ambientada há quase um século.

Trata-se de uma leitura rápida, mas envolvente e angustiante. Muito mais que o horror inspirado pelas dimensões paralelas vistas da biblioteca de Suydam ou dos rituais realizados nos bairros de imigrantes, é a crueldade humana que traz as imagens que realmente nos causam calafrios (o violão sujo de sangue ficou na minha cabeça o livro inteiro).

A edição da Morro Branco está de parabéns não apenas pelo belo trabalho do projeto gráfico (pessoa que suspira por uma capa dura aqui), como também por trazer ao final da novela de LaValle o conto original de Lovecraft, sem suavizações, com uma nota explicativa sobre a questão do racismo. Aplaudo a escolha da editora de não censurar um material controverso, lembrando, porém, ao leitor de sua responsabilidade crítica.

De final, observo que esse não é um livro fácil. Não é um problema de linguagem, nem mesmo de ritmo (que alguns talvez considerem arrastado), mas pela maneira como LaValle escolhe marcar suas posições e nos fazer refletir - tanto sobre o preconceito de Lovecraft quanto pela nossa realidade. Vale muito o debate.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Balada de Black Tom
Autor: Victor LaValle
Tradução: Petê Rissatti e Giovana Bomentre
Editora: Morro Branco
Ano: 2018

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A Coruja


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3 comentários:

  1. Bah, esse livro é incrível! "Eu prefiro a porra do Cthulu do que viver com vocês demônios" é uma frase deveras impactante - e sim, a imagem do violão sujo de sangue também ficou na minha cabeça. Acho que li esse livro em um ou 2 dias, mas fiquei pensando nele um tempão...enfim, muito bom, Victor Lavalle é ótimo! O outro livro dele, "The Changeling", é tão legal quanto - menos impactante, talvez.
    :*

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    1. Somos dois, Enrique - mesmo tendo sido uma leitura rápida, foi um livro que ficou girando e girando na minha cabeça, enquanto eu digeria e fazia conexões com a vida real... Eu já tinha visto esse Changeling, acho inclusive que a Morro Branco comprou os direitos dele também.

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  2. Preciso confessar que foi um pouco complicado encontrar livros para esse tema, mas achei!!!
    https://leiturasdelaura.blogspot.com/2019/06/z-novel-of-zelda-fitzgerald.html

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