16 de agosto de 2018

Uma aula de anatomia literária: Como Funciona a Ficção


A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas. Posso contar uma história na primeira ou na terceira pessoa, e talvez na segunda pessoa do singular e na primeira do plural, mesmo sendo raríssimos os exemplos de casos que deram certo. E é só. Qualquer outra coisa não vai se parecer muito com uma narração, e pode estar mais perto da poesia ou do poema em prosa.

Não sei como foi que descobri esse título, mas desconfio que foi por indicação em algum outro título sobre crítica literária que li ou talvez numa daquelas listas de melhores livros sobre determinado assunto... Seja como for, ele entrou na minha lista de desejos, só que numa época em que ele estava fora de catálogo, por conta do fim da Cosac Naif. Era possível encontrá-lo em sebos, mas por preços exorbitantes; e eu não me empolgara tanto assim a ponto de ir atrás de uma edição em inglês. E aí, visitando a Bienal do Livro em São Paulo, descobri que Como Funciona a Ficção fora relançado pela SESI-SP. Não tive dúvidas em imediatamente colocar o livro debaixo do braço e começar a lê-lo quase imediatamente após chegar no hotel.

No fim das contas, só posso agradecer a quem quer que tenha feito a indicação. Como Funciona a Ficção não é apenas um ótimo livro de crítica, mas uma aula sobre criação literária. James Wood escreve de forma clara e didática, com uma multitude de exemplos. Os capítulos são separados pelos elementos fundamentais da ficção - estilo, foco narrativo, personagem, diálogo... - escritos como pequenos comentários numerados, algo que facilita (muito) consultas posteriores.

A capa e o título do livro são meio que um resumo sob medida do que vemos na obra: Wood explora os mecanismos que, juntos, compõem a história, como um relojoeiro que passa a lupa para montar todas as engrenagens necessárias para que os ponteiros funcionem. Pode parecer um projeto ambicioso e até arrogante, especialmente quando se descobre que há pouco mais de duzentas páginas escritas, mas ele cumpre o que promete. E é uma leitura tão saborosa que você quase nem sente o tempo passar - levei dois dias para terminar, mas isso foi porque comecei de noite e precisei ir dormir para acordar cedo no dia seguinte…

O foco do livro é o realismo, e Wood usa como exemplo vários dos cânones literários ocidentais: Tolstói, Flaubert, Austen, Shakespeare, Woolf, Dostoievski, Nabokov… Fiquei particularmente fascinada pelo capítulo em que ele faz comparações entre o Davi bíblico, Macbeth e Raskolnikov, para explicar sobre consciência e a forma como o personagem dialoga com seu público. Quem é familiar com as obras citadas vai compreender mais a fundo o que Wood apresenta, mas eu acredito que mesmo quem não leu é capaz de acompanhar os exemplos e explicações dadas no livro. Da mesma forma, ainda que ele centre sua atenção na análise de romances realistas, as lições apresentadas servem para todo tipo de prosa.

Pessoalmente, Wood me ajudou a dar nomes a vários conceitos que costumo procurar instintivamente como leitora: autenticidade e consciência da voz do personagem, o ritmo da narrativa, símiles e verossimilhança. Ele também foi um dos melhores autores que já li sobre o uso de metáforas. Se você é um escritor ou resenhista, ou simplesmente um leitor que se interessa por ler de forma mais madura e profunda, Como Funciona a Ficção é um livro para ter na cabeceira, e consultar sempre que preciso.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Como Funciona a Ficção
Autor: James Wood
Tradução: Denise Bottmann
Editora: SESI-SP
Ano: 2017

Onde Comprar

Amazon


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog