27 de fevereiro de 2020

Mythos: As melhores histórias de heróis, deuses e titãs


Atualmente, a origem do universo é explicada pelo big bang, um evento isolado que fez aparecer instantaneamente toda a matéria da qual tudo e todos são feitos.

Os gregos antigos tinham uma ideia diferente. Eles diziam que tudo começou não com uma explosão, mas com o CAOS.

Será que o Caos era um deus – um ser divino – ou simplesmente um estado de inexistência? Ou seria o Caos, exatamente como a palavra é usada hoje, um tipo de bagunça terrível, como um quarto de adolescente, só que pior?

Pense no Caos como, talvez, algum tipo de grande bocejo cósmico. Como um abismo ou um vácuo que boceja, no vazio da existência.

Se o Caos fez surgir vida e substâncias do nada, ou se o Caos bocejou vida, ou se a sonhou, ou a invocou de alguma outra maneira, eu não sei. Eu não estava lá. Nem você. No entanto, de algum modo, estávamos, porque todas as partes que nos compõem hoje estavam lá. Basta dizer que os gregos achavam que foi o Caos que, com um suspiro intenso, ou um grande encolher de ombros, ou um soluço, vômito ou tosse, começou a longa cadeia da criação que terminou com pelicanos e penicilina e sapotis e sapos, leões-marinhos, leões, mar, seres humanos e narcisos e assassinato e arte e amor e confusão e morte e loucura e biscoitos.

Comprei esse livro na Black Friday ano passado, por nenhum outro motivo especial além de “está em promoção”. Melhor dizendo, eu até estava atrás de algum volume de mitologia grega para ter como referência na estante, mas o escolhido era uma edição ilustrada da Zahar escrita por Nathaniel Hawthorne (o autor de A Letra Escarlate). O livro do Stephen Fry nem tinha entrado no meu radar. Mas tudo bem, fato é que estava num preço excelente, era um livro em capa dura, eu sempre podia guardá-lo para dar de presente depois.

Quando comecei a folheá-lo, fiquei extremamente feliz de ter me deixado levar pela impulsividade. A título de comparação, a releitura dos mitos gregos de Fry é melhor até que a que Neil Gaiman faz da mitologia nórdica - e eu adorei o que Gaiman fez naquele livro. Fora que a edição preparada pela Planeta é realmente muito linda.

A mitologia grega foi uma das minhas primeiras paixões - meu gosto por corujas deriva da minha quase obsessão por Palas Atena. E não, tal gosto nada tem a ver com Cavaleiros do Zodíaco: quem me apresentou à mitologia foi Monteiro Lobato. Sei que Lobato é bem criticado hoje em dia como racista, mas embora eu compreenda as críticas, não tenho como negar que parte da minha formação - do meu gosto por folclore, contos de fadas, mitos e História - nasceu dos livros dele.

Enfim… digo tudo isso para explicar que o panteão grego me é extremamente familiar quase que desde que comecei a ler sozinha. De modo que, o que Fry conseguiu nesse livro é um feito notável: tornar-se senhor dessas histórias tantas vezes já contadas, conferir a elas o vigor, brilho de um conto original. A forma como ele trabalhou a narrativa é irreverente e deliciosa, pontuada por reflexões sobre o legado desses mitos e referências modernas, como a inclusão de Percy Jackson entre os filhos de Poseidon. Fora o fato de que ele não se furta de contar as histórias mais escabrosas, saneadas em antologias que li quando criança (como é que eu não sabia que Zeus e Ganimedes eram amantes fixos no Olimpo, debaixo do nariz da Hera?).

Suas informações sobre como a mitologia emprestou nomenclaturas para diversos campos científicos - especialmente na biologia e na astronomia - e como eles estão nas raízes de termos que utilizamos ainda hoje foram também um diferencial, especialmente a se considerar o quanto bebemos da tradição greco-romana.

Leitores puristas da mitologia talvez torçam o nariz para as atualizações, os diálogos imaginados e inferências. O que Fry demonstra aqui, contudo, não é desrespeito, mas amor a essas histórias, uma legítima afeição pelos personagens que ora se sucedem. Mythos é, em suma, um ótimo volume de referência, e também um deleite para quem gosta de uma boa narrativa.

Por fim, descobri que Mythos tem o audiobook lido pelo próprio Stephen Fry. Fiquei muito tentada a ir atrás: a voz dele é uma coisa maravilhosa e ele é um contador de histórias nato. Talvez eu faça isso para o segundo volume, que se concentra nos heróis mitológicos (esse primeiro é centrado nos deuses). Até lá, deixo o vídeo dele lendo o mito de Pandora, que está nesse volume.


Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Mythos - As Melhores Histórias de Heróis, Deuses e Titãs
Autor: Stephen Fry
Tradução: Helena Londres
Editora: Planeta Minotauro
Ano: 2018

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A Coruja


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