22 de dezembro de 2020

Lágrimas de Carne


Para a quase mulher que é também coruja, o trabalho de Mãe é uma forma de arte. Mãe sempre sabe escolher as palavras certas para os momentos certos; conforta viúvas e órfãos, e sua voz sempre soa gentil quando ela canta suas orações. Suindara fica sempre tão enfeitiçada, tentando absorver cada porção daquele trabalho divino, que acaba deixando passar os olhares de lado, as críticas sussurradas, as crianças que são afastadas pelo ombro para que fiquem um passinho mais distantes da mulher de preto. Mãe costuma dizer que ser uma carpideira é percorrer uma trilha de dualidade. Fala que as pessoas só querem uma carpideira por perto quando alguém morre, quando precisam que ela segure suas mãos e garanta que tudo ficará bem e voltará a parecer normal um dia. Pelo resto do tempo, ninguém deseja uma velha encarquilhada ao lado para lembrar sobre a sina inevitável de todo ser vivente.

Numa cidadezinha do sertão nordestino, em meio a uma corrida pelo ouro, Mãe e seus dois filhos - parte humanos, parte pássaros - trabalham com a morte e a condução de almas para o outro mundo - e também com pactos, segredos e traições. Dizer muito mais do que isso sobre o enredo de Lágrimas de Carne seria entregar a jazida: destilado até suas partes fundamentais, o impacto das escolhas e consequências - do passado e do presente - da tríade de protagonistas é muito potente.

Essa concisão, contudo, esconde um calhamaço nas entrelinhas de cada interlúdio apresentado. Minha impressão é que cada um dos apartes que revelam algo sobre os personagens e os eventos que estão a ocorrer em Serrita renderiam outro e mais outro livro - a história do pacto que transformou uma menina abandonada na carpideira; as intrigas do coronel da cidade atrás da jazida, toda a infância de Suindara e Carcará... Ainda assim, a autora não precisa mostrar para que sejamos capazes de inferir os conflitos subterrâneos à corrente principal do enredo e isso é extraordinário.

O livro me trouxe muitas referências familiares. Serrita, afinal, não fica muito longe de Mirandiba, a cidade da minha família. Lágrimas de Carne me trouxe o clima, o sotaque, os cheiros, algo do sentimento de ouvir histórias na calçada da casa de vó. E ela faz isso sem invocar estereótipos, com delicadeza, fazendo o regional soar universal. Algo de que já tinha sentido um gostinho quando li a antologia de contos que ela primeiro lançou.

De outro giro, assim que Mãe aparece em cena exercendo suas funções de carpideira, pensei na vovó Cera do Tempo, e em como as bruxas do Pratchett funcionam. Elas estão sempre prontas para fazer o que é necessário fazer, mesmo que isso as faça desagradáveis para a comunidade em que vivem. O trabalho da Mãe é essencial, algo que a consume e que pesa sobre sua alma, algo que a faz temida, malvista - mas a quem todo mundo recorre, essencial para o funcionamento da coletividade.

Entre o mundano e o extraordinário, a grande sacada de Lágrimas de Carne é a forma como a autora realmente nos faz acreditar em seus personagens. É uma fantasia da melhor qualidade, mas tão imbuída da realidade do sertão que Mãe, Suindara e Carcará se fazem de carne e osso.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Lágrimas de Carne
Autor: Fernanda Castro
Editora: Dame Blanche
Ano: 2020

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A Coruja


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Um comentário:

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