20 de fevereiro de 2020

A Vertigem das Listas: Dez Sobremesas que Ficaram na Memória


Lulu: Comer - e comer bem, algo bem preparado, gostoso, suculento e repleto de sabor - é um negócio muito bom. Minha excelentíssima dona vó costuma dizer que a gente só leva da vida o que come. Do meu ponto de vista, comer pode ser mais do que algo que fazemos no automático, obrigatório para nossa sobrevivência: é uma experiência.

Quando pensei em fazer um vertigem sobre sobremesas, minha ideia foi que as sobremesas mais gostosas, aquelas de que me lembro com mais água na boca, não foram simplesmente coisas muito gostosas de comer, mas estão ligadas a memórias especiais - de lugares ou de pessoas. E é meio isso que quero dizer como ‘experiência’ - elas são inesquecíveis porque fizeram parte de algo maior e sempre que as experimento de novo, sou transportada para o momento.

Podia ter colocado aqui refeição completa, mas, bem… sou uma formiga assumida. DOOOOOOOOCEEEEEEEEE!!!! Então, sem mais delongas e explicações, trago para vocês Dez Sobremesas que Ficaram na Memória!

1. Vou começar com uma sobremesa que faz parte da minha infância: a cocada de leite da minha avó. Nunca achei nada nem parecido que pudesse se igualar àquela cocada, que, aliás, nem era exatamente uma cocada… mas uma espécie de tablete de doce de leite com coco. O leite ficava horas sendo mexido no caldeirão, no fogão de lenha. HORAS, não estou brincando. Para que academia se você pode mexer leite até ele virar doce no caldeirão, num quartinho que mais se assemelha a uma sauna? Não tinha leite condensado, nada de aditivos ou espessantes, era só o leite e um pouco de açúcar (quanto menos açúcar, mais tempo para chegar no ponto) batendo, batendo, batendo…. quando ficava pronto e a gente mordia, ele era macio, leve, um negócio de louco. Problema desse doce é que ele é trabalhoso demais e há uma série de modernidades para fazê-lo mais rápido… mas que não dão o mesmo sabor, ficam açucarados demais. Vó não tem mais condições de fazer esse doce. Mas quando tinha, sempre que eu chegava na casa dela, no início das férias, havia um pote dele na despensa pra mim. A cocada de leite da minha avó tem o gosto da minha infância e eu não poderia começar essa lista com outro doce..

2. Se minha avó é o doce de leite, minha mãe é o bolo. Em casa sempre tem de ter bolo para tomar café da manhã - se ele acabar de noite, D. Mãe acorda mais cedo para fazer um: ele praticamente faz parte da decoração da cozinha. Aí que tem todo tipo de bolo na história: de fubá e especiarias, mármore, aveia e maçã, nega maluca, engorda marido, limão com calda de açúcar, cenoura com calda de chocolate, laranja… e meu particular favorito, que me faz pensar em tardes sentada na cozinha, esperando o bendito sair do forno: bolo cuca. Acho que o pão cuca, com a crosta de canela e açúcar por cima é mais conhecida, mas d. mãe faz um bolo cuca que é uma das massas mais fofinhas que já comi e na primeira mordida me leva direto para infância.

3. Falando em infância, a quarta doçura desta minha lista é a bomba de chocolate das Casas Moreira, supermercado que tinha em Campo Grande (ainda existe?) na época em que eu morava lá. Toda vez que eu acompanhava d. Mãe ao supermercado, queria a danada da bomba. Não era sempre que eu ganhava, mas talvez a raridade tenha adicionado ao sabor. Mais tarde descobri que o doce se chama éclair, mas nunca encontrei nenhuma versão do éclair que se igualasse a minha memória. Eu provavelmente nunca comerei outra bomba de chocolate como as que comia na minha infância, exatamente porque minha lembrança tem o tempero da saudade.... Mas isso não me impede de experimentar toda vez que encontro numa padaria ou delicatessen a tal bomba de chocolate...

4. Quando fui a Portugal pela primeira vez, minha guia - a Paula, parte da comunidade de janeites portuguesa - me “sequestrou” para Sintra. Digo sequestrou porque ela simplesmente colocou a gente no carro, pegou a autoestrada e no meio de uma animada conversa sobre livros, em nenhum momento disse para onde exatamente estávamos indo. Seja como for, foi um dos melhores passeios que fiz e de brinde me apresentou a uma das coisas mais gostosas que já comi: o travesseiro de sintra, uma massa folhada recheada com doce de amêndoa e ovos, uma delicadeza que parece que se desfaz na boca à primeira mordida. Esses travesseiros se tornaram indissociáveis da figura da Paula e daquele dia maravilhoso - lembro da primeira mordida, dada enquanto caminhávamos num beco de paralelípedos, de senti-lo ainda morno, da doçura explodindo na língua. É uma sobremesa que ficou na memória, sem dúvida - que me fez voltar a Sintra quase que só pensando em voltar a experimentá-la.


5. Para terminar minha lista… vamos de palha italiana! Na época em que eu estava estudando para o vestibular, tinha aula em período integral no colégio. Tinha uma padaria lá perto e quando eu saía da aula no meio da tarde, gostava de passar por lá, porque tinha gostosuras fresquinhas na vitrine - incluindo a danada da palha italiana, que eu comia ainda meio morna, me acabando de felicidade. Gostava tanto do doce que levava para compartilhar com D. Mãe, que acabou por ir atrás da receita. Hoje em dia, quando quero palha italiana, fazemos em casa (e fazemos logo a torta de palha italiana, que é mais fácil, compacta e está na foto abaixo)… mas toda vez que como o bendito, lembro daquelas tardes, de passar pela padaria e comprá-lo quentinho - de como a primeira mordida parecia obliterar o cansaço e estresse do resto do dia. É uma memória muito, muito boa de lembrar.



Ísis: Nossa, coitada da sua avó! Mas que deu água na boca, deu. E eu sou testemunha… SEMPRE tem bolo na casa da Coruja! Para mim é impressionante porque na minha casa só tem de vez em quando.

Enfim, antes de começar a minha lista, preciso avisar que parece mais uma lista de viagens, mas Lulu pediu sobremesas com experiências ligadas a elas, então….

6. As duas primeiras são da minha infância e são dos EUA. Os biscoitos Fudge Stripes eram a primeira coisa doce que eu corria atrás nos supermercados. Seriam tipo o pacote de biscoitos Bono ou Passatempo para mim. Nunca deixavam porque eu sempre fui gordinha, mas por mim eu comia um pacote ou dois inteiro(s) de uma só vez. Ainda estão à venda pra quem quiser experimentar da próxima vez que forem aos EUA.

7. Reese’s Peanut Butter Cake. Esse eu não tenho um link porque era o bolo feito pela padaria de um supermercado que íamos, mas do qual não lembro o nome. Porém, a marca Reese’s é bastante conhecida, e apesar de não gostar tanto de pasta de amendoim, esse chocolate era (ainda é!) o meu preferido, tanto que o meu cereal de infância era feito esse chocolate, e o meu bolo preferido até hoje é esse de Reese’s também, mas que nunca mais ei de saborear… Ele era meu bolo de aniversário, mas agora é o de canela, que também é delicioso! E em uma especial ocasião, saímos em família para um piquenique num dia frio de inverno ou outono, e tudo o que eu queria comer era esse bolo - que se danasse o frio! E olha que estava ventando daquele jeito que quase corta a pele!

8. Alfajor Turma da Mônica. Eu culpo o Maurício de Sousa pela minha obsessão com esse doce, pois, na época da copa de 1998, além do doce, ainda lançaram as figurinhas (e o álbum) da copa, mas com os personagens da Turma da Mônica. Eu comia aquilo direto… não sei como não passei mal. Não consegui completar o álbum, mas ficaram faltando só 6, 8. Foram muitos anos depois quando descobri que isso era um doce da América Latina espanhola, e não só uruguaio. Coitada da minha mãe trouxe literalmente meia mala desses doces para mim ano passado… ^^’

9. A bem da verdade, o primeiro doce indiano que experimentei me levou às nuvens, inclusive enviei dois pacotes para a Lu, pois é fácil comprá-lo aqui e ele não vence rápido. Entretanto, de tanto que comi dele na Índia, e depois em casa porque trouxe de volta muito, eu meio que enjoei um pouco. Nessa mesma viagem, porém, conheci o famoso doce indiano rasmalai, especificamente o com kesar (uma especiaria amarela mais CARA que ouro a depender da qualidade do kesar!). Como rasmalai é molhado e com leite, é melhor feito na hora, então só o como na Índia… A primeira vez que fui a esse país, uma amiga nos levou numa loja de doces, e eu e minha companheira de viagens experimentamos uns 8 doces naquele dia. Rasmalai foi de longe o nosso favorito. Sou apaixonada pelo rasmalai de kesar, que é tipo um bolinho redondo achatado feito de leite e mergulhado numa espécie de calda com especiarias. Hoje, ele e gulab jamun são meus preferidos (dependendo do dia, eu prefiro um ou outro).

10. (Tula) Pryanik. Ai, o que dizer disso? Não lembro se eu dei sonhos de valsa e serenatas de amor em retribuição, ou se foi porque os dei que ganhei de presente meu primeiro pryanik da minha companheira de quarto no dormitório onde fiquei na China. Caramba, como foi maravilhoso! É uma espécie de gingerbread russo, com recheios de maçã ou frutas (silvestres?), ou leite condensado fervido. Por coincidência, achei ontem no eBay e já comprei dois.



Lulu: Eis então que terminamos mais um vertigem… e esse aqui me deixou faminta! Vamos agora atacar a despensa e ver o que dá para fazer por lá…




____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog