17 de maio de 2018

O Mundo Assombrado pelos Demônios: A Ciência Vista como uma Vela no Escuro

“- O que você realmente acha?

Respondo:

- Acabei de lhe dizer o que realmente acho.

- Sim, mas qual é a sua opinião visceral?

Mas eu tento não pensar com as minhas vísceras. Se levo a sério minha tentativa de compreender o mundo, pensar com algum órgão que não seja o meu cérebro, por mais tentador que possa ser, provavelmente complicará a minha vida. Na verdade, é correto guardar a opinião para quando houver evidências.”

Em agosto de 2015, o Clube do Livro de Bolso se reuniu para debater Contato, do Carl Sagan. Em quase dez anos mediando o clube, acho que nunca houve um encontro tão… sui generis. Como o clube tem uma política de ‘porta aberta’, qualquer um pode sentar e participar, mesmo que esteja só passando pelo espaço e veja um bocado de gente reunida. Foi isso que aconteceu nesse dia: o debate era no auditório de uma livraria, dois senhores que estavam por lá acabaram entrando acho que só por ter lugar para sentar e de repente, não mais que de repente, eles começaram a compartilhar suas experiências com extraterrestres. Eles não se conheciam, tinham entrado ali cada um por acaso e, creio que pegando a discussão pelo meio, acharam talvez que éramos um grupo de apoio para raptados por OVNI’s.

A experiência poderia ter me deixado traumatizada em relação a Sagan, mas concordemos que não é culpa do autor atrair gente esquisita (que ainda confessa ter comido cogumelos duvidosos antes das visões partilhadas). E de toda forma, além do fato de Contato ser um romance muito interessante, Carl Sagan é uma figura de renome na ciência - e não apenas nos círculos de iniciados, mas entre os leigos também, pelo seu trabalho de divulgação científica. E olha só, ele também foi famoso pela sua defesa do ceticismo e do uso do método científico! O oposto dos colegas que caíram na nossa reunião direto de seus objetos voadores não identificados!

Sarcasmo à parte, fato é que, a despeito da minha primeira experiência com o autor ter tido na periferia esse encontro desagradável (não pela crença em extraterrestres, mas pela falta de educação mesmo), O Mundo Assombrado pelos Demônios entrou na minha lista de ‘futuras próximas aquisições e leituras’. Era um livro de não-ficção, reunindo vários ensaios sobre ciência, pseudociência, a necessidade do ceticismo e as falácias no discurso de muitas seitas, mestres new age e (há!) pessoas raptadas por ET’s. Demorei um pouco para providenciar o livro e, no final, acabei por ganhá-lo de presente de uma amiga no começo desse ano. Pouco mais de dois anos após aquele fatídico encontro, redescobri Carl Sagan. E me apaixonei.

O Mundo Assombrado pelos Demônios é um daqueles títulos que deveria estar na cabeceira de… todo mundo. Que deveria ser ensinado nas escolas, lido e relido com o passar dos anos. Sagan tem uma prosa simples, mas elegante e muito bem humorada; ele fala de ciência sem precisar recorrer a uma enxurrada de termos técnicos, e com uma admiração, um fascínio que é contagiante. Ele destrincha grandes logros, encoraja o leitor a pensar de forma crítica, discorre sobre os riscos do uso amoral da ciência, fala de política, História, educação, comunidade… uma miríade de assuntos, e sempre de forma brilhante.

“Tenho um pressentimento sobre a América do Norte dos tempos dos meus filhos ou de meus netos - quando os Estados Unidos serão uma economia de serviços e informações; quando quase todas as principais indústrias manufatureiras terão fugido para outros países; quando tremendos poderes tecnológicos estarão nas mãos de uns poucos, e nenhum representante do interesse público poderá sequer compreender de que se trata; quando as pessoas terão perdido a capacidade de estabelecer seus próprios compromissos ou questionar compreensivelmente os das autoridades; quando, agarrando os cristais e consultando nervosamente os horóscopos, com as nossas faculdades críticas em decadência, incapazes de distinguir entre os que nos dá prazer e o que é verdade, voltaremos a escorregar, quase sem notar, para a superstição e a escuridão.”

Embora tenha sido originalmente publicado em 1995 - mais de duas décadas atrás -, muito do que Sagan escreve continua extremamente atual. Suas observações sobre irresponsabilidade da mídia, ignorância política (por parte dos eleitores e dos políticos por eles eleitos), falta de planejamento a longo prazo, intolerância, guerra, notícias falsas, tudo parece ter sido talhado como resposta ao noticiário do dia. Fôssemos menos céticos do que Sagan nos ensina a ser, poderíamos dizer que ele andou prevendo o futuro.

Mais que isso, ele nos incita a questionar, a julgar por nós mesmos. Quem lucra quando a superstição e a credulidade superam o bom senso? Quais as consequências de aceitar todo tipo de informação sem contestar? Nossa necessidade de crer - seja em deuses, em cristais da Atlântida, em fantasmas e homenzinhos verdes, bruxas e demônios -, de dar sentido às coisas, de procurar culpados para nossos sofrimentos e perdas nos deixa vulneráveis à manipulação? Somos capazes de abrir mão de nossas liberdades em nome de pretensos confortos, de dar ouvidos a loucos e calhordas de toda a espécie porque eles respondem a essa fragilidade?

“É desanimador descobrir a corrupção e a incompetência governamentais, por exemplo, mas será melhor não saber a respeito? A que interesses a ignorância serve?”

Para além de seus acertos em enxergar as consequências que vivemos hoje de muitas causas ocorridas em seu tempo ou bem antes dele, Sagan impressionou-me pela paixão. Como ele muito bem coloca em seu livro, temos o ‘cientista louco’ como estereótipo de sua profissão, uma expectativa de algo frio e calculista e perfeitamente disposto a explodir o mundo para provar suas teorias (eu podia estar falando de Pink e Cérebro, mas a referência é a Edward Teller, o pai da bomba de hidrogênio). Mas Sagan é tudo, menos frio, e é fácil se deixar levar pelo entusiasmo dele… ou por seus momentos de ironia.


Por isso mesmo, embora não estejamos tratando de temas leves nos ensaios apresentados em O Mundo Assombrado pelos Demônios, a leitura é fluida, rápida e, sim, divertida. A edição de bolso tem pouco mais de quinhentas páginas, mas li o livro todo em três dias - terminava um capítulo, pensava ‘vou ler só mais um pouquinho’ e, quando me dava conta, já tinha devorado mais umas cem páginas. Quando terminei, fiquei desapontada por não haver mais páginas...

Mas tudo bem. Sagan tem uma bibliografia bem grande… e agora ele é mais um da minha lista de ‘autores que quero ler tudo o que escreveram’.

“Manter a mente aberta é uma virtude - mas, como o engenheiro espacial James Oberg disse certa vez, ela não pode ficar tão aberta a ponto de o cérebro cair para fora.”

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Mundo Assombrado pelos Demônios
Autor: Carl Sagan
Tradução: Rosaura Eichemberg
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2006

Onde Comprar

Amazon


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog