18 de agosto de 2017

Sobre cultivar vínculos e criar raízes

Nosso dragão não come as meninas que captura, não importam as histórias que contem fora do vale. Nós às vezes as ouvimos por conta dos viajantes que passam por aqui. Eles falam como se estivéssemos sacrificando um ser humano e ele fosse um dragão de verdade. Claro que não é assim: ele pode ser um mago imortal, mas continua sendo um homem, e nossos pais se uniriam e o matariam se a cada dez anos ele quisesse usar uma de nós como comida. Ele nos protege contra a Floresta, e somos gratos; mas não tanto assim.
Agnieszka vive numa pequena vila, às margens de uma Floresta sombria cuja sombra é sinônimo de corrupção e morte: ela devora passantes incautos, leva homens à loucura e despeja monstros sobre a população, de quimeras a estranhas árvores caminhantes. A única proteção do vale é um mago a quem chamam Dragão - e que por sua proteção cobra o tributo de uma jovem das vilas do vale a cada dez anos. O próximo tributo se aproxima e Agnieszka crê que sua melhor amiga, Kasia, será a escolhida. Exceto que, de forma completamente inesperada, é a própria Agnieszka que é levada para a torre do Dragão.

Desde que Enraizados foi publicado em inglês, eu estava querendo lê-lo e já predisposta a gostar dele. Naomi Novik me conquistou com a série Temeraire - gosto do estilo dela, da forma como ela consegue nos transportar para as realidades que cria em suas histórias. Com ela, eu acreditei que dragões poderiam ser usados como parte da força aérea inglesa em meio às guerras napoleônicas e agora fui transportada para um reino em que a vontade de uma floresta é o grande vilão da história.

Logo que comecei a ler, a história me fez lembrar de outro favorito meu: Sarkan, o Dragão, é muito parecido com Howl, o mago de O Castelo Animado - os dois são magos sob ordens de reis e em tempos de guerra, ambos são arrogantes e vaidosos e considerados um perigo para as moças dos arredores. Contudo, Sarkan tem uma reação bem mais beligerante às idas e vindas de Agnieszka em sua torre. Mas, de forma geral, ambos são livros que brincam com arquétipos de contos de fadas. Enraizados tem príncipes, dragões, rainhas enfeitiçadas, uma camponesa graciosa e bela… mas sua protagonista é uma garota desastrada, que não está muito preocupada em manter sapatos nos pés ou o vestido limpo e que se identifica muito mais com a bruxa Baba Yaga (ou Jaga, no folclore polonês, que é a forma usada no livro de Novik, ela mesma descendente de poloneses) que com princesas encantadas.

Não estou familiarizada com o folclore eslavo (algo que volta e meia lamento e motivo pelo qual encomendei essa semana uma antologia de contos folclóricos russos…), mas há certos motivos universais de contos de fadas que são perceptíveis em Enraizados - e, como num conto de fadas, a preocupação é mais com a moral da história que o desenvolvimento dos personagens ou mesmo em explicar sistemas de magia. E é isso que se deve ter em mente ao ler o romance de Novik: não estamos falando de um épico de fantasia, mas de um conto de fadas que até pode ter de tudo um pouco - magia, é claro, romance e aventuras, intrigas da corte e disputas de poder -, mas cujo eixo central é uma história de amizade e sobre comunidade, sobre reconhecermos nossas raízes, da importância de nossos vínculos afetivos e sobre respeitar a natureza que nos cerca.

Isso está logo no título. É a forma como a floresta espalha suas raízes, em paralelo às raízes que lançam os habitantes das vilas no vale. É o contraste entre a magia intuitiva de Agnieszka, que faz plena parte de sua comunidade, que de certa forma comunga com a terra e por isso é capaz de entrar na floresta; e os outros magos, de vidas longas e sempre jovens, que vão perdendo suas ligações (quando as têm), tornando-se ensimesmados, indiferentes àquilo que não lhes diz respeito direto. É o motivo pelo qual o Dragão precisa de uma menina do vale a cada dez anos - e quando isso se torna claro, muitas das pontas soltas do livro são explicadas.

O romance deixa um pouco a desejar e me faz pensar naqueles livros de banca da Harlequin… embora eu tenha me divertido um pouco com os embates verbais entre Sarkan e Agnieszka e em como ela pensa com afeto nos resmungos dele, como um casal que está junto a décadas e conhece todos os maneirismos do outro. Muito mais importante que a relação entre eles, contudo, é a amizade de Agnieszka e Kasia, que é a razão para a protagonista se lançar à ação e que resiste mesmo quando confrontada com as mais profundas verdades escondidas entre pensamentos do dia a dia.

Sobre a magia, não parece haver grandes limites à capacidade dos magos de Enraizados, exceto por sua própria exaustão. Dá-se a entender que há regras, mas não há tempo hábil para entender como elas funcionam porque Agnieszka não tem muito tempo para sentar e estudar: tudo está acontecendo rápido demais e ela tem de se guiar pela intuição. De certa forma, as diferenças que ela enxerga entre sua própria magia e a dos magos da corte - incluindo o Dragão - me fizeram pensar no contraste entre os Magos e as Bruxas do Discworld. É interessante ver que ela descreve a magia do Dragão como um mecanismo de relógio, com todas as peças em seu lugar, ao passo que a sua própria é como um caminhar sem rumo certo, tateando em busca de algo que sequer ela mesma sabe o que é até encontrar.

De toda forma, o poder de Agnieszka me parece fazer parte de um sistema maior: ela não é toda-poderosa, mas por ter se criado às margens da floresta, bebendo das águas que passam por ela, comendo seus frutos - ainda que apenas aqueles considerados não corruptos - ela tem acesso à magia da terra. E, quando se deixa levar pelo emocional, pelo seu desejo de salvar Kasia, ela acaba se tornando um condutor da vontade da própria floresta, uma vontade que vai para além da simples vilania, que tem uma explicação importante e que faz parte da mensagem do livro.

Comecei Enraizados com toda a expectativa de gostar da história. Eu queria ser conquistada pelo mundo apresentado por Novik - e ele me conquistou. Normalmente não sou uma fã de narrativas em primeira pessoa (e penso que a autora escolheu fazê-lo para não ter que escrever ‘Agnieszka’ a cada tantos parágrafos), mas, aqui, esse recurso funcionou bem. Agnieszka é uma personagem cativante, genuína. Num conto de fadas em que a protagonista é a bruxa, esse é um dos grandes trunfos do livro.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Enraizados
Autor: Naomi Novik
Tradução:
Editora: Rocco
Ano: 2017

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva


A Coruja


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2 comentários:

  1. Vou procurar e colocar na minha wishlist pro kindle!

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    1. Coloque mesmo! Acho que vais gostar. A saga Temeraire ainda é minha favorita (preciso terminar os dois últimos livros...), Mas gostei desse aqui tb.

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