12 de abril de 2018

Desafio Corujesco 2018 - Uma História Oriental || Do que Eu Falo quando Eu Falo de Corrida

"Sou o tipo de sujeito que gosta de estar sozinho consigo mesmo. Para dizer de um modo mais agradável, sou o tipo de pessoa que não acha um sofrimento ficar só. Não acho que passar uma ou duas horas correndo sozinho todos os dias, sem falar com ninguém, além de passar quatro ou cinco horas sozinho em minha mesa, seja difícil nem chato. Tenho essa tendência desde que era mais novo, quando, caso tivesse escolha, preferia ficar sozinho lendo um livro ou concentrado ouvindo música a estar na companhia de alguém. Sempre fui capaz de pensar em coisas para fazer quando estou sozinho."
Como o Desafio Corujesco é um projeto em parceria com a Tatá, lá do Randomicidades, isso significa que nos dividimos em escolher metas para os meses da brincadeira. O de março - uma história oriental - foi uma das minhas indicações e eu tinha grandes planos para ele. Queria ler algum daqueles grandes clássicos russos, que de tão grandes e complexos bem poderiam servir como artilharia pesada em combate. E aí eu passaria metade da resenha comentando como a Rússia é um país tão peculiar que não se pode exatamente classificá-lo como ocidente ou oriente: eles são, simplesmente, russos.

Esse primeiro trimestre do ano, porém, foi algo bizarro em meio a um mundaréu de obrigações e outras ocupações; quando voltei a ter tempo de respirar, estava muito em cima para me aventurar por um calhamaço imperial, para me perder nas infelicidades familiares únicas e nas prisões siberianas. Larguei os russos para alguma outra ocasião e decidi descobrir um autor do extremo oriente. Acabei me decidindo por Haruki Murakami, o cara que tem sido todo ano é um dos mais cotados a ganhar o nobel da literatura e todo ano perde...

Fui atrás de ler sinopses e comentários e muita gente falava que Murakami era meio... deprimente. Não no sentido de que suas histórias fossem ruins, mas que eram exaustivas e melancólicas. Cheguei a folhear Caçando Carneiros, porque era um conto que mexia com mitologia e isso sempre me interessa. Mas os primeiros capítulos não conseguiram me prender, talvez justamente pelo cansaço mental causado pela correria desse trimestre. No final das contas, peguei Do que Eu Falo quando Eu Falo de Corrida por ser um livro de não-ficção, algo que me é sempre mais palatável quando estou em meio a uma ressaca literária.

Para um título que escolhi por exclusão e para o qual eu não tinha quaisquer expectativas, essa foi uma rápida e agradável leitura.

Escrito entre o verão de 2005 e o outono de 2006, Murakami apresenta aqui um misto de memórias e ensaios nos quais compartilha as razões que o levaram a correr e também a se tornar um romancista, trata de relacionamentos e solidão, de envelhecer e se desafiar, sobre disciplina e vontade. Ele narra a história por trás de maratonas das quais participou, seu treinamento, a dor e a satisfação de se pôr à prova.

Impressionante são capítulos como o que conta da corrida solitária que fez entre Atenas e Maratona, quase como uma peregrinação pessoal; ou sua participação numa ultramaratona de 100km - mais de dez horas correndo até os limites de seu corpo - ou ainda a decisão de se arriscar no triatlo, nadando, pedalando e correndo. Tudo isso alternado com sua história pessoal, dos tempos de estudante ao bar de jazz do qual foi dono até a carreira de escritor. Murakami fala sobre o ritmo das passadas e o ritmo das palavras e o faz com a simplicidade de uma conversa de alpendre. A linguagem é simples, mas elegante; mais importante, ele consegue prender sua atenção ainda que você não tenha qualquer interesse em corridas.

Curioso é que pelo meio da leitura, fiquei me perguntando se realmente valia a leitura de Do que eu falo quando eu falo de corrida para o desafio de ‘uma história oriental’, porque para além do fato de Murakami se revelar um cidadão do mundo nessas páginas, muitos dos capítulos se passam em países ocidentais e são experiências bastante globalizadas. Quando terminei e refleti sobre o assunto, cheguei à conclusão de que estava me deixando levar por estereótipos. Acho que inconscientemente, esperava gueixas e samurais , ou talvez gatos falantes e princesas da lua… Mas há algo de muito mais sutil que marca a experiência de ler um autor que está fora da nossa experiência ocidental: a disciplina, a meticulosidade, o esforço, o perfeccionismo e até o sacrifício. Não digo que tais características sejam exclusividade dos japoneses, mas há uma filosofia diferente na forma como Murakami pensa suas vitórias e conquistas.

É, enfim, um livrinho cativante, que serve tanto a esportistas quanto a sedentários (e talvez, a estes últimos, dê alguma inspiração para começar a se exercitar). Gostei muito do Murakami e pretendo, quando estiver com a cabeça mais fresca, ler seus romances mais conhecidos e melancólicos. Espero fazê-lo antes que o brindem (finalmente) com seu nobel.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Do que eu falo quando eu falo de corrida
Autor: Haruki Murakami
Tradução: Cassio de Arantes Leite
Editora: Alfaguara
Ano: 2010

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva


A Coruja


____________________________________

 

2 comentários:

  1. Esse tema saiu um tanto atrasado, mas em compensação li diversos livros!
    https://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2018/05/the-golem-and-jinni.html
    https://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2018/05/nine-parts-of-desire-hidden-world-of.html
    E mais um que a resenha já já vai sair!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também li O Golem e o Gênio esse ano! Vou lá ver o que você achou dele...

      Excluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog