10 de agosto de 2018

Sobre Pássaros e Silêncios: O Diário de Myriam


Alepo é uma cidade fantasma. Não tem mais ninguém. Às vezes, há senhoras de preto que correm do lado de fora, ou pessoas armadas. Mas só isso. Quando a gente abre as janelas, não tem um barulho de vida sequer. Não existem flores, não existem cores e até os pássaros já nos deixaram.

Quando recebi O Diário de Myriam e olhei a sinopse, saltou-me aos olhos a comparação com O Diário de Anne Frank. Eu tinha onze anos quando li pela primeira vez a história de Anne e digo sem exagerar que ela marcou minha vida. Foi daí que começou meu interesse em história das guerras, fosse em livros e documentários sobre acontecimentos reais, fosse em ficção que se passasse no período.

Isso porque a guerra revela o que há de pior no ser humano: ambição e arrogância, crueldade, intolerância, ignorância… mas também é cenário fértil para histórias de coragem, compaixão, resiliência - o melhor, enfim, que a humanidade pode produzir. Contra um facínora, aparecerão heróis; se muitas vozes podem se calar diante da tirania, sempre haverá aquelas que se levantarão em nome da paz, da dignidade, do respeito às diferenças.

Ambas as facetas estão presentes nesse livro.

Myriam Rawick tinha seis anos quando a guerra na Síria começou. Através de seus registros, escritos entre 2011 e 2017, vemos o conflito se desenrolar - a limitação de liberdade; barricadas em bairros, a necessidade de mudar de escola, os sequestros, os primeiros tiros e bombardeios, a falta de eletricidade, de água, de carne, de pão… são notícias e atores que nos são familiares do noticiário: rebeldes curdos, coalizão ocidental, ONU, Daesh. O horror do que está acontecendo contrasta com a vida que segue, com as tentativas de normalidade que os pais de Myriam tentam dar a ela e a irmã, e a gradual percepção dela sobre o que tudo aquilo significa. Ao mesmo tempo, há esperança, a solidariedade de vizinhos, que compartilham o pouco que têm, as tentativas de ajudar os refugiados que chegam de outros bairros, as amizades que transcendem as diferenças.

Em sua maioria, as entradas do diário são curtas, mas marcantes. A linguagem simples, inocente, causa um impacto muito maior do que seria ler as mesmas memórias do ponto de vista de um adulto. Myriam passa da infância à adolescência ao longo dessas páginas, forçada a crescer mais rápido, a testemunhar dores e perdas incomuns a sua idade. Sua compreensão de tudo é apolítica; não há lados, mocinhos e bandidos, salvadores ou heróis. O que existe é um auxílio que vem tarde demais, e interesses que há muito ultrapassaram os motivos pelo qual o conflito se iniciou.

O drama de Alepo não é um caso isolado. Tem sido uma característica da chamada guerra moderna o cerco a grandes cidades e sacrifício das populações civis. Foi assim na Segunda Guerra, quando mais de um milhão de pessoas morreram entre os cercos a Stalingrado, hoje Volgogrado (42-43), e Leningrado, atual São Petersburgo (41-44). Foi assim também em Sarajevo (92-96), na Guerra da Bósnia, com pouco mais de dez mil mortos no cerco. Ainda não há estimativas exatas do número de mortos no cerco a Alepo, mas a ONU fala em pelo menos 100 mil baixas.

São sete anos de conflito e, a essa altura, quase já nos acostumamos a ver a Síria no noticiário, nos ‘dessensibilizamos’ do que é mostrado pela distância e pela repetição. Histórias como a de Myriam e sua família, contudo, ultrapassam essa barreira, fazem com que voltemos a pensar no que está acontecendo lá, para além das imagens na TV. Ela nos coloca dentro de sua realidade. E por isso mesmo é admirável o fato de que antes mesmo de o livro ser publicado em português, ter havido uma campanha, uma demonstração de interesse por crianças, que queriam conhecer aqueles acontecimentos. A edição brasileira traz um relato de como o livro foi descoberto por aqui e creio que esse envolvimento do público seja algo tão importante quanto a própria narrativa apresentada. Mostra que ainda somos capazes de empatia e compaixão.

O que Myriam conta, porém, é apenas a ponta do iceberg de uma história que só entenderemos de fato quando puder ser passada a limpo, após o final da guerra. A derrota dos nazistas levou-nos a Nuremberg e o processo de fragmentação da Iugoslávia colocou muitos dos dirigentes das Balcãs no banco dos réus em tribunais internacionais. Entre ataques químicos e bombardeios contra a população civil, os responsáveis pela Guerra da Síria também deveriam ser julgados por crimes contra a humanidade; mas considerando o envolvimento de outras potências e seus interesses geopolíticos na região, não sei se veremos isso acontecer.

Outras Recomendações de Leituras: A comparação de O Diário de Myriam com O Diário de Anne Frank certamente se sustenta. Outros títulos, contudo, vieram-me à mente quando estava lendo - histórias de conflitos recentes contadas do ponto de vista dos civis que sobreviveram a essas guerras. Rádio Guerrilha: Rock e Resistência em Belgrado foi um deles, livro reportagem sobre a mídia independente que peitou Milosevic na Iugoslávia; Lendo Lolita em Teerã, com o relato de uma professora de literatura inglesa no Irã do período da Revolução, que nos leva, claro, a Persépolis, graphic novel autobiográfica que se passa no mesmo período. Mas, principalmente, Myriam me lembrou de May, de Conversas sobre Jane Austen em Bagdá, também uma professora de literatura e direitos humanos no Iraque, que conta seu cotidiano desde o domínio americano até a saída dos Estados Unidos do país e consequente recrudescimento dos fundamentalismo, que levou seu nome a uma lista de morte de professores. Todas essas são histórias de coragem, inspiradoras, mas também terríveis. São histórias que precisamos conhecer, com as quais precisamos aprender. Que não podemos esquecer.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Diário de Myriam
Autor: Myriam Rawick
Tradução: Maria Clara Carneiro
Editora: Darkside
Ano: 2018

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