20 de agosto de 2018

De Volta para Casa: ou o que acontece quando o conto de fadas termina?

A esperança machuca. É isso que você precisa aprender, e rápido, se não quiser que a esperança corte você de dentro para fora.

Meu primeiro contato com a série Wayward Child, da Seanan McGuire, foi com uma matéria da Tor.com sobre as ilustrações de Rovina Cai para as histórias. Aqueles desenhos me deixaram fascinada e bem ansiosa por deitar minhas mãos nos livros. Coincidentemente, enquanto pesquisava mais sobre as novelas, descobri que os direitos delas já tinham sido adquiridos aqui no Brasil pela Morro Branco. Coloquei o primeiro volume, Every Heart is a Doorway nos desejados e deixei passar o tempo. Aí, tio Fafa veio passar uns dias lá em casa em junho e ganhei a edição brasileira de presente (infelizmente, as ilustrações só foram publicadas no site, não na edição impressa…).

De Volta para Casa não é um título que tem a mesma sonoridade poética do original, mas faz bastante sentido dentro do contexto da noveleta e não se arrisca a soar como balada sertaneja ou coisa parecida, como seria no caso de uma tradução literal. De maneira geral, gostei bastante do trabalho da editora - esse foi o primeiro livro que li da Morro Branco - tanto no cuidado com o texto, como no projeto gráfico. E é uma capa dura! Adoro livros de capa dura...

Enfim, vamos ao que interessa: o enredo. Nossa protagonista é Nancy, que acaba de retornar ao 'mundo real' após passar meses em um mundo dos mortos. Incapaz de se readequar à normalidade, Nancy é enviada pelos pais a um internato especial... exceto que, diferente do que foi dito a seus pais, a escola de Eleanor West não é uma casa para 'curar' Nancy do 'trauma' de seu 'sequestro' (afinal, eles não acreditam que ela passou por uma porta no sótão e foi parar em outro mundo, preferindo a noção de que a filha foi sequestrada). Na verdade, o estabelecimento reúne crianças que voltaram de vários mundos diferentes - mundos que lembram Oz, a Terra do Nunca ou mesmo o País das Maravilhas - e que anseiam por retornar a esses universos paralelos. É um lugar seguro para que elas possam compartilhar suas experiências, e serem aceitas da maneira que são - com cada peculiaridade que lhes fizeram capazes de atravessar suas Portas.

Ou, pelo menos, deveria ser um lugar seguro… porque pouco depois de Nancy chegar, assassinatos misteriosos começam a ocorrer. E tudo indica que o culpado esteja entre os alunos da escola.


De Volta para Casa é um livro interessante por vários motivos. É uma fantasia, mas há pouca fantasia de fato ocorrendo ao longo do enredo - os personagens que encontramos na história foram forçados a deixar a magia para trás e retornar ao mundo mundano. Eles não estão lidando com grandes aventuras, jornadas épicas e heróicas ou universos com regras bizarras e criaturas estranhas. O desafio é tentar se readaptar sem perder aquilo que elas ganharam em suas viagens: sua identidade.

Seanan coloca um ponto muito interessante na história, que é a ideia de que cada um desses personagens que viajou para outro mundo e de lá voltou transformado (uma menina quietinha que retorna como caos personificado; a bela que vira doutora Frankenstein...) na verdade já tinha em sua essência essa mudança; eram pessoas que não se identificavam realmente com os estereótipos que a sociedade os forçava a viver e que, ao deixar para trás o mundo ‘real’, puderam se descobrir de fato, puderam viver o que não era seguro antes aceitar - fosse por seus gostos pessoais, por suas personalidades ou por sua sexualidade.

Para além dessa busca por seu lugar no mundo (ou a ânsia por retornar ao mundo que de fato aceita essas pessoas da maneira que elas verdadeiramente são), é importante frisar que De Volta para Casa é também uma história de mistério. Os assassinatos que acontecem na escola podem levar ao fechamento da mesma - e a perda de um lugar onde suas histórias são aceitas como verdadeiras, onde elas são convidadas a compartilhar suas experiências e onde se sentem seguras e aceitas representa um pesadelo para a maioria dos alunos. Assim é que Nancy e seus colegas começam a investigar o que está acontecendo, enquanto um clima de desconfiança vai se instalando no internato.

É meio surpreendente perceber quanta coisa acontece numa história de menos de 200 páginas. Mas Seanan consegue empacotar muito nesse formato diminuto. Bem verdade que o enredo parece se desdobrar num ritmo quase átono - a despeito da violência, de questões de sexualidade e do impacto de ter no mesmo lugar tantos visitantes de mundos fantásticos. Mesmo o clímax da história não parece alcançar um ritmo mais forte. Creio que haja dois motivos para tanto: primeiro, com personagens vindas de mundos tão vibrantes, a realidade mundana certamente pareceria mais incolor, quase apática; segundo, porque o ponto de vista pelo qual a história é contada é o de Nancy, oriunda de um ‘reino dos mortos’, algo que lhe deixou marcas menos visíveis que sua capacidade de completa imobilidade.

Dito tudo isso, gostei muito da construção de um verdadeiro multiverso mágico (há uma matéria bem interessante sobre o assunto aqui) que Seanan empreende no livro. É uma noção que me parece muito coerente, natural, e, ao mesmo tempo, extremamente original. Como é que não vimos antes milhares de histórias que fazem esse tipo de ligação? Ainda, embora seja o primeiro volume de uma série, De Volta para Casa se contém muito bem por si, tem começo, meio e fim e pode ser lido de forma independente do resto dos livros. Claro que, como gostei muito do que foi desenvolvido aqui, quero ver os volumes seguintes, especialmente se vierem com o mesmo cuidado que a editora mostrou com o primeiro título.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: De Volta para Casa
Autor: Seanan McGuire
Tradução: Ana Death Duarte
Editora: Morro Branco
Ano: 2018

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