29 de novembro de 2018

A Vertigem das Listas: Onze Títulos para Falar de Guerra


Em 11 de novembro de 1918 foi assinado o armistício que deu fim à Primeira Guerra Mundial. Passamos agora, recentemente, pelo centenário de tal data. À época, dizia-se que seria ‘a guerra para terminar todas as guerras’ - título de uma série de ensaios do escritor H. G. Wells no período, depois utilizada pelo presidente americano Woodrow Wilson para justificar a entrada do país no conflito europeu. Claro que pouco mais de vinte anos depois houve a Segunda Guerra Mundial, seguida pela Guerra Fria e o espectro de um conflito nuclear que provavelmente acabaria com o planeta e a humanidade.

Deveríamos, supostamente, ter aprendido as lições dessa época desastrosa, abjurado de qualquer projeto político minimamente fascista, nos tornado mais tolerantes com as diferenças, mais ansiosos por saídas pacíficas para conflitos. Mas talvez seja mais fácil acreditar em unicórnios que em paz mundial, de forma que é sempre necessário estar lembrando às pessoas o que, realmente, significa a guerra.

Por isso, hoje o tema do vertigem são Onze Títulos para Falar de Guerra. Minha lista pessoal vai com cinco livros de não-ficção, cinco ficções e um filme que também é perfeito para a temporada natalina.


Para começar, recomendo Uma História da Guerra, de John Keegan. Não é um livro grande, mas apresenta um panorama histórico bem amplo, mostrando a evolução do próprio conceito de ‘guerra’, especialmente a partir da tecnologia empregada nos campos de batalha. Li esse livro na época da faculdade e graças a ele que acabei achando o tema para meu TCC.

Na lista segue-se Canhões de Agosto, da Barbara Tuchman, prêmio Pulitzer de 1962, e trata dos primeiros dias de conflito em agosto de 1914. Tuchman explora as razões políticas, decisões militares, erros estratégicos, as ações que transformaram uma ofensiva que, muitos imaginavam terminaria em poucos dias, numa longa guerra de alcance mundial.

Creio que O Diário de Anne Frank foi o primeiro livro de não-ficção que já li - ou, pelo menos, o primeiro a causar impacto suficiente para que eu me lembre claramente de sua leitura. Eu tinha uns treze anos na época e posso dizer que ele foi um divisor de águas. Sempre gostei de história, mas até então, meu interesse se concentrava muito mais no mundo antigo e nas histórias de mitologia. Ler Anne Frank fez com que eu me interessasse por ler livros sobre guerra, de tal forma que aquela leitura ainda hoje reverbera em muitos dos meus interesses.

Ainda do período, não posso deixar de citar Memórias da Segunda Guerra Mundial, do Churchill. Eu já admirava o cara com um estadista e político de primeiro escalão, mas fiquei impressionada ao ler as memórias - não apenas pela figura que se assomava naquelas palavras, mas pela qualidade literária do texto. Não é uma coincidência ou mesmo mero puxa-saquismo que Churchill ganhou um nobel da literatura.


Completando minha lista de não-ficção, Maus - a história de um sobrevivente, de Art Spiegelman, o relato de um judeu sobre o que passou pelos campos de concentração nazistas feito ao filho. Spiegelman decidiu contar essa história em quadrinhos e revolucionou a maneira como se via o formato. É um livro forte, duro, inclusive no relacionamento do filho com o pai, e vai para além do horror dos acontecimentos da guerra para escancarar os efeitos do conflito mesmo uma geração depois.

Na ficção, os primeiros títulos que me vêm à mente são Ardil-22, de Joseph Heller e Matadouro 5, de Kurt Vonnegut. Ambos são livros supostamente engraçados, paródias; mas através do sarcasmo os dois autores apresentam como nenhum outro que conheço a completa falta de lógica, de sentido da guerra. O humor nonsense de ambos é apenas um verniz para esconder um profundo desespero. São livros que causam riso, mas um riso doloroso - e que também rendem muita reflexão.

A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak, é um daqueles livros pensados de propósito para te fazer chorar. Mas ele tem um grande mérito, que é humanizar o lado dos alemães. Quando você começa a consumir histórias sobre a segunda guerra, vários livros parecem demonizar de forma generalizada o alemão: todos eles são nazistas, todos são vilões. Acho que esse foi um dos primeiros romances que li em que havia essa mudança de referência e que mostrava também o impacto da guerra do ‘outro’ lado.


Essa é, mais ou menos, a mesma razão pela qual A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata aparece na minha lista. Mas não vou negar que o que me encanta nesse livro é seu tom mais leve e intimista, esperançoso - e que traz a literatura como razão de solidariedade. Eu adorei a adaptação desse livro para o netflix e estou morrendo de vontade de fazer uma releitura.


Para completar os livros, não posso deixar de indicar Reparação, do Ian McEwan. Não é, em sua essência, um livro sobre guerra; mas a guerra está presente em boa parte da história e as consequências para a mentira de Briony são tanto mais graves pelo tamanho que o conflito vai ganhando ao longo da história.


Terminando minha lista de hoje… há uma miríade de filmes sobre guerra dos quais eu poderia falar - onze não chegaria nem perto do número de clássicos sobre o assunto. Mas meu favorito, aquele que volta e meia me dá vontade de rever (eu ainda hei de encontrar o DVD desse filme para comprar…) é Joyeux Noël ou, simplesmente Feliz Natal.Trata-se de um filme europeu que conta a história real da trégua entre tropas alemãs de um lado e francesas e escocesas do outro no natal de 1914.


Não é nem a qualidade do filme (que acho boa) que me encanta, mas essa história da trégua, dos soldados que se confraternizam, mesmo lutando em lados opostos - que enxergam a humanidade no inimigo, longe das decisões de generais e políticos. Se fosse uma história ficcional, seria tratada como mero sentimentalismo, mas a compreensão de que tais acontecimentos foram reais torna tudo assombroso, fascinante. É o tipo de história que te faz acreditar na humanidade e ter esperança de dias melhores.

E esperança é algo de que andamos esperando desde que abriram a caixa de Pandora, não é mesmo?

Conhecer o passado nos capacita a encarar melhor o presente. A entender as consequências de nossas escolhas, o peso de certas palavras. São tempos difíceis os que vivemos, ‘tempos interessantes” como diria certa maldição chinesa. Lembrar dessas lições nos faz temer um bocado pelo futuro… mas também nos lembram que há saídas, ou, para usar o clichê, luz no fim do túnel.

Sigamos com a História...


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