4 de junho de 2018

O Paraíso Perdido: Uma Adaptação em Quadrinhos


Meu primeiro contato com John Milton foi adolescente, através das epígrafes que abriam cada capítulo de A Luneta Âmbar. É engraçado; não acho que a ideia de religião - especialmente o cristianismo com que eu tinha crescido (família religiosa, escolas de freiras até quase meu último ano...) - tivesse entrado na minha cabeça como uma ferramenta disponível, possível de fazer ficção. Talvez por isso, a obra de Pullman tenha me fascinado tanto - pela qualidade da escrita, pela forma de escrever fantasia (e ele foi um dos meus primeiros autores de ficção fantástica madura, para além do faz-de-conta infantil) e pela contínua quebra de dogmas.

Tendo ficado fascinada por Pullman, quis ler aquilo que o inspirara e foi assim que caí de paraquedas em O Paraíso Perdido. Não foi minha primeira experiência com poemas épicos, mas quando me propus a ler A Odisséia, tinha a vantagem de conhecer adaptações da história para me orientar se perdesse o fio da meada entre as consultas ao dicionário. Seja como for, não estava acostumada à estrutura em versos, nem à quantidade de significado presente nas entrelinhas da história. Tinha uns dezesseis para dezessete anos à época, e ler Milton foi um baita desafio. Mas um desafio que valeu à pena.

A história segue Lúcifer logo após a Queda, agora nomeado Satã. Acompanhamos seu despertar no Inferno, a lembrança dos dias de Paraíso, os momentos que levaram à Rebelião; o conclave de anjos caídos tentando decidir o que fazer a seguir, a decisão de penetrar no Éden e condenar também a nova criação ao Pecado, à Morte e ao Inferno. A adaptação em quadrinhos se concentra em quatro momentos-chave da obra original - o despertar dos caídos e sua decisão de vingança; alguns vislumbres do passado antes da Queda; a pacífica existência de Adão e Eva no Éden; e os fatos em torno da expulsão dos dois do Jardim.

E sobre todos esses momentos, domina a figura de Satã.

Milton não esquece o fato de que, antes da Queda, Lúcifer foi o mais nobre, o mais poderoso dos arcanjos. Talvez por isso mesmo, nas primeiras partes de seu romance, o personagem seja mais próximo de um dos heróis trágicos shakespearianos que do Grande Inimigo bíblico. Seus monólogos são intensos, passionais, sedutores. Se Milton estava interessado em demonstrar os poderes de tentação do demônio, acertou em cheio na caracterização de seu Satã. Ainda que tenhamos plena consciência de sua maldade, é difícil não simpatizar com ele, especialmente quando ele te faz entender que sua revolta nasceu da ânsia de liberdade: “mais vale reinar no Inferno do que servir no Céu”.


A questão é que ele é o narrador e é do ponto de vista dele que enxergamos a história. Satã é o típico narrador não-confiável, que distorce os fatos para sair-se como vítima, a parte injustiçada, justificando assim seus atos. Há muito da natureza humana nessa ambiguidade, nas palavras melífluas e ações maliciosas; nos momentos de relutância, ao admirar a obra divina (a admiração da Serpente pela graça de Eva, por exemplo) e de brutal arrogância.

O Deus que aparece em suas páginas, por sua vez, é uma divindade tirânica, que controla mais pelo medo que pelo amor e que exige obediência cega; ele sabe desde o começo que Adão e Eva hão de cair e se encoleriza com a ingratidão do homem. A despeito disso, ele não interfere de forma direta, não tenta de fato impedir os acontecimentos que se desdobram após a tentação de Eva, afinal, não haveria sentido na criação sem a possibilidade de livre-arbítrio. E se há pecado e queda, há também a possibilidade de redenção, o que mais glória traz ao seu poder e rende uma nota de esperança à história.

O texto de Milton é fascinante, de uma força poética incrível. O Paraíso Perdido é considerado, merecidamente, o maior poema épico inglês, refletindo um pouco das convicções políticas do autor, que defendeu a breve República Inglesa bem como Oliver Cromwell. Quando da Restauração, suas críticas à monarquia o fizeram perseguido; ele chegou a receber um perdão, mas perdeu fortuna e ficou cego. Foi exatamente nesse período que ele criou sua obra-prima, ditando os versos de O Paraíso Perdido a vários diferentes assessores. As inclinações republicanas de Milton poderiam bem explicar muito do que acontece no poema, nas escolhas que ele fez para sua narrativa. A busca de Lúcifer pela autodeterminação, o questionamento da autoridade absoluta divina, a possibilidade do homem escolher seu destino - e arcar com as consequências de suas escolhas - podem facilmente ser atadas à guerra civil inglesa.

Quando soube pela primeira vez da adaptação do poema para os quadrinhos, fiquei me perguntando como, exatamente isso seria possível. Esse tipo de transposição de mídia não é fácil, e a escala de acontecimentos de O Paraíso Perdido dificulta ainda mais o processo. E, de fato, a versão desenhada por Pablo Auladell faz vários cortes na versão original, concentrando-se em episódios-chave. Ao meu ver, contudo, essa foi uma escolha acertada; trata-se de uma tradução mais condensada, mas que mantém o impacto das palavras de Milton e soma a elas o peso das ilustrações e das cores de Auladell.

Não sou uma especialista em arte; não tenho como julgar influências ou referências do artista. Havia quadros que me pareciam extremamente familiares, nos quais pensei reconhecer imagens renascentistas; e outros em que parecia estar às voltas com xilogravuras típicas do movimento armorial (especialmente nos rostos dos animais, incluindo a própria Serpente). Mas o que me impressionou foram os olhares dos personagens, como na cena em que Miguel, o arcanjo líder das hostes celestiais, parece olhar diretamente para nós, com uma tristeza infinita - uma imagem que, para mim, transcendeu o papel.


É uma arte bem diferente da de Gustave Doré, cujas gravuras para o poema são famosas. Mas é um estilo que se encaixa muito bem no clima onírico, muitas vezes de pesadelo - como toda a passagem pelo inferno - em que a história evolui. Interessante também que Auladell não usa uma paleta de cores muito grande, e isso ajuda a construir a identidade da história: o inferno em tons escuros, terrosos; o céu em diferentes azuis, dos domos de palácios, às armaduras dos anjos; o Éden em matizes de verde. Foi, em suma, um traço que me agradou e que promete tantas possibilidades de interpretação quanto as linhas do poema original.

Para terminar por hoje, uma observação. Não acho que seja necessário ter lido os versos originais de O Paraíso Perdido para entender essa adaptação. Primeiro, porque Auladell soube escolher muito bem os cantos a destacar, as cenas que precisava amarrar para criar um enredo coeso. Mesmo nas páginas em que não há palavras, cada imagem que ele ilustra carrega nuances e significados - esse livro merece sua atenção, e um pouco de reflexão a cada folha; uma leitura mais pausada para admirar todos os detalhes que o artista pôs em cena. Segundo, porque se o camarada que estiver lendo esse livro tiver nascido no Ocidente, ainda que ele se declare ateu, vai ter crescido numa sociedade cercada pela imagística judaico-cristã. Milton basicamente transformou Lúcifer num Hamlet mais maligno, mas as bases da história são as mesmas da tradição bíblica. Não há nenhuma dificuldade de leitura de um sem o outro, mas, se serve de conselho… se tiver gostado dos quadrinhos, tente ler o poema. Há um bom motivo para essa ser considerada uma das grandes obras do cânone literário ocidental.


Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Paraíso Perdido
Autor: John Milton
Ilustrações: Pablo Auladell
Tradução: Érico Assis
Editora: Darkside
Ano: 2018

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