24 de agosto de 2017

Conversas Sobre o Tempo: o dia em que entreouvi agentes secretos falando em código

Se você não tem sobre o que conversar, assista o canal do tempo!
Gostaria de começar hoje falando sobre o título dessa minha coluna biográfica e nonsense, onde falo sobre qualquer coisa quando bem entendo, sem roteiro definido, exceto pela parte em que falamos sobre o tempo - que continua esquizofrênico nesse meu pedaço de chão ao sul do equador (tive de parar brevemente de escrever para pesquisar uma imagem de mapa e confirmar minha posição geográfica em relação àquela linha imaginária), começando ensolarado e de repente virando para pancadas de chuva e de repente de novo dando insolação. Isso porque encontrei uma reportagem da BBC falando que, de fato, britânicos são obcecados em falar do tempo.

Na verdade, o artigo é sobre um estudo (!) sobre a tendência dos britânicos, até mesmo comparados a outras nacionalidades (!!), de falar sobre o clima. Assim, eu tinha notado essa peculiar maneira de começar uma conversa nos meus romances de época, porque, aparentemente, não há uma forma melhor de você se aproximar do seu interesse amoroso. Fale sobre o clima, fale sobre as rosas, fale sobre a família real, e depois você estará declarando seu amor eterno. Eu acho que uma boa forma de iniciar uma conversa, depois de ‘olá’ é perguntar o que a pessoa está lendo, mas nem todo mundo tem o hábito de estar lendo alguma coisa e muitas vezes fico no vácuo… ao passo que todo mundo tem opiniões sobre o clima. Especificamente, todo mundo gosta de falar sobre como “na minha época” (que pode ser um, dez, ou cinquenta anos atrás) era mais frio/menos quente/mais chuvoso/mais seco e outras variantes.

Uma boa forma de afirmar que o mundo está indo para o beleléu (adoro essa palavra) e que tudo no passado era melhor (discutível, embora houvesse algumas vantagens).

De toda forma, entre as conclusões do estudo - que aparentemente foi feito com pesquisadores espreitando para ouvir por acaso a conversa de passantes (!!!), o que faz sentido, já que você não vai convidar pessoas para vir para sua sala de estudo e esperar que elas comecem a falar espontaneamente sobre o tempo com um monte de gente observando-as e anotando tudo o que elas falam - estão o fato de que o clima britânico é extremamente imprevisível; que as pessoas especulam e anseiam por um clima mais severo; que se sentem nostálgicas pelo clima de antigamente (eu poderia ter dito isso sempre precisar ficar ouvindo a conversa dos outros por aí, mas tudo bem…); e que falar sobre o tempo é um ‘código’ que construímos “para nos ajudar a superar inibições sociais e realmente conversar um com o outro”. Falar sobre o clima é tanto uma maneira de quebrar o gelo quanto de preencher silêncios desconfortáveis.

Toda essa história combina muito bem com a conversa que entreouvi outro dia e que, embora não tivesse nada a ver com clima, parecia ser falada quase completamente em código, pontilhada com teorias da conspiração e tão imprevisível quanto o clima britânico… ou recifense, a depender do dia. Ou não combina em nada, mas encadeamento lógico não é algo que eu considere necessário nessa coluna, se eu quiser sair pulando de tema em tema, é exatamente isso que vou fazer.

Enfim… gosto de passear na livraria, olhar títulos novos, sair fazendo pilhas de volumes e levá-los comigo para sentar numa poltrona e ficar lendo por um tempo. Gosto especialmente de ler quadrinhos dessa forma. Em todo caso, num desses passeios, a única poltrona livre era ao lado de um senhor conversando ao telefone, alternando frases, às vezes palavras pelo meio, entre inglês e português - imagino que justamente para pessoas curiosas não entenderem a conversa.

Considerando as mudanças de língua, a voz alta e o fato de que o senhor estava sentado bem do meu lado, não conseguia, por mais que quisesse, concentrar-me de todo no que estava lendo. Quando me sentei, ele estava falando do jogo ‘baleia azul’, sobre ser uma figura de autoridade na vida de alguém, e até por questão de gênero, não ser ouvido pela pessoa que aparentemente estava de alguma forma envolvida no jogo. Ele então trocou de idioma e começou a falar sobre como os ‘secret agents’ estavam monitorando todas as conversas e ‘sweetheart’ deveria tomar cuidado sobre o que falava na frente da televisão, mesmo que estivesse desligada, “trust me, it is true”. A conversa então pulou após algum gancho que não sei explicar para relacionamentos abusivos e manipulação e meio que todo mundo que estava ao redor lançava olhares curiosos para o homem ali sentado. Isso tudo intermediado por conselhos sobre hipoteca e aluguel de casas novas.

Teoria da conspiração por teoria da conspiração, a determinada altura, eu já estava criando a minha. Esse senhor faz parte de um grupo de homens idosos que todas as vezes que vou à livraria, estão lá sentados, conversando, folheando revistas e livros - especialmente livros da parte de religião, dos títulos espíritas aos volumes sobre bruxaria, cabala e nefilins. Eu imagino que eles não tenham muito mais o que fazer, provavelmente são aposentados, talvez não tenham família por aqui ou elas não estão disponíveis para ficar com eles durante o dia. Fato é que eles frequentam a livraria com frequência (eu imagino que diariamente, já que nunca cheguei para eles não estarem por lá), e me fazem pensar no grupo de idosos que se reúne no calçadão todo fim de tarde para jogar dominó… exceto que seus interesses parecem mais místicos e eles gostam de discutir religião, filosofia, aliens e política e dar conselhos para pessoas incautas que se sentam ao lado deles.

Eu já recebi conselhos deles, por acaso, exatamente do mesmo senhor que estava ao telefone dessa vez. Isso deve fazer pelo menos uns dois anos, porque lembro que ele estava falando alguma coisa sobre Dilma, isso antes de impeachment. Não lembro do conselho, mas sei que já os tinha notado por lá antes, além da surpresa de me ver abordada por um completo estranho para receber conselhos. Pensando agora, acho que eles já estavam por lá quando eu ainda estava na faculdade.

Ok, mas, voltando a teoria da conspiração… considerando que a conversa não parecia ter muito nexo, as referências a agentes secretos e o fato de o diálogo pular entre dois idiomas sem explicação me fez cogitar que talvez não houvesse ninguém do outro lado da linha e ele estivesse na verdade passando algum tipo de código para o outro senhor idoso que estava sentado à frente dele e que o cumprimentara em alemão. Espiões aposentados fazendo encontros furtivos em livrarias para trocar informações confidenciais!

A determinada altura, contudo, o senhor pediu para falar com o neto e foi possível ouvir a voz extremamente estridente que estava vindo do telefone mesmo do lugar onde eu estava. Então, talvez aquela conversa meio sem sentido fosse a forma como ele se comunicava normalmente com a filha. Quem sou eu para julgar se ele gosta de ter suas conversas em voz alta no meio de uma livraria cheia e alternando idiomas?

Ok, não, eu julgo. Nada contra a conversa, mas esse tipo de roupa suja não precisa ser lavada em público. Arranje um lugar privado para fazer sua ligação e não submeta as pessoas ao seu redor a uma intimidade que elas não pediram. Isso devia ser uma regra básica de etiqueta telefônica. A não ser, claro, que você esteja passando códigos secretos para outro agente secreto… O que, na verdade, também não é uma boa, porque, como deu para perceber, eu e todo mundo naquele cantinho na livraria marcamos seu rosto, decoramos seu código e estamos aqui divulgando-os para o mundo.

Esse é o segundo “Conversas sobre o Tempo” que escrevo esse mês. Em minha defesa, divagar de forma desconexa é uma excelente maneira de lidar com bloqueios, exaustão, instintos homicidas causados pela falta de chocolate, remédios para alergia que te deixam eternamente com sono e a poeira de uma reforma que já se estende por três semanas.


A Coruja


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